A Igreja Católica passou por uma daquelas reviravoltas notáveis no século passado. Bem no meio dessa confusão toda estava a tal da Nouvelle Théologie, a Nova Teologia. Para quem acha que teologia é só poeira de biblioteca, convém notar que foram esses senhores que forneceram toda a planta baixa para o Concílio Vaticano II. Eles desenharam a reforma litúrgica, o ecumenismo e aquela inclinação pastoral para a misericórdia que tomou conta do pedaço hoje em dia.
O retorno às fontes e a nova roupagem
Essa Nova Teologia foi cozinhada por pensadores franceses e alemães, cavalheiros com nomes como Henri de Lubac, Yves Congar, Jean Daniélou e Hans Urs von Balthasar. A grande ideia deles era um tal de ressourcement, que é uma maneira elegante de dizer que iam voltar às fontes: Escrituras, Padres da Igreja e liturgia viva. Tudo isso porque achavam o ensino antigo, aquele neoescolasticismo dos manuais, rígido e antiquado demais para o gosto moderno. Roma, naturalmente, olhou para eles com uma sobrancelha levantada nos anos cinquenta. Mas o vento logo virou. João XXIII resolveu trazê-los para dentro de casa, e não demorou para que estivessem desfilando como peritos de grande influência no Concílio.
Dizer que o Vaticano II teria sido outro bicho sem a Nova Teologia não é exagero nenhum. Aquele espírito festivo de abrir as janelas para o mundo moderno, de bater papo com a cultura do dia e de tratar a história como se fosse o quintal da teologia, tudo isso está entranhado em documentos como Gaudium et Spes, Lumen Gentium e Sacrosanctum Concilium. E a reforma litúrgica, que desaguou no Novus Ordo de Paulo VI, foi o grande troféu da feira. A ideia era que os fiéis participassem mais, falando no seu próprio idioma e resgatando costumes muito antigos, embora qualquer observador atento notasse que o resultado final parecia algo bem diferente da religião que nossos avós conheciam.
O mesmo se deu com o ecumenismo. O senhor Congar foi o homem de frente na criação da Unitatis Redintegratio. O tom da conversa da Igreja com os protestantes mudou da água para o vinho. Em vez de usar palavras velhas como condenação, o pessoal passou a focar no que nos unia, chamando todo mundo de irmãos separados e procurando sinais de santidade onde antes só se via heresia. Dizem que foi uma verdadeira virada copernicana.
E então temos o misericordismo - um termo que alguns usam para resmungar, mas que o pessoal de lá garante vir da mais pura tradição bíblica. Eles decidiram que a condição humana merecia um olhar mais otimista, focado na encarnação no mundo real. Nada de ficar na defensiva com doutrinas duras; o negócio era abraçar o mundo. João Paulo II mais tarde aprofundou a questão na Dives in Misericordia, mas foi no pós-Concílio que essa misericórdia virou a principal ferramenta de trabalho.
Entre luzes, sombras e a tal continuidade
Agora, quando a gente olha para o resultado desse trabalho todo, costumam nos dizer que há luzes e sombras. As luzes, argumentam, seriam o fato de que o Concílio tentou sacudir uma Igreja que parecia trancada no armário enquanto a modernidade e a secularização passavam marchando lá fora. O ar fresco das fontes supostamente valorizou a Bíblia e faria a fé conversar melhor com o homem contemporâneo.
Já as sombras... bem, a prática da coisa conseguiu ir um pouco além da teoria. A reforma litúrgica realizou a proeza de quebrar a espinha dorsal de muita cultura e espiritualidade, esvaziando o sagrado e a identidade do ambiente. O ecumenismo, não raro, escorregou para um clube social ingênuo onde a doutrina vira água com açúcar. E focar quase exclusivamente na misericórdia, esquecendo que a justiça e a verdade também costumavam fazer parte do pacote, acabou deixando a instituição sem muita força para ser aquele velho sinal de contradição no mundo.
Ninguém diz que a Nova Teologia inventou o Vaticano II sozinha - o Concílio teve lá suas múltiplas causas -, mas ela foi, sem dúvida, o fermento da massa. Os defensores apontam orgulhosos para uma maior atividade dos leigos e um diálogo mais simpático com as dores do mundo moderno. Por outro lado, é preciso muita boa vontade para não notar que os seminários vazios, a secularização interna e as divisões atuais têm o dedo dessa herança, por mais que digam ser apenas fruto de interpretações apressadas.
A grande solução proposta atualmente não é admitir que a receita talvez fosse de outra padaria desde o começo, mas sim aplicar a famosa hermenêutica da continuidade, do senhor Bento XVI. A instrução é simples: pegue os textos novos, aperte os olhos, leia-os fingindo que não houve ruptura nenhuma com a Tradição bimilenar e siga em frente. A Nova Teologia já fez seu serviço histórico de renovação. Agora, dizem, cabe à geração atual separar o que deve ser aprofundado do que precisa ser corrigido, num esforço comovente para fingir que a casa ainda é a mesma, ontem, hoje e sempre.