♱ Sábado depois das cinzas


🗓️O Sábado depois das Cinzas encerra o pórtico introdutório do tempo da Quaresma, um período de quatro dias adicionado ao antigo calendário romano para completar o número exato de quarenta dias de jejum, visto que os domingos não eram contabilizados como dias de penitência. Originalmente, a Santa Quaresma tinha seu início no Domingo da Quadragésima, mas, sob a influência de pontífices da antiguidade, antecipou-se o rito das cinzas para a quarta-feira precedente, criando este tríduo preparatório que culmina neste sábado. Historicamente, a estação litúrgica deste dia ocorria na basílica de São Trifão e, posteriormente, com a destruição desta, foi transferida para a igreja de Santo Agostinho, em Roma. A estacionalidade nesta basílica marcava um momento de forte apelo à intercessão, especialmente porque as origens desses dias suplementares coincidiram com períodos de severa calamidade pública que assolaram a Cidade Eterna, como as devastadoras inundações do rio Tibre ou surtos de peste que exigiam da população uma resposta de profunda contrição. Assim, a Igreja estruturou a comemoração deste dia não apenas como um convite à consolidação do rigoroso jejum físico, que preparava os catecúmenos e penitentes para o domingo de início oficial da Quaresma, mas como um clamor urgente pela intervenção divina diante das catástrofes naturais e espirituais, recordando aos fiéis a necessidade imperiosa de dobrar os joelhos em mortificação antes de adentrar plenamente o grande deserto quaresmal.

📖 Introito (Sl 29, 11 | ib., 2)

Audívit Dóminus, et misértus est mihi: Dóminus factus est adjútor meus. Ps. Exaltábo te, Dómine, quóniam suscepísti me: nec delectásti inimícos meos super me.

O Senhor me ouviu e se compadeceu de mim. O Senhor se fez o meu auxílio. Sl. Eu vos glorificarei, Senhor, porque me recebestes, e não permitistes que os meus inimigos se alegrassem à minha custa.

✉️ Epístola (Is 58, 9-14)

Hæc dicit Dóminus Deus: Si abstúleris de médio tui caténam, et desíeris exténdere dígitum, et loqui quod non prodest. Cum effúderis esuriénti ánimam tuam, et ánimam afflíctam repléveris, oriétur in ténebris lux tua, et ténebræ tuæ erunt sicut merídies. Et réquiem tibi dabit Dóminus semper, et implébit splendóribus ánimam tuam, et ossa tua liberábit, et eris quasi hortus irríguus, et sicut fons aquárum, cujus non defícient aquæ. Et ædificabúntur in te desérta sæculórum: fundaménta generatiónis et generatiónis suscitábis: et vocáberis ædificátor sépium, avértens sémitas in quiétem. Si avérteris a sábbato pedem tuum, fácere voluntátem tuam in die sancto meo, et vocáveris sábbatum delicátum, et sanctum Dómini gloriósum, et glorificáveris eum, dum non facis vias tuas, et non invénitur volúntas tua, ut loquáris sermónem: tunc delectáberis super Dómino: et sustóllam te super altitúdines terræ, et cibábo te hereditáte Jacob, patris tui. Os enim Dómini locútum est.

Eis o que diz o Senhor Deus: Se afastares a cadeia do meio de ti e deixares de estender o dedo, e de dizer o que não convém, se abrires tua mão ao faminto e consolares a alma aflita, levantar-se-á nas trevas a tua luz, e as tuas trevas serão como o meio-dia. Descanso sem fim te dará o Senhor que encherá de luz a tua alma e libertará os teus ossos. Tornar-te-ás como um jardim bem irrigado; assim como uma fonte, cujas águas jamais secarão. Reconstruirás as ruínas dos séculos passados, elevarás os fundamentos das gerações inteiras e serás chamado o construtor dos muros, aquele que torna seguro os caminhos. Se retiveres o teu pé, por causa do sábado, para não fazeres a tua vontade no meu santo dia; se chamares ao sábado tuas delícias, o dia santo e glorioso do Senhor, e o santificares, deixando de seguir as tuas veredas, não executando a tua própria vontade e não dizendo palavras vãs, então te alegrarás no Senhor, e eu te elevarei, acima das alturas da terra e te alimentarei com a herança de Jacó, teu pai. Assim falou a boca do Senhor.

