Introito (Sl 32, 11 e 19 | ib., 1) - Cogitatiónes Cordis eius in generatióne et generatiónem, ut éruat a morte ánimas eórum et alat eos in fame. Ps. Exsultáte, justi, in Dómino: rectos decet collaudátio.
A devoção ao Sagrado Coração de Jesus possui raízes profundas na tradição patrística, que desde os primórdios meditou ininterruptamente sobre a ferida aberta no lado do Salvador, de onde nasceram os sacramentos e a própria Igreja. Contudo, essa devoção assumiu sua forma litúrgica e pública sobretudo a partir das revelações a Santa Margarida Maria Alacoque, no século XVII, no mosteiro de Paray-le-Monial. Em um período histórico marcado pelo esfriamento da verdadeira caridade e pela disseminação de heresias gélidas, como o jansenismo, que tentavam afastar as almas da confiança na infinita misericórdia divina, o próprio Cristo interveio pedindo que Seu Coração fosse honrado de modo especial. O Senhor mostrou-Se queixoso das muitas ingratidões que recebe dos homens por quem derramou todo o Seu Sangue. Respondendo a esse apelo e guiada pelo Espírito Santo, a Igreja, através do Papa Pio IX em 1856, estendeu a festa à toda a cristandade. Mais tarde, em 1928, o Papa Pio XI enriqueceu a liturgia com a Missa "Cogitationes Cordis", unindo a celebração do amor redentor ao estrito dever de reparação pelos pecados do mundo. Sendo uma solenidade universal instituída nos tempos modernos, não possui uma antiga estação quaresmal romana; todavia, a piedade católica dirige o seu olhar ao santuário original na França, ou à insigne Basílica do Sagrado Coração de Jesus, em Roma, erigida por São João Bosco a pedido do Papa Leão XIII, como faróis dessa devoção reparadora.
O coração transpassado de Cristo na cruz, revelado com singular profundidade no Evangelho de São João, expõe o abismo do amor divino que não apenas redime a humanidade, mas a convida à mais íntima união. Como nos ensina Santo Agostinho, a água e o sangue que jorram do lado aberto são os sagrados mistérios do batismo e da Eucaristia, através dos quais a Igreja é lavada e indissoluvelmente unida ao seu Esposo. Este amor insondável, narrado pela Epístola, é a plenitude da caridade que excede todo o entendimento, elevando-nos à comunhão trinitária pela fé, conforme bem recorda Santo Tomás de Aquino. Contudo, com profunda amargura, constatamos que os homens modernos já não suportam a sã doutrina e a verdade que brota do lenho redentor. Em vez de se submeterem ao mistério escondido desde o princípio dos séculos, multiplicam mestres e ideologias segundo seus próprios desejos desordenados, preferindo ser levados por fábulas vãs e pelos prazeres fugazes. No seio da própria sociedade cristã, tentam adaptar a Esposa de Cristo aos caprichos da época, corrompendo-a por dentro e diluindo a necessidade de reparação para agradar aos homens e não a Deus. Movidos pela busca frenética da glória humana, rejeitam o sacrifício e o silêncio que emanam do Calvário. Santo Ambrósio ressalta que o coração de Jesus, ferido pela lança, é o verdadeiro e perene trono da misericórdia, onde a justiça inefável e a bondade infinita se abraçam. Diante do mundo que esfria a caridade, precisamos mergulhar na profundidade desse mistério pascal com São Bernardo, compreendendo que a verdadeira adoração exige renunciar ao orgulho e permitir que Cristo habite plenamente em nossos corações, fortalecendo-nos no Espírito Santo para sermos fiéis até a cruz, desprezando as glórias deste mundo em prol da glória vindoura.