terça-feira, 7 de abril de 2026

† Terça-feira da oitava da Páscoa
A paz do ressuscitado e a água da sabedoria

[LA] A Terça-feira da Oitava de Páscoa dá continuidade à máxima solenidade da liturgia católica, prolongando o júbilo inefável da Ressurreição do Senhor. Na tradição imemorial da Igreja, a oitava inteira é considerada como um único dia de festa, o "dia que o Senhor fez". Este período era fundamental para os neófitos, os recém-batizados na grande Vigília Pascal, que participavam diariamente da liturgia revestidos com suas cândidas túnicas brancas, recebendo a profunda catequese mistagógica sobre os sacramentos que haviam recebido. A sagrada liturgia de hoje os recorda da "água da sabedoria" celestial que beberam nas fontes batismais. Tradicionalmente, a estação romana deste dia ocorre na Basílica de São Paulo Extramuros. É sobremodo significativo que a Igreja militante se dirija ao glorioso túmulo do Apóstolo dos Gentios nesta terça-feira, pois a Epístola da missa traz justamente o primeiro grande discurso de São Paulo, proferido em Antioquia da Pisídia, onde ele anuncia vigorosamente a ressurreição de Cristo Jesus como o cumprimento definitivo e perfeito de todas as promessas divinas.

🎵 Introito (Eclo 15, 3-4 | Sl 104, 1)

Aqua sapiéntiæ potávit eos, allelúia: firmábitur in illis, et non flectétur, allelúia: et exaltábit eos in ætérnum, allelúia, allelúia. Ps. Confitémini Dómino, et invocáte nomen ejus: annuntiáte inter gentes ópera ejus. V. Glória Patri.

O Senhor deu-lhes a beber a água da sabedoria, aleluia: ela se firmará neles, e não se dobrarão, aleluia: e os exaltará eternamente, aleluia, aleluia. Sl. Louvai ao Senhor, e invocai o seu Nome: anunciai as suas obras entre as nações. V. Glória ao Pai.

📖 Epístola (At 13, 16. 26-33)

Naqueles dias, levantou-se Paulo e fazendo sinal com a mão para pedir silêncio, disse: Meus irmãos, descendentes da estirpe de Abraão e os que entre vós temem a Deus, a vós é que foi enviada esta palavra de salvação. Porque os habitantes de Jerusalém e os seus príncipes, não conhecendo a Jesus, nem as vozes dos Profetas que em cada sábado se leem, condenando-O, as cumpriram. Não encontrando n'Ele nenhuma causa de morte, pediram a Pilatos que Lhe tirasse a vida. Depois, tendo consumado todas as coisas que estavam escritas acerca de Jesus, desceram-No do madeiro, e O puseram em um sepulcro. Deus, porém, O ressuscitou dos mortos ao terceiro dia; e Jesus foi visto muitos dias por aqueles que tinham ido juntamente com Ele da Galileia a Jerusalém. Estes até agora são suas testemunhas ao povo. E nós vos anunciamos que aquela promessa feita a nossos pais, Deus a cumpriu para os nossos filhos, pela ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo.

📖 Evangelho (Lc 24, 36-47)

Naquele tempo, apareceu Jesus no meio de seus discípulos e disse-lhes: A paz seja convosco. Sou eu, não temais. Perturbados porém, e espantados, eles julgaram ver um espírito. E Ele lhes disse: Por que estais perturbados e que pensamentos são esses que vos surgem nos corações? Olhai as minhas mãos e os meus pés, pois sou eu mesmo. Apalpai e vede, porque um espirito não tem carne nem ossos, como vedes que eu tenho. E dizendo isto, mostrou-lhes as mãos e os pés. Como porém, eles não acreditassem ainda, cheios de alegria e admiração, Jesus disse-lhes: Tende aqui alguma coisa que se coma? Apresentaram-Lhe uma posta de peixe assado e um favo de mel. E tendo comido, à vista deles, tomando as sobras, deu-lhas. Disse-lhes depois: Estas são as palavras que vos disse quando ainda estava convosco, porque era preciso que se cumprisse tudo o que de Mim estava escrito na lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos. Então lhes abriu o entendimento para compreenderem as escrituras. E disse-lhes: Assim está escrito, e assim era necessário que o Cristo padecesse e ressuscitasse dos mortos ao terceiro dia: e em seu Nome deve ser pregada a penitência e remissão dos pecados a todas as nações.

