A anatomia da mentalidade revolucionária e seus ecos modernos
A mentalidade revolucionária não consiste simplesmente em defender um determinado conteúdo político, mas, antes de tudo, na presunção de pretender fabricar deliberadamente uma nova sociedade segundo um plano concebido previamente. Substituir uma proposta revolucionária por outra de conteúdo supostamente cristão não resolve o problema: se há a imaginação de que se pode desenhar uma "sociedade cristã" no papel, implantá-la e submetê-la à execução de um projeto político abrangente e mecânico, o raciocínio continua operando segundo a mesma lógica subversiva. A questão fundamental, portanto, não é apenas combater esta ou aquela ideologia nefasta, mas erradicar a própria estrutura mental que pretende reconstruir a ordem natural a partir de um projeto puramente humano.
Há nessa crítica uma premissa teológica e canônica de suma importância. Uma sociedade não é uma máquina que possa ser inteiramente projetada por um comitê de intelectuais ou burocratas, assim como a religião não é uma invenção maleável às conveniências do tempo. A sociedade resulta da ação acumulada de incontáveis pessoas, famílias, instituições, costumes, tradições, circunstâncias históricas e relações que nenhum planejador central consegue conhecer ou controlar integralmente. Pretender inventar uma sociedade é uma forma de racionalismo político agudo: é supor que a inteligência de alguns homens pode usurpar a complexidade da vida social e substituí-la por uma construção deliberada, de forma muito semelhante ao modo como, nas últimas décadas, se tentou substituir a venerável liturgia herdada dos Apóstolos por ritos de laboratório, fabricados por comitês para atender às demandas do homem moderno.
Por isso, a pergunta sobre qual sociedade deve ser "construída" já carrega uma premissa equivocada. Antes de inquirir que sociedade se deve fabricar, é necessário perguntar quais princípios objetivos devem orientar os homens concretos em suas circunstâncias materiais e espirituais. A doutrina cristã, em toda a sua perenidade, não se propõe a fornecer um manual de administração pública ou um projeto arquitetônico completo da sociedade civil. Ela fornece princípios imutáveis, limites morais rigorosos e critérios infalíveis de julgamento. O catolicismo, em suma, não é uma fórmula de engenharia social.
A própria distinção lapidar ensinada por Nosso Senhor (Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus) impede a identificação simplista e herética entre a salvação das almas e a construção de uma determinada ordem política terrena. A sociedade, enquanto realidade temporal, não é aquilo que o Verbo Encarnado veio salvar diretamente; Ele veio redimir as almas. Uma sociedade pode, sem dúvida, favorecer ou dificultar a vida da graça, pode ser mais justa e alinhada ao direito natural ou mais perversa, pode conservar costumes sadios ou promover a depravação institucionalizada; contudo, não existe regime político capaz de substituir o imperativo da conversão individual e da submissão do intelecto à Revelação.
O racionalismo político e a ilusão dos sistemas de poder
A constatação de que a salvação não se dá pela política não significa, evidentemente, que a Igreja deva ser indiferente à ordem temporal. A verdadeira ortodoxia jamais precisou recorrer à ideia de uma sociedade artificialmente "fabricada" para reconhecer, com clareza cristalina, que a política, o direito, a educação, a família e os costumes devem dobrar os joelhos perante a lei moral e o Reinado Social de Cristo. A Igreja sempre ensinou princípios objetivos sobre a ordem social, mas uma coisa é reconhecer e aplicar uma ordem moral objetiva e pré-existente; outra, de natureza essencialmente gnóstica, é imaginar que se pode construir do zero uma sociedade perfeita mediante um programa utópico.
Essa distinção é o divisor de águas, pois a mentalidade revolucionária sobrevive mesmo quando troca suas vestes externas. É perfeitamente possível abandonar o socialismo espúrio, o liberalismo maçônico ou qualquer outra ideologia moderna e, ainda assim, conservar intacta a estrutura mental que os gerou: a convicção orgulhosa de que basta descobrir o modelo teórico correto, aparelhar os instrumentos do Estado e impor esse modelo à realidade. Quando se age assim, muda-se a retórica da revolução, mas conserva-se a sua forma intrínseca. Trata-se do esforço fútil de combater um vírus produzindo uma nova variante da mesma doença.
