♱ Quarta-feira das têmporas da Quaresma


As Têmporas da Quaresma, tradicionalmente celebradas na semana seguinte ao primeiro domingo deste tempo penitencial, remontam aos primórdios da Igreja Romana, constituindo um dos costumes litúrgicos mais veneráveis e antigos. A instituição das Quatro Têmporas (Quatuor Tempora) foi concebida inicialmente para santificar as quatro estações do ano através do jejum, da esmola e da oração, agradecendo a Deus pelos frutos da terra e suplicando a sua bênção. No contexto específico da Quaresma, a quarta-feira das Têmporas adquire um caráter eminentemente eclesial e vocacional, pois era o dia designado na antiguidade clássica romana para o escrutínio, onde os candidatos às Sagradas Ordens eram publicamente apresentados ao Bispo e ao povo cristão. A Igreja, em sua sabedoria, determinava um jejum rigoroso para toda a comunidade cristã a fim de purificar as intenções e suplicar a Deus por sacerdotes santos e zelosos. Além disso, a celebração estacional desta quarta-feira ocorria na Basílica de Santa Maria Maior, a principal igreja mariana de Roma, colocando sob o manto sagrado da Virgem Maria não apenas o sacrifício penitencial dos fiéis, mas também a vocação e a pureza daqueles que em breve seriam ordenados ministros do altar, unindo o povo em uma súplica unânime para que a Igreja fosse fortalecida espiritualmente frente às batalhas do deserto quaresmal.

🎵 Introito (Sl 89, 1 e 2 | ib., 2)

Reminíscere miseratiónum tuárum, Dómine, et misericórdiæ tuæ, quæ a sǽculo sunt: ne umquam dominéntur nobis inimíci nostri: líbera nos, Deus Israël, ex ómnibus angústiis nostris. Ps. Ad te, Dómine, levávi ánimam meam: Deus meus, in te confído, non erubéscam.

Lembrai-Vos, Senhor, de vossa bondade e de vossas misericórdias, que são de séculos; para que de nós não triunfem os nossos inimigos. Livrai-nos, ó Deus de Israel, de todas as nossas angústias. Sl. A Vós, Senhor, elevo a minha alma; ó meu Deus, em Vós confio; não serei envergonhado.

📜 I leitura (Ex 24, 12-18)

In diébus illis: Dixit Dóminus ad Móysen: Ascénde ad me in montem, et esto ibi: dabóque tibi tábulas lapídeas, et legem ac mandáta quæ scripsi: ut dóceas fílios Israël. Surrexérunt Moyses et Josue miníster ejus: ascendénsque Moyses in montem Dei, senióribus ait: Exspectáte hic, donec revertámur ad vos. Habétis Aaron et Hur vobíscum: si quid natum fuerit quæstiónis, referétis ad eos. Cumque ascendísset Moyses, opéruit nubes montem, et habitávit glória Dómini super Sínai, tegens illum nube sex diébus: séptimo autem die vocávit eum de médio calíginis. Erat autem spécies glóriæ Dómini, quasi ignis ardens super vérticem montis; in conspéctu filiórum Israël. Ingressúsque Móyses médium nébulæ, ascéndit in montem: et fuit ibi quadragínta diébus et quadragínta nóctibus.

Naqueles dias, disse o Senhor a Moisés: Vem ter comigo no monte, e deixa-te ficar aí e te darei as tábuas de pedra em que escrevi a lei e os mandamentos, para que os ensines aos filhos de Israel. Moisés e Josué, seu ministro, levantaram-se. E Moisés subiu ao monte de Deus e disse aos anciãos: Esperai aqui, até que voltemos a vós. Tendes convosco Aarão e Hur; se sobrevier alguma questão, recorrei a eles. E tendo Moisés subido, a nuvem cobriu o monte e a glória do Senhor pousou sobre o Sinai, envolvendo-O com a nuvem durante seis dias. Ao sétimo dia, porém, Deus chamou Moisés do meio da escuridão [da nuvem]. Ora, a glória do Senhor manifestou-se aos filhos de Israel, como um fogo ardente sobre o cimo do monte. E entrando Moisés pelo meio da nuvem, subiu ao monte e ali se demorou quarenta dias e quarenta noites.

