[LA EN] A Terça-feira Santa, inserida na profunda austeridade da Semana Maior, é um dia marcado pela iminência do sacrifício redentor e pelo endurecimento das traições que cercam Nosso Senhor. Historicamente, a liturgia romana não dedica este dia a um santo específico, mas concentra toda a sua atenção no mistério da Paixão que se aproxima, preparando os fiéis para o Tríduo Sagrado. Desde os primórdios da Igreja, este dia foi reservado para a leitura da Paixão segundo São Marcos, oferecendo uma perspectiva particular do sofrimento de Cristo, caracterizada pela brevidade e impacto visceral do relato evangélico. A tradição litúrgica estabelece como estacional a Basílica de Santa Prisca, em Roma, uma das mais antigas igrejas titulares da cidade, erguida sobre a casa onde, segundo a tradição, o apóstolo Pedro batizou Prisca (ou Priscila) e onde ela e seu marido Áquila acolheram a nascente comunidade cristã. Dirigir-se espiritualmente a este local venerável evoca a fidelidade da Igreja primitiva em meio às perseguições, contrastando vivamente com a conspiração e o abandono que Nosso Senhor sofreu nas horas que antecederam a sua crucificação, convidando-nos a uma união mais íntima e corajosa com o Divino Mestre.
🎵 Introito (Gl 6, 14; Sl 66, 2)
Nos autem gloriári opórtet in cruce Dómini nostri Jesu Christi: in quo est salus, vita, et resurréctio nostra: per quem salváti, et liberáti sumus. Deus misereátur nostri, et benedícat nobis: illúminet vultum suum super nos, et misereátur nostri.
Quanto a nós, devemos gloriar-nos na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo: n'Ele está a nossa salvação, vida e ressurreição; por Ele fomos salvos e livres. Deus tenha piedade de nós e nos abençoe: faça resplandecer a sua face sobre nós e compadeça-se de nós.
📜 Leitura (Jr 11, 18-20)
Leitura do Profeta Jeremias. Naqueles dias, disse Jeremias: Ó Senhor, Vós me fizestes conhecer e eu o compreendi; e então Vós me revelastes os seus planos. Eu era como manso cordeiro que é conduzido ao matadouro; e não sabia que projetos haviam formado sobre mim, dizendo: Ponhamos madeira em seu pão e o eliminemos da terra dos vivos, para que não mais se lembrem do seu nome. Vós, porém, ó Deus dos exércitos, julgais com sabedoria e perscrutais os rins e os corações; fazei-me ver a vossa vingança sobre eles, porque a Vós confiei a minha causa, ó Senhor, Deus meu.
📖 Evangelho (Mc 14, 32-72; 15, 1-46)
Naquele tempo: Jesus e seus discípulos foram para um horto, cujo nome era Getsémani. E Jesus disse a seus discípulos: Assentai-vos aqui, enquanto faço oração. E tomou consigo a Pedro, Tiago e João; e começou a ter medo e a afligir-se. E disse-lhes: Triste até à morte está minha alma; ficai aqui e vigiai. Tendo dado alguns passos, caiu em terra. E orava para que, se possível, fosse afastada de Si aquela hora. E disse: Abba, Pai, tudo Te é possível; aparta de mim este cálice; não se faça porém como eu quero, e sim como Tu queres. E veio a seus discípulos, achando-os a dormir. E disse a Pedro: Simão, dormes? Não pudeste velar uma hora comigo? Vigiai e orai, para que não entreis em tentação. O espírito realmente está pronto, mas a carne é fraca. E afastando-se novamente, orou, repetindo as mesmas palavras. Voltando, encontrou-os ainda a dormir (porque os seus olhos estavam pesados de sono) e eles não sabiam o que Lhe responder. E Ele voltou pela terceira vez e lhes disse: Dormi agora, e repousai. Basta; é chegada a hora. Eis que o Filho do homem vai ser entregue às mãos dos pecadores. Levantai-vos, vamos; o que me vai trair próximo já está. E falava Ele ainda, quando chegou Judas Iscariotes, um dos doze, e com ele uma grande multidão com espadas e paus, mandada pelos príncipes dos sacerdotes, escribas e