Introito - Salve, sancta Parens, eníxa puérpera Regem: qui cælum terrámque regit in sǽcula sæculórum. Sl. Eructávit cor meum verbum bonum: dico ego ópera mea Regi.Salve, ó santa Mãe, em cujo seio foi gerado o Rei que governa o céu e a terra, em todos os séculos. Sl. Exulta meu coração em alegre canto: ao Rei dedico as minhas obras.
Neste dia puríssimo, a Santa Igreja exulta de júbilo ao celebrar o mistério da Visitação da Santíssima Virgem Maria à sua prima Santa Isabel. Instituída pelo Papa Urbano VI no século XIV para implorar a paz celestial durante as tormentas e divisões que dilaceravam a unidade do rebanho de Cristo, esta festividade coroa o tempo em que a Arca da Nova Aliança permaneceu nas montanhas de Judá. Após a inefável Anunciação, a Mãe de Deus não se encerrou em contemplação estéril nem em descanso vaidoso, mas, movida pelo sopro impetuoso do Espírito Santo, transpôs apressadamente as elevações rochosas para servir. Ela carrega em seu seio imaculado Aquele que os céus não podem conter, para santificar o Precursor antes mesmo de seu nascimento. Convidando-nos a elevar nossos corações e a rejeitar as misérias da terra, a Liturgia nos conduz espiritualmente aos esplendores da Basílica de Santa Maria Maior, onde, prostrados diante da realeza maternal da Mãe de Deus, reconhecemos que a verdadeira soberania da criatura reside na entrega obediente aos desígnios do Verbo Encarnado.
Ouçamos, ó almas resgatadas pelo Cordeiro, o eco suave e irresistível que ressoa nas montanhas de Judá! A Epístola nos descortina um cenário de beleza arrebatadora: o inverno tenebroso passou, as chuvas de lágrimas cessaram, e o Esposo divino convoca a Sua pomba imaculada. Eis a Virgem Mãe, que corre apressada, não fugindo dos sacrifícios, mas abraçando a aspereza do caminho para levar a Fonte da Vida à casa de Zacarias. Como é formidável o abismo que separa a prontidão ardente desta humilde Serva da covardia calculista de nossa época! Contemplai o espírito do nosso século, mergulhado na lama de suas facilidades e aterrorizado por qualquer sombra de sofrimento: foge da rudeza da Cruz, rejeita a sobriedade da sã doutrina e prefere as ilusões efêmeras do mundo à glória incorruptível da eternidade. Mais doloroso ainda é ver como este horror ao sacrifício e à verdade sem mancha penetrou nas almas que deveriam defender o santuário! Quantas vezes vemos a Fé adulterada por astúcias sutis, moldada para acariciar os ouvidos das praças, numa tentativa funesta de obter o aplauso de homens em vez de buscar o agrado de Deus? Mas a Virgem Santíssima esmaga sob seu calcanhar toda essa dissimulação e vaidade! Ao transpor os umbrais daquela casa, ela não profere discursos vãos. O Santo Evangelho revela que o simples som de sua voz, portadora da Verdade oculta, faz o recém-formado Precursor estremecer de júbilo, provando, como bem nos recordam os Santos Padres, que a ação silenciosa da graça fulmina o império do pecado. Maria não se exalta por sua altíssima dignidade; antes, como ensinam os grandes Doutores da Igreja, desce ao trabalho de escrava, mostrando que a fé inabalável transborda invariavelmente em caridade heroica. A Religião Católica não é um conforto sentimental, mas um fogo devorador que nos arranca da terra e nos precipita no Céu! Despertemos de nosso letargo! Quando os sinos tocam e o sacerdote sobe os degraus do altar para o Divino Sacrifício, é Cristo que vem visitar a nossa indigência. Que a Virgem da Visitação dissipe o inverno gelado de nossas infidelidades, para que, imitando a sua inegociável fidelidade a Deus, possamos entoar um Magnificat sincero e glorificar Aquele que derruba os soberbos de seus tronos e exalta os humildes até as estrelas!