A instituição da missa própria para as quintas-feiras da Quaresma remonta ao pontificado do Papa Gregório II, no século VIII, preenchendo as lacunas dos dias alitúrgicos que outrora caracterizavam a disciplina quaresmal romana, garantindo assim que cada dia desta santa quarentena possuísse uma instrução e um sacrifício eucarístico específicos para a edificação dos fiéis. A estação litúrgica deste dia ocorre tradicionalmente na Igreja de São Lourenço em Panisperna, em Roma, um local marcado pelo martírio e pelo testemunho de fé inabalável do diácono, o que reflete a gravidade do período penitencial. Historicamente, a Quaresma desenvolveu-se não apenas como um tempo de jejum rigoroso e preparação dos catecúmenos para o Batismo, mas também como um período de purificação pública para os penitentes e de profunda renovação espiritual para toda a Igreja. A inclusão litúrgica das quintas-feiras completou o ciclo diário de súplicas, jejuns e leituras, formando uma caminhada ininterrupta em direção aos mistérios da Paixão, Morte e Ressurreição de Nosso Senhor. Este passo litúrgico reforçou a necessidade contínua de conversão pessoal, purificação dos costumes e o reconhecimento da soberania divina sobre todas as almas, preparando o cristão romano e de toda a cristandade para o combate espiritual decisivo contra as insídias do inimigo através das práticas penitenciais diárias.
🎵 Introito (Sl 95, 6 | ib., 1)
Conféssio et pulchritúdo in conspéctu ejus: sánctitas et magnificéntia in sanctificatióne eius. Ps. Cantáte Dómino cánticum novum: cantáte Dómino, omnis terra.
Majestade e beleza brilham diante de sua Face; santidade e grandeza, em seu santuário. Sl. Cantai ao Senhor, um cântico novo; cantai ao Senhor, ó terra toda.
📜 Epístola (Ez 18, 1-9)
In diébus illis: Factus est sermo Dómini ad me, dicens: Quid est, quod inter vos parábolam vértitis in provérbium istud in terra Israël, dicéntes: Patres comedérunt uvam acérbam, et dentes filiórum obstupéscunt? Vivo ego, dicit Dóminus Deus, si erit ultra vobis parábola hæc in provérbium in Israël. Ecce, omnes ánimæ meæ sunt: ut ánima patris, ita et ánima fílii mea est: ánima, quæ peccáverit, ipsa moriétur. Et vir si fúerit justus, et fécerit judícium et justítiam, in móntibus non coméderit, et óculos suos non leváverit ad idóla domus Israël: et uxórem próximi sui non violáverit, et ad mulíerem menstruátam non accésserit: et hóminem non contristáverit: pignus debitóri reddíderit, per vim nihil rapúerit: panem suum esuriénti déderit, et nudum operúerit vestiménto: ad usúram non commodáverit, et ámplius non accéperit: ab iniquitáte avértent manum suam, et judícium verum fécerit inter virum et virum: in præcéptis meis ambuláverit, et judícia mea custodíerit, ut fáciat veritátem: hic justus est, vita vivet, ait Dóminus omnípotens.
Naqueles dias, a palavra do Senhor me foi assim dirigida: De onde vem que, entre vós mudastes a parábola em provérbio, nas terras de Israel, dizendo: Os pais comeram uvas azedas e os dentes dos filhos se embotaram? Juro, diz o Senhor Deus, não passará entre vós essa parábola como provérbio, em Israel. Eis que todas as almas são minhas: tanto me pertence a alma do pai como a alma do filho. A alma que tiver pecado perecerá. Se um homem for justo e agir com equidade e justiça; se não comer o sacrifício nas montanhas e se não levantar os olhos para os ídolos da casa de Israel; se não fizer mal à mulher de seu próximo, nem se aproximar da mulher menstruada e não contristar ninguém; se restituir o penhor a seu devedor; se nada tomar de outrem, por violência; se partilhar seu pão com o que tem fome; se der vestimenta ao nu; se nada emprestar com usura e não receber mais do que emprestou; se desviar sua mão da iniquidade e se julgar com sabedoria, entre um homem e outro; se seguir os meus preceitos e observar os meus mandamentos para agir segundo a verdade, esse é justo e viverá muito seguramente, diz o Senhor onipotente.
