♱ 2º domingo da Quaresma


O segundo domingo da Quaresma, tradicionalmente conhecido como domingo "Reminiscere" devido à primeira palavra de seu introito, possui uma origem histórica singular no rito romano antigo. Nos primeiros séculos da Igreja, este dia era considerado uma "dominica vacans" (domingo vacante), pois não possuía uma missa própria estacional. Isso ocorria porque a vigília do sábado das Têmporas da Quaresma, durante a qual eram conferidas as ordenações sagradas, prolongava-se por toda a madrugada, terminando apenas na manhã de domingo, o que tornava redundante a celebração de uma nova missa. Com o passar do tempo, quando a liturgia das ordenações foi antecipada para a manhã de sábado, sentiu-se a necessidade de preencher esta lacuna no missal. A missa que hoje temos foi então compilada, herdando o caráter de súplica penitencial próprio do tempo quaresmal e das Têmporas, mas introduzindo uma profunda dimensão de esperança. A Igreja, ciente da fraqueza humana diante do jejum rigoroso e das provações físicas e espirituais recém-iniciadas na Quarta-feira de Cinzas, estabeleceu esta comemoração para consolar os fiéis, mostrando-lhes o prêmio da perseverança, de modo que o esforço da penitência seja iluminado pela promessa da glória futura.

🎶 Introito (Sl 24, 6, 3 e 22 | ib., 1-2)

Reminíscere miseratiónum tuarum, Dómine, et misericórdiæ tuæ, quæ a sǽculo sunt: ne umquam dominéntur nobis inimíci nostri: líbera nos, Deus Israël, ex ómnibus angústiis nostris. Ps. Ad te, Dómine, levávi ánimam meam: Deus meus, in te confído, non erubéscam. 

Lembrai-Vos, Senhor, de vossa bondade e de vossa misericórdia, que são de séculos, para que de nós não triunfem os nossos inimigos. Livrai-nos, ó Deus de Israel, de todas as nossas angústias. Sl. A Vós, Senhor, elevo a minha alma; meu Deus, em Vós confio: não serei envergonhado.

📜 Epístola (1 Ts 4, 1-7)

Fratres: Rogámus vos et obsecrámus in Dómino Jesu: ut, quemádmodum accepístis a nobis, quómodo opórteat vos ambuláre et placére Deo, sic et ambulétis, ut abundétis magis. Scitis enim, quæ præcépta déderim vobis per Dóminum Jesum. Hæc est enim volúntas Dei, sanctificátio vestra: ut abstineátis vos a fornicatióne, ut sciat unusquísque vestrum vas suum possidére in sanctifícatióne et honóre; non in passióne desidérii, sicut et gentes, quæ ignórant Deum: et ne quis supergrediátur neque circumvéniat in negótio fratrem suum: quóniam vindex est Dóminus de his ómnibus, sicut prædíximus vobis et testificáti sumus. Non enim vocávit nos Deus in immundítiam, sed in sanctificatiónem: in Christo Jesu, Dómino nostro. 

Irmãos: nós vos rogamos e exortamos no Senhor Jesus, que assim como aprendestes de nós como convém viver para agradar a Deus, assim andeis de modo a vos aperfeiçoardes cada vez mais. Sabeis bem que preceitos vos dei em nome do Senhor Jesus. Esta é a vontade de Deus: a vossa santificação; que vos abstenhais da impureza; que cada um de vós saiba guardar o seu corpo em santidade e honra; não em desejos de sensualidade, como os gentios que não conhecem a Deus. E ninguém oprima nem engane em qualquer assunto a seu irmão; porque o Senhor vingará todas estas coisas, como já vo-lo temos dito e atestado. Porque não nos chamou Deus para a impureza, mas para a santificação no Cristo Jesus, Senhor nosso.

