Santa Margarida Maria Alacoque (morta em 1690) foi uma humilde religiosa da Ordem da Visitação, escolhida de modo singular por Cristo para ser a grande mensageira da devoção ao Seu Sagrado Coração. Através de uma série de aparições no silêncio do claustro, Nosso Senhor revelou-lhe a profundidade insondável do Seu amor pela humanidade e a imensa dor que sentia pela ingratidão, frieza e desprezo com que era tratado, especialmente no Santíssimo Sacramento do Altar. O Redentor confiou-lhe as inefáveis promessas para os devotos do Seu Coração e pediu a instituição de uma festa litúrgica em Sua honra, a ser celebrada na sexta-feira após a oitava de Corpus Christi. Enfrentando amarga incredulidade e dolorosa oposição dentro de sua própria comunidade, a santa perseverou heroicamente, sustentada pela direção espiritual do grande jesuíta São Cláudio de la Colombière, que prontamente reconheceu o selo divino de suas visões. Sua vida inteira tornou-se um sacrifício vivo e um eco perene daquele triste lamento celestial: "Eis o Coração que tanto amou os homens, que não poupou nada até esgotar-se e consumir-se para lhes testemunhar seu amor". Hoje as suas relíquias repousam para veneração dos fiéis na Capela das Aparições, em Paray-le-Monial, na França.
Contemplai, irmãos, o abismo intransponível que separa a vaidade terrena da sabedoria do Altíssimo! O Evangelho de hoje nos revela que o Senhor da glória oculta os seus segredos sublimes aos soberbos, àqueles que confiam na própria argúcia, e os manifesta aos pequeninos. Como adverte Santo Agostinho, as almas que o mundo aclama como sábias estão de tal modo embriagadas com sua própria grandeza que não há nelas espaço algum para Deus; para serem preenchidas pela graça, precisariam primeiro esvaziar-se de sua presunção terrena. Foi exatamente essa pequenez evangélica, esse esvaziamento total, que o Criador encontrou na cela austera de Paray-le-Monial. Em Santa Margarida Maria, vaso de pureza e obediência, Nosso Senhor derramou o oceano da Sua misericórdia. O Apóstolo Paulo, na Epístola de hoje, fala-nos das insondáveis riquezas de Cristo e das gigantescas dimensões deste Mistério: a largura, o comprimento, a altura e a profundidade. O Doutor Angélico, São Tomás de Aquino, traduz este mistério ensinando que o amor do Verbo Encarnado possui uma largura que alcança a todos sem exclusão, um comprimento que persevera fiel até o fim, uma altura que nos arranca da lama para os bens eternos, e uma profundidade que brota dos juízos imperscrutáveis do Criador. Mas como o nosso mundo contemporâneo responde a este Coração que tudo deu no madeiro sangrento? Vemos hoje erguer-se, diante de nossos olhos, uma religião de pura fachada, um grande teatro espiritual que domina a arte do ilusionismo cênico. Conservam-se os ritos externos, o vocabulário de domingo, as belas assembleias ruidosas e os discursos adocicados sobre a solidariedade, mas, por trás da cortina, a engrenagem oculta gira em sentido letalmente oposto. Enquanto a verdadeira Igreja eleva nosso olhar ao Alto, arrancando-nos da poeira para prostrar-nos diante da Majestade Divina, esta contrafação entroniza o próprio homem no palco sagrado. O invólucro parece intacto, mas a substância sobrenatural evaporou-se por completo. A liturgia divina, outrora o culto de adoração tremenda e reverente, degenera numa efêmera celebração festiva da própria comunidade. A sólida doutrina deixada pelos Apóstolos é esmigalhada num mosaico de opiniões humanas em constante mutação, e a virtude teologal da fé acaba rebaixada ao mero conforto sentimental de pertencer a um clube mundano. A tragédia consubstancia-se nesta inversão tenebrosa: os métodos puramente corporativos e sociológicos assumem a cadeira da presidência no santuário, e o objetivo celestial, eterno e salvífico, é cordialmente convidado a retirar-se. É a aversão moderna à sã doutrina e ao espírito de imolação; uma mentalidade seduzida pelos prazeres e facilidades da terra, que detesta o silêncio lúgubre, porém vivificante, do Calvário. Pois, qual é a missão inabalável de todo santo senão ser um brado estrondoso do Céu contra os erros e perigos capitais de sua época? No século em que o rigorismo herege do jansenismo espalhava um frio cortante, pintando um Deus implacável, afastando as almas dos Sacramentos e secando toda a confiança, Santa Margarida Maria ergueu-se com uma missão formidável que decorre justamente do combate frontal contra essa asfixia. Ela foi a tocha viva escolhida para incendiar de novo a humanidade aterida, devolvendo o fogo reparador e a piedade substancial. Provou ao mundo que o "jugo suave" de que nos fala Cristo não é o aplauso fugaz do século, mas a intimidade profunda com Aquele que tem o Coração aberto pela lança. Fujamos, pois, das encenações confortáveis e das falsas prudências! Prostremo-nos diante do Altar real e verdadeiro, onde pulsa o Coração vivo do Rei dos reis, e ofereçamos a nossa reparação sincera, trocando o gelo da nossa indiferença pela fornalha inextinguível da caridade de Cristo.
