Introito - Dóminus illuminátio mea et salus mea, quem timébo? Dóminus defénsor vitæ meæ, a quo trepidábo? Qui tríbulant me inimíci mei, ipsi infirmáti sunt, et cecidérunt. Si consístant advérsum me castra: non timébit cor meum.O Senhor é a minha luz e a minha salvação: a quem, pois, temerei? O Senhor é o defensor da minha vida: quem poderá intimidar-me? Meus inimigos, que me atribulam, enfraqueceram e caíram. Ainda que um exército me cercasse, o meu coração não temeria.
No desenrolar orgânico do Tempo depois de Pentecostes, a Liturgia nos convida a contemplar o vasto oceano da história, pelo qual navega a invicta Barca de Pedro. Não estamos mais envoltos no esplendor fugaz das grandes festas pascais, mas no labor cotidiano da Igreja militante, que, sustentada pelo sopro do Espírito Santo, lança as redes da salvação nas águas turvas e agitadas deste mundo. É o tempo do combate espiritual, da paciência apostólica e da confiança absoluta na providência divina que tudo governa. Para compreendermos a magnitude deste mistério, o nosso espírito peregrina até a venerável Basílica de São João de Latrão em Roma, a Mãe e Cabeça de todas as igrejas do orbe, símbolo visível da autoridade que, ancorada na palavra de Cristo, jamais afundará sob o peso das ondas, lembrando a cada católico que a verdadeira segurança não se encontra nas praias ilusórias deste século, mas no robusto madeiro da Cruz.
Olhai, amados irmãos, para a barca fatigada de Simão Pedro às margens do lago de Genesaré. "Trabalhamos toda a noite e nada apanhamos", lamenta o humilde pescador. Acaso não é este o retrato fiel e doloroso da nossa miserável humanidade quando confia apenas em suas próprias habilidades diplomáticas e terrenas? Vemos, nestes dias tenebrosos, uma multidão de almas que, apavoradas pelas tempestades da época, tentam pescar os corações dos homens utilizando as redes apodrecidas da sabedoria mundana. Para não desagradar os paladares adoecidos de uma geração que foge da penitência e abomina o cálice do sacrifício, buscam conformar o altar às praças ruidosas deste século. Inventam para si lisonjeadores que afagam seus ouvidos com promessas de um cristianismo fácil, tentando transformar a sagrada e sobrenatural Noiva de Cristo em uma mera agência filantrópica. Injetam no seio da comunidade falsidades travestidas de misericórdia, esvaziando o rigor da cruz em prol de efêmeros aplausos humanos. Mas o que nos ordena o Mestre divino perante este abismo de covardia? Ele não manda adaptar a barca à terra firme; Ele comanda com majestade: "Faze-te ao largo!" Ide para as águas profundas do mistério, da graça invisível, da verdade que não se curva aos ditames de uma época apodrecida! É somente pela submissão dócil à palavra do Salvador, e não por vãs concessões ao espírito do mundo, que a rede se enche com a pesca divina. Bem nos adverte o Apóstolo na Epístola de hoje: a criação inteira geme e sofre dores de parto. E por que geme a criação, senão pela desordem do pecado e pela recusa da ordem sobrenatural? A criatura anseia pela manifestação dos autênticos filhos de Deus, não por reformadores de gabinete. E vós, cristãos chamados à realeza eterna, ireis trocar a glória incomensurável que vos aguarda – a qual fará empalidecer todos os sofrimentos presentes – pelas fábulas rasteiras de uma sociedade em ruínas? Diante da pesca milagrosa, São Pedro cai de joelhos, fulminado pela majestade do milagre, e confessa a sua miséria: "Afastai-Vos de mim, Senhor, que sou homem pecador". Que este seja o nosso clamor! Reconheçamos o nosso nada perante os santos mistérios do Altar, onde o próprio Cristo sobe à barca da nossa alma. Rejeitemos as inovações venenosas e as sutis alterações de doutrina que pretendem dessacralizar a nossa fé. Confiemos Naquele que a antífona do Introito proclama como nossa Luz e Salvação, pois quando os inimigos visíveis e invisíveis investirem contra o pequeno rebanho, eles mesmos tropeçarão no abismo de sua própria vacuidade. Lancemos as redes nas águas profundas da tradição sem nenhum temor, deixando para trás as margens rasas do apego terrestre, para seguir Aquele que transforma a nossa absoluta miséria no instrumento invencível de sua glória.