🕊️ A paz do ressuscitado e a água da sabedoria

O Evangelho de São Lucas nos transporta para o íntimo do Cenáculo, onde o Cristo Ressuscitado, atravessando as portas fechadas, se põe no meio de seus discípulos atemorizados e lhes oferece o dom supremo de sua vitória sobre a morte: "A paz seja convosco". Como ensina São Cirilo de Alexandria em seus comentários, a paz deixada por Cristo não é um mero cumprimento humano, mas a própria comunicação da natureza divina e da graça santificante, pois Deus é a própria Paz que une os corações, curando as profundas divisões e feridas causadas pelo pecado e pela incredulidade. Diante da perturbação profunda dos apóstolos, que por instantes imaginaram contemplar um fantasma, Jesus age com infinita condescendência para com a fraqueza humana. Ele não apenas permite que toquem suas chagas gloriosas, mas se digna a comer diante deles um pedaço de peixe e um favo de mel. São Beda, o Venerável, reflete maravilhosamente sobre o motivo pelo qual o Redentor manteve as chagas em seu corpo glorioso: Ele não apagou os sinais de sua Paixão por um tríplice desígnio de amor e justiça. As feridas sagradas foram conservadas para confirmar definitivamente a fé na ressurreição da verdadeira carne, para serem apresentadas continuamente diante do Pai em sua intercessão sacerdotal por nós, e para gravar perpetuamente diante dos olhos da Igreja a imensidão inconcebível da caridade com que fomos resgatados do inferno.

A Epístola, extraída dos Atos dos Apóstolos, testemunha publicamente a eficácia dessa graça e a coragem inabalável que brota da experiência direta com o Ressuscitado. Vemos São Paulo, na sinagoga de Antioquia da Pisídia, erguer-se para pregar não com as dúvidas que antes paralisavam os apóstolos, mas com a autoridade divina de quem teve o entendimento aberto para as Escrituras. Paulo anuncia aos filhos de Abraão que a morte infame e a glória radiante do Messias são o cumprimento exato da promessa feita aos patriarcas. Santo Agostinho, ao aprofundar este mistério litúrgico, destaca que a ressurreição de Cristo não apenas consolida e dá sentido a todas as profecias do Antigo Testamento, mas estabelece o fundamento sólido sobre o qual a Igreja se apoia como testemunha imortal. A cegueira e a ignorância dos príncipes de Jerusalém, que ao condenarem o Justo apenas cumpriram os oráculos sagrados, serviram maravilhosamente aos misteriosos e insondáveis planos da Providência para a consumação do nosso resgate. É esta certeza irremovível de que Deus cumpriu a promessa ressuscitando Seu Filho que se torna o motor de toda a pregação apostólica e a âncora da nossa salvação.

A harmoniosa ligação entre o fortalecimento da fé apostólica e a grandiosa missão da Igreja encontra sua chave teológica mais sublime e expressiva no canto do Introito desta liturgia pascal: "O Senhor deu-lhes a beber a água da sabedoria". Esta água pura e vivificante, que simboliza o dom do Espírito Santo derramado no santo Batismo e a luz da compreensão das Escrituras outorgada no Evangelho de hoje, inunda a alma cristã. Quando bebemos nas fontes desta sabedoria inesgotável, a promessa divina se cumpre em nós: "ela se firmará neles, e não se dobrarão". Todo o temor pueril, o espanto e a hesitação que inicialmente assombraram o Cenáculo são erradicados e substituídos pelo ímpeto missionário que vemos brilhar na voz de São Paulo. A verdadeira paz comunicada pelo Salvador não nos isenta das aflições temporais, mas fortifica o nosso interior como uma muralha invencível, impedindo que o demônio ou o mundo nos verguem. Alimentados por esta graça e instruídos pelos lábios do próprio Mestre, cada batizado passa a ser instrumento visível e testemunha viva da penitência e da divina remissão dos pecados, glorificando o Nome do Senhor para todo o sempre entre as nações.

🛐 Meditação diária de Santo Afonso Maria de Ligório

🛐 Meditações dos padres da Igreja, organizadas por S. Tomás de Aquino (Catena Aurea) [ES]