† III DOMINGO DA QUARESMA

O terceiro domingo da quaresma marca um momento de profunda transição na disciplina penitencial e catequética da igreja antiga, inaugurando o período dos "escrutínios" para aqueles que se preparavam para o santo batismo. Nesta fase do ano litúrgico, os catecúmenos eram submetidos a exames rigorosos sobre sua conduta moral e o conhecimento da doutrina cristã, realizados frequentemente às quartas e aos sábados, acompanhados de exorcismos proferidos pelos sacerdotes para libertá-los das influências do demônio. A escolha da basílica de são Lourenço fora dos muros para a estação litúrgica deste domingo não é acidental; ao reunir a comunidade cristã junto ao túmulo do glorioso diácono, a igreja confiava os futuros batizados ao seu poderoso patrocínio. São Lourenço, que em vida administrou os bens da igreja apresentando os pobres como o verdadeiro tesouro e que suportou heroicamente as chamas do martírio, servia como modelo supremo de renúncia ao paganismo e vitória sobre as ilusões do mundo. O ambiente desta estação romana infundia nos fiéis e nos catecúmenos a coragem necessária para enfrentar o combate espiritual contra o espírito das trevas, inspirando-os a purificar a alma, a dominar as paixões desordenadas e a abraçar definitivamente a luz de jesus cristo, preparando-se dignamente para a iminente renovação das promessas batismais na vigília pascal.

🎶 Introito (Sl 24, 15-16 | ib., 1-2)

Oculi mei semper ad Dóminum, quia ipse evéllet de láqueo pedes meos: réspice in me, et miserére mei, quóniam únicus et pauper sum ego. Ps. Ad te, Dómine, levávi ánimam meam: Deus meus, in te confído, non erubéscam.

Meus olhos estão sempre no senhor, pois ele tirará os meus pés do laço. Olhai para mim, e compadeceis-vos de mim, porque estou só e pobre. Sl. A vós, senhor, elevo a minha alma. Meu deus, em vós confio; não serei confundido.

📖 Epístola (Ef 5, 1-9)

Fratres: Estote imitatóres Dei, sicut fílii caríssimi: et ambuláte in dilectióne, sicut et Christus diléxit nos, et trádidit semetípsum pro nobis oblatiónem, et hóstiam Deo in odórem suavitátis. Fornicátio autem et omnis immundítia aut avarítia nec nominétur in vobis, sicut decet sanctos: aut turpitúdo aut stultilóquium aut scurrílitas, quæ ad rem non pértinet: sed magis gratiárum áctio. Hoc enim scitóte intelligéntes, quod omnis fornicátor aut immúndus aut avárus, quod est idolórum sérvitus, non habet hereditátem in regno Christi et Dei. Nemo vos sedúcat inánibus verbis: propter hæc enim venit ira Dei in fílios diffidéntiæ. Nolíte ergo éffici partícipes eórum. Erátis enim aliquándo ténebræ: nunc autem lux in Dómino. Ut fílii lucis ambuláte: fructus enim lucis est in omni bonitáte et justítia et veritáte.

Irmãos: Sede imitadores de deus, como filhos muito amados; e andai no amor, como cristo nos amou, e se entregou por nós a deus como oferenda e sacrifício de suave odor. A imoralidade, porém, e toda impureza ou avareza, nem sequer entre vós se nomeie, como a santos convém; nem palavras torpes, nem loucas, nem leviandades que não têm cabimento; rendei antes, ações de graças. Porque, ficai sabendo e entendendo bem, que nenhum homem impuro, imoral ou avaro, o que é sujeição a ídolos, tem herança no reino de cristo e de deus. Ninguém vos seduza com palavras inúteis; porque, por estas coisas, vem a ira de deus sobre os filhos rebeldes. Não sejais portanto, seus companheiros. Outrora no paganismo éreis trevas, mas agora sois luz no senhor. Andai como filhos da luz. O fruto da luz consiste em toda bondade, justiça e verdade.

📖 Evangelho (Lc 11, 14-28)

In illo témpore: Erat Jesus ejíciens dæmónium, et illud erat mutum. Et cum ejecísset dæmónium, locútus est mutus, et admirátæ sunt turbæ. Quidam autem ex eis dixérunt: In Beélzebub, príncipe dæmoniórum, éjicit dæmónia. Et alii tentántes, signum de cælo quærébant ab eo. Ipse autem ut vidit cogitatiónes eórum, dixit eis: Omne regnum in seípsum divísum desolábitur, et domus supra domum cadet. Si autem et Sátanas in seípsum divísus est, quómodo stabit regnum ejus? quia dícitis, in Beélzebub me ejícere dæmónia. Si autem ego in Beélzebub ejício dæmónia: fílii vestri in quo ejíciunt? Ideo ipsi júdices vestri erunt. Porro si in dígito Dei ejício dæmónia: profécto pervénit in vos regnum Dei. Cum fortis armátus custódit átrium suum, in pace sunt ea, quæ póssidet. Si autem fórtior eo supervéniens vícerit eum, univérsa arma ejus áuferet, in quibus confidébat, et spólia ejus distríbuet. Qui non est mecum, contra me est: et qui non cólligit mecum, dispérgit. Cum immúndus spíritus exíerit de hómine, ámbulat per loca inaquósa, quærens réquiem: et non invéniens, dicit: Revértar in domum meam, unde exívi. Et cum vénerit, invénit eam scopis mundátam, et ornátam. Tunc vadit, et assúmit septem álios spíritus secum nequióres se, et ingréssi hábitant ibi. Et fiunt novíssima hóminis illíus pejóra prióribus. Factum est autem, cum hæc díceret: extóllens vocem quædam múlier de turba, dixit illi: Beátus venter, qui te portávit, et úbera, quæ suxísti. At ille dixit: Quinímmo beáti, qui áudiunt verbum Dei, et custódiunt illud.

