Nascido em Florença no ano de 1301, Santo André Corsini teve sua vocação prefigurada por um sonho materno, no qual era visto como um lobo que se transformava em cordeiro ao adentrar uma igreja carmelita, profecia que se cumpriu após uma juventude dissoluta e marcada por vícios que afligiam seus nobres pais; tocado pelas lágrimas de sua mãe e pela revelação do sonho, converteu-se aos 17 anos, ingressando na Ordem do Carmo, onde trocou a ferocidade do mundo pela mansidão de Cristo, completando seus estudos em Paris e retornando à Itália para operar prodígios de cura e profecia. Eleito Bispo de Fiesole, tentou fugir da dignidade episcopal escondendo-se em um mosteiro cartuxo, mas foi descoberto pela voz de uma criança, sinal que interpretou como vontade divina, assumindo então o cargo com extremo zelo pastoral, tornando-se conhecido como "pai dos pobres" e um exímio pacificador que, a mando do Papa Urbano V, reconciliou a nobreza e a plebe de Bolonha, exercendo seu ministério até sua morte em 1373, anunciada previamente em uma visão na noite de Natal, sendo hoje venerado como padroeiro de Florença e modelo de conversão e serviço apostólico.
📜 Introito (Eclo 45, 30; Sl 131, 1)
Státuit ei Dóminus testaméntum pacis, et príncipem fecit eum: ut sit illi sacerdótii dígnitas in aetérnum. Ps. Meménto, Dómine, David: et omnis mansuetúdinis ejus.
O Senhor fez com ele uma aliança de paz, constituindo-o príncipe, a fim de que tivesse para sempre a dignidade sacerdotal. Sl. Lembrai-Vos, Senhor, de Davi e de toda a sua mansidão.
✉️ Epístola (Eclo 44, 16-27; 45, 3-20)
Ecce sacérdos magnus, qui in diébus suis plácuit Deo, et invéntus est justus: et in témpore iracúndiae factus est reconciliátio. Non est invéntus símilis illi, qui conservávit legem Excélsi. Ideo jurejurándo fecit illum Dóminus créscere in plebem suam. Benedictiónem ómnium géntium dedit illi, et testaméntum suum confirmávit super caput ejus. Agnóvit eum in benedictiónibus suis: conservávit illi misericórdiam suam: et invénit grátiam coram óculis Dómini. Magnificávit eum in conspéctu regum: et dedit illi corónam glóriae. Státuit illi testaméntum aetérnum, et dedit illi sacerdótium magnum: et beatificávit illum in glória. Fungi sacerdótio, et habére laudem in nómine ipsíus, et offérre illi incénsum dignum in odorem suavitátis.
Eis o grande sacerdote que nos dias de sua vida agradou a Deus e foi considerado justo; no tempo da ira, tornou-se a reconciliação dos homens. Ninguém o igualou na observância das leis do Altíssimo. Por isso o Senhor jurou que o havia de glorificar em sua descendência. Abençoou nele todas as nações e confirmou sua aliança sobre a sua cabeça. Distinguiu-o com as suas bênçãos; conservou-lhe a sua misericórdia e ele achou graça diante do Senhor. Enalteceu-o diante dos reis e deu-lhe uma coroa de glória. Fez com ele uma aliança eterna; deu-lhe o sumo sacerdócio, e encheu-o de felicidade na glória, para exercer o sacerdócio, cantar louvores a seu Nome e oferecer-Lhe dignamente incenso de agradável odor.