Introito (Cant. 2, 3; Sl 83, 2-3) - Sub umbra illíus, quem desideráveram, sedi: et fructus ejus dulcis gútturi meo. Quam dilécta tabernácula tua, Dómine virtútum! concupíscit, et déficit ánima mea in átria Dómini.À sombra daquele que eu desejava, me assentei: e o seu fruto é doce ao meu paladar. Quão amáveis são os vossos tabernáculos, Senhor dos exércitos! Minha alma suspira e desfalece pelos átrios do Senhor.
Epístola (Ef 3, 8-9. 14-19) - Fratres: Mihi omnium sanctorum minimo data est gratia haec, in gentibus evangelizare investigabiles divitias Christi, et illuminare omnes, quae sit dispensatio sacramenti absconditi a saeculis in Deo, qui omnia creavit. Hujus rei gratia flecto genua mea ad Patrem Domini nostri Jesu Christi, ex quo omnis paternitas in caelis et in terra nominatur, ut det vobis secundum divitias gloriae suae, virtute corroborari per Spiritum ejus in interiorem hominem, Christum habitare per fidem in cordibus vestris: in caritate radicati, et fundati, ut possitis comprehendere cum omnibus sanctis, quae sit latitudo, et longitudo, et sublimitas, et profundum: scire etiam supereminentem scientiae caritatem Christi, ut impleamini in omnem plenitudinem Dei.Irmãos: A mim, o mínimo de todos os santos, foi dada esta graça de anunciar entre os gentios as riquezas incompreensíveis de Cristo, e de esclarecer a todos qual seja a dispensação do Mistério escondido desde o princípio dos séculos, em Deus, que criou todas as coisas. Por esta razão é que dobro os meus joelhos diante do Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, do qual toda a grande família, que está no céu e na terra, toma o nome, para que, segundo as riquezas de sua glória, vos conceda serdes fortalecidos em virtude, pelo seu Espírito, no homem interior. Que Cristo habite pela fé em vossos corações, arraigados e fundados na caridade, para que possais compreender com todos os santos, qual seja a largura e o comprimento, a altura e a profundidade deste Mistério de Cristo e conhecer também aquele amor de Cristo, que excede a toda a ciência, para que sejais cheios de toda a plenitude de Deus.
Evangelho (Mt 11, 25-30) - In illo tempore respondens Jesus dixit: Confiteor tibi, Pater, Domine caeli et terrae, quia abscondisti haec a sapientibus, et prudentibus, et revelasti ea parvulis. Ita Pater: quoniam sic fuit placitum ante te. Omnia mihi tradita sunt a Patre meo. Et nemo novit Filium, nisi Pater: neque Patrem quis novit, nisi Filius, et cui voluerit Filius revelare. Venite ad me omnes, qui laboratis, et onerati estis, et ego reficiam vos. Tollite jugum meum super vos, et discite a me, quia mitis sum, et humilis corde: et invenietis requiem animabus vestris. Jugum enim meum suave est, et onus meum leve.Naquele tempo, Jesus tomou a palavra e disse: Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e prudentes e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, porque assim foi do teu agrado. Todas as coisas me foram entregues por meu Pai. E ninguém conhece o Filho senão o Pai e ninguém conhece o Pai a não ser o Filho e a quem o Filho o quiser revelar. Vinde a mim, todos vós que estais fatigados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei. Tomai meu jugo sobre vós; aprendei de mim que sou manso e humilde de coração, e encontrareis repouso para vossas almas. Pois meu jugo é suave e meu fardo leve.