📖 II leitura (III Reis 19, 3-8)

In diébus illis: Venit Elías in Bersabée Juda, et dimísit ibi púerum suum, et perréxit in desértum, viam uníus diéi. Cumque venísset, et sedéret subter unam juníperum, petívit ánimæ suæ, ut morerétur, et ait: Súfficit mihi, Dómine, tolle ánimam meam: neque enim mélior sum quam patres mei. Projecítque se, et obdormívit in umbra juníperi: et ecce, Angelus Dómini tétigit eum, et dixit illi: Surge et cómede. Respéxit, et ecce ad caput suum subcinerícius panis, et vas aquæ: comédit ergo et bibit, et rursum obdormívit. Reversúsque est Angelus Dómini secundo, et tétigit eum, dixítque illi: Surge, cómede: grandis enim tibi restat via. Qui cum surrexísset, comédit et bibit, et ambulávit in fortitúdine cibi illíus quadragínta diébus et quadragínta nóctibus, usque ad montem Dei Horeb.

Naqueles dias, chegou Elias a Bersabéia de Judá e ali despediu o seu criado. E andou pelo deserto um dia de caminho. Tendo chegado ali, sentou-se debaixo de um junípero e pediu para si a morte. E disse: Basta-me de vida, Senhor, tomai a minha alma, porque não sou melhor do que meus pais. E deitou-se em terra, e adormeceu à sombra do junípero. E eis que o Anjo do Senhor tocou-o e lhe disse: Levanta-te e come. Elias olhou, e viu, junto à sua cabeça, um pão cosido debaixo da cinza, e um vaso com água; comeu, pois, bebeu e tornou a adormecer. Voltou pela segunda vez o Anjo do Senhor, tocou-o e lhe disse: Levanta-te e come, porque te resta um longo caminho a fazer. Tendo-se ele levantado, comeu e bebeu, e, na força daquela comida, caminhou quarenta dias e quarenta noites, até o monte de Deus, chamado Horeb.

✝️ Evangelho (Mt 12, 38-50)

In illo témpore: Respondérunt Jesu quidam de scribis et pharisǽis, dicéntes: Magíster, vólumus a te signum vidére. Qui respóndens, ait illis: Generátio mala et adúltera signum quærit: et signum non dábitur ei, nisi signum Jonæ Prophétæ. Sicut enim fuit Jonas in ventre ceti tribus diébus et tribus nóctibus: sic erit Fílius hóminis in corde terræ tribus diébus et tribus nóctibus. Viri Ninivítæ surgent in judício cum generatióne ista, et condemnábunt eam: quia pæniténtiam egérunt in prædicatióne Jonæ. Et ecce plus quam Jonas hic. Regína Austri surget in judício cum generatióne ista, et condemnábit eam: quia venit a fínibus terræ audire sapiéntiam Salomónis. Et ecce plus quam Sálomon hic. Cum autem immúndus spíritus exíerit ab hómine, ámbulat per loca árida, quærens réquiem, et non invénit. Tunc dicit: Revértar in domum meam, unde exívi. Et véniens invénit eam vacántem, scopis mundátam, et ornátam. Tunc vadit, et assúmit septem álios spíritus secum nequióres se, et intrántes hábitant ibi: et fiunt novíssima hóminis illíus pejóra prióribus. Sic erit et generatióni huic péssimæ. Adhuc eo loquénte ad turbas, ecce, Mater ejus et fratres stabant foris, quæréntes loqui ei. Dixit autem ei quidam: Ecce, mater tua et fratres tui foris stant, quæréntes te. At ipse respóndens dicénti sibi, ait: Quæ est mater mea, et qui sunt fratres mei? Et exténdens manum in discípulos suos, dixit: Ecce mater mea et fratres mei. Quicúmque enim fécerit voluntátem Patris mei, qui in cœlis est: ipse meus frater et soror et mater est.

