Introito - Nunc scio vere, quia misit Dóminus Angelum suum, et erípuit me de manu Heródis, et de omni exspectatióne plebis Judæórum. Ps. Dómine, probásti me, et cognovísti me: tu cognovísti sessiónem meam, et resurrectiónem meam.Agora sei verdadeiramente que Deus enviou o seu anjo e que me salvou das mãos de Herodes e de tudo o que esperava o povo dos Judeus. Sl. Senhor, Vós me provastes e conhecestes! Vós sabeis quando me deito e me levanto.
O culto dos gloriosos príncipes dos Apóstolos, Pedro e Paulo, confunde-se com os próprios alicerces de Roma e da Santa Igreja. Escolhidos pela admirável Providência para transladar o centro do mundo cristão para a capital do império pagão, ambos selaram com o próprio sangue a pregação do Evangelho durante a brutal perseguição de Nero, por volta do ano sessenta e sete. São Pedro, a rocha visível, sofreu a crucifixão de cabeça para baixo e foi sepultado na colina do Vaticano, onde hoje se ergue a imponente Basílica de São Pedro; São Paulo, o Vaso de Eleição e mestre dos gentios, como cidadão romano, foi decapitado na Via Ostiense, repousando na venerável Basílica de São Paulo Extramuros. Desde os primórdios, multidões acorrem a esses sagrados túmulos para retemperar a fé, honrar o martírio e professar a indissolúvel unidade da Igreja Católica Apostólica Romana.
Olhai, meus irmãos, para a majestade desta liturgia, em que o Céu desce para beijar a terra manchada com o sangue dos mártires! O que vemos hoje sobre o altar? Dois homens, um humilde pescador da Galileia e um intrépido fariseu de Tarso, sustentando o peso do universo cristão. Acaso foi a prudência mundana ou a erudição humana que os elevou a tal glória? Não! Como nos recorda Santo Agostinho, foi a fulgurante revelação do Pai das Luzes que arrancou dos lábios de Pedro aquela confissão formidável: "Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo!" É sobre esta rocha inabalável, e não sobre as areias movediças das opiniões humanas, que o Salvador edificou o Seu redil. Em uma época febril que se embriaga com as lisonjas passageiras, que detesta a aspereza do sacrifício e se afana por adaptar o Evangelho aos caprichos de um mundo em ruínas - preferindo aplausos perecíveis à aprovação do Juiz Supremo -, a figura de Pedro agrilhoado no cárcere ressurge para nos despertar. Herodes, imagem nefasta do espírito mundano, encarcera a verdade; porém, a Igreja, de joelhos e em oração incessante, rompe os grilhões do inferno. Vede a luz celestial que invade a cela escura! O anjo não pede permissão aos tiranos; ele desperta o Pastor e as correntes caem. Santo Ambrósio nos ensina que a força da Igreja jamais residirá nos acordos políticos ou nas concessões covardes, mas unicamente na intervenção do Alto. E que diremos das Chaves do Reino? São Leão Magno nos adverte que este tesouro incalculável foi confiado a Pedro não para que a Esposa de Cristo se conformasse às vaidades terrenas, mas para abrir os portões da eternidade às almas cativas do pecado. A sublime vocação destes dois príncipes - um empunhando as chaves da graça, outro a espada do espírito - não brotou do conforto, mas do embate feroz contra as falsidades insidiosas que ameaçavam sufocar o rebanho nascente. Eles enfrentaram a tirania de Roma e as sutis perfídias internas para preservar intacto o depósito da fé, custasse o que custasse. Acaso não percebeis, ó almas remidas, o forte contraste? Enquanto os palácios dos césares ruíram e os impérios se tornaram pó, a barca de Pedro continua a navegar através das tempestades, guiada pelo Vaso de Eleição e pela Rocha inquebrantável. Refugiemo-nos, pois, sob o manto desta fé apostólica! Que o nosso coração não se deixe seduzir pelos lobos disfarçados que buscam diluir o rigor e a majestade do Evangelho. Amemos a Roma Eterna, veneremos os dogmas ensanguentados pelo martírio, e supliquemos que, desatados pela autoridade de Pedro nesta terra de exílio, possamos um dia adentrar o Reino onde a graça coroa a eternidade e a luz sepulta para sempre as trevas!