📖 Evangelho (Mt 17, 1-9)

In illo témpore: Assúmpsit Jesus Petrum, et Jacóbum, et Joánnem fratrem eius, et duxit illos in montem excélsum seórsum: et transfigurátus est ante eos. Et resplénduit fácies ejus sicut sol: vestiménta autem ejus facta sunt alba sicut nix. Et ecce, apparuérunt illis Móyses et Elías cum eo loquéntes. Respóndens autem Petrus, dixit ad Jesum: Dómine, bonum est nos hic esse: si vis, faciámus hic tria tabernácula, tibi unum, Móysi unum et Elíæ unum. Adhuc eo loquénte, ecce, nubes lúcida obumbrávit eos. Et ecce vox de nube, dicens: Hic est Fílius meus diléctus, in quo mihi bene complácui: ipsum audíte. Et audiéntes discípuli, cecidérunt in fáciem suam, et timuérunt valde. Et accéssit Jesus, et tétigit eos, dixítque eis: Súrgite, et nolíte timére. Levántes autem óculos suos, néminem vidérunt nisi solum Jesum. Et descendéntibus illis de monte, præcépit eis Jesus, dicens: Némini dixéritis visiónem, donec Fílius hóminis a mórtuis resúrgat. 

Naquele tempo, tomou Jesus consigo a Pedro, Tiago e João, seu irmão, e levou-os de parte a um monte muito alto. E transfigurou-se diante deles Seu rosto resplandeceu como o sol, e suas vestes tornaram-se brancas como a neve. E eis que apareceram Moisés e Elias, falando com Ele. Então Pedro, tomando a palavra, disse a Jesus: Senhor, bom é estarmos aqui; se quiserdes, faremos aqui três tabernáculos, um para Vós, outro para Moisés e o terceiro para Elias. Ainda falava ele, quando uma nuvem brilhante os envolveu, e da nuvem soou uma voz que dizia: Este é o meu Filho muito amado. N'Ele pus toda a minha complacência; escutai-O. Ouvindo isto, os discípulos caíram com a face em terra e ficaram muito atemorizados. Aproximou-se, porém, Jesus, e, tocando-os, disse-lhes: Levantai-vos e não temais. E erguendo eles os olhos, não viram ninguém, senão a Jesus só. E enquanto descia com eles do monte, ordenou-lhes Jesus, dizendo: A ninguém digais o que vistes, até que o Filho do homem ressuscite dos mortos.

✨ A luz do Tabor e a purificação do vaso de eleição

O clamor do introito, que suplica a Deus o livramento das angústias e o triunfo sobre os inimigos, encontra sua resposta divina no alto do monte da Transfiguração. A manifestação da glória de Cristo não é apenas uma revelação de Sua natureza eterna, mas o antídoto celestial contra o desespero e o medo que acompanham as renúncias da penitência. Para que alguém caminhe com firmeza por uma via rude e cheia de obstáculos mortificantes, é necessário que antes tenha um vislumbre do destino glorioso que o aguarda, de modo a fortalecer a alma contra o escândalo da cruz e do sofrimento (são Tomás de Aquino, Suma Teológica, III, q. 45, a. 1). Assim, a voz do Pai que ecoa da nuvem luminosa convida-nos a suportar as hostilidades do mundo presente, e os assaltos dos nossos inimigos espirituais, com a confiança inabalável de que a nossa própria fraqueza será um dia transfigurada à imagem da claridade do Filho.

Contudo, a libertação das angústias pedida no introito exige uma correspondência ativa e severa da nossa parte, que se traduz na purificação moral detalhada pelo Apóstolo. A vontade de Deus é a nossa santificação, o que significa arrancar a alma e o corpo do domínio das paixões desordenadas, males que se configuram como os verdadeiros inimigos íntimos a nos escravizar. O corpo humano, resgatado pelo sangue de Cristo, não deve ser entregue aos desejos da carne, mas deve ser possuído como um vaso sagrado, guardado em honra e santidade absoluta (são João Crisóstomo, Homilia 5 sobre a 1ª epístola aos Tessalonicenses). A mortificação quaresmal torna-se a ferramenta indispensável para não ofender o Senhor, purificando a morada interior para que ela seja digna de refletir, já nesta vida, um raio da santidade eterna.

A elevação espiritual proposta pela liturgia une, de forma indissolúvel, a pureza exigida no vale da vida cotidiana à glória revelada no cume do Tabor. O esforço contínuo de afastar a impureza e viver segundo a dignidade de um vaso consagrado é o combate árduo contra os inimigos de que fala o introito. Sem esta retidão moral e mortificação dos sentidos, a alma permanece ofuscada e incapaz de suportar a luz divina. Mas, quando o sacrifício pessoal se une à obediência à voz do Pai, o medo do castigo se dissipa pelo toque consolador de Jesus, fazendo com que as angústias do tempo presente se convertam nos degraus seguros que nos conduzem à definitiva e resplandecente morada no céu.


✨ Homilias

Capela São José do Patrocínio