anciãos. Dera-lhes o que O traía, um sinal dizendo: Aquele a quem eu beijar, Esse é; segurai-O e levai-O com cuidado. Tendo chegado; aproximou-se logo d'Ele, e disse-Lhe: Salve, Mestre. E beijou-O. Então eles puseram a mão em Jesus e O agarraram. Um dos que estavam presentes, tirando a sua espada, feriu o servo do sumo sacerdote e lhe cortou a orelha. E Jesus, tomando a palavra, lhes disse: Viestes como se fora contra um ladrão, armados com espadas e paus para me prender? Todos os dias estava eu no meio de vós, ensinando no templo e não me prendestes. Mas devem ser cumpridas as Escrituras. Então os seus discípulos O abandonaram, fugindo todos. Um jovem, que O seguia coberto com um lençol, foi por eles agarrado. Ele porém, abandonou o lençol, e fugiu, nu, de suas mãos. E conduziram Jesus ao sumo sacerdote; e ali estavam reunidos todos os sacerdotes, escribas e anciãos. Pedro, no entanto, O seguiu de longe, até dentro do pátio do sumo sacerdote; e sentou-se com os servos, junto ao fogo, para se aquecer. Os príncipes dos sacerdotes e todo o conselho, entretanto, procuravam um testemunho contra Jesus, para O condenar à morte, mas não o encontravam. Porque muitos apresentavam falsos testemunhos contra Ele, mas não estavam de acordo. Alguns, afinal, levantando-se, apresentaram um falso testemunho contra Ele, dizendo: Nós O ouvimos dizer: Eu destruirei este templo, feito pela mão do homem e em três dias eu construirei um outro, não feito por mão de homem. Seus depoimentos, porém, não concordavam. Levantou-se então o sumo sacerdote no meio da assembléia e interrogou a Jesus, dizendo: Não respondes coisa alguma ao que estes depõem contra Ti? Mas Jesus se calava e nada respondeu. Novamente o sumo sacerdote O interrogou, e Lhe disse: Tu és o Cristo, o Filho de Deus, o Bendito? Jesus lhe respondeu: Eu o sou. E vereis o Filho do homem, assentado à direita do poder de Deus, e vindo sobre as nuvens do céu. Então o sumo sacerdote, rasgando as suas vestes, disse: Que testemunhas precisaremos ainda? Ouvistes a blasfêmia; que vos parece? E todos condenaram a Jesus, como sendo réu de morte. Então começaram a cuspir sobre Ele, velando-Lhe o rosto, dando-Lhe punhadas, e dizendo-Lhe: Adivinha. E os servos Lhe davam bofetadas. Enquanto Pedro estava no pátio, em baixo, apareceu uma das criadas do sumo sacerdote, e vendo Pedro a aquecer-se, o encarou e disse: Também tu estavas com Jesus Nazareno. Ele porém negou, dizendo: Não sei, nem compreendo o que dizes. E indo para fora do pátio, o galo cantou. Vendo-o novamente, a criada pôs-se a dizer aos presentes: Este é um deles. E Pedro de novo negou. Pouco depois, alguns dos que ali estavam diziam a Pedro: Certamente és um deles, porque és também galileu. Ele porém começou a praguejar e a jurar: Não conheço este homem de quem falais. E neste momento o galo cantou segunda vez. Lembrou-se então Pedro da palavra que Jesus lhe dissera: Antes que o galo cante segunda vez, três vezes tu me negarás. E começou a chorar. Logo ao amanhecer, fazendo uma reunião, deliberaram os príncipes dos sacerdotes, os anciãos, os escribas e todo o conselho; e amarrando a Jesus, O levaram e O entregaram a Pilatos. E interrogou-O Pilatos: Tu és o Rei dos judeus? E ele, em resposta, lhe disse: Sim, eu o sou. Os príncipes dos sacerdotes O acusavam de muitas coisas. Pilatos O interrogou novamente, dizendo: Não respondes coisa alguma? Ouve de quanto Te acusam! Jesus porém, nada mais respondeu, o que encheu de admiração a Pilatos. Ora, no dia da festa, era costume soltar-lhes um dos presos, qualquer que fosse pedido por eles. Havia então um, chamado Barrabás, que fora preso com revoltosos, porque num motim, fizera um homicídio. Tendo subido, a multidão começou a rogar-lhe que lhes concedesse