Introito - Os justi meditábitur sapiéntiam, et lingua ejus loquétur judícium: lex Dei ejus in corde ipsíus. Ps. Noli æmulári in malignántibus; neque zeláveris faciéntes iniquitátem.A boca do justo fala a sabedoria e a sua língua profere a equidade. A lei de seu Deus está em seu coração. Sl. Não te irrites por causa dos maus, nem tenhas inveja dos que praticam a iniquidade.
Nascido em Vercelli no ano de 1085, de nobilíssima linhagem, São Guilherme compreendeu desde cedo a fugacidade das honras terrenas, voltando o seu coração inteiramente para as promessas celestiais. Ainda no frescor da juventude, aos quinze anos, vestiu o sagrado hábito monástico, trocando os veludos do século pela salutar aspereza da penitência. Em dócil obediência a uma inspiração divina, erigiu sua morada espiritual em Montevergine no ano de 1128, onde congregou almas sedentas de Deus para fundar a ordem dos Eremitas Beneditinos, colocando-os sob o olhar maternal da Virgem Puríssima. Qual tocha a inflamar os corações entorpecidos, peregrinou incansavelmente fundando mosteiros, até entregar sua alma purificada ao Criador em Goleto, aos vinte e cinco dias de junho de 1142. Suas preciosas relíquias, transladadas com grande devoção no século XIX, repousam hoje gloriosamente no altar da montanha santa, no Santuário de Montevergine, sendo este insigne abade venerado pelos Papas como augusto padroeiro da região da Irpínia.
"Eis que abandonamos tudo e Vos seguimos: que recompensa haverá então para nós?" Eis a pergunta que ecoa nos lábios do Príncipe dos Apóstolos no Evangelho de hoje, e eis o grito silencioso que pautou toda a existência do venerável São Guilherme. Vivemos, amados irmãos, dias tenebrosos em que o espírito do mundo, inebriado pelo comodismo e sedento por incessantes aplausos, tenta violar o sagrado recinto do santuário. Observai como o nosso século detesta o patíbulo da Cruz! Como foge da mortificação e, com lábios adocicados por inovações sutis, ousa rebaixar a majestade dos mistérios invisíveis à medida estreita das fraquezas humanas. Há quem pretenda transformar a religião do Calvário numa assembleia terrena, diluindo as verdades eternas na esperança vã de agradar à multidão, buscando os sorrisos fugazes dos homens em detrimento do temor reverencial devido ao Juiz Supremo. Mas o que nos ensina o grande Abade de Montevergine? Todo autêntico amigo de Deus é suscitado pelos Céus como uma espada afiada contra as cegueiras de sua época. Contra a epidemia da vaidade, contra este falso cristianismo que repudia o sacrifício, São Guilherme levanta altivo o estandarte do desapego total. Ele foge das cortes de Vercelli não por odiar a criação, mas por reconhecer que as facilidades seculares são âncoras pesadas, prontas a naufragar o navio da alma nos pântanos da perdição! A Epístola clama maravilhosamente que o Senhor lhe deu, face a face, a lei da vida e da doutrina. E onde ele bebeu desta puríssima doutrina? No silêncio vertiginoso do mosteiro, na contemplação estrita do Altar, lá onde a hóstia imaculada é oferecida, imune aos aplausos corrompidos da praça pública. Acaso não vedes o formidável contraste? A terra bajula e, no fim, oferece apenas pó e esquecimento; o Céu exige renúncia, mas coroa os seus eleitos com os doze tronos de julgamento e a vida imortal. A sagrada liturgia que hoje celebramos não é uma encenação teatral ou a simples memória de um eremita extinto. É um brado de alerta! Ao contemplardes o sacerdote paramentado subir os degraus do altar, despertai vossas almas do sono do comodismo mundano. Rompei com as amarras das complacências terrenas e agarrai-vos à inalterável fé de nossos pais, para que, suportando com amor o peso suave da lei divina, possais receber com São Guilherme o cêntuplo da glória no esplendor da eternidade.