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Santa Escolástica, nascida por volta do ano 480 em Nórcia, na Itália, foi irmã gêmea do grande São Bento, Patriarca do Monaquismo Ocidental, e com ele partilhou não apenas o sangue, mas uma profunda e irrevogável consagração a Deus desde a infância. Consagrada como virgem, seguiu o irmão até Monte Cassino, estabelecendo-se em Plombariola, onde fundou e governou um mosteiro de religiosas sob a regra beneditina, tornando-se mãe espiritual de inúmeras almas. Sua vida foi um testemunho silencioso de oração contínua e amor ardente, sendo o episódio mais célebre de sua biografia, narrado por São Gregório Magno no Livro II dos Diálogos, o seu último encontro com São Bento: sentindo a proximidade da morte, suplicou ao irmão que permanecesse com ela durante a noite para falarem das alegrias celestes, e diante da recusa dele baseada na Regra, Escolástica orou e obteve de Deus uma tempestade torrencial que impediu a partida do abade, provando que "pôde mais, porque amou mais". Faleceu três dias após este encontro, em 10 de fevereiro de 543, e São Bento, de sua cela, viu a alma da irmã elevar-se ao céu em forma de pomba, sinal de sua inocência e simplicidade, sendo ambos sepultados no mesmo túmulo em Monte Cassino, para que a morte não separasse aqueles que o espírito unira em Cristo.
📖 Introito (Sl 44, 8 | ib., 2)
Dilexísti justítiam, et odísti iniquitátem: proptérea unxit te Deus, Deus tuus, óleo lætítiæ præ consórtibus tuis. Ps. Eructávit cor meum verbum bonum: dico ego ópera mea Regi.
Amastes a justiça e odiastes a iniquidade. Por isto, Deus, o vosso Deus, vos ungiu com óleo de alegria, mais que às vossas companheiras. Sl. Exulta o meu coração em alegre canto: ao Rei dedico as minhas obras.
✉️ Epístola (II Cor 10, 17-18; 11, 1-2)
Fratres: Qui gloriátur, in Dómino gloriétur. Non enim qui seipsum comméndat, ille probátus est; sed quem Deus comméndat. Utinam sustinerétis módicum quid insipiéntiæ meæ, sed et supportáte me: æmulor enim vos Deo æmulatióne. Despóndi enim vos uni viro vírginem castam exhibére Christo.
Irmãos: Aquele que se gloria, glorie-se no Senhor. Porque não é o que se recomenda a si mesmo que é aprovado, mas, sim, aquele que Deus recomenda. Ah! se quisésseis suportar um pouco de loucura de minha parte; mas suportai-me ainda. Porque estou zeloso de vós com zelo de Deus. Com efeito, eu vos desposei com um Esposo único, para vos consagrar a Cristo como virgem pura.
✝️ Evangelho (Mt 25, 1-13)
In illo témpore: Dixit Jesus discípulis suis parabolam hanc: Símile erit regnum cœlórum decem virgínibus: quæ accipiéntes lámpades suas exiérunt óbvia sponso et sponsæ. Quinque autem ex eis erant fátuæ, et quinque prudéntes: sed quinque fátuæ, accéptis lampádibus, non sumpsérunt óleum secum: prudéntes vero accepérunt óleum in vasis suis cum lampádibus. Moram autem faciénte sponso, dormitavérunt omnes et dormiérunt. Média autem nocte clamor factus est: Ecce, sponsus venit, exíte óbvia ei. Tunc surrexérunt omnes vírgines illæ, et ornavérunt lámpades suas. Fátuæ autem sapiéntibus dixérunt: Date nobis de óleo vestro, quia lámpades nostræ exstinguúntur. Respondérunt prudéntes, dicéntes: Ne forte non suffíciat nobis et vobis, ite pótius ad vendéntes, et émite vobis. Dum autem irent émere, venit sponsus: et quæ parátæ erant, intravérunt cum eo ad núptias, et clausa est jánua. Novíssime vero véniunt et réliquæ vírgines, dicéntes: Dómine, Dómine, áperi nobis. At ille respóndens, ait: Amen, dico vobis, néscio vos. Vigiláte ítaque, quia nescítis diem neque horam.
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos esta parábola: O Reino dos céus será semelhante a dez virgens que, tomando as suas lâmpadas, saíram ao encontro do esposo e da esposa. Cinco delas eram loucas e cinco prudentes. As loucas, tomando as suas lâmpadas, não levaram azeite consigo. Mas as prudentes tomaram azeite nas suas vasilhas com as lâmpadas. E, tardando o esposo, tosquenejaram todas e adormeceram. Mas à meia-noite ouviu-se um clamor: Eis que vem o esposo, saí-lhe ao encontro. Então todas aquelas virgens se levantaram e prepararam as suas lâmpadas. E as loucas disseram às prudentes: Dai-nos do vosso azeite, porque as nossas lâmpadas apagam-se. Responderam as prudentes, dizendo: Para que porventura não nos falte a nós e a vós, ide antes aos que o vendem e comprai-o para vós. E, enquanto elas o iam comprar, veio o esposo; e as que estavam preparadas entraram com ele para as bodas e fechou-se a porta. E depois vieram também as outras virgens, dizendo: Senhor, Senhor, abre-nos. E ele, respondendo, disse: Em verdade vos digo que vos não conheço. Vigiai, pois, porque não sabeis o dia nem a hora.
💡 A caridade como óleo da verdadeira sabedoria
A liturgia da festa de Santa Escolástica nos convida a meditar sobre a essência da vida consagrada e a primazia da caridade sobre o legalismo, ilustrada perfeitamente na vida desta santa e nas leituras propostas. No Evangelho das Dez Virgens, Santo Agostinho (Sermão 93) ensina que o azeite que distingue as prudentes das loucas não é outro senão a caridade, o amor de Deus derramado em nossos corações; sem este óleo, a virgindade física ou a mera observância externa, representadas pelas lâmpadas, não sustentam a luz necessária para encontrar o Esposo. Santa Escolástica encarnou esta prudência evangélica de forma sublime: enquanto seu irmão, São Bento, representava naquele último encontro a fidelidade à Regra e à disciplina, Escolástica manifestou a superabundância da caridade que transcende a lei sem a violar, mas a plenifica. Como relata São Gregório Magno, "pôde mais, porque amou mais" (potuit enim magis, quia amavit magis); o seu amor a Deus era tão intenso que, num ato de santa audácia, "obrigou" o céu a intervir com uma tempestade, mostrando que a união com Deus pela caridade tem um poder de intercessão irresistível. O Apóstolo Paulo, na Epístola, fala de apresentar a comunidade como uma "virgem pura" a Cristo; esta pureza, contudo, não é estéril, mas fecunda no amor que espera o Esposo. A lição de Santa Escolástica é que a verdadeira sabedoria cristã não reside apenas em "ter a lâmpada" da fé ou do estado de vida religioso, mas em manter a reserva inesgotável do "azeite" da caridade interior, a única capaz de manter a chama da oração acesa durante a "demora do esposo" e as noites escuras da alma, garantindo a entrada nas bodas eternas onde a lei cede lugar ao amor consumado.