† 4A-FEIRA DA 4ª SEMANA DA QUARESMA
A cura da cegueira espiritual e a purificação batismal

[LA EN]

Na tradição sagrada e litúrgica da Igreja primitiva, a Quarta-feira da quarta semana da Quaresma revestia-se de uma imensa solenidade e importância, sendo designada como o dia do grande escrutínio para os catecúmenos que se preparavam intensamente para receber o Batismo na Vigília Pascal. Esses eleitos reuniam-se em Roma junto à sepultura de São Paulo, o grande Apóstolo e Doutor dos Gentios, cuja própria vida foi marcada por uma cegueira miraculosa seguida de iluminação e conversão, tornando-o o símbolo perfeito da transição das trevas do paganismo e do pecado para a luz da fé cristã. Neste dia marcante, a Igreja submetia os candidatos a um rigoroso exame espiritual e realizava a milenar cerimônia do "Ephpheta" - o tocante rito da abertura dos ouvidos e narinas, onde o sacerdote reproduzia o gesto de Cristo para que os eleitos estivessem plenamente abertos a ouvir a Palavra de Deus e a exalar o bom odor do Evangelho. Era também neste momento central de sua jornada que lhes eram entregues formalmente os maiores tesouros da fé: a oração do Pai Nosso, a profissão de fé expressa no Credo e o início dos quatro Evangelhos, selando assim a sua preparação teológica e ascética para o banho regenerador da purificação batismal.

📖 Introito (Ez 36, 23-26; Sl 33, 2)

Dum sanctificátus fúero in vobis, congregábo vos de univérsis terris: et effúndam super vos aquam mundam, et mundabímini ab ómnibus inquinaméntis vestris: et dabo vobis spíritum novum. Benedícam Dóminum in omni témpore: semper laus ejus in ore meo. Glória Patri, et Fílio, et Spirítui Sancto. Sicut erat in princípio, et nunc, et semper, et in sǽcula sæculórum. Amen.

Quando eu for santificado em vós, congregar-vos-ei de todas as terras; e derramarei sobre vós água pura, e sereis purificados de todas as vossas imundícies; e dar-vos-ei um espírito novo. Bendirei o Senhor em todo o tempo: o seu louvor estará sempre na minha boca. Glória ao Pai, e ao Filho, e ao Espírito Santo. Como era no princípio, agora e sempre, e pelos séculos dos séculos. Amém.

📖 Leitura (Ez 36, 23-28)

Profeta Ezequiel. Assim diz o Senhor Deus: Santificarei o meu grande Nome que profanado foi entre as nações e que vós aviltastes no meio delas, a fim de que os povos saibam que sou o Senhor, quando eu tiver sido santificado em vós, diante delas. Porque vos tirarei dentre as nações, vos congregarei de todas as terras e vos levarei ao vosso país. E sobre vós derramarei uma água pura, e purificados sereis de todas as vossas iniquidades; e de toda a vossa idolatria vos limparei. Dar-vos-ei um coração puro, e um novo Espírito porei no meio de vós; tirarei o coração de pedra de vosso corpo e vos darei um coração de carne. Colocarei o meu Espírito em vosso interior, e farei que caminheis em meus preceitos, guardando e praticando os meus mandamentos. Habitareis na terra que por mim foi dada a vossos pais. Vós sereis o meu povo e eu serei o vosso Deus, disse o Senhor Onipotente.

📖 Leitura (Is 1, 16-19)

Profeta Isaías. Eis o que diz o Senhor Deus: Lavai-vos, purificai-vos, afastai de meus olhos a malícia de vossos pensamentos. Deixai de agir com perversidade e aprendei a fazer o bem. Procurai a justiça, assisti ao oprimido, protegei ao órfão, defendei a viúva. Vinde, e discuti comigo, diz o Senhor. Se forem os vossos pecados como o escarlate, ficarão brancos como a neve; se forem rubros como o carmim, tornar-se-ão brancos como a lã. Se quiserdes e me escutardes, comereis os bens da terra, disse o Senhor Todo-poderoso.

