Introito - In medio Ecclesiae aperuit os ejus: et implevit eum Dominus Spiritu sapientiae, et intellectus: stolam gloriae induit eum. Ps. Bonum est confiteri Domino: et psallere nomini tuo, Altissime. V. Gloria Patri.No meio da Igreja, o Senhor o fez falar; encheu-o do Espírito de sabedoria e inteligência, e revestiu-o com uma túnica de glória. Sl. É bom louvar ao Senhor e cantar salmos a vosso Nome, ó Altíssimo. V. Glória ao Pai.
João de Fidanza, tocado ainda no berço pela graça da cura através de São Francisco de Assis, que ao vê-lo exclamou "Ó boa ventura!", tornou-se um dos astros mais fulgurantes do firmamento católico. Nascido na Itália em 1221, ingressou nas fileiras da Ordem Menor, onde sua inteligência agudíssima uniu-se a um amor ardente pelo Crucificado, rendendo-lhe o glorioso título de Doutor Seráfico. Mestre em Paris ao lado de Santo Tomás de Aquino, governou a família franciscana com prudência invejável durante quase duas décadas, pacificando discórdias e preservando o primitivo espírito de pobreza evangélica contra as inovações temerárias. Elevado à dignidade de Cardeal-Bispo de Albano, entregou sua alma puríssima a Deus no ano de 1274, enquanto trabalhava incansavelmente no Concílio de Lyon pela reunificação com os cismáticos. Seu corpo foi venerado e encontrou repouso na Basílica de São Boaventura, em Lyon, de onde sua memória continua a exalar o bom odor de Cristo por toda a Santa Igreja.
Contemplai, amados irmãos, o imenso mistério que a Liturgia hoje desvenda sobre o altar! "No meio da Igreja o Senhor abriu a sua boca", entoa o Introito, apontando para o resplendor teológico do Doutor Seráfico. Mas pergunto-vos: que boca é essa que se abre diante do mundo? Não é a de um mercenário sedento de aplausos, tampouco a de um lisonjeador que adultera o cálice do Evangelho para torná-lo tragável aos paladares doentes de seu século. Não! É a boca de um profeta inflamado pelo amor da Cruz! Vivemos dias sombrios, caríssimos, dias que o Apóstolo previu com aterradora clareza na Epístola desta Missa: tempos em que os corações, enfastiados do sacrifício e fascinados pelo brilho fugaz dos deleites terrenos, já não suportam a austeridade da verdade. Quantos, ostentando títulos de guias, injetam o veneno no aprisco não por combates abertos, mas por concessões sutis, por ambiguidades calculadas e ensinamentos diluídos, buscando o afago dos homens em vez do beneplácito do Deus vivo? Acaso não vedes como a comodidade secular tenta profanar o próprio santuário? Contra essa névoa letal, a Providência ergueu o nosso Santo. Em seu tempo, quando os desvios tentavam perverter a fé - transformando-a ora em rebelião anárquica, ora em racionalismo frio sem caridade -, ele empunhou a espada da sabedoria purificadora. Foi ele o sal que preservou a mística cristã da corrupção e a luz que afugentou as trevas do erro. Como ensinam os grandes Doutores, a verdadeira teologia não é mero exercício retórico, mas irradiação do amor divino. Que salvação há em uma fé que foge do madeiro ensanguentado? Que luz é essa que brilha sem queimar as escórias da nossa concupiscência? São Boaventura não separou o altar da inteligência. Para a alma católica, a sagrada Liturgia não é um teatro vazio para os sentidos, mas o fogo devorador onde a mente se ilumina e a vontade se abrasa, elevando-nos das sombras do tempo para a aurora incriada da eternidade. Não vos deixeis pisar pela arrogância deste século! Purificai vossos ouvidos, repudiai os falsos mestres das facilidades terrenas e, cingidos com a armadura da sã doutrina, caminhai resolutos sob a luz da graça para o justo Juiz, que nos aguarda com a coroa imarcescível da justiça!