domingo, 26 de abril de 2026

† III Domingo depois da Páscoa • A tristeza passageira e a alegria imperecível dos peregrinos

[LA] O Tempo Pascal é a celebração contínua da vitória de Cristo sobre a morte, mas, à medida que avançamos nestes domingos, a Igreja inicia uma transição espiritual fundamental. O Terceiro Domingo depois da Páscoa marca historicamente este ponto de virada, onde a exultação pura da Ressurreição começa a se mesclar com a preparação para a Ascensão do Senhor e a expectativa da vinda do Espírito Santo no Pentecostes. Nos primeiros séculos, este período era fortemente dedicado à instrução contínua dos neófitos - os recém-batizados na Vigília Pascal -, que já haviam deposto suas vestes brancas no Domingo de Quasimodo e agora precisavam aprender a viver concretamente a fé em meio a uma sociedade pagã e hostil. A comemoração de hoje, portanto, responde à necessidade de firmar a identidade cristã no mundo, ensinando que não pertencemos definitivamente a esta terra. É a celebração da cidadania celestial da Igreja, recordando aos fiéis que a vida presente é um exílio provisório. Assim, este domingo fundamenta a postura da Igreja militante, que, fortalecida pela glória do Ressuscitado, deve suportar as tribulações do tempo presente com os olhos fixos na eternidade, aguardando com paciência o cumprimento definitivo e irrevogável das promessas divinas.

🎵 Introito (Sl 65, 1-2 | ib., 3)

Jubiláte Deo, omnis terra, allelúia: psalmum dícite nómini ejus, allelúia: date glóriam laudi ejus, allelúia, allelúia, allelúia. Ps. Dícite Deo: quam terribília sunt ópera tua, Dómine! In multitúdine virtútis tuæ mentíentur tibi inimíci tui.

Celebrai a Deus, toda a terra, aleluia. Cantai salmos em honra de seu Nome, aleluia. Tributai-Lhe os vossos louvores, aleluia, aleluia, aleluia. Ps. Dizei a Deus: Como são terríveis as vossas obras, Senhor! Por vosso grande poder, até os vossos inimigos Vos tributam louvores.

📜 Epístola (I Pe 2, 11-19)

Caríssimos: Rogo-vos, como estrangeiros e peregrinos que sois neste mundo, que renuncieis aos desejos carnais que combatem contra a alma. Tende um bom procedimento entre os pagãos, para que, em vez de detraírem de vós como de malfeitores, vendo as vossas boas obras, glorifiquem a Deus no dia de sua visita. Sede, pois, submissos a toda instituição humana, por amor de Deus; seja ao rei, como soberano, seja aos governadores, como enviados seus, para castigo dos malfeitores e para louvor dos bons. Porque esta é a vontade de Deus, que praticando o bem, façais emudecer a ignorância dos homens insensatos. Vivei como homens livres, mas não como fazendo da liberdade um véu da malícia, e sim como servos de Deus. Honrai a todos; amai a vossos irmãos; temei a Deus; respeitai o rei. Servos, sede obedientes com todo o temor a vossos senhores, não somente aos bons e moderados, como também aos geniosos. Porque isto é uma graça no Cristo Jesus, Senhor nosso.

📖 Evangelho (Jo 16, 16-22)

Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: Ainda um pouco de tempo e já não me vereis; mais um pouco de tempo e me tornareis a ver porque vou ao Pai. Disseram então alguns dos seus discípulos entre si: Que é isto que Ele nos diz? Ainda um pouco de tempo e não me vereis; mais um pouco de tempo e me tornareis a ver, porque vou ao Pai? Diziam pois: Que quer dizer com isso: Um pouco de tempo? Não sabemos o que Ele quer dizer. Conheceu porém Jesus que eles O queriam interrogar, e disse-lhes: Sobre isso discutis entre vós, porque eu disse: Ainda um pouco de tempo e não me vereis; mais um pouco de tempo e me tornareis a ver. Em verdade, em verdade eu vos digo: haveis de chorar e vos lamentar, enquanto o mundo há de se alegrar; vós estareis tristes, mas a vossa tristeza se converterá em gozo. Uma mulher, quando dá à luz, tem tristeza, porque veio a sua hora, mas logo que a criança nasce, já não se lembra da aflição, pela alegria por haver nascido ao mundo um homem. Assim vós outros, agora estais tristes, mas outra vez vos verei; então alegrar-se-á o vosso coração; e ninguém vos há de tirar a vossa alegria.

