Introito - Exáudi, Dómine, vocem meam, qua clamávi ad te: adjútor meus esto, ne derelínquas me, neque despícias me, Deus, salutáris meus. Ps. Dóminus illuminátio mea, et salus mea, quem timébo?Ouvi, Senhor, a minha voz, com que Vos imploro; e sede o meu auxílio; não me abandoneis, nem me desprezeis, ó Deus, meu Salvador. Sl. O Senhor é a minha Luz e a minha Salvação: a quem temerei?
O sagrado Tempo depois de Pentecostes figura a longa peregrinação da Santa Igreja através dos séculos, sustentada pelo fogo do Espírito Santo e nutrida pelo maná da doutrina apostólica. Neste Quinto Domingo, a Liturgia nos conduz ao cume da montanha, onde o Divino Mestre promulga a nova e eterna lei da caridade, rasgando definitivamente o véu do farisaísmo. Não celebramos hoje a memória de um mártir ou confessor específico, mas a própria essência da vocação batismal: a santidade interior que deve arder no peito de cada fiel. É a voz da Esposa de Cristo que ecoa desde as naves da Basílica de São João de Latrão - Mãe e Cabeça de todas as igrejas - clamando por socorro no Introito e preparando suas pedras vivas, as nossas almas, para o sacrifício imaculado, recordando-nos que o verdadeiro culto a Deus exige corações purificados do fermento da inimizade e perfeitamente unidos na ordem sobrenatural.
"Se a vossa justiça não for maior que a dos escribas e fariseus..." Oh, palavras formidáveis que deveriam fazer tremer as colunas de nossos templos e abalar as raízes de nossas almas! O que era, afinal, a justiça daqueles homens? Uma casca reluzente encobrindo um sepulcro fétido; uma obediência de fachada que contabilizava passos, lavagens e moedas, mas que repudiava o sacrifício silencioso do coração. E acaso não assistimos hoje a um espetáculo assustadoramente semelhante? A mentalidade deste nosso século adoecido, inebriada pelas comodidades e sedenta por lisonjas, tenta forjar um cristianismo sem cruz e um altar sem vítima. Introduzem-se, silenciosamente, novidades calculadas que buscam rebaixar o Evangelho aos caprichos humanos; desejam uma religião dócil ao mundo, que prefere colher os sorrisos e os aplausos das multidões a defender a integridade inegociável da doutrina revelada. Transformam a caridade divina num mero humanitarismo rasteiro, numa harmonia puramente sociológica, enquanto a alma sangra, mutilada pelos compromissos com o erro! Mas o esplendor do Evangelho de hoje corta essa ilusão anestésica pela raiz. O Mestre não nos pede a etiqueta refinada dos salões, mas a pureza violenta e radical dos santos. "Se trouxeres a tua oferenda ao altar..." Olhai, meus irmãos, para o altar físico onde em breve repousará o Cálice da Salvação! Como ousaremos apresentar ali nossas orações se carregamos no peito o rancor, a inveja, ou um consentimento velado e covarde aos erros que devastam a fé? O glorioso Santo Agostinho nos desperta deste sono funesto ao alertar que a ira não reconciliada, ou a adesão às mentiras do mundo, erguem um muro de bronze entre nós e a graça, impedindo que nossa oferta suba aos céus. A Epístola ecoa este brado celestial, exortando-nos a padecer pela justiça sem perturbação. Se as falsas luzes do mundo tentam vos arrastar para uma paz ilusória - uma paz morta, construída sobre silêncios culpáveis e concessões doutrinárias - não cedais! Guardai Cristo em vossos corações! Quando o sacerdote elevar a Hóstia imaculada, deixai aos degraus do presbitério todas as vossas afeições terrenas. Reconciliai-vos não apenas com vosso irmão, mas com a inexorável Verdade Eterna, arrancando da alma qualquer faísca de condescendência com as facilidades passageiras, para que o vosso sacrifício interior, unido ao Sangue do Cordeiro, seja um holocausto puro, ardente e formidável aos olhos da Majestade Divina.