Naquele tempo, expulsou jesus a um demônio, e este era mudo. E tendo lançado fora o demônio, o mudo falou e as multidões admiraram-se. Alguns deles, porém, disseram: É por belzebu, príncipe dos demônios, que ele expulsa os demônios. E outros para tentá-lo, pediam um sinal do céu. Conhecendo, porém, os seus pensamentos, jesus disse-lhes: Todo reino dividido em si mesmo será destruído e uma casa cairá sobre outra. Se, pois, satanás está em desacordo em si mesmo, como subsistirá o seu reino? Dizeis que é por belzebu que expulso os demônios. Ora, se é por belzebu que expulso os demônios, vossos filhos por quem os expulsam? Por isso eles próprios serão os vossos juízes. Se, entretanto, é pelo dedo de deus que expulso os demônios, é evidente que chegou para vós o reino de deus. Quando um poderoso, guarda, armado, a entrada de sua casa, em paz está tudo o que possui. Se sobrevier, porém, outro mais forte do que ele e o vencer, tirar-lhe-á todas as suas armas, em que confiava, e repartirá os seus despojos. Quem não está comigo é contra mim; e quem não recolhe comigo, dispersa. Quando o espírito imundo sai de um homem, anda por lugares secos, buscando repouso. E não o encontrando, diz: Voltarei para minha casa de onde saí. E quando chega e a encontra varrida e ornada, vai e toma consigo outros sete espíritos piores do que ele, e, entrando, aí fazem habitação. E o último estado desse homem torna-se pior do que o primeiro. Quando ele assim falava, uma mulher, levantando a voz, do meio do povo, disse-lhe: Bem-aventurado o ventre que te trouxe e os peitos que sugaste. Ele porém respondeu: Bem-aventurados, antes, aqueles que ouvem a palavra de deus e a põe em prática.

✨ A batalha espiritual e a vitória da luz

O clamor do introito, no qual a alma afirma ter os olhos sempre fixos no senhor para que ele arranque os seus pés do laço, ecoa perfeitamente o drama espiritual revelado no evangelho, onde cristo se manifesta como o mais forte que despoja o príncipe das trevas. A libertação do demônio mudo pelo dedo de deus é a prova cabal de que o reino dos céus triunfa sobre as amarras mortais do pecado. Como adverte santo Agostinho (sermão 71 sobre lucas 11), a acusação de que tal poder vem do chefe dos demônios revela a terrível cegueira do coração humano que, por amor às sombras, rejeita a luz. O homem forte e armado é o diabo que mantém a alma cativa em seus vícios, mas jesus cristo, sendo infinitamente mais forte, desarma-o e resgata as almas redimidas para a glória de seu pai. Esta vitória inabalável sobre o mal encontra seu reflexo vivo no padroeiro estacional de hoje, são Lourenço, cujo olhar esteve de tal modo fixo no senhor que nenhuma ameaça ou tormento terreno pôde subjugá-lo. O mártir provou com seu sangue que a verdadeira bem-aventurança não reside nos laços ou apegos da carne, mas na escuta dócil e na guarda zelosa da palavra de deus.

Ao reconhecer-se "única e pobre" no introito e clamar por misericórdia, a igreja nos convida à humildade essencial para acolher a exortação da epístola: sermos imitadores de deus como filhos muito amados, rompendo definitivamente com as trevas do mundanismo. O apóstolo adverte com gravidade contra a impureza, a avareza e as palavras vãs, revelando que tais vícios são idolatrias escravizantes que destroem o templo da alma e atraem a ira divina. Conforme ensina são Tomás de Aquino (suma teológica, iii, q. 41, a. 2), a alma que foi purificada pelo batismo ou pela penitência precisa ser constantemente guardada pela prática ativa das virtudes, sob o grave risco de que o espírito imundo retorne, tornando o estado do homem pior do que o inicial. São Lourenço compreendeu perfeitamente essa exigência apostólica ao oferecer sua própria vida como hóstia de suave odor a deus; ele pisou a avareza ao distribuir todos os bens da igreja aos pobres e manteve sua alma imaculada, caminhando irrepreensivelmente como verdadeiro filho da luz em meio às espessas trevas da perseguição romana.

A síntese teológica desta liturgia quaresmal reside, portanto, na vigilância contínua da alma que, uma vez iluminada pela graça de cristo, recusa-se terminantemente a voltar à escravidão do maligno. Se, por um lado, o evangelho nos infunde esperança ao garantir que cristo já despojou o homem forte e rompeu o silêncio demoníaco, por outro, a epístola nos recorda a urgente responsabilidade de preencher o vazio deixado pela expulsão do pecado com obras concretas de bondade, justiça e verdade. O heroico testemunho estacional de são Lourenço une de modo esplêndido essas duas realidades evangélicas: é a audácia daquele que confia exclusivamente na força do senhor para tirar seus pés da armadilha, ciente de que, quando o coração está varrido, ornado e verdadeiramente habitado pela trindade, nenhum retorno de espíritos imundos pode destruí-lo. Que a meditação destas verdades nos afaste das seduções vãs e nos ancore profundamente na palavra de deus, para que possamos recolher com cristo e jamais dispersar.

🎵 Homilias

Capela São José do Patrocínio (youtube)

Don Alberto Secci (Vocogno in Val Vigezzo) [it] (youtube)