✝️ Evangelho (Mc 6, 47-56)

In illo témpore: Cum sero esset, erat navis in médio mari, et Jesus solus in terra. Et videns discípulos suos laborántes in remigándo (erat enim ventus contrárius eis), et circa quartam vigíliam noctis venit ad eos ámbulans supra mare: et volébat præteríre eos. At illi, ut vidérunt eum ambulántem supra mare, putavérunt phantásma esse, et exclamavérunt. Omnes enim vidérunt eum, et conturbáti sunt. Et statim locútus est cum eis, et dixit eis: Confídite, ego sum, nolíte timére. Et ascéndit ad illos in navim, et cessávit ventus. Et plus magis intra se stupébant: non enim intellexérunt de pánibus: erat enim cor eórum obcæcátum. Et cum transfretássent, venérunt in terram Genésareth, et applicuérunt. Cumque egréssi essent de navi, contínuo cognovérunt eum: et percurréntes univérsam regiónem illam, cœpérunt in grabátis eos, qui se male habébant, circumférre ubi audiébant eum esse. Et quocúmque introíbat, in vicos vel in villas aut civitátes, in platéis ponébant infírmos, et deprecabántur eum, ut vel fímbriam vestiménti ejus tángerent: et quotquot tangébant eum, salvi fiébant.

Naquele tempo, tendo caído a tarde, estava a barca no meio do mar e Jesus, sozinho em terra. E viu que os seus discípulos labutavam com os remos (porque o vento lhes estava contrário). Pela quarta vigília da noite foi até eles, andando sobre o mar e querendo passar-lhes adiante. Quando eles o viram, andando sobre o mar, pensaram que era um fantasma e gritaram. Todos eles o puderam ver e ficaram atemorizados. E logo Jesus lhes falou e lhes disse: Tende confiança, sou eu, não vos assusteis. Quando subiu até eles, na barca, o vento cessou. E ainda mais se admiraram, no íntimo, pois não haviam compreendido o milagre dos pães, por estar obcecado o seu coração. Quando passaram à outra banda, vieram à terra de Genesaré e aí abordaram. Saindo da barca, os do lugar reconheceram logo a Jesus. E percorrendo eles toda aquela região, começaram a trazer-lhe, em leitos, aqueles que tinham enfermidades, onde ouviam dizer que ele estava. Onde quer que entrasse, nas aldeias, nas vilas, e nas cidades punham nas praças os doentes, e lhe pediam que ao menos os deixasse tocar na orla de seu vestido. E todos os que o tocavam ficavam curados.

⚓ O auxílio divino em meio às tempestades da vida

A proclamação do Introito estabelece a tônica espiritual de confiança inabalável que deve permear a alma penitente ao longo de toda a Quaresma: o Senhor ouve e se compadece; Ele próprio se faz o auxílio do homem aflito. Esta certeza dogmática da misericórdia socorredora de Deus encontra sua expressão máxima e visual no mar agitado do Evangelho, onde a barca, símbolo da Igreja e da alma individual, labuta exaustivamente contra os ventos contrários do mundo e das paixões desordenadas. Santo Agostinho, em seus Tratados sobre o Evangelho de São João (Tractatus 25), elucida que os ventos contrários representam as tentações e as adversidades desta vida terrena, enquanto o Cristo que caminha sobre as águas demonstra que toda a soberba e as tribulações do mundo são esmagadas sob os Seus pés divinos. Contudo, para que esse socorro transfigure a escuridão da tempestade em luz, exige-se do fiel uma cooperação ativa, detalhada na Epístola de Isaías. O jejum corporal, próprio deste pórtico quaresmal, de nada vale se não for acompanhado da ruptura das cadeias do pecado e do exercício acendrado da caridade. São Tomás de Aquino, na Suma Teológica (II-II, q. 147, a. 1), ensina que o jejum possui a finalidade de reprimir as concupiscências, elevar a mente às realidades celestiais e satisfazer pelos pecados cometidos, devendo ser indissociavelmente unido à esmola e à misericórdia para que seja agradável a Deus. Quando a mortificação da vontade própria se alia ao socorro ao próximo, a alma se converte naquele "jardim bem irrigado" descrito pelo profeta, cujas trevas se dissipam como o resplendor do meio-dia. Dessa forma, as fadigas do remo contra as correntes do secularismo não precisam terminar em desespero ou naufrágio. Ao despojar-se do orgulho por meio da penitência e ao praticar o verdadeiro amor fraterno, o coração purificado deixa de se assustar com os fantasmas das próprias angústias e passa a reconhecer o Salvador nas trevas da quarta vigília, acolhendo-O na barca interior para que, enfim, cesse a ventania e se instaure a paz de quem glorifica a Deus pela salvação alcançada.