O Domingo da Quinquagésima marca o pórtico definitivo da entrada na Santa Quaresma, completando o tempo da Septuagésima com um chamado solene à conversão interior e à iluminação da fé. Neste dia, em que a Estação litúrgica nos transporta espiritualmente à Basílica de São Pedro, a Igreja coloca diante de nós o mistério da Paixão de Cristo, anunciada pelo próprio Senhor aos Doze, e a necessidade absoluta da Caridade, descrita por São Paulo, como a forma vital de todas as virtudes. A liturgia nos ensina que, sem o amor divino, os vindouros rigores penitenciais seriam estéreis, "como o bronze que soa"; simultaneamente, através da figura do cego de Jericó, somos convidados a reconhecer nossa própria cegueira espiritual e a clamar com insistência pela "visão" da fé, para que possamos seguir o Salvador em sua subida para Jerusalém, compreendendo que o sofrimento e a Cruz são caminhos necessários para a Glória da Ressurreição. Este domingo é uma preparação próxima para a Quaresma. Por amor da humanidade cega, toma o Salvador, sobre Si, os sofrimentos dela (Evangelho). Por amor de Deus - a Epístola nos ensina qual o verdadeiro - devemos expiar as nossas faltas, fazendo da santa Missa o nosso Calvário e unindo os nossos sofrimentos aos do Filho de Deus. E se na Oração pedimos que o Senhor nos livre de toda adversidade, queremos apenas a isenção dos males que prejudicam a nossa salvação, sabendo que, aos que amam a Deus, todas as coisas cooperam para o seu bem (Rom 8, 28).
🎶 Introito (Sl 30, 3-4 | ib. 2) Áudio
Esto mihi in Deum protectórem, et in locum refúgii, ut salvum me fácias: quóniam firmaméntum meum et refúgium meum es tu: et propter nomen tuum dux mihi eris, et enútries me. Ps. In te, Dómine, sperávi, non confúndar in ætérnum: in justítia tua líbera me et éripe me.
Sede para mim, ó Deus, um protetor e um lugar de refúgio para me salvar, porque Vós sois minha força e meu refúgio; para glória de vosso Nome, guiai-me e nutri-me. Sl. Em Vós, Senhor, espero, não serei confundido eternamente; por vossa justiça livrai-me e salvai-me.
✉️ Epístola (1 Cor 13, 1-13)
Fratres: Si linguis hóminum loquar et Angelórum, caritátem autem non hábeam, factus sum velut æs sonans aut cýmbalum tínniens. Et si habúero prophétiam, et nóverim mystéria ómnia et omnem sciéntiam: et si habúero omnem fidem, ita ut montes tránsferam, caritátem autem non habúero, nihil sum. Et si distribúero in cibos páuperum omnes facultátes meas, et si tradídero corpus meum, ita ut árdeam, caritátem autem non habuero, nihil mihi prodest. Cáritas patiens est, benígna est: cáritas non æmulátur, non agit pérperam, non inflátur, non est ambitiósa, non quærit quæ sua sunt, non irritátur, non cógitat malum, non gaudet super iniquitáte, congáudet autem veritáti: ómnia suffert, ómnia credit, ómnia sperat, ómnia sústinet. Cáritas numquam éxcidit: sive prophétiæ evacuabúntur, sive linguæ cessábunt, sive sciéntia destruétur. Ex parte enim cognóscimus, et ex parte prophetámus. Cum autem vénerit quod perféctum est, evacuábitur quod ex parte est. Cum essem párvulus, loquébar ut párvulus, sapiébam ut párvulus, cogitábam ut párvulus. Quando autem factus sum vir, evacuávi quæ erant párvuli. Vidémus nunc per spéculum in ænígmate: tunc autem fácie ad fáciem. Nunc cognósco ex parte: tunc autem cognóscam, sicut et cógnitus sum. Nunc autem manent fides, spes, cáritas, tria hæc: major autem horum est cáritas.
Irmãos: Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos Anjos, se não tivesse caridade, seria como o bronze que soa ou como o címbalo que tine. Se tivesse o dom da profecia, conhecesse todos os mistérios e possuísse toda a ciência, e se tivesse toda a fé, de modo a transportar os montes, mas não tivesse a Caridade, não seria nada. E ainda que distribuísse todos os meus bens para mantimento dos pobres, e entregasse meu corpo para ser queimado, se não tivesse a Caridade, nada me aproveitaria. A caridade é paciente, é benigna; a caridade não é invejosa, não trata levianamente, não se ensoberbece, não é ambiciosa, não cuida apenas de seus interesses, não se irrita, não julga mal, não folga com a injustiça, porém alegra-se com a verdade; tudo suporta, tudo crê, tudo espera, tudo sofre. A caridade nunca há de acabar, ainda que tenham fim as profecias, cessem as línguas e a ciência seja destruída. Porque é em parte que conhecemos, e é em parte que profetizamos; mas, quando vier o que é perfeito, será abolido o que é incompleto. Quando eu era menino, falava como menino, julgava como menino, pensava como menino. Mas quando cheguei a ser homem feito, abandonei o que era de menino. Agora vemos a Deus como por um espelho, em enigma; mas então, O veremos face a face. Agora conheço-O em parte, mas então O conhecerei tão bem, como sou conhecido eu mesmo. Agora, portanto, permanecem estas três: a fé, a esperança e a caridade; a maior delas, porém, é a Caridade.
📖 Evangelho (Lc 18, 31-43)
In illo témpore: Assúmpsit Jesus duódecim, et ait illis: Ecce, ascéndimus Jerosólymam, et consummabúntur ómnia, quæ scripta sunt per Prophétas de Fílio hominis. Tradátur enim Géntibus, et illudétur, et flagellábitur, et conspuétur: et postquam flagelláverint, occídent eum, et tértia die resúrget. Et ipsi nihil horum intellexérunt, et erat verbum istud abscónditum ab eis, et non intellegébant quæ dicebántur. Factum est autem, cum appropinquáret Jéricho, cæcus quidam sedébat secus viam, mendícans. Et cum audíret turbam prætereúntem, interrogábat, quid hoc esset. Dixérunt autem ei, quod Jesus Nazarénus transíret. Et clamávit, dicens: Jesu, fili David, miserére mei. Et qui præíbant, increpábant eum, ut tacéret. Ipse vero multo magis clamábat: Fili David, miserére mei. Stans autem Jesus, jussit illum addúci ad se. Et cum appropinquásset, interrogávit illum, dicens: Quid tibi vis fáciam? At ille dixit: Dómine, ut vídeam. Et Jesus dixit illi: Réspice, fides tua te salvum fecit. Et conféstim vidit, et sequebátur illum, magníficans Deum. Et omnis plebs ut vidit, dedit laudem Deo.
Naquele tempo, tomou Jesus consigo os doze e disse-lhes: Eis que subimos a Jerusalém, e cumprir-se-á tudo o que os Profetas escreveram acerca do Filho do homem. Porque aos gentios há de ser entregue, e será escarnecido, açoitado e cuspido; e havendo-O açoitado, matá-lo-ão, e ao terceiro dia ressuscitará. Eles nada entenderam, pois esse