Naquele tempo, dirigiram-se a Jesus alguns dos escribas e fariseus, dizendo: Mestre, nós gostaríamos muito de ver algum prodígio vosso. Ele, porém, lhes respondeu: Esta geração má e adúltera pede um prodígio, mas não lhe será dado outro, senão o prodígio do profeta Jonas. Porque assim como Jonas esteve três dias e três noites no ventre da baleia, assim estará o Filho do homem três dias e três noites no seio da terra: Os homens de Nínive se levantarão, no dia do juízo contra esta geração e a condenarão, pois estes fizeram penitência com a pregação de Jonas. E aqui está quem é mais do que Jonas. A rainha do meio-dia [de Sabá] levantar-se-á no dia do juízo contra esta geração e a condenará; pois veio da extremidade da terra para ouvir a sabedoria de Salomão. E eis, aqui está quem é mais do que Salomão. Quando o espírito imundo sai de um homem, anda por lugares secos, procurando repouso, e não o encontrando, diz: Voltarei para minha casa, de onde saí. E quando vem, encontra-a desocupada, varrida e enfeitada. Então vai, e toma consigo outros sete espíritos piores do que ele, e entrando, habitam ali; e o último estado daquele homem torna-se pior que o primeiro. Assim acontecerá também a esta geração perversa. Estando Ele ainda a falar ao povo, eis que sua Mãe e seus irmãos apareceram fora, desejando falar-Lhe. E alguém Lhe disse: Vossa Mãe e vossos irmãos estão ali fora, e Vos procuram. Ele, porém, respondendo ao que Lhe falava, disse-lhe: Quem é minha Mãe e quem são meus irmãos? E estendendo a mão para seus discípulos, disse: Eis minha mãe e meus irmãos. Porque todo aquele que fizer a vontade de meu Pai que está nos céus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe.

🍞 O pão do deserto e o sinal de Jonas na fornalha da aflição

O clamor do Introito, que suplica a Deus o livramento de todas as angústias e clama para que os inimigos não triunfem, encontra profundo eco no Evangelho de hoje. A geração adúltera exige sinais visíveis e de glória mundana, mas o Divino Mestre oferece apenas o austero e misterioso sinal do profeta Jonas. São Jerônimo, em seus Comentários ao Evangelho de São Mateus, ensina que o repouso de Jonas no ventre da baleia é a prefiguração exata da Paixão e descida de Cristo aos infernos, um aparente triunfo dos inimigos que, na verdade, preparava a explosão vitoriosa da Ressurreição. Para não sermos vencidos por nossas angústias, devemos descer com Cristo no mistério do aniquilamento e do jejum. Não basta esvaziar a alma pela penitência, deixando a casa "varrida e enfeitada", mas vazia da graça de Deus, pois tal ociosidade espiritual atrai demônios piores. A verdadeira proteção contra as investidas infernais é ocupar ativamente a alma com a vontade divina. Por isso, ao apontar para seus discípulos, o Senhor declara que a verdadeira consanguinidade com Ele reside na obediência. Santo Agostinho (Sermão 72) corrobora este mistério ao afirmar que a Virgem Maria foi mais bem-aventurada por ter concebido a fé em Cristo em seu coração, cumprindo perfeitamente a vontade do Pai, do que por ter gerado a carne do Filho de Deus em seu ventre.

O caminho para alcançar esta firmeza de vontade em meio ao deserto da vida é iluminado pelas leituras do Antigo Testamento, que respondem de modo reconfortante ao pedido de misericórdia do Introito. Vemos a figura grandiosa de Moisés suportando quarenta dias e quarenta noites no Monte Sinai, e o comovente esgotamento do profeta Elias, que, desejando a morte sob um junípero, é amparado pelo alimento angélico para caminhar o mesmo período até o Horeb. Santo Tomás de Aquino, em sua Suma Teológica, pontua que o pão cozido sob as cinzas dado a Elias é uma clara prefiguração do Santíssimo Sacramento da Eucaristia. A misericórdia de Deus, "que é de séculos", não abandona a alma que confia nEle, providenciando o Pão do Céu para que ela não desfaleça. Este viático divino é especialmente vital para os candidatos às Sagradas Ordens, lembrados na liturgia destas Têmporas, os quais, revestindo-se da fortaleza daquele alimento sobrenatural, sobem a montanha sagrada para se tornarem ministros do fogo ardente do Espírito Santo, que outrora repousou sobre o cimo do Sinai.

Deste modo, a ascese do deserto, a purificação rigorosa e a obediência filhial entrelaçam-se na forja da santidade. O jejum quaresmal, à imitação dos quarenta dias de Moisés e Elias, esvazia-nos das futilidades terrenas, não para deixar o coração vagando em lugares áridos, mas para prepará-lo como morada digna do Filho de Deus. Alimentados pelo verdadeiro Pão cozido na fornalha do amor divino, somos fortalecido contra toda desesperança e cansaço. Somente assim, sustentados por esse mistério de morte e vida prefigurado no ventre da baleia, passamos da condição de réus condenados pela geração perversa para a glória íntima de sermos chamados mãe, irmãos e irmãs do Senhor, experimentando já nesta terra o livramento de todas as angústias prometido àqueles que confiam inteiramente na misericórdia eterna.