A inauguração de uma estátua de onze metros dedicada ao diabo, em propriedade particular de São Gonçalo do Amarante, no Ceará, não é um episódio isolado nem mera extravagância. É o retrato vivo do estado a que chegou a civilização depois que a verdadeira religião foi institucionalmente abandonada. A chamada "mãe rainha das trevas" - personagem de gênero indefinido que reúne centenas de milhares de seguidores - declara abertamente que a imagem representa a trindade satânica (Belzebu, Lúcifer e Satanás), que os demônios são bons, que ajudam, e que despendeu vultosa quantia do próprio bolso para erguer o ídolo. A prefeitura concede alvará e licença ambiental. A sociedade reage com assustadora naturalidade. Eis o fruto perfeitamente maduro da doutrina da liberdade religiosa promulgada pelas inovações do Vaticano II.
Essa liberdade, vendida ao mundo como uma grande conquista da era moderna, transformou o Estado civil em uma entidade cinicamente indiferente à revelação divina. Uma vez que a autoridade temporal se declara laica e o culto a Deus deixa de ser reconhecido como um dever social - um repúdio flagrante à Realeza de Cristo -, qualquer culto, mesmo a adoração explícita ao demônio, encontra amparo legal sob o pretexto burocrático de não prejudicar o meio ambiente. O resultado lógico é a normalização do satanismo e de cultos afro-brasileiros, os quais a autêntica teologia moral identifica com inteira precisão como formas modernas de paganismo e invocação demoníaca. Não se trata de folclore inocente. Trata-se de seitas que invocam entidades malignas, realizam sacrifícios e obtêm efeitos reais e preternaturais - malefícios, destruição de lares e vantagens materiais, o que ocorre precisamente porque a barreira protetora da graça e da jurisdição eclesiástica verdadeira foi desmantelada na sociedade.
A neutralidade do estado e o vazio dos novos ritos
A mecânica espiritual é antiga e inegável. No paganismo clássico, os homens ofereciam sacrifícios aos demônios, concedendo-lhes assim jurisdição para agir no mundo. Cristo, ao fundar a Sua Igreja, deu aos Apóstolos e aos seus legítimos sucessores o poder absoluto de expulsar essas potestades e instaurar o Reino de Deus. A Igreja primitiva e medieval exerceu esse poder de modo formidável: exorcismos solenes, Inquisição rigorosa contra a feitiçaria, condenação sistemática da magia. Os demônios estavam contidos. Quando, porém, a estrutura eclesiástica visível cessa de exercer esse poder - quando o Santo Sacrifício é substituído por uma ceia de matriz protestante, quando os sacramentais sofrem alterações radicais que lhes retiram a força impetratória, e quando o dogma da exclusividade da salvação é silenciado em prol de um ecumenismo estéril, os demônios naturalmente retornam para reivindicar o território perdido. O segredo de La Salette já alertava para a soltura dos demônios do inferno em 1864, data que coincide de forma cirúrgica com a expansão mundial do kardecismo e a publicação das bases do comunismo ateu. O ateísmo não se sustenta no coração humano; o homem inexoravelmente anseia pelo sobrenatural. Sem a religião autêntica, ele mergulha no sobrenatural perverso.
Intelectualidade corrompida e a falsa oposição protestante
Os dados estatísticos apenas confirmam a gravidade da apostasia. As pesquisas demonstram que os frequentadores de cultos de origem africana e do espiritismo possuem, em proporção, um elevado nível de instrução acadêmica, superados apenas pelos próprios espíritas kardecistas. Não estamos diante da ignorância do homem rústico; é uma intelectualidade racionalista que, após romper definitivamente com a precisão da teologia escolástica, entrega-se de braços abertos ao irracionalismo mágico. Desde que Descartes e o pensamento moderno separaram a sã filosofia da Revelação, restou ao homem contemporâneo uma alternativa sombria: ou o ateísmo desidratado, ou a mística emocional que rapidamente se torna demoníaca. A Fé pré-conciliar unia de forma sublime a filosofia racional à teologia revelada, produzindo a civilização cristã. O seu repúdio institucional gera o caos que agora ergue esfinges colossais do inferno.