o que era de costume. Pilatos lhes respondeu e disse: Quereis que vos solte o Rei dos judeus? Porque ele sabia que fora por inveja que os príncipes dos sacerdotes O haviam entregado. Os pontífices, porém, aconselharam à turba, a que, de preferência, fizesse soltar a Barrabás. Pilatos, tomando novamente a palavra, lhes disse: Que quereis que eu faça ao Rei dos judeus? E eles gritavam com mais força ainda: Crucifica-O. Pilatos, porém, lhes dizia: Que mal entretanto fez Ele? E ainda mais vociferavam: Crucifica-O. Pilatos, querendo satisfazer ao povo, entregou-lhes Barrabás e após ter feito flagelar a Jesus, O entregou para ser crucificado. Então os soldados O conduziram ao pátio do pretório, e reunida toda a corte, O revestiram com a púrpura, pondo em sua cabeça uma coroa que haviam tecido com espinhos. E em seguida O saudavam: Salve, Rei dos judeus. Batiam-Lhe então na cabeça com uma cana e cuspiam sobre Ele; e dobrando os joelhos, eles O adoravam. Após terem assim zombado d'Ele, O despojaram da púrpura e Lhe puseram as suas vestes. E depois O levaram para O crucificar. Arranjaram então um certo homem que passava, vindo do campo, Simão, de Cirene, pai de Alexandre e de Rufo, para levar a cruz de Jesus. E O conduziram ao lugar chamado Gólgota, que significa lugar do Calvário. E davam-Lhe a beber vinho com mirra. Ele porém, não o tomou. Após O terem crucificado, eles partilharam as suas vestes, fazendo sortes sobre elas para ver o que caberia a cada um. Era a hora terceira, quando O crucificaram. E a inscrição sobre a causa de sua morte era: Rei dos judeus. Com Ele foram crucificados dois ladrões: um à sua direita e outro à sua esquerda. Assim foi cumprida a Escritura, que diz: Ele foi enumerado entre os criminosos. Os que passavam, blasfemavam contra Ele, meneando a cabeça e dizendo: Tu, que quiseste destruir o templo de Deus e reedificá-lo em três dias, salva-Te a Ti mesmo, e desce da Cruz. Do mesmo modo, os príncipes dos sacerdotes zombando d'Ele, diziam entre si, como os escribas: A outros Ele salvou, e não pode salvar a Si mesmo. O Cristo, Rei de Israel, desça agora da Cruz para que vejamos e acreditemos. E os que haviam sido crucificados com Ele também O insultavam. Tendo chegado a hora sexta, as trevas estenderam-se sobre toda a terra até a hora da nona. E à nona hora, Jesus exclamou em voz alta: Eloi, Eloi, lamma sabacthani? Isto é traduzido: Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes? Alguns dos presentes, ouvindo-O, diziam: Eis que chama por Elias. E um deles correu e ensopou uma esponja em vinagre; e pondo-a em uma cana, dava-Lhe a beber, dizendo: Deixai, vejamos se Elias vem para O libertar. Jesus, porém, lançando um grande grito, expirou. E o véu do templo rasgou-se em duas partes, de alto a baixo. Vendo porém, o centurião, que estava defronte, que Jesus expirara, dando esse grito, disse: Verdadeiramente este Homem era o Filho de Deus. Estavam também ali Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago Menor e José, e Salomé, que O haviam acompanhado e O serviam desde que Ele estivera na Galileia. E havia muitas outras ainda que tinham subido com Ele a Jerusalém. Tendo caído a tarde, (era dia de Parasceve, que é o dia da preparação para o sábado) veio José de Arimateia, nobre conselheiro, que esperava também o Reino de Deus. Ele foi corajosamente a Pilatos, pedindo-lhe o Corpo de Jesus. Pilatos admirou-se de que já tivesse morrido. E chamando o centurião, perguntou-lhe se Jesus já estava morto. E quando disto foi certificado pelo centurião, deu o Corpo a José. Tendo José adquirido um lençol, desceu o Corpo da Cruz, envolveu-O no lençol e depositou-O no sepulcro que havia cavado na rocha: depois rolou uma pedra até a entrada da sepultura.
