Quando a gente para e presta atenção nas velhas palavras de São Paulo aos Romanos - "Irmãos, nós somos devedores" -, deparamos com um fato bastante inconveniente. É o tipo de verdade que o homem moderno tenta chutar para debaixo do tapete com todo o vigor de suas pernas: a de que nós somos, por pura natureza e graça, devedores do Todo-Poderoso. Ignorar essa fatura não é o que chamam de progresso por aí, mas apenas a semente de uma religião de fachada e de uma sociedade oca.
Tomemos como exemplo qualquer grande obra da cristandade. Nada foi erguido do chão apenas por gente que já tinha auréola na cabeça - como o beato fundador e as religiosas consagradas aos pobres. Não, a coisa toda era mantida de pé, dia após dia, pelas moedas suadas de pessoas comuns que, mesmo longe da santidade, tinham a decência de saber que deviam algo aos céus. Eram milhares de bolsos se abrindo porque as consciências sabiam que tinham uma conta com o Criador. Sem os santos na linha de frente, e sem essa tropa generosa na retaguarda, nem um tijolo teria ficado sobre o outro. Hoje, como nos velhos tempos, o trabalho de Deus exige primeiro que a pessoa busque a santidade e, logo em seguida, que tenha a honestidade de admitir sua dívida, contribuindo com seu tempo, suas posses e suas preces.
O grande defeito da modernidade é justamente essa mania de rasgar a promissória. O sujeito moderno subiu num caixote e passou a proclamar que tem direitos a perder de vista, sem o menor dever de pagar por eles. O mundo simplesmente se rebelou contra a ideia de que deve alguma coisa a Deus. "O homem tem direitos", dizem os sábios de hoje, torcendo o nariz para a nossa absoluta dependência daquele que nos criou. Essa revolta acabou por dividir a religião em duas: a genuína, daquela gente que sabe muito bem o tamanho da sua dívida, e a falsificada, forjada por aqueles que batem no peito e exigem direitos diante do altar. A primeira produz gente grata, humilde e trabalhadora; a segunda só rende murmuração, mediocridade e, como temos visto bastante nas estruturas do nosso tempo, portas se fechando e prédios vazios.
As duas contas que nunca terminaremos de pagar
Nós somos devedores por dois motivos muito simples. Primeiro, porque fomos criados. Deus é o Senhor de tudo e nós não tínhamos substância alguma antes de chegarmos aqui. Nós não existíamos, e Ele achou por bem nos trazer à luz. É uma dívida de fundação, impossível de ser quitada, porque ela é o que nós somos. O segundo motivo é a redenção. Por meio de Cristo, fomos adotados. Não somos filhos por natureza, como o Verbo Eterno, mas ganhamos esse privilégio pela graça, ali na pia batismal. Quando você olha os Evangelhos, vê que Cristo é o modelo em duas vias: no que Ele é e no que Ele faz. A nossa primeira tarefa é imitá-lo nessa condição de filho, para só depois tentar imitar as suas ações. Se a pessoa não entende essa ligação de família, qualquer boa obra vira apenas um jogo de interesses, e não o fruto genuíno da graça.
São Paulo nos deu o aviso claro: não recebemos um espírito de escravos para vivermos fazendo cálculos e tremendo de medo, mas um espírito de filhos que chamam Deus de Pai. Quem põe na cabeça que é herdeiro do céu não gasta os dias com uma fita métrica, calculando quanta caridade deve fazer ou quantos minutos deve doar. Essa pessoa vive com uma humildade de raiz, sabendo que vai estar em dívida por toda a vida e por toda a eternidade. E, no Paraíso, essa dívida é exatamente o que nos manterá unidos ao Todo-Poderoso. É uma constatação que liberta, tornando os filhos da luz muito mais espertos e generosos do que os filhos deste mundo, como o próprio Mestre já havia notado.
A primavera que não floresceu e o remédio para o ego
Mas a modernidade, com sua mania de virar tudo de cabeça para baixo e colocar o homem e seus direitos no centro do palco, fabricou uma fé de papelão. A graça não opera como um truque de mágica; ela exige que a gente faça a nossa parte. Sem a noção diária de que somos devedores, a fé vai murchando, as boas obras somem do mapa e começam a brotar desculpas esfarrapadas para novas primaveras que, curiosamente, nunca dão as caras. Quanta gente acabou se perdendo pelo caminho justamente porque começou a cobrar faturas de Deus? "Eu mereço isso ou aquilo", resmungam pelos cantos. É a velha escravidão do ego desfilando com roupas de autonomia.
Está na hora de acordarmos para isso. Os velhos santos pareciam ter um parafuso a menos para quem os olhava de fora, simplesmente porque não ficavam medindo esforços. Eles sabiam que deviam tudo e, por considerarem tudo um presente, gastavam-se sem fazer conta. Nós, que estamos tentando manter a fé verdadeira viva hoje, precisamos recuperar essa liberdade solta que só os filhos têm. Sem isso, continuaremos acorrentados aos nossos caprichos, medindo cada passo, enquanto as falsas instituições continuam a falhar ao nosso redor.
A modernidade nos prometeu a lua com essa conversa de direitos absolutos, mas o que ela entregou na porta de casa foi apenas solidão espiritual e um arremedo de cristianismo. A verdadeira liberdade começa quando o sujeito tira o chapéu, olha para cima e admite: nós somos devedores. Só assim a gente volta a ser herdeiro de verdade, trabalhando com vigor e inteligência na vinha do Senhor.
Baseado na homilia de Don Alberto Secci