📖 Evangelho (Jo 9, 1-38)

Naquele tempo, ao passar, viu Jesus um homem, que era cego de nascença. E os discípulos perguntaram a Jesus: Mestre, quem pecou? Este homem, ou seus pais, para que nascesse cego? Respondeu Jesus: Nem este pecou, nem pecaram os seus pais, mas foi para que as obras de Deus nele se manifestassem. Importa-me executar as obras d'Aquele que me enviou, enquanto é dia, pois virá a noite, quando ninguém poderá trabalhar. Enquanto eu estiver no mundo, eu sou a Luz do mundo. Após ter dito isto, cuspiu na terra, fez lodo com a saliva, e com ele untou os olhos do cego, dizendo-lhe: Vai e lava-te na piscina de Siloé (que significava o Enviado). Ali foi ele, pois, e lavou-se e voltou com vista. Seus vizinhos e aqueles que antes o haviam visto como mendigo, diziam: Não é este mesmo que estava assentado e mendigava? Uns diziam: É ele. E outros: Não é, apenas com ele se parece. Ele porém dizia: Sou eu mesmo. Eles lhe disseram então: Como foram abertos os teus olhos? Respondeu: Esse homem que se chama Jesus, fez lodo, untou os meus olhos e disse-me: Vai à piscina de Siloé e lava-te. Fui, lavei-me e agora vejo. E perguntaram-lhe: Onde está Ele? Respondeu: Não sei. Eles levaram então aos fariseus aquele que fora cego. Ora, foi num sábado que Jesus fez lodo e lhe abriu os olhos. De novo, pois, lhe perguntaram os fariseus como recobrara a vista. Ele lhes respondeu: Pôs lodo sobre os meus olhos, lavei-me e vejo. Diziam então alguns dos fariseus: Aquele homem não é de Deus, desde que não observa o sábado. Outros porém, diziam: Como poderá um homem pecador fazer tais maravilhas? E havia dissensão entre eles. Disseram então, novamente, ao que fora cego: Tu que dizes d'Aquele que te abriu os olhos? Ele respondeu: Que é um Profeta. Só acreditaram no entanto os judeus que ele tivesse sido cego e estivesse vendo, quando chamaram os pais do que agora via. E interrogaram-nos, dizendo: Este é o vosso filho, do qual afirmais ter nascido cego? Como é que ele agora vê? Responderam-lhe os pais dele e disseram: Sabemos que é o nosso filho e que nasceu cego. Como vê agora, não o sabemos, nem conhecemos quem lhe abriu os olhos. Interrogai-o vós mesmos; tem idade; que fale por si. Disseram eles assim, porque temiam os judeus, pois estes já haviam combinado que se alguém reconhecesse Jesus como o Messias, fosse expulso da sinagoga. Por isso os pais do que fora cego haviam dito: Já tem idade. Interrogai-o vós mesmos. Eles chamaram pois, uma segunda vez, o homem que nascera cego e lhe disseram: Dá glória a Deus, pois sabemos que aquele homem é um pecador. Disse-lhes ele então: Se é pecador não sei; sei apenas que eu era cego e agora vejo. Disseram-lhe eles: Que te fez Ele? Como abriu os teus olhos? Replicou-lhes: Já vos disse e o ouvistes; por que quereis ouvi-lo de novo? Pretendeis porventura ser também seus discípulos? Amaldiçoaram-no então, dizendo-lhe: Sê seu discípulo: nós somos discípulos de Moisés. Sabemos que a Moisés, Deus falou; e daquele homem nem sabemos de onde é. Respondeu-lhes o homem e lhes disse: É isto que é singular: vós não sabeis de onde Ele é, e Ele me abriu os olhos. Ora, sabemos que Deus não atende aos pecadores; porém se alguém honra a Deus e faz a sua vontade, este será ouvido. Jamais se ouviu dizer que alguém tenha aberto os olhos a um cego de nascença, desde que o mundo existe. Se esse homem não viesse de Deus, não poderia fazer coisa semelhante. Responderam eles, dizendo: Tu nasceste cheio de pecados e queres nos ensinar? E expulsaram-no. Ouviu Jesus que o haviam lançado fora e tendo-o encontrado, disse-lhe: Crês tu no Filho de Deus? Respondeu ele, dizendo: Quem é Ele, Senhor, para que n'Ele eu creia? E disse-lhe Jesus: Tu já O viste. O que te fala, Esse é. Ele respondeu: Creio, Senhor. E prostrando-se ele O adorou.