A consequência prática e prudencial dessa crítica é uma desconfiança salutar e vigorosa em relação aos grandes projetos de transformação social. Quanto mais abrangente e utópico for o plano, maior será o abismo entre os planejadores de gabinete e as pessoas reais que sofrerão os efeitos de suas abstrações. Os arquitetos de tais ambições frequentemente já estarão mortos quando os desastres de suas engenharias vierem à tona, isentando-se de qualquer responsabilidade pessoal perante os tribunais humanos. O escândalo torna-se ainda mais grave quando os projetos são desenhados a longo prazo, deliberadamente ocultados do conhecimento popular e executados por etapas que fogem a qualquer escrutínio moral e público.
A democracia moderna, quando avaliada estritamente em seus próprios termos procedimentais, contém uma espécie de mecanismo prático de mitigação de danos, precisamente porque permite a alternância, a revisão e a tentativa e erro. Governos possuem mandatos temporais, e a possibilidade legal de corrigir os próprios erros e afastar tiranetes burocráticos é uma vantagem prática indiscutível. Um governo, ou uma elite global, que pretenda determinar antecipadamente o destino da sociedade por décadas elimina, por definição, essa possibilidade corretiva, aprisionando as gerações futuras em uma camisa de força ideológica.
Daí decorre que a existência de agendas políticas secretas, ou de estruturas supranacionais despóticas cujos objetivos reais permanecem nas sombras, constitui um agravo imenso à ordem natural. Se os cidadãos participam de um teatro eleitoral, enquanto as verdadeiras diretrizes são ditadas por poderes subordinados a objetivos mais amplos e inconfessáveis, a escolha política dissolve-se em mera ilusão. O indivíduo passa a operar na superfície de um processo cujo horizonte real e nefasto lhe é subtraído.
Todavia, essa justificada crítica à planificação de longo prazo não deve, sob nenhuma hipótese, ser confundida com uma apologia irrestrita da democracia moderna. Do ponto de vista perene e doutrinário, seria um erro grosseiro e um flerte com o indiferentismo concluir que, por possuir alguns freios pragmáticos, a democracia liberal constitua necessariamente o melhor regime político ou, pior ainda, um princípio absoluto de legitimidade. A prerrogativa de criticar governantes e corrigir decisões temporais é um bem prático utilitário, não uma doutrina política dogmática, nem a consumação da ordem social católica.
A restauração orgânica, a formação do intelecto e os limites do poder
A liberdade de censurar duramente os governantes revela uma verdade fundamental da moral católica: o poder político terreno jamais pode ser transformado em objeto de idolatria. O governante é pó e cinza, não o Redentor. Nenhum Estado, nenhuma assembleia secular ou eclesiástica, possui autoridade legítima para exigir que os súditos tratem seus dirigentes temporais como entes infalíveis em matérias prudenciais. Se a autoridade temporal não é absoluta e deve obediência à lei de Deus, muito menos pode ela arrogar-se o direito divino de reorganizar toda a existência humana, desde a família até o altar, segundo as veleidades de um projeto planificado.
A repulsa à sociedade planejada conduz a uma concepção sumamente realista da ação humana. Em vez da soberba de querer resolver simultaneamente a saúde, a economia, a educação, a liturgia, a cultura e todos os dramas da humanidade através de decretos, a verdadeira sabedoria indaga aquilo que está no estrito âmbito do dever de estado de cada indivíduo. A diferença entre a histeria de querer "salvar a sociedade" e o labor austero de cumprir a própria responsabilidade é abissal. A segunda atitude, radicada na virtude, é realista e, contra as expectativas mundanas, produz frutos muito mais duradouros.
Neste contexto de ruína institucional, a restauração intelectual antecede qualquer programa político. Em vez de tentar fabricar burocratas para uma nova utopia, o dever impõe a elevação do intelecto, a formação de mentes capazes de apreender a filosofia perene, de distinguir com clareza tomista a verdade do erro, e de identificar a propaganda subversiva, mesmo quando esta se traveste com o vocabulário da "misericórdia" ou da "renovação". Esta é uma missão árdua, pois exige a forja de caracteres genuínos, não a mera promulgação de textos legais vazios.
