Introito - De ventre matris meæ vocávit me Dóminus in nómine meo: et pósuit os meum ut gládium acútum: sub teguménto manus suæ protéxit me, et pósuit me quasi sagíttam eléctam... Bonum est confitéri Dómino: et psállere nómini tuo, Altíssime. O Senhor me chamou por meu nome quando eu ainda estava no seio de minha mãe; tornou minha boca semelhante a uma espada aguda. Protegeu-me à sombra de sua mão, e dispôs-me como flecha escolhida... É bom louvar o Senhor, e cantar salmos ao vosso Nome, ó Altíssimo.
A Natividade de São João Batista é uma celebração de esplendor ímpar no calendário litúrgico, sendo o único santo - além da Virgem Santíssima - cujo nascimento terreno é festejado pela Igreja. Filho de Zacarias e Isabel, João foi santificado no próprio ventre materno ao som da saudação de Maria, saltando de alegria diante da proximidade do Salvador. Ele é o glorioso Precursor, a ponte viva entre as promessas do Antigo Testamento e a consumação do Novo, enviado seis meses antes do Cristo para endireitar as veredas do Senhor. Sua vida de insuperável mortificação no deserto culminou no supremo testemunho do martírio por volta do ano 30, quando sua cabeça foi exigida por Herodes em um banquete de devassidão, selando com sangue a sua fidelidade absoluta à lei de Deus. Em Roma, a majestosa Arquibasílica de São João de Latrão, Mãe e Cabeça de todas as igrejas da Urbe e do Orbe, guarda a memória triunfante deste maior entre os nascidos de mulher, convidando-nos a entrar no santuário com a mesma pureza de espírito exigida pelo Batista nas águas do Jordão.
Contemplemos, amados irmãos, o mistério tremendo que hoje rasga os céus e faz exultar a terra! Por que a Igreja, que costuma celebrar como "nascimento" o dia da morte dos santos, hoje se veste de brancas alegrias para honrar um nascimento carnal? Porque aqui não nasce apenas um menino, mas desponta a estrela da manhã que anuncia o inexorável nascer do Sol da Justiça! Santo Agostinho nos ensina com clareza divina: João é a Voz temporária, mas Cristo é a Palavra eterna; a voz ressoa no silêncio do deserto e logo se apaga para que a Palavra, que é a própria Vida, ecoe para sempre em nossos corações. Olhai para a figura austera deste Precursor e compreendei o mistério da santidade! Cada alma eleita é suscitada pela Providência como uma espada afiada contra as moléstias espirituais de seu próprio século. Em nossos dias, quão frequentemente vemos os corações seduzidos por uma religião de facilidades, buscando contornar a cruz de Cristo com paliativos terrenos! Quão sutilmente penetrou nos templos o afã de agradar às multidões, substituindo a majestade do sacrifício por palavras suaves, amoldando a pureza da fé aos caprichos de um mundo submerso em trevas! Mas João Batista ergue-se hoje como uma coluna de fogo contra essa frouxidão letal. Ele não habita em palácios ornados, nem se veste de tecidos macios para mendigar o sorriso dos governantes; seu leito é a terra dura, e sua veste é tecida pelo rigor da penitência. Como lemos no profeta Isaías, ele é a flecha polida escondida na aljava divina, o instrumento cortante que não cede um milímetro diante do erro. São Gregório Magno nos adverte que João pregou com o exemplo de sua vida a mesma verdade inflexível que bradou com os lábios. Quando nos achegamos ao sagrado Altar, não estamos diante de uma ceia mundana voltada aos afetos humanos, mas no limiar da eternidade, face a face com o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. Não deixeis que o veneno da mornidão apague o vosso fervor litúrgico! Que a voz de João estilhace os ídolos ocultos em vossas almas. Rompei com as ilusões deste século passageiro, trocai as lisonjas dos homens pelo temor santo do Juiz Supremo, e preparai no ermo silencioso de vossa consciência um caminho reto, limpo e pavimentado de lágrimas de contrição, para que o Rei da Glória possa, enfim, reinar soberano em vossas vidas!