📖 Evangelho (Mt 25, 14-23)
In illo témpore: Dixit Jesus discípulis suis parábolam hanc: Homo péregre proficíscens vocávit servos suos, et trádidit illis bona sua. Et uni dedit quinque talénta, álii autem duo, álii vero unum, unicuíque secúndum própriam virtútem, et proféctus est statim. Ábiit autem, qui quinque talénta accéperat, et operátus est in eis, et lucrátus est ália quinque. Simíliter et, qui duo accéperat, lucrátus est ália duo. Qui autem unum accéperat, ábiens fodit in terram, et abscóndit pecúniam dómini sui. Post multum vero témporis venit dóminus servórum illórum, et pósuit ratiónem cum eis. Et accédens qui quinque talénta accéperat, óbtulit ália quinque talénta, dicens: Dómine, quinque talénta tradidísti mihi, ecce, ália quinque superlucrátus sum. Ait illi dóminus ejus: Euge, serve bone et fidélis, quia super pauca fuísti fidélis, super multa te constítuam: intra in gáudium dómini tui. Accéssit autem et qui duo talénta accéperat, et ait: Dómine, duo talénta tradidísti mihi, ecce, ália duo lucrátus sum. Ait illi dóminus ejus: Euge, serve bone et fidélis, quia super pauca fuísti fidélis, super multa te constítuam: intra in gáudium dómini tui.
Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos esta parábola: Um homem, indo viajar para longe, chamou os seus servos e entregou-lhes os seus bens. A um deu cinco talentos, a outro dois, e ao terceiro um, a cada qual segundo a sua capacidade. E partiu logo depois. Aquele que havia recebido os cinco talentos, foi-se e negociou com eles, e lucrou outros cinco. Da mesma sorte, o que recebera os dois talentos ganhou também outros dois. Mas o que havia recebido um só, foi cavar a terra e escondeu o dinheiro de seu senhor. Passado muito tempo, voltou o senhor desses servos, e chamou-os a contas. Aproximando-se o que tinha recebido cinco talentos, apresentou-lhe outros cinco, dizendo-lhe: Senhor, vós me entregastes cinco talentos; eis outros cinco mais que lucrei. Disse-lhe o seu senhor: Muito bem, servo bom e fiel, porque foste fiel no pouco, sobre muito te porei; entra na alegria de teu senhor. Apresentou-se também o que recebera os dois talentos e disse: Senhor, vós me entregastes dois talentos; eis aqui outros dois mais que eu ganhei. Disse-lhe o seu senhor: Muito bem, servo bom e fiel, porque foste fiel no pouco, sobre muito te porei; entra na alegria de teu Senhor.
💡 A Negociação dos Talentos e a Metamorfose da Graça
A liturgia de hoje nos apresenta, através da figura de Santo André Corsini e da parábola dos talentos, a dinâmica essencial da vida cristã: a transformação da natureza pela graça e a responsabilidade ativa da caridade. O "lobo" que se torna "cordeiro" na vida de Santo André não é a aniquilação do temperamento, mas a sua retificação e elevação sobrenatural; a energia antes dissipada no vício é convertida, pelo comércio da graça, em zelo apostólico, cumprindo o que diz o Evangelho sobre aquele que "negociou" com os talentos. Os talentos não são apenas dons naturais, mas, como ensina a tradição, representam a graça e a Palavra de Deus confiadas ao fiel. O servo mau é condenado não por fazer o mal, mas por uma omissão estéril, movido pelo medo e não pelo amor, enterrando o dom divino na "terra" da mundanidade ou da preguiça espiritual. Santo André, ao contrário, encarna o "Servo Bom e Fiel" e o "Sumo Sacerdote" da Epístola que se torna "reconciliação" no tempo da ira. Ele administrou o tesouro da paz social e eclesial, pacificando cidades em guerra, compreendendo que o bispo, como administrador dos mistérios de Deus, não pode reter para si a santidade, mas deve fazê-la frutificar no corpo da Igreja. A glória prometida - "entra na alegria do teu Senhor" - é a recompensa não apenas da conservação da fé, mas da sua frutificação operosa na caridade, pois "o amor não pode ser ocioso; se existe, opera grandes coisas; se se recusa a agir, não é amor" (São Gregório Magno, Homilia sobre os Evangelhos).