Introito - Cognóvi, Dómine, quia aéquitas judícia tua, et in veritáte tua humiliásti me: confíge timóre tuo carnes meas, a mandátis tuis tímui. Ps. Beáti immaculáti in via: qui ámbulant in lege Dómini. Glória Patri...Reconheci, Senhor, que os vossos juízos são a própria equidade, e que com razão me humilhastes: traspassai as minhas carnes com o vosso temor, porque eu temo os vossos mandamentos. Sl. Bem-aventurados os imaculados no caminho: que andam na lei do Senhor. Glória ao Pai...
Nascida no ano de 1271 em sangue real, filha do rei Pedro III de Aragão, Santa Isabel foi dada em matrimônio a D. Dinis, rei de Portugal. Longe de se deixar inebriar pela glória dos paços, transformou a sua corte em um verdadeiro santuário de oração e incessante esmola, destacando-se como extraordinária pacificadora; mediou conflitos amargos entre seu próprio esposo e seu filho Afonso, bem como entre reinos vizinhos, extinguindo as chamas da discórdia terrena com a inesgotável caridade de Cristo. Após a morte do rei em 1325, depôs a coroa, despojou-se de suas vestes régias e abraçou o hábito austero da Ordem Terceira de São Francisco no mosteiro das Clarissas. Viveu seus últimos anos em profunda e voluntária penitência, entregando sua alma purificada a Deus no dia 4 de julho de 1336, em Estremoz. Seu corpo incorrupto repousa, como silencioso testemunho de uma vida consumada pelo amor divino, no Mosteiro de Santa Clara-a-Nova, em Coimbra, aguardando a glória da ressurreição.
O Reino dos Céus, meus irmãos, é semelhante a um tesouro escondido e a uma pérola de inestimável valor, pela qual o sábio vende tudo o que possui, como nos revela hoje a Sagrada Liturgia. Mas quão distante desta santa barganha está a alma de nosso tempo! Vivemos em uma época gravemente adoecida pela lisonja e pela busca frenética de facilidades efêmeras, onde até mesmo nos redutos que deveriam ser mais sagrados muitos buscam diluir o peso da cruz, trocando a rocha dura da verdade por novidades suaves que afagam o homem terreno, mas traem a soberania de Deus. O espírito que hoje domina abomina a renúncia, corrompe secretamente a sã doutrina e infiltra seu veneno de forma sorrateira, adaptando os eternos preceitos celestiais aos caprichos de um mundo que passa. Contra esta imensa ruína espiritual ergue-se, majestosa, a figura de Santa Isabel de Portugal. Qual foi a sua formidável missão senão a de esmagar, pelo seu exemplo de viúva penitente, a terrível falácia de que o conforto deste mundo é o nosso fim último? Ao abandonar o trono de ouro pelos panos ásperos, esta rainha cumpriu à perfeição o mandato do Apóstolo lido na Epístola: tornou-se a verdadeira viúva, desamparada das vaidades do século, mas firmemente ancorada na eternidade, perseverando noite e dia em orações. Ela não buscou a aprovação dos palácios, nem cedeu à sedução do prazer mundano, o qual, como adverte São Paulo, deixa a alma morta mesmo no corpo que respira. Seus sacrifícios, que traspassaram sua carne com o santo temor do Senhor - como cantamos no Introito - foram a rede bendita que colheu inumeráveis almas para o céu. Elevai, pois, os olhos para este altar! Que as cerimônias desta Missa arranquem nossas mentes da lama e do pó! Sejamos como a santa rainha que, tendo todas as riquezas e honras aos seus pés, as pisou com santo desprezo para adquirir o tesouro invisível. Rejeitemos a ilusão de uma religião sem sacrifício, abracemos a austeridade do Evangelho para que, no dia do terrível julgamento, não sejamos lançados fora como peixes inúteis na fornalha do pranto, mas sejamos recolhidos pelos Anjos na morada da luz inextinguível.