📖 Evangelho (Mt 15, 21-28)
In illo témpore: Egréssus Jesus secéssit in partes Tyri et Sidónis. Et ecce, múlier Chananǽa a fínibus illis egréssa clamávit, dicens ei: Miserére mei, Dómine, fili David: fília mea male a dæmónio vexátur. Qui non respóndit ei verbum. Et accedéntes discípuli ejus rogábant eum, dicéntes: Dimítte eam; quia clamat post nos. Ipse autem respóndens, ait: Non sum missus nisi ad oves, quæ periérunt domus Israël. At illa venit, et adorávit eum, dicens: Dómine, ádjuva me. Qui respóndens, ait: Non est bonum sumere panem filiórum, et míttere cánibus. At illa dixit: Etiam, Dómine: nam et catélli edunt de micis, quæ cadunt de mensa dominórum suórum. Tunc respóndens Jesus, ait illi: O múlier, magna est fides tua: fiat tibi, sicut vis. Et sanáta est fília ejus ex illa hora.
Naquele tempo, Jesus partiu dali e retirou-se para os lados de Tiro e Sidon. E eis que uma mulher cananeia saiu dessas regiões e clamando, disse-Lhe: Tende piedade de mim, Senhor, Filho de Davi! Minha filha está muito vexada por um espírito maligno. Ele não lhe respondeu palavra. Aproximando-se, seus discípulos O suplicavam, dizendo: Mandai-a embora, pois está a gritar atrás de nós. Respondendo, Ele disse: Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel. Ela porém, chegou-se e O adorou, dizendo: Senhor, socorrei-me. Ao que Ele respondeu: Não está bem tomar o pão dos filhos e jogá-los aos cães. Disse ela no entanto: Sim, Senhor, mas também os cãezinhos comem das migalhas que caem da mesa de seus donos. Então Jesus lhe respondeu com estas palavras: Ó mulher, grande é a tua fé; faça-se segundo tua vontade. E a filha dessa mulher ficou curada naquela mesma hora.
✨ A perseverança da fé diante da majestade e o chamado universal à santidade
A atitude da mulher cananeia diante do aparente silêncio e repúdio divino revela a verdadeira disposição da alma que compreende a majestade e a beleza que brilham diante da Face do Senhor, conforme aclamado no introito da missa de hoje. O aparente desprezo de Cristo não constitui uma negação absoluta, mas uma providencial pedagogia desenhada para dilatar a capacidade de recepção da graça no coração da suplicante, provando que a santidade e a grandeza de Deus superam as fronteiras étnicas e alcançam os corações verdadeiramente contritos. Santo Agostinho (Sermão 77 sobre o Novo Testamento) ensina que Cristo Se mostrou severo não para recusar a misericórdia, mas para acender o desejo ardente e coroar a humildade daquela mulher, transformando o reconhecimento de sua própria baixeza - ao aceitar pacificamente a analogia dos cãezinhos - no próprio título de sua exaltação e milagre. Essa perseverança heroica diante da majestade de Deus ilustra que a oração autêntica não recua diante das provações e aparentes recusas, mas encontra na humilhação o alicerce firme para atrair a infinita compaixão do Filho de Davi.
A declaração profética de Ezequiel destrói a falsa segurança e o fatalismo espiritual, reafirmando que toda alma pertence de forma irrevogável ao Criador, Aquele cuja santidade e grandeza edificam o Seu santuário. A verdadeira beleza diante da presença divina exige do cristão uma conduta retilínea, fundamentada na justiça pessoal, no repúdio absoluto à iniquidade, na pureza casta e na prática concreta da caridade, elementos que compõem o cântico novo que a terra inteira deve entoar. Santo Tomás de Aquino (Suma Teológica, I-II, q. 87, a. 8) esclarece que a pena espiritual nunca é transferida hereditariamente porque a culpa é estritamente individual, exigindo de cada pessoa uma conversão ativa e voluntária para permanecer no estado de graça. O compromisso com os preceitos divinos não é, portanto, uma mera adequação legalista, mas a conformação da alma à magnificência de Deus, onde a prática da retidão e o abandono do pecado garantem que o indivíduo viverá com segurança sob o olhar do Senhor Onipotente.
A harmonização destes ensinamentos converge perfeitamente na contemplação da soberania de Deus, onde a justiça inalienável e a misericórdia insondável se encontram no Seu augusto santuário. A alma que purifica suas obras e assume a responsabilidade integral por seus atos, moldando-se aos mandamentos eternos como ensina a epístola, é a mesma que, reconhecendo sua completa indignidade, prostra-se com fé inabalável para mendigar as migalhas da graça, a exemplo do evangelho. Assim, a vida cristã no decorrer da Quaresma se revela como um contínuo exercício de despojamento e fidelidade prática: a retidão de vida nos aproxima do santuário da majestade divina, enquanto a humildade perseverante nos abre as portas da salvação, capacitando cada cristão a entoar, em uníssono com a Igreja universal, o cântico novo dos redimidos que confiam unicamente no auxílio do Senhor.