👁️ A cura da cegueira espiritual e a purificação batismal

O Evangelho de São João apresenta o milagre da cura do cego de nascença não apenas como um formidável prodígio físico, mas como uma sublime catequese sobre a iluminação da alma humana. Santo Agostinho, em seu Sermão 136, ensina magistralmente que este homem cego simboliza toda a humanidade, que jaz na escuridão profunda do pecado original e encontra-se absolutamente incapaz de contemplar a verdade pelos seus próprios meios. A ação de Cristo de misturar a sua saliva ao pó da terra aponta diretamente para o mistério da Encarnação, em que o Verbo se fez carne para restaurar a nossa natureza decaída, enquanto o envio à piscina de Siloé prefigura de forma esplêndida as águas vivificantes do batismo. Conforme sublinha São Tomás de Aquino na Suma Teológica (Suplemento, Q. 77, Art. 1), a cegueira originária deste homem não constituiu um castigo, mas o meio misteriosamente ordenado pela providência divina para manifestar a glória de Deus, revelando que os sacramentos instituídos por Cristo operam eficazmente através de sinais sensíveis e materiais - como o lodo e a água - a fim de elevar a nossa alma do estado puramente natural à claridade sobrenatural da graça.

Esta profunda teologia da purificação interior ecoa de forma impressionante nas profecias lidas nesta sagrada liturgia, que exortam o homem a abandonar decididamente as trevas da impenitência. O profeta Ezequiel antecipa a promessa divina já entoada no introito da missa, anunciando o derramamento de uma água pura capaz de arrancar do peito o coração de pedra e perdoar as idolatrias mais secretas, ao passo que Isaías convida o povo a lavar-se e purificar-se, garantindo que os pecados, ainda que rubros como o escarlate, tornar-se-ão alvos como a neve. Santo Ambrósio adverte, contudo, que o chamado divino à purificação costuma encontrar violenta resistência na soberba humana, maravilhosamente retratada na figura sombria dos fariseus do Evangelho, os quais rejeitaram a evidência do milagre, comprovando assim que a pior das cegueiras é aquela da mente orgulhosa que recusa curvar-se à verdade. Para alcançar as promessas beatíficas das leituras proféticas, a alma necessita abraçar a humildade absoluta de deixar-se lavar pelas mãos do Salvador, reconhecendo a própria insuficiência e cultivando a fé viva que verdadeiramente justifica.

A liturgia desta grandiosa Quarta-feira escrutinal perfaz, por conseguinte, uma unidade perfeitíssima entre a promessa de restauração profetizada no Antigo Testamento e a sua coroação definitiva na obra redentora de Jesus Cristo. O ato misericordioso de congregar os exilados do mundo e aspergi-los com águas imaculadas encontra o seu cume espiritual no tanque de Siloé, onde o Filho de Deus abre os olhos da alma que até então vivia a mendigar nas sombras da ignorância. Ao aceitarmos o lodo curativo que emana da santa humanidade do Verbo encarnado e ao obedecermos à exortação profética de extirparmos a malícia das nossas ações, somos diretamente interpelados a percorrer o mesmo itinerário ascético do cego curado: suportar as contradições e o desprezo do mundo para, afinal, prostrarmo-nos em adoração solene diante daquele que é a inesgotável Luz, o único capaz de conduzir os nossos passos à clareza indescritível e eterna do seu Reino.