A Festa de Corpus Christi, instituída para a Igreja Universal no século XIII pelo Papa Urbano IV, através da Bula Transiturus de Hoc Mundo, nasceu do zelo apostólico e das revelações místicas recebidas por Santa Juliana de Mont Cornillon, bem como do célebre milagre eucarístico de Bolsena. Esta augusta solenidade surgiu para honrar de modo exclusivo e exultante a Presença Real de Nosso Senhor Jesus Cristo no Santíssimo Sacramento do Altar, distinguindo-se da Quinta-feira Santa, onde o mistério da instituição da Eucaristia se mescla com as amarguras e sombras da Paixão. A liturgia sublime deste dia foi composta pelo Doutor Angélico, São Tomás de Aquino, que adornou a Igreja com hinos de insuperável profundidade teológica e devoção filial. Celebrar o Corpo de Deus é professar publicamente a fé católica na transubstanciação, proclamando que debaixo das sagradas espécies do pão e do vinho reside verdadeira, real e substancialmente o Corpo, Sangue, Alma e Divindade do Salvador. Historicamente, em Roma, a solene e tradicional procissão papal que coroa esta festa parte majestosamente da Arquibasílica de São João de Latrão, mãe e cabeça de todas as igrejas da urbe e do orbe, testemunhando publicamente a realeza do Cristo Eucarístico sobre as sociedades.
As sagradas leituras desta esplendorosa liturgia confrontam de modo implacável a superficialidade com que o mundo moderno trata as realidades divinas. O Apóstolo São Paulo, na sua Epístola, adverte-nos seriamente sobre o gravíssimo perigo de recebermos o Corpo do Senhor de forma indigna, chamando a atenção para a necessidade absoluta de um exame de consciência rigoroso, atestando que a comunhão exige a pureza da graça santificante. Nos tempos de calamidade espiritual em que vivemos, multiplicam-se os esforços daqueles que buscam moldar a Doutrina Sagrada às conveniências mundanas, diluindo as exigências do Evangelho com o pretexto de atualizá-lo, inserindo veneno nas estruturas da fé sob a roupagem da falsa misericórdia. Contudo, o autêntico católico sabe que o Sacrifício do Altar e os Mandamentos não foram instituídos para granjear a aprovação humana ou afagar o orgulho dos homens, mas para oferecer a Deus a adoração perfeita e incondicional. Ao mastigarmos a Carne e bebermos o Sangue do Cordeiro Divino, conforme o próprio Cristo exige no Evangelho de São João, somos espiritualmente fortificados e assimilados a Ele. Neste profundo mistério, aprendemos com os santos que as cruzes e as tribulações desta vida terrena servem perfeitamente como escola para nos desprender das ilusões passageiras, forjando em nós um autêntico desprezo pelo espírito do mundo. O Pão Celestial é sustento exclusivo dos que não buscam a glória transitória, mas que caminham rumo à eternidade com a alma fixada nos direitos de Deus.
Introito (Sl 80, 17) - Cibávit eos ex ádipe fruménti, allelúja: et de petra, melle saturávit eos, allelúja, allelúja. Exsultáte Deo, adjutóri nostro: jubiláte Deo Jacob.
Homilia do Padre Gilberto (Capela São José do Patrocínio)