Nesta Quinta-feira depois das Cinzas, a liturgia conduz os fiéis espiritualmente à Igreja de São Jorge no Velabro, em Roma, cuja abside adornada por uma cruz em mosaico harmoniza-se profundamente com o mistério anunciado no Evangelho. A comemoração do dia centra-se na disposição interior necessária para a verdadeira penitência: não a confiança na própria justiça, mas o abandono total à misericórdia divina. Enquanto a imposição das cinzas no dia anterior marcou o início do combate espiritual, a liturgia de hoje aprofunda o sentido desse combate, mostrando através da oração do profeta Daniel que o reconhecimento coletivo e individual do pecado é o primeiro passo para a restauração. Daniel, intercedendo por Jerusalém, não apresenta méritos, mas súplicas baseadas no amor de Deus por Seu próprio Nome. Este movimento de humilhação prepara a alma para a revelação de Cristo no Evangelho de São João, onde o Senhor adverte sobre a gravidade da incredulidade e aponta para a Sua "elevação" na Cruz como o momento supremo de reconhecimento de Sua divindade. Assim, a Igreja instrui que o jejum corporal deve ser acompanhado pela elevação da mente "do baixo" (das coisas terrenas) para o "alto" (a realidade divina), encontrando na Cruz o único refúgio contra a morte no pecado.
🎼 Introito (Sl 25, 11-12 | ib., 1)
Rédime me, Dómine, et miserére mei: pes enim meus stetit in via recta: in ecclésiis benedícam Dóminum. Ps. Júdica me, Dómine, quóniam ego in innocéntia mea ingréssus sum: et in Dómino sperans, non infirmábor.
Livrai-me, Senhor, e tende piedade de mim; meu pé está no caminho reto: nas assembleias louvarei o Senhor. Sl. Julgai-me, Senhor, porque eu ando em minha inocência, e, esperando no Senhor, não vacilarei.
📜 Epístola (Dn 9, 15-19)
In diébus illis: Orávit Dániel Dóminum, dicens: Dómine, Deus noster, qui eduxísti pópulum tuum de terra Ægýpti in manu forti, et fecísti tibi nomen secúndum diem hanc; peccávimus, iniquitátem fécimus, Dómine, in omnem justítiam tuam: avertátur, óbsecro, ira tua et furor tuus a civitáte tua Jerúsalem et monte sancto tuo. Propter peccáta enim nostra et iniquitátes patrum nostrórum. Jerúsalem et pópulus tuus in oppróbrium sunt ómnibus per circúitum nostrum. Nunc ergo exáudi, Deus noster, oratiónem servi tui et preces ejus: et osténde fáciem tuam super sanctuárium tuum, quod desértum est, propter temetípsum. Inclína, Deus meus, aurem tuam, et audi: áperi óculos tuos, et vide desolatiónem nostram et civitátem, super quam invocátum est nomen tuum: neque enim in justificatiónibus nostris prostérnimus preces ante fáciem tuam, sed in miseratiónibus tuis multis. Exáudi, Dómine, placáre, Dómine: atténde et fac: ne moréris propter temetípsum, Deus meus: quia nomen tuum invocátum est super civitátem et super pópulum tuum, Dómine, Deus noster.
Naqueles dias, orou Daniel ao Senhor, dizendo: Senhor, Deus nosso, Vós tirastes vosso povo da terra do Egito com mão poderosíssima e Vos fizestes um Nome que permanece até hoje: pecamos, fizemos iniquidades, Senhor, contra a vossa justiça. Eu Vos imploro, desviai a vossa ira e a vossa indignação de Jerusalém, vossa cidade, e de vossa montanha santa, pois por causa de nossos pecados e das iniquidades de nossos pais, Jerusalém e vosso povo estão hoje no desprezo de todos os que nos cercam. Agora, Deus nosso, ouvi as orações de vosso servo e suas súplicas, e mostrai vossa face sobre vosso santuário que está deserto, fazendo-o por amor de Vós mesmo. Inclinai, Deus meu, vossos ouvidos e ouvi; abri vossos olhos e vede nossa desolação e a da cidade sobre a qual foi invocado vosso Nome. Não é confiando em nossas justiças que Vos apresentamos humildemente nossas orações ante vossa face, e sim confiando na multidão de vossas misericórdias. Ouvi-nos, Senhor, e aplacai-Vos. Senhor, atendei-nos e começai a vossa obra. Não tardeis mais, por Vós mesmo, meu Deus, porque vosso Nome foi invocado sobre esta cidade e sobre vosso povo, ó Senhor, Deus nosso.
