[LA] A solenidade da Ascensão de Nosso Senhor Jesus Cristo, celebrada invariavelmente no quadragésimo dia após a sua gloriosa Ressurreição, marca o coroamento da obra redentora do Verbo Encarnado na terra. Ao subir aos céus, em corpo e alma glorificados, Cristo não abandona a humanidade que assumiu, mas a eleva à destra de Deus Pai, abrindo definitivamente as portas do paraíso que haviam sido fechadas pelo pecado de Adão. Como ensina a Tradição contínua da Igreja, Ele ascende para tomar posse de seu Reino eterno, preparar um lugar para os eleitos e atuar como Sumo Sacerdote perpétuo que intercede por nós continuamente. Este mistério insondável não é uma despedida, mas a inauguração de uma nova e mais profunda forma de presença, onde a Cabeça invisível governa a sua Igreja militante, sustentando-a com a promessa inabalável do envio do Espírito Santo. A Ascensão é, portanto, o penhor da nossa própria glorificação futura, ensinando-nos que a nossa verdadeira pátria não se encontra nas realidades efêmeras e corrompidas deste mundo, mas na glória celestial, para onde devemos dirigir incessantemente os nossos corações, as nossas batalhas e as nossas esperanças.
🎵 Introito (At 1, 11 | Sl 46, 2)
Viri Galilǽi, quid admirámini aspiciéntes in cœlum? allelúia: quemádmodum vidístis eum ascendéntem in cœlum, ita véniet, allelúia, allelúia, allelúia. Ps. 46, 2 Omnes gentes, pláudite mánibus: jubiláte Deo in voce exsultatiónis.
Homens da Galileia, por que admirados olhais para o céu? Aleluia. Como O vistes subir para o céu, assim Ele virá, aleluia, aleluia, aleluia. Sl. Vós, nações todas, batei palmas: celebrai a Deus com voz de alegre canto.
📖 Epístola (At 1, 1-11)
Em minha primeira narração, ó Teófilo, tratei de todas as coisas que Jesus fez e ensinou desde o princípio até o dia em que, tendo dado preceitos, por meio do Espírito Santo, aos Apóstolos que tinha escolhido, foi arrebatado ao céu. A eles também, depois de sua Paixão, se apresentou vivo com muitas provas, aparecendo-lhes durante quarenta dias e falando-lhes do Reino de Deus. E, comendo com eles, ordenou-lhes que não se afastassem de Jerusalém, mas esperassem a promessa do Pai, que ouvistes de minha boca. João batizou com água, porém, vós sereis batizados com o Espírito Santo, dentro de poucos dias. Então os que estavam reunidos assim O interrogavam: Senhor, será nesse tempo que estabelecereis o reino de Israel? Respondeu-lhes então: Não vos cabe saber o tempo e a hora que o Pai em seu poder determinou. Mas recebereis a força do Espírito Santo, que virá sobre vós, e me sereis testemunhas em Jerusalém, em toda a Judeia e a Samaria, e até as extremidades da terra. Depois de ter dito isto, elevou-se à vista deles e uma nuvem O ocultou a seus olhos. E como estivessem com os olhos fitos no céu enquanto Ele ia subindo, eis que dois varões, vestidos de branco, surgiram junto a eles, e lhes disseram: Homens da Galileia, por que estais olhando para o céu? Esse Jesus, que do meio de vós se elevou ao céu, virá do mesmo modo por que O vistes ir para o céu.
📖 Evangelho (Mc 16, 14-20)
Naquele tempo, estando à mesa os onze discípulos, apareceu-lhes Jesus e censurou-lhes a sua incredulidade e dureza de coração, por não haverem acreditado naqueles que O tinham visto ressuscitado. E disse-lhes: Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura. O que crer e for batizado, será salvo; porém o que não crer, será condenado. E eis os milagres que seguirão aos que crerem: em meu Nome expulsarão os demônios; falarão novas línguas; levantarão as serpentes; e, se beberem alguma coisa mortífera, esta não lhes fará mal; imporão as mãos aos enfermos e estes serão curados. E o Senhor Jesus, depois de lhes ter falado, elevou-se ao céu, e está sentado à direita de Deus. Eles porém partiram e pregaram por toda a parte. E o Senhor operou com eles e confirmou a sua pregação com os milagres que a acompanhavam.
O santo Evangelho segundo São Marcos nos apresenta a repreensão de Jesus à incredulidade e dureza de coração de seus discípulos, uma advertência que ecoa com força nos tempos atuais, onde os homens não suportam a sã doutrina e multiplicam mestres segundo seus próprios desejos, abraçando as fábulas do mundo. O mandato "Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura" não é um convite para adaptar a Igreja aos erros da modernidade, mas a ordem suprema da verdadeira militância católica. Como ensina Santo Afonso Maria de Ligório em suas meditações, assim como a águia ensina seus filhotes a voar, Jesus no mistério de hoje nos exorta a elevar nosso voo e acompanhá-Lo ao céu, desprendendo nossos corações das amarras desta terra. O Cristo que sobe aos céus e senta-se à direita de Deus confere à sua Igreja a autoridade para expulsar os demônios do erro e curar os enfermos pela ignorância, exigindo de nós uma postura firme e inegociável contra as falsidades do século. A salvação, alerta o próprio Senhor com clareza cristalina, está condicionada à fé verdadeira e ao batismo, rechaçando desde a raiz qualquer relativismo que busque diluir a verdade em nome de uma falsa paz com o mundo.
Na leitura dos Atos dos Apóstolos, vemos os discípulos ainda apegados a uma visão terrena, interrogando se seria aquele o tempo de restabelecer o reino material de Israel. A resposta do Salvador e sua subsequente elevação ensinam que a Igreja não foi fundada para ser uma mera instituição política ou sociológica, amoldada às utopias do tempo presente. São Leão Magno (Sermão 73) nos recorda que a missão dos enviados é sustentada exclusivamente pela autoridade do Cristo exaltado, enquanto o Catecismo de São Pio X atesta que Ele ascendeu para tomar posse do seu Reino espiritual e escatológico. O Espírito Santo prometido descerá sobre os Apóstolos não para inovar a doutrina com novidades profanas, mas para dar força invencível às testemunhas que enfrentarão o martírio e a perseguição, lutando bravamente contra as corrupções morais e intelectuais. Desviar os ouvidos da verdade eterna para abraçar o espírito da época é trair frontalmente o mandato apostólico de ser testemunha do Crucificado e Ressuscitado até os confins da terra.
A síntese deste chamado à santidade combativa encontra-se condensada no grandioso Introito da liturgia de hoje: "Homens da Galileia, por que admirados olhais para o céu?". Os anjos não repreendem a contemplação das coisas celestes, mas a letargia diante do dever. O olhar fito no alto deve ser a fonte primária e inesgotável da nossa força para a batalha ininterrupta aqui em baixo. O mesmo Senhor que subiu, virá do mesmo modo para julgar os vivos e os mortos, exigindo contas de nossa fidelidade. Enquanto aguardamos esse terrível e glorioso dia, a liturgia nos convoca a rejeitar com veemência as tentações de um cristianismo adocicado e secularizado, que tenta pactuar com as mentiras modernas. O Introito nos garante que a vitória final pertence a Deus, mas exige de cada católico que, fortalecido pela graça do Cristo ascendido, não recue um milímetro sequer diante das trevas, mantendo a pureza intacta da Fé Católica, combatendo o bom combate e guardando a sã doutrina imaculada até a consumação dos séculos.