🗓️São Romualdo, nascido em Ravena (Itália) por volta de 952 e falecido em 1027, foi um reformador monástico fundamental e pai da Ordem Camaldulense, que uniu a tradição cenobítica ocidental de São Bento ao eremitismo oriental dos Padres do Deserto. Oriundo da nobre família dos Onesti, abandonou o mundo após testemunhar o seu pai matar um adversário em um duelo, buscando refúgio no mosteiro de Santo Apolinário em Classe, mas, insatisfeito com a tibieza espiritual ali encontrada, partiu para uma vida de rigorosa penitência e solidão sob a tutela do eremita Marinho. A sua obra culminou na fundação do Eremitério de Camaldoli, estabelecendo um modelo de vida onde a solidão da cela se equilibra com a oração litúrgica comunitária, permitindo à alma ascender a Deus livre das distrações seculares. A tradição relata que viveu até os 120 anos, um sinal de que a dura ascese não corrompe, mas preserva a vitalidade daqueles que se alimentam da vontade divina, tendo morrido em Val di Castro, onde o seu corpo permaneceu incorrupto por séculos, testemunhando a pureza da sua entrega total a Cristo.
🕯️ Introito (Sl 36, 30-31 | ib., 1)
Os justi meditábitur sapiéntiam, et lingua ejus loquétur judícium: lex Dei ejus in corde ipsíus. Ps. Noli æmulári in malignántibus; neque zeláveris faciéntes iniquitátem.
A boca do justo fala a sabedoria e a sua língua profere a equidade. A lei de seu Deus está em seu coração. SL. Não te irrites por causa dos maus, nem tenhas inveja dos que praticam a iniquidade.
📜 Epístola (Eclo 45, 1-6)
Diléctus Deo et homínibus, cujus memória in benedictióne est. Símilem illum fecit in glória sanctórum, et magnificávit eum in timóre inimicórum, et in verbis suis monstra placávit. Glorificávit illum in conspéctu regum, et jussit illi coram pópulo suo, et osténdit illi glóriam suam. In fide et lenitáte ipsíus sanctum fecit illum, et elégit eum ex omni carne. Audívit enim eum et vocem ipsíus, et indúxit illum in nubem. Et dedit illi coram praecépta, et legem vitae et disciplínae.
Ele foi amado de Deus e dos homens; sua memória é abençoada. O Senhor o igualou aos Santos na glória, engrandeceu-o para temor dos seus inimigos e por suas palavras fez cessar os prodígios. Glorificou-o diante dos reis; deu-lhe seus preceitos diante de seu povo e mostrou-lhe a sua glória. Por sua fidelidade e mansidão o santificou e o escolheu dentre todos os homens. Deus lhe fez ouvir a sua voz e fê-lo entrar na nuvem. E deu-lhe, face a face, os seus preceitos e a lei da vida e da doutrina.
✠ Evangelho (Mt 19, 27-29)
Sequéntia sancti Evangélii secúndum Matthaéum. In illo témpore: Dixit Petrus ad Jesum: Ecce, nos relíquimus ómnia, et secúti sumus te: quid ergo erit nobis? Jesus autem dixit illis: Amen, dico vobis, quod vos, qui secuti estis me, in regeneratióne, cum séderit Fílius hóminis in sede majestátis suæ, sedébitis et vos super sedes duódecim, judicántes duódecim tribus Israël. Et omnis, qui relíquerit domum, vel fratres, aut soróres, aut patrem, aut matrem, aut uxórem, aut fílios, aut agros, propter nomen meum, céntuplum accípiet, et vitam ætérnam possidébit.
Naquele tempo, disse Pedro a Jesus: Eis que abandonamos tudo e Vos seguimos: que recompensa haverá então para nós? Respondeu-lhe Jesus: Em verdade vos digo, que no dia da regeneração, quando o Filho do homem se assentar no trono de sua glória, também vós, que me seguistes, assentar-vos-eis em doze tronos e julgareis as doze tribos de Israel. E todo aquele que deixar a casa, ou os irmãos, ou as irmãs, ou o pai, ou a mãe, ou a mulher, ou os filhos, ou as terras, por causa de meu Nome, receberá o cêntuplo e possuirá a vida eterna.
☁️ A troca divina e a entrada na nuvem de Deus
A liturgia de hoje nos convida a meditar sobre a economia da salvação, que opera numa lógica inversa à do mundo: a plenitude é alcançada pelo despojamento radical. No Evangelho, a pergunta de São Pedro revela a ansiedade humana por garantia, mas a resposta de Cristo sobre o "cêntuplo" não se refere a uma multiplicação material, mas à posse da própria Causa de todos os bens. São Romualdo compreendeu que deixar "casa e terras" não é um fim em si mesmo, mas a condição necessária para entrar na "nuvem" descrita na Epístola, a mesma nuvem em que Moisés penetrou para receber a Lei. Esta nuvem simboliza o isolamento sagrado da contemplação e o esquecimento das criaturas para a união com o Criador. O "cêntuplo", portanto, é a liberdade de espírito e a consolação do Espírito Santo que superam qualquer deleite carnal, uma antecipação da beatitude celeste vivida já nesta terra por aqueles que se entregam totalmente aos conselhos evangélicos. A vida monástica, exemplificada por Romualdo, torna-se um sinal escatológico, provando que Deus basta à alma humana. Como ensina o Doutor Angélico, a recompensa do cêntuplo refere-se, nesta vida, à alegria da caridade perfeita e aos bens espirituais que superam incomensuravelmente os bens temporais abandonados, pois quem possui a Deus, possui a fonte de toda a riqueza (São Tomás de Aquino, Suma Teológica, II-II, q. 186, a. 3).