12 nov
S. Martinho I, Papa e Mártir


🇻🇦São Martinho I governou a Igreja como Papa de 649 a 655, um período marcado por intensos debates cristológicos. Sua principal contribuição foi a condenação da heresia do monotelismo, que afirmava que Cristo possuía apenas uma vontade, a divina, negando Sua plena humanidade. Contra a vontade do imperador bizantino Constante II, que apoiava a heresia por razões políticas, o Papa Martinho convocou o Concílio de Latrão em 649, onde a doutrina foi solenemente condenada. Em retaliação, o imperador ordenou sua prisão. O Papa foi levado para Constantinopla, onde sofreu humilhações públicas, torturas e foi condenado ao exílio. Enviado para o Quersoneso (atual Crimeia), ele morreu em 655 devido aos maus-tratos e ao abandono. Sua firmeza na defesa da fé ortodoxa, selada com o próprio sofrimento e morte, fez com que fosse venerado como mártir, o último Papa a receber este título.

📖 Epístola (I Pe 5, 1-4. 10-11)

Caríssimos: Aos anciãos entre vós exorto eu, ancião como eles e testemunha dos padecimentos de Cristo, como também companheiro na glória que se há de manifestar. Apascentai o rebanho de Deus que vos está confiado; tende cuidado dele, não constrangidos, mas de bom grado, segundo Deus, não por amor de lucro vil, mas por dedicação, não como que exercendo domínio sobre os Eleitos, mas fazendo-vos de coração modelos do rebanho. Quando então aparecer o Supremo Pastor recebereis a coroa imarcessível da glória. O Deus de toda a graça, que no Cristo Jesus nos chamou para a sua eterna glória, depois de haverdes padecido um pouco, vos aperfeiçoará, fortificará e consolidará. A Ele a glória e o poder por todos os séculos. Amém.

✝️ Evangelho (Mt 16, 13-19)

Naquele tempo, veio Jesus para os lados de Cesareia de Filipe, e interrogou os seus discípulos: Na opinião dos homens quem é o Filho do homem? E eles responderam: Uns dizem que é João Batista, outros que é Elias, outros que Jeremias ou algum dos Profetas. Disse-lhes Jesus: E vós, quem julgais que eu sou? Tomando a palavra, Simão Pedro disse: Vós sois o Cristo, Filho de Deus vivo. E respondendo, Jesus disse: Bem-aventurado és tu, Simão Bar Jonas, porque não foi a carne e o sangue que te revelaram isso, mas meu Pai que está nos céus. E por isso te digo que és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. Dar-te-ei as chaves do Reino dos céus. E tudo que ligares sobre a terra, será ligado nos céus; e tudo o que desligares sobre a terra, será desligado nos céus.

🤔 Reflexões

🙏O Evangelho de hoje nos transporta ao momento fundacional do Papado, onde a confissão de fé de Pedro se torna a rocha sobre a qual Cristo edifica a Sua Igreja. A pergunta de Jesus, “E vós, quem julgais que eu sou?”, não é meramente retórica; ela exige uma resposta que transcende a opinião humana e penetra no mistério divino. A resposta de Pedro, “Vós sois o Cristo, Filho de Deus vivo”, é uma revelação direta do Pai. Por isso, a autoridade que ele recebe — as chaves do Reino e o poder de ligar e desligar — não é um poder humano, mas uma participação na autoridade divina para guardar e ensinar a verdade revelada. O Catecismo da Igreja Católica ensina que este poder das chaves “designa a autoridade para governar a casa de Deus, que é a Igreja” (CIC 553). São Martinho I exerceu essa autoridade até as últimas consequências, compreendendo que o seu dever como sucessor de Pedro era proteger o depósito da fé contra as heresias que ameaçavam desfigurar o verdadeiro rosto de Cristo.

🛡️A Epístola de São Pedro, primeiro Papa, ressoa com força na vida de São Martinho I. O Apóstolo exorta os pastores a apascentar o rebanho “não por constrangimento, mas de bom grado... fazendo-vos modelos do rebanho”. São Martinho não defendeu a fé por obrigação ou por busca de glória terrena, mas por um amor ardente a Cristo e à verdade sobre Sua pessoa. Ele se tornou um modelo não apenas pelo seu ensinamento, mas principalmente pelo seu sofrimento, espelhando o “Supremo Pastor” que deu a vida por suas ovelhas. Santo Agostinho, refletindo sobre o múnus pastoral, dizia: “Para vós sou bispo, convosco sou cristão. Aquilo é nome de cargo, isto de graça; aquilo de perigo, isto de salvação” (Sermão 340, 1). São Martinho viveu intensamente este drama: o cargo de Papa o colocou em perigo mortal, mas a graça de ser cristão o levou à salvação através do martírio, trocando a coroa papal terrena pela “coroa imarcescível da glória”.

🔗A liturgia de hoje tece uma profunda conexão entre a confissão da fé, a autoridade petrina e a inevitabilidade do sofrimento. A rocha sobre a qual a Igreja está edificada não é a força humana de Pedro, mas a verdade divina que ele professou. Defender esta verdade é a missão primordial da Igreja e de seu Vigário na terra. Contudo, como a Epístola adverte, o caminho para a glória passa pelo padecimento: “depois de haverdes padecido um pouco, [Deus] vos aperfeiçoará, fortificará e consolidará”. O martírio de São Martinho I é a prova viva de que as “portas do inferno” — sejam elas as heresias, as perseguições ou os poderes políticos — não prevalecem contra a Igreja. Sua força não reside no poder temporal, mas na fidelidade à confissão de Cesareia de Filipe. O Papa Martinho, ao defender a existência das duas vontades em Cristo, defendia a integridade da Encarnação: um Cristo com vontade apenas divina não seria verdadeiramente humano e, portanto, não poderia nos salvar. Seu sofrimento consolidou a fé da Igreja e demonstrou que o poder das chaves é, em última análise, o poder de servir à verdade, mesmo que o preço seja a própria vida.