✝️ A glória na cruz e a obediência até a morte
O relato da Paixão segundo São Marcos apresenta-nos a crueza do abandono e a profundidade da obediência de Nosso Senhor. No Getsêmani, Cristo assume plenamente a fraqueza da natureza humana, ensinando-nos, como aponta São Gregório Magno, que a verdadeira submissão à vontade do Pai supera todo temor natural e transforma o sofrimento em via de redenção. O silêncio do Salvador diante do sinédrio e de Pilatos não é resignação passiva, mas a manifestação suprema de que a Verdade Divina não mendiga defesa terrena; sua realeza e vitória são entronizadas na humilhação do madeiro, conforme ensina São Tomás de Aquino. A própria negação de São Pedro revela o abismo da nossa fragilidade quando confiamos em nossas próprias forças; contudo, como reflete Santo Ambrósio, o olhar do Mestre e o canto do galo despertam as lágrimas do arrependimento, provando que a graça superabunda onde a miséria humana se reconhece e chora o seu pecado.
A figura do profeta Jeremias, na leitura do dia, ergue-se como a mais perfeita prefiguração literária e espiritual do Cristo sofredor. Ao descrever-se como um "manso cordeiro conduzido ao matadouro", o profeta antecipa o Cordeiro de Deus que não abre a boca diante de seus tosquiadores. A conspiração dos ímpios que dizem "ponhamos madeira em seu pão" é uma profecia ao mesmo tempo literal e mística: a madeira é o suplício da Cruz, e o pão é o próprio Corpo de Cristo, oferecido pela vida do mundo. Santo Agostinho medita sobre esta passagem recordando que o justo, ao abraçar a inimizade dos homens por amor à vontade divina, encontra sua única sustentação na justiça de Deus, Aquele que perscruta os rins e os corações. A aparente derrota do profeta é a semente da vitória de Cristo, que confia plenamente a sua causa às mãos do Pai, transformando a conspiração e o ódio humano no desígnio eterno e inabalável da salvação.
É na profunda convergência desta entrega absoluta que a liturgia nos faz cantar no Introito: "Quanto a nós, devemos gloriar-nos na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo". A humilhação narrada no Evangelho e prefigurada no profeta não é motivo de escândalo, mas a própria fonte onde "está a nossa salvação, vida e ressurreição". A madeira tramada pelos inimigos de Jeremias tornou-se a árvore da vida, pela qual fomos perdoados e livres. Ao contemplarmos a face de Cristo velada pelas cusparadas e coroada de espinhos durante a dolorosa Paixão, vemos o cumprimento do salmo que suplica: "faça resplandecer a sua face sobre nós e compadeça-se de nós". A Cruz, portanto, não é o fim trágico de um inocente condenado pelo mundo, mas o trono glorioso do Rei que, perfeitamente obediente até a morte, atrai todas as coisas para o amor do Pai.