🕊️ A tristeza passageira e a alegria imperecível dos peregrinos

O Evangelho deste domingo nos apresenta o profundo mistério da ausência e do retorno de Cristo, resumido na enigmática promessa: "Um pouco de tempo e já não me vereis". Santo Agostinho (Sermo 171) nos ensina que esta ausência temporária do Senhor purifica os corações dos discípulos, preparando-os para a verdadeira alegria eterna que supera toda dor terrena. A tristeza que experimentamos no mundo atual, comparada pelo Divino Mestre às dores de parto de uma mulher, é na verdade um processo necessário de purificação. Como expõe São Tomás de Aquino (Commentarium in Ioannem, cap. 16), a alma, ao experimentar a aparente distância do Esposo divino, aprende a desejar a visão beatífica com um ardor muito maior. É a gestação dolorosa de uma realidade gloriosa: a aflição passageira converte-se no gozo imperecível do reencontro. Nossa esperança escatológica baseia-se na certeza inabalável de que a alegria prometida por Cristo será plena, absoluta e, como Ele mesmo garante, ninguém a poderá subtrair de nossas almas.

Diante desta promessa sublime sobre o futuro, a Epístola de São Pedro nos orienta sobre a conduta rigorosa no presente, exortando-nos a viver como "estrangeiros e peregrinos" neste mundo. Se o nosso destino é a alegria eterna e a nossa verdadeira cidadania encontra-se nos céus, os desejos carnais que aprisionam a alma à terra devem ser combatidos com firmeza e constante ascese, conforme bem alerta Santo Ambrósio (De Fide, Lib. 5). A submissão paciente às autoridades e instituições humanas, feita puramente por amor a Deus, torna-se um exercício grandioso de humildade e a imitação perfeita do próprio Cristo em sua dolorosa Paixão. São Gregório Magno (Moralia in Job, Lib. 10) recorda que os justos, ao viverem neste exílio com virtude e obediência, ordenam todas as suas ações terrenas ao fim último da união com o Criador. Suportar as injustiças com paciência e calar a incompreensão dos insensatos através do silêncio eloqüente das boas obras é a maneira autêntica pela qual o cristão testemunha sua liberdade, agindo não com malícia, mas como verdadeiro servo de Deus.

A harmonia perfeita entre a suportação paciente dos males presentes e a esperança inabalável na alegria futura encontra o seu clamor de vitória no Introito da Missa de hoje. Quando a Igreja canta "Jubiláte Deo, omnis terra", ordenando que toda a terra celebre a Deus, ela o faz justamente porque reconhece o triunfo divino oculto por trás das tribulações do tempo presente. O cristão sabe que as "terríveis obras" do Senhor e o seu "grande poder" não se demonstram por uma facilidade cômoda neste mundo, mas pela assombrosa capacidade de transformar o choro da cruz e da peregrinação terrena no brado definitivo de júbilo pascal. O peregrino que sofre a ausência sensível de Deus não se desespera, pois confia na promessa inabalável de que a tristeza gesta a verdadeira alegria. Assim, a alegria cristã não é um vago otimismo mundano, mas a virtude heroica de quem, caminhando como estrangeiro em meio às próprias cruzes, já antecipa em sua alma o louvor glorioso e perpétuo da Pátria Celeste.