✠ Evangelho (Jo 8, 21-29)
In illo témpore: Dixit Jesus turbis Judæórum: Ego vado, et quærétis me, et in peccáto vestro moriémini. Quo ego vado, vos non potéstis veníre. Dicébant ergo Judǽi: Numquid interfíciet semetípsum, quia dixit: Quo ego vado, vos non potéstis veníre? Et dicébat eis: Vos de deórsum estis, ego de supérnis sum. Vos de mundo hoc estis, ego non sum de hoc mundo. Dixi ergo vobis, quia moriémini in peccátis vestris: si enim non credidéritis, quia ego sum, moriémini in peccáto vestro. Dicébant ergo ei: Tu quis es? Dixit eis Jesus: Princípium, qui et loquor vobis. Multa habeo de vobis loqui et judicáre. Sed qui me misit, verax est: et ego quæ audívi ab eo, hæc loquor in mundo. Et non cognovérunt, quia Patrem ejus dicébat Deum. Dixit ergo eis Jesus: Cum exaltavéritis Fílium hóminis, tunc cognoscétis quia ego sum, et a meípso fácio nihil: sed, sicut dócuit me Pater, hæc loquor: et qui me misit, mecum est, et non relíquit me solum: quia ego, quæ plácita sunt ei, fácio semper.
Naquele tempo, disse Jesus às turbas dos judeus: Eu me afasto, e vós me procurais e em vosso pecado morrereis. Para onde vou, vós não podeis vir. Diziam, pois, os judeus: Porventura vai suicidar-se, desde que diz: Para onde vou, vós não podeis vir? E Ele lhes disse: Vós sois daqui de baixo, e eu sou do alto. Vós sois deste mundo, e eu não sou deste mundo. Eu vos disse, pois, que morreríeis em vossos pecados; porque se não acreditais que Eu Sou, morrereis em vosso pecado. Diziam-lhe eles: Quem és Tu? Respondeu-lhes Jesus: O Princípio, eu que vos falo. Muitas coisas tenho a dizer de vós e a julgar. Quem me enviou, no entanto, é verdadeiro, e o que d'Ele aprendi, eu o digo no mundo. Eles não compreenderam que Ele dizia que Deus era seu Pai. Jesus lhes disse, pois: Quando tiverdes elevado o Filho do homem, então conhecereis que Sou Eu e que por mim mesmo nada faço, mas falo como o Pai me ensinou. Aquele que me enviou, comigo está e não me deixou só, porque eu faço sempre o que Lhe é agradável.
💭 A Exaltação da Cruz e a Humildade da Confissão
A liturgia de hoje estabelece uma conexão vital entre a humildade da confissão, exemplificada por Daniel, e a exaltação salvífica de Cristo na Cruz. Daniel ensina a postura correta da alma penitente: ele não reivindica direitos diante de Deus, mas apela para as "misericórdias muitas" do Senhor, reconhecendo que a desolação do santuário é fruto do pecado do povo. Esta atitude de despojamento é a condição indispensável para acolher o mistério revelado no Evangelho. Jesus confronta os judeus com a realidade de sua origem "de baixo", isto é, do mundo e da carne, alertando que a permanência nesta condição leva à morte no pecado. A única saída para este destino funesto é a fé n'Ele como "Eu Sou", o Princípio eterno. Santo Agostinho, ao comentar este trecho, explica que ser "de baixo" refere-se ao amor pelo mundo e aos afetos corrompidos, enquanto ser "do alto" é participar da sabedoria divina; e acrescenta que a frase "Quando tiverdes elevado o Filho do Homem" refere-se inequivocamente à Paixão na Cruz (Santo Agostinho, In Ioannis Evangelium, Tractatus 38 e 40). É no escândalo da Cruz, quando Cristo é elevado da terra, que Sua identidade divina se manifesta paradoxalmente em Sua obediência perfeita ao Pai. Portanto, para não "morrermos em nossos pecados", devemos olhar para o Crucificado não com o desprezo dos que são do mundo, mas com a fé dos que buscam a redenção, compreendendo, como ensina São Tomás de Aquino, que a Paixão de Cristo é a causa eficiente da nossa salvação, removendo o obstáculo do pecado que nos separava de Deus (São Tomás de Aquino, Summa Theologiae, III, q. 49, a. 1). A oração de Daniel, "fazei-o por amor de Vós mesmo", encontra sua resposta definitiva no Calvário, onde Deus glorifica Seu Nome salvando o homem pela obediência do Filho.