Quando a gente senta em uma poltrona confortável para meditar sobre o Evangelho de São Lucas, logo ali onde ele narra o anúncio do nascimento de São João Batista, é difícil não se deixar cativar pela profundidade do mistério que se desenrola diante de nossos olhos. O curioso da natureza humana, no entanto, é a nossa facilidade em transformar ouro em chumbo. Hoje em dia, a festa de um santo da envergadura de São João Batista foi reduzida a um amontoado de folclore: são apenas festas juninas, bandeirolas, doces, fogueiras e um bocado de diversão superficial. Aquele sentido religioso profundo, que nossos antepassados capturavam de forma tão natural através de uma liturgia celebrada com o devido respeito e da escuta atenta da Palavra de Deus, parece ter escapado por entre os dedos desta geração. E, convenhamos, é urgente recuperar esse entendimento antes que esqueçamos do que se trata a religião.
O bom e velho doutor Lucas nos situa nos dias de Herodes, apresentando o sacerdote Zacarias, da classe de Abias, e sua esposa Isabel, descendente da família de Aarão. Ambos pertenciam à velha tribo sacerdotal dos levitas, gente separada pelo próprio Deus para o serviço exclusivo do altar. É exatamente aqui que esbarramos em uma daquelas verdades que não aceitam remendos: a religião verdadeira exige, sem sombra de dúvida, um sacerdócio ordenado. Não se trata daquela invenção imaginativa de Martinho Lutero, que cismou que qualquer fiel carrega um sacerdócio universal no bolso. No Antigo Testamento, a coisa funcionava pela via carnal, um ofício passado de pai para filho como quem herda um relógio de bolso. No Novo Testamento, porém, a elevação é espiritual. O sacerdócio nos chega pela ordenação através das mãos dos bispos em linha ininterrupta de sucessão apostólica, firmemente amarrado ao sacerdócio eterno de Cristo. E o centro visível de toda essa engrenagem de unidade, é claro, é a figura do Papa.
A lógica peculiar de reconhecer um papa e ignorar suas ordens
Esse detalhe da unidade apostólica é um prato cheio para observarmos as contradições dos nossos dias. Você simplesmente não pode fatiar a Igreja, tentando separar o sacerdócio de Cristo da comunhão com um Papa legítimo. Tome como exemplo as tentativas curiosas de certos grupos, como a Fraternidade São Pio X. Eles insistem em sagrar bispos contrariando frontalmente a vontade do homem que eles próprios reconhecem como Sumo Pontífice. É um contorcionismo lógico admirável, porém absurdo, que merece toda a censura possível. Se a Sé de Roma permanece sem um ocupante legítimo por força das circunstâncias e da dura necessidade dos nossos tempos, a lógica e a teologia católica continuam exigindo a mais estrita obediência aos princípios da unidade apostólica. Na religião dos antigos judeus, o sinal de unidade era aquele único e imponente Templo de tijolo e pedra em Jerusalém. Na nossa, a unidade não é um endereço postal, mas a pessoa de Pedro e a integridade de sua confissão de fé. Afinal, o Mestre não disse que edificaria sua Igreja sobre um prédio na Itália, mas sim: "Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja".
Se você conseguir colocar essa ideia na cabeça, todo o resto do panorama religioso ganha uma clareza cristalina. O catolicismo é a única religião verdadeira por um motivo muito simples: o Criador só se deu ao trabalho de revelar uma única religião, e não um cardápio variado para agradar a todos os gostos. O judaísmo que vemos por aí hoje perdeu o trem da história, pois a Antiga Aliança já cumpriu seu papel e foi substituída por uma edição aperfeiçoada. As seitas protestantes são igualmente falsas, fruto não de uma sucessão legítima, mas da rebeldia e da interpretação muito criativa de alguns sujeitos que se autoproclamaram reformadores. Quanto ao islamismo e às religiões pagãs, a situação é ainda mais precária, pois estão tateando no escuro, sem sequer um vislumbre da Revelação divina. A plenitude, com todas as suas letras, só se encontra na Igreja Católica.
Voltando ao nosso Evangelho, deparamo-nos com Zacarias e Isabel, um casal de justos que andava na linha dos mandamentos. O pequeno contratempo é que Isabel era estéril e a juventude de ambos já havia ficado muitas milhas para trás. O nome dela significa "Templo de Deus". Pense na fina ironia da situação: enquanto Zacarias batia ponto servindo em um templo feito de pedra e ouro, sua esposa era, na ordem dos símbolos, o templo vivo. Ambos, envelhecidos e sem frutos, são o retrato falado da Antiga Aliança, que já havia entregue o que prometera; Israel já tinha produzido tudo o que devia. A chegada de João Batista foi o último e gracioso aceno da Antiga Aliança, um favor divino para preparar a Nova. O menino, cujo nome nos lembra que "Deus é misericordioso", não vem ao mundo pelos meios naturais de um casal no vigor da idade, mas surge por pura e irresistível gratuidade divina, já repleto do Espírito Santo antes mesmo de ver a luz do sol.
A arte de abrir mão do bom para alcançar o perfeito
O Anjo Gabriel, quando traz a notícia, não economiza nas previsões. O menino será grande, viverá como nazireu - dispensando o vinho e a cidra -, trará de volta muitos filhos de Israel e marchará com o espírito e a força de Elias. O objetivo de todo esse esforço? Preparar um povo perfeito para o Senhor, endireitando os corações tortos. Essa missão de limpar o terreno não ficou enterrada no passado. Hoje, qualquer homem de batina, religioso, monge ou fiel de boa vontade tem o dever de preparar esse mesmo povo perfeito. E note bem, não estamos falando de preencher formulários legais ou praticar aquela justiça engomada dos fariseus, mas sim de superar a lei seca através do amor genuíno, perdoando os inimigos, dobrando a própria vontade e buscando se unir de verdade ao bom Deus.
A perfeição, como sabemos, cobra um pedágio alto chamado humildade. João Batista entendeu isso melhor do que ninguém. Sendo filho de um sacerdote conceituado, ele tinha o caminho aberto para a glória do Templo. Em vez disso, o homem dá as costas para o conforto, veste-se com pelos de camelo e vai ser a voz que clama na poeira do deserto. Ele renunciou ao prestígio de um sacerdócio garantido pela árvore genealógica para anunciar a chegada de Cristo. Há uma lição duríssima aí para os nossos dias: às vezes, um homem precisa ter a fibra de renunciar até mesmo às coisas boas e sagradas - como os próprios sacramentos ou os ritos tradicionais - para manter intacta sua fidelidade e obediência à verdadeira fé. É exatamente o que fez Santa Hermenegildo, que preferiu o prejuízo a aceitar a comunhão das mãos manchadas dos hereges.
No fim das contas, a economia da graça não opera no mesmo balcão da lógica material que guiava o Antigo Testamento. O céu tem o curioso hábito de, vez ou outra, esvaziar nossos bolsos de bênçãos materiais apenas para nos presentear com bens espirituais de valor incalculável. A Antiga Aliança não foi descartada como lixo; ela foi polida e elevada. Nós mantivemos os sacerdotes, os altares, o aroma do incenso e o nosso rito verdadeiro, mas tudo isso foi içado a um patamar celestial. Tudo aponta diretamente para o Altar eterno, lá em cima, onde Cristo, o único e verdadeiro Sacerdote perfeito, oficia, e onde o nosso incenso sobe para nunca mais se dissipar.