Introito (Salmos 36, 39 e 1) - Salus autem justórum a Dómino: et protéctor eórum est in témpore tribulatiónis. Noli æmulári in malignántibus: neque zeláveris faciéntes iniquitátem.
Irmãos gêmeos nascidos na nobreza romana, Marcos e Marceliano selaram a sua fidelidade a Cristo com a própria vida durante a furiosa perseguição de Diocleciano, no ocaso do terceiro século. Lançados no cárcere e condenados à morte, enfrentaram a mais terrível das tentações: as lágrimas de seus pais e as lisonjas de seus amigos, que lhes imploravam a apostasia em troca da sobrevivência terrena. Contudo, fortalecidos pelas palavras chamejantes de São Sebastião, recusaram o incenso impuro aos falsos deuses, suportaram ser amarrados a um tronco e, finalmente, tiveram os seus corações transpassados por lanças. O sangue destes invictos guerreiros da fé regou o solo sagrado de Roma, e seus veneráveis restos mortais encontram hoje repouso na Basílica dos Santos Cosme e Damião em Roma, de onde o seu formidável testemunho continua a bradar contra a covardia de todas as épocas.
Vede, amados irmãos, com que claridade ofuscante o Apóstolo nos ensina hoje na Epístola: gloriar-nos nas tribulações! Que escândalo insuportável para os ouvidos do homem de hoje! A nossa época, apodrecida por uma sede insaciável de confortos passageiros e aplausos efêmeros, abomina a rudeza do madeiro e tenta reescrever a doutrina da salvação para banir o sofrimento. Multiplicam-se ao nosso redor falsos profetas que, travestidos de ovelhas, vendem uma religião plastificada, moldada ao gosto dos vícios do século, buscando ansiosamente agradar aos caprichos humanos em vez de adorar a majestade de Deus. Foi exatamente contra esta tentação vil que os gloriosos Marcos e Marceliano travaram o seu combate mortal. A imensa vocação destes mártires foi erguer-se como muralhas inabaláveis contra a idolatria astuta de seu tempo, que muitas vezes não pedia uma negação ruidosa de Cristo, mas apenas um punhado de incenso oferecido ao imperador - um pacto sutil, uma pequena concessão moral para salvar a própria pele. Não percebeis vós a mesma fumaça venenosa infiltrando-se sorrateiramente nos átrios sagrados de nossos dias? Exige-se hoje que a Esposa de Cristo mutile o seu rito milenar e suavize a sua pregação eterna para não ofender o mundo moderno, uma corrupção interna e silenciosa que visa aniquilar a fé pelas vias do meio-termo. O próprio Divino Mestre, no Evangelho desta liturgia, fulmina com lábios sagrados os hipócritas que constroem belos sepulcros para os profetas que seus próprios pais assassinaram. Acaso não somos nós esses fariseus quando enfeitamos as imagens dos santos mártires, mas em nossa vida cotidiana fugimos de toda ascese e pactuamos comodamente com os erros de nossa geração? O Doutor da Graça, Santo Agostinho, nos desperta deste sono letárgico ao proclamar que a paciência forjada na dor é a prova irrefutável do amor verdadeiro. Olhai atentamente para o Altar! Ali o Cordeiro imaculado não vos oferece um espetáculo para entreter os olhos, mas renova o Seu sacrifício cruento e redentor. Que o exemplo estupendo destes irmãos arranque de vossos corações a falsa paz que o abismo vos oferece. Não troqueis a coroa imarcescível por trinta moedas de aceitação social; mas, abraçando virilmente a glória de serdes provados, guardai a integridade de vossa fé, para que a esperança infundida pelo Espírito Santo jamais vos confunda perante o justo Juiz!