A Vigília de Todos os Santos, celebrada às portas da grande solenidade da Igreja Triunfante, é um dia de profunda preparação espiritual, penitência e recolhimento. Na antiguidade cristã, as vigílias eram noites inteiras de oração passadas nas catacumbas ou diante dos túmulos daqueles que haviam derramado seu sangue por Cristo. A Igreja, qual mãe sábia, instituiu este dia de jejum para que a alma, pesada pelas vaidades da terra, pudesse se purificar antes de levantar os olhos para a inumerável multidão dos eleitos. Meditamos hoje sobre a nossa vocação última: fomos criados não para o pó, mas para a comunhão eterna com Deus. O costume de honrar todos os santos de modo conjunto ganhou especial vigor quando o Papa Bonifácio IV dedicou o antigo Panteão pagão de Roma, transformando-o na Basílica de Santa Maria aos Mártires. Esta consagração é o reflexo da vitória da cruz: onde antes reinavam os ídolos e as falsas divindades do mundo, agora triunfa o sangue dos santos, lembrando à Igreja Militante que a coroa imperecível no céu só é alcançada por meio da perseverança na terra.
Erguei os olhos da alma, meus irmãos, e contemplai o mistério tremendo que nos revela o Apóstolo São João! Vede o Cordeiro de pé, triunfante, mas como que imolado, cercado por miríades de anjos e anciãos que seguram taças de ouro transbordantes de incenso. Que incenso é este, senão as lágrimas, as orações e os gemidos dos santos que combateram o bom combate? Esta é a verdadeira adoração, a liturgia celeste, o culto puro que a criatura presta ao seu Criador. Mas vede a que abismo de engano a astúcia do mundo nos tenta arrastar em nossos dias! Levanta-se hoje, perante nossos olhos, o fantasma de uma falsa religião, um espetáculo de aparência que conserva as antigas roupagens e o vocabulário sagrado, mas esvaziou-se de toda a substância divina. É uma encenação perfeitamente ensaiada: os cantos ainda ressoam, as assembleias ainda se reúnem com sorrisos, e os discursos transbordam de palavras adocicadas sobre fraternidade e amor humano. Contudo, se examinardes as engrenagens ocultas desta tragédia, vereis que o sentido foi invertido. Enquanto a verdadeira Esposa de Cristo é uma flecha de fogo apontada para a eternidade, arrancando o homem do pecado para depositá-lo aos pés de Deus, esta triste paródia expulsou o Criador para colocar o próprio homem no trono do altar. A sagrada liturgia, manancial de temor e tremor, é rebaixada a uma mera confraternização terrena. A sã e austera doutrina é varrida para debaixo do tapete, substituída pelo frágil consenso das opiniões modernas. E a fé? A fé degenera no mero conforto psicológico de pertencer a um clube social. Tudo isso ocorre porque a mentalidade carnal de nosso tempo odeia a cruz; foge do sacrifício como da morte e deixa-se escravizar pelos confortos mundanos. Mas escutai o brado do Evangelho! O Cristo desce do monte e, na planície, esmaga as ilusões desta religião de comodidades. Ele proclama bem-aventurados os pobres, os que têm fome, os que choram e os que são odiados e expulsos! Como nos ensina o grande Agostinho, doutor da graça, aquele que deseja erguer o cume de um edifício até as nuvens do céu, deve primeiro cavar o abismo profundo da humildade. Não há glória sem calvário; não há união com o Cordeiro glorioso sem a imolação das nossas paixões. A Vigília de Todos os Santos é o toque da trombeta que nos desperta do torpor: abandonemos as fábulas do mundo, abracemos as dores presentes e unamos os nossos sacrifícios às taças de ouro no céu, para que um dia sejamos contados entre aqueles que cantam, por toda a eternidade, o cântico novo da redenção.