Nascida em Ávila, na Espanha, no ano de 1515, Santa Teresa de Jesus ergueu-se como uma coluna de fogo em um século obscurecido pela confusão. Em meio às convulsões da Contra-Reforma, ela foi a alma escolhida para restaurar a Ordem Carmelita, reconduzindo-a à estrita observância, à pobreza evangélica e à oração contemplativa. Seus escritos inigualáveis, como O Castelo Interior e O Caminho da Perfeição, não apenas guiaram as almas consagradas de seu tempo, mas a coroaram como verdadeira mestra da vida espiritual. Sua jornada terrena foi um longo martírio de amor e um testemunho fulgurante de união íntima com Deus, travada em meio a fundações, perseguições e intensos trabalhos. Movida por um insaciável anseio celestial, seu coração vivia suspenso entre a terra e a eternidade, guiado pelo heróico lema: Ou sofrer, ou morrer. Entregou sua alma puríssima ao Esposo Divino em 1582, e seu corpo incorrupto repousa no Convento da Anunciação, em Alba de Tormes.
Como é fácil à alma adormecer na ilusão enquanto o Esposo se aproxima! Santa Teresa de Jesus ergueu-se em um momento histórico onde o frio da heresia protestante e a letargia espiritual ameaçavam congelar o fervor dos claustros e a fé das nações. A sua grande vocação (missão esta que todo espírito eleito é chamado a abraçar) decorreu justamente do combate frontal contra o terrível perigo da mornidão rasteira, reconduzindo as almas às alturas da cruz e do sacrifício invisível. Olhai em redor de vós, irmãos! Não contemplamos hoje a mesma tragédia, ainda mais aterradora? Vemos erguer-se diante de nossos olhos uma estrutura de pura aparência, uma falsificação astuta que preserva os velhos símbolos cristãos, o vocabulário piedoso e os sorrisos comunitários, mas cuja seiva interior secou por completo. Sob o belo verniz do afeto e do encontro fraterno, a ordem divina é brutalmente invertida. Em vez de arrancar a criatura do lodo e elevar seus olhos em adoração tremenda para o Criador, essa espiritualidade mundana transforma os templos em meros palcos para a exaltação do próprio homem. A liturgia sublime, antes reverenciada como o sacrifício incruento que une a terra ao céu, vê-se degradada a um ruidoso evento de confraternização. A robusta e exigente sã doutrina é dissolvida em opiniões passageiras, para não ofender o mundo. E a verdadeira fé? Esta passa a ser tratada como um mero sentimento confortável de pertencimento a um grupo social. Os instrumentos puramente humanos sentam-se à cabeceira da mesa, enquanto o fim sobrenatural, a salvação da alma a custo de sangue, é silenciosamente banido para fora do templo. Mas o Apóstolo São Paulo nos desperta hoje com voz de trovão: Eu vos desposei com um Esposo único, para vos consagrar ao Cristo como virgem pura. Uma virgem pura não flerta com as facilidades do século! Como as virgens prudentes do Evangelho, a mística de Ávila guardou ciosamente o azeite da graça divina em seu vaso de barro. Ela compreendia com lucidez que, rejeitada a ascese e o esforço sobrenatural pelas distrações modernas, a lâmpada da fé vacila nas mentes e apaga-se na escuridão eterna. Não sejamos nós como as virgens insensatas, que carregam os recipientes vazios da hipocrisia, dormindo o sono da morte espiritual nos bancos das igrejas. Que fareis quando o véu da mortalidade se rasgar e o clamor soar à meia-noite? Quando o Juiz Eterno aparecer em Sua glória, tereis vossas lâmpadas acesas com o fogo abrasador da verdadeira doutrina e da renúncia, ou batereis inutilmente nas portas do Paraíso apenas para ouvir a terrível sentença do vosso abandono: Em verdade vos digo, não vos conheço? Despertai, pois, levantai os olhos da terra e buscai as coisas do alto!