Aquilo que o homem é, ele o é permanentemente, por desígnio de seu Criador. Embora mude no curso da vida terrena, as transformações só ocorrem dentro dos limites de uma estrutura inicial, de uma substância dada desde a concepção até a morte. Essa estrutura funciona como um princípio ordenador invariável: admite acidentes compatíveis com a forma do ser, mas não admitirá jamais que o homem mude sua natureza essencial. Ele pode engordar ou emagrecer, elevar-se pela virtude ou degradar-se pelo pecado, mas permanece homem, dotado de intelecto e vontade. Os pensamentos e os sentimentos, ao contrário, são evanescentes. Aparecem e desaparecem; a atenção humana, ferida pela queda original, é intermitente. Existe, portanto, um descompasso radical entre o que o homem é perante a ordem criada e o que ele pensa de si mesmo, entre a permanência objetiva do ser e a fluidez do discurso mental tão incensado pelas psicologias contemporâneas.
Chamemos consciência profunda a esse conhecimento inerente à própria substância do ser. A sã filosofia e os antigos o situavam no coração. Não se trata, decerto, daquele sentimentalismo piegas que infestou a religião nas últimas décadas, mas do saber existencial que a parte substantiva possui de si mesma e do real - um saber sem linguagem própria no nascimento, mas que clama pela verdade objetiva. A linguagem e a adaptação social são aprendidas depois, e suas exigências práticas são tão urgentes e complexas que, num ambiente destituído de ordem sobrenatural, se sobrepõem facilmente à necessidade de expressão do ser efetivo. Forma-se, então, uma autoimagem útil à convivência mundana: um conjunto de elementos recebidos do meio, da linguagem secular e das opiniões alheias. Essa imagem é, com frequência, profundamente falsa em relação ao que o homem verdadeiramente é diante de Deus, e ainda assim serve como ferramenta social. Os outros raramente se interessam pelo destino eterno de alguém; na ausência da caridade verdadeira, cada um pensa apenas em si mesmo. A ilusão de que a sociedade moderna se ocupa do bem real das almas é logo perdida por qualquer observador atento.
O reino da tagarelice e a falsa religião da adaptação
Duas ordens se separam. Pelo lado da substância, todos os homens são iguais: cada um é apenas uma essência individual de uma mesma espécie, necessitada de redenção. Daí o único princípio de igualdade humana verdadeira, que repousa na comum filiação divina pela graça, e não nos delírios igualitários das revoluções políticas. Pelo lado do aprendizado material, surge a diferenciação: classes, etnias, costumes. Ocorre que, quanto mais o indivíduo se adapta a um grupo social determinado - ou a um mundo que odeia a cruz -, mais facilmente se afasta da sua substância. Cala-se a voz do coração, que é o sacrário da consciência. Entra-se naquilo que a Escritura chama "o mundo": não o cosmos físico ordenado por Deus, mas o reino da tagarelice, do falatório, do domínio das opiniões sociológicas. Os três inimigos da alma - o mundo, o demônio e a carne - são compreendidos de modo superficial quando se ignora que "mundo", aqui, é sobretudo o tecido da opinião coletiva e da adaptação. É trágico notar como, desde as desastrosas reformas da década de 1960, a própria estrutura que deveria combater o mundo decidiu dialogar com ele, substituindo a reverência silenciosa do sagrado por um ruído sociológico sem fim, em nome de um pretenso "aggiornamento".
Ao perder a experiência da presença do ser, perde-se primeiro o senso da dimensão e da hierarquia. Esquece-se o imenso paradoxo da condição humana: a pequenez física do homem diante do universo e, ao mesmo tempo, o privilégio exclusivo de poder comunicar-se conscientemente com a presença divina. Os animais estão meramente contidos no ser; só o homem está postado diante dele, com o dever de adorá-lo. Cada animal possui apenas o seu entorno circunscrito às suas necessidades orgânicas. A diferença entre o ser humano e o animal é, portanto, imensurável, qualitativa e espiritual. A genética, que alardeia registrar apenas três por cento de diferença entre o homem e o macaco, não captura esse abismo, porque a ciência moderna, por sua própria natureza materialista, é grosseiramente limitativa. Nenhuma ciência empirista está habilitada a definir o homem, pois o número de aspectos do real é infinito e o escopo da biologia é restrito. Esperar que a genética resolva a questão da alma é abuso de autoridade e uma burrice metodológica que infelizmente tem pautado até mesmo documentos de eclesiásticos modernos, que preferem citar o ecologismo a citar os Doutores da Igreja.
A sub-humanidade e o abandono da realidade objetiva
O homem é a única criatura capaz de viver, por longo tempo, muito abaixo do potencial de sua própria natureza. O cavalo que já não pode carregar peso perece. Só o ser humano sobrevive indefinidamente como uma sub-humanidade, exigindo os privilégios da civilização sem arcar com as obrigações dos mandamentos. Forma-se então um delírio coletivo: personalidades artificiais fabricadas por partidos, ideologias e cartilhas de um humanismo sem Deus. Vestem os mesmos chavões, sentem as emoções pré-fabricadas e têm a ilusão de existir. Comparadas ao homem consciente da tensão eterna entre a salvação e a perdição, são meras sombras diante de um corpo. Um único indivíduo que ainda fale a partir da sã doutrina e da realidade objetiva do ser aterroriza essas estruturas, não por poder temporal, mas porque ele existe na verdade, enquanto o establishment moderno vive na fantasia.
Toda a cultura verdadeiramente elevada e a sabedoria dos santos têm por finalidade forçar essa parte aprendida a tornar-se canal para o aperfeiçoamento da alma. Nunca o consegue perfeitamente por forças puramente naturais, mas a consciência da presença do ser liga o homem à revelação objetiva. O universo material já é um manancial assombroso: o mineralogista não inventa a lei das pedras, ele a descobre e se submete a ela. Quando se consideram os universos espirituais - anjos, demônios, hierarquias celestes e o Juízo -, o universo físico se reduz a quase nada. Tudo isso é real, objetivo, revelado, e não inventado por assembleias ou sínodos. O fato de se ter acesso a essas verdades pelo intelecto iluminado pela fé não significa que sejam meros símbolos pastorais. Confundir o dedo que aponta a lua com a lua, e o rito com um mero encontro comunitário, é o erro permanente do modernismo.
Essa consciência profunda é a abertura natural da alma que só encontra seu fim último na presença do Ser que é Deus. O coração, sede da vontade e do conhecimento substancial, deve ser ordenado pela graça santificante, pelos sacramentos válidos e pela verdade dogmática, para que a voz do ser não seja sufocada pelo ruído do mundo. A adaptação desenfreada às modas seculares, a absolutização da opinião humana disfarçada de "voz do povo" e a redução do homem a um mero ente sociológico são as formas precisas daquele "mundo" que Nosso Senhor condenou sem apelação. Recuperar a submissão à substância permanente, em oposição à linguagem evanescente das novidades, não é um luxo psicológico: é a exigência mínima para preservar a dignidade da imagem de Deus no homem. Quem cede ao falatório do mundo perde o senso da realidade e se torna sombra; quem se apega à verdade objetiva, mesmo sob perseguição, permanece plenamente humano e a caminho da pátria celeste.
Baseado em palestra de Olavo de Carvalho.