O protestantismo, que alguns incautos veem como remédio, é parte intrínseca do problema. A sua vertente clássica (luterano-calvinista) reduziu a religião a um mero moralismo kantiano, desprovido de verdadeiro sacrifício, de sacerdócio válido e de um arsenal espiritual objetivo. Por outro lado, a reação pentecostal e o seu arremedo no meio conciliar - o chamado movimento carismático - tentam resgatar a experiência espiritual, mas o fazem sem a pureza da doutrina, sem a Missa de sempre e sem as fórmulas rigorosas do Ritual Romano. Cria-se assim uma simbiose trágica: quanto mais entidades e demônios circulam livremente, mais proliferam os supostos exorcistas teatrais. As almas, contudo, continuam cativas. Nem pentecostais nem os agitadores carismáticos possuem a eficácia do exorcismo católico verdadeiro, pois lhes falta a oblação pura, o rito não adulterado e, sobretudo, a autoridade jurisdicional e o caráter impresso por Ordens Sagradas indiscutivelmente válidas para comandar os espíritos imundos. Sem hierarquia intacta, não há império real sobre o inferno.
Baphomet e a urgência da restauração integral
A estátua no Ceará, ostentando os seus onze metros - número de profunda predileção de cabalistas e maçons, denotando transgressão, não é um simples ídolo quimbandeiro. Trata-se da representação clássica de Baphomet, a mesma entidade reverenciada nas lojas maçônicas e nos ritos cabalísticos. É a expressão esotérica da suposta plenitude gnóstica, onde o masculino e o feminino se fundem monstruosamente, e onde o bem e o mal coexistem sem qualquer contradição. Fica evidente, portanto, a sua ligação natural e umbilical com a moderna ideologia de gênero e com o transformismo. O inimigo de Deus sempre imita a Santíssima Trindade e propõe a sua própria paródia macabra. Quem aceita a negação do princípio de não-contradição na ordem natural já assinou, na prática, os termos do pacto espiritual subjacente.
A solução não será encontrada em doses cavalares de liberdade religiosa, em liturgias sentimentais centradas na assembleia, nem nas mesas redondas de um estéril diálogo inter-religioso. A única saída reside na restauração integral do Catolicismo pré-conciliar: a Missa de sempre, que renova de forma incruenta e objetiva o Sacrifício do Calvário e destrói o poder do demônio; os sacramentais não mutilados pelas comissões litúrgicas modernas (a água benta com o exorcismo real do sal, o crucifixo); os exorcismos inalterados do Ritual Romano; e a proclamação intransigente do dogma de que fora da Igreja não há salvação. O demônio é um inimigo real, absoluto e ontológico, não uma mera energia ou expressão cultural. Somente a verdadeira religião detém o poder que Cristo confiou aos Apóstolos. Quando a estrutura que deveria brandir esse poder capitula ao espírito do mundo, a sociedade inevitavelmente regride a um estado pré-cristão, subjugada por legiões que já não encontram qualquer resistência institucionalizada.
A esfinge erguida no Ceará deve ser lida como um alerta final incontestável. Não é motivo para pânico paralisante, mas para clareza teológica absoluta e militância espiritual inabalável. Resta rogar à Santíssima Virgem, terror dos demônios, e a São Miguel Arcanjo, que apressem a restauração dos direitos de Cristo sobre as sociedades civis. Somente no dia em que o erro deixar de receber do Estado as mesmas prerrogativas que a verdade, o mundo voltará a ser um lugar de ordem autêntica e de culto unicamente ao verdadeiro Deus.
Baseado em homilia do Frei Thiago.