Emerge aqui uma constatação inescapável: a reforma da sociedade civil - assim como a restauração no âmbito religioso - não se faz primeiramente por documentos ou constituições, mas pela ordenação moral dos homens. Uma geração de intelectos embotados pelos erros modernos produzirá inevitavelmente instituições corrompidas, ainda que lhes seja entregue uma carta magna impecável. Por outro lado, almas formadas na doutrina sólida e na graça santificante poderão sustentar o bem e a fé autêntica mesmo quando exiladas em meio a instituições profundamente defectíveis ou usurpadas.
A história está repleta de testemunhos de virtude heroica sob regimes execráveis. A injustiça estrutural não tem o condão de aniquilar a graça, assim como o conforto material propiciado por regimes brandos não injeta virtude nas almas. Pelo contrário, uma sociedade saturada de direitos permissivos e opulência frequentemente acelera a corrupção do caráter, entronizando o hedonismo como critério supremo. A métrica definitiva não é apenas qual sistema rege a pólis, mas qual qualidade de alma está sendo forjada ali.
Essa clareza impõe uma regra prudencial no trato social: a caridade não é sinônimo de credulidade. A benevolência permite que a verdadeira natureza do outro se revele. A caridade cristã, ao contrário do sentimentalismo moderno, não exige a negação da existência do mal ou do erro manifesto; ela exige que o mal seja julgado com justiça depois de evidenciado, sem presunções temerárias, mas com firmeza inabalável. Tratar o erro com indulgência não é virtude, é cumplicidade.
Toda ação social reta exige, portanto, a limitação dos mecanismos de poder centralizado que asfixiam a iniciativa natural das famílias e associações menores. O dilema não é trocar uma administração tirânica por uma "melhor", mas questionar a própria necessidade dessa expansão administrativa. A cura para os males modernos frequentemente exige menos regulação, menos estruturas globais e o absoluto desmantelamento das interferências estatais sobre a família e a Igreja.
Contudo, não se deve incorrer no erro rousseauniano de achar que a sociedade é um organismo puramente espontâneo e livre de coerções. A desigualdade entre os homens é um fato natural e histórico, e o acúmulo de poder pode gerar distorções avassaladoras. A técnica moderna forneceu aos arquitetos do poder ferramentas de controle populacional, vigilância e condicionamento psicológico que fariam inveja aos tiranos da antiguidade. O perigo contemporâneo ultrapassa as velhas insurreições de barricada; ele reside nas reformas administrativas, na engenharia social e nos programas globais que tratam as multidões como rebanho a ser classificado e moldado.
O antídoto contra essa moléstia mental exige a rejeição categórica do jargão moderno. O vocabulário que fala em "construir", "reinventar" ou "ressignificar" a sociedade e a religião a partir do zero deve ser purgado. O homem é criatura, não o Criador, e a ordem natural não é matéria-prima amorfa à disposição de hereges ou tecnocratas. A prudência exige curvar-se diante dos limites intransponíveis da inteligência e do poder humanos.
Há, de fato, a tentação constante de reduzir a Fé a uma mera cartilha de organização social, buscando impregnar a sociedade secular de princípios cristãos sem a necessária conversão interior. Não há necessidade alguma de rotular artificialmente um Estado de "cristão" se ele é uma casca vazia. O que urge é a existência de católicos íntegros, de famílias piedosas e juristas formados na reta razão, que ajam no mundo secular balizados pelo magistério de sempre. A majestosa Cristandade medieval não brotou de um planejamento burocrático; ela floresceu organicamente, irrigada pelo Sangue do sacrifício perfeito, pela integridade doutrinal, e pela ação santificadora da única Igreja verdadeira, que moldou os costumes ao longo dos séculos.
Rejeitar a pretensão revolucionária não significa conformismo, mas o reconhecimento de que a ordem civil deve submeter-se à Lei Eterna. O combate real não é a disputa trivial para ver qual facção utópica dominará o aparato do Estado. A verdadeira peleja consiste em pulverizar a mentira de que a humanidade pode erigir o paraíso na terra por suas próprias forças. A verdadeira civilização cristã, histórica e concreta, não é uma utopia de laboratório, mas uma obra contínua de restauração da ordem natural à luz de verdades divinas que jamais foram - e jamais poderiam ser - inventadas por mentes humanas.
Baseado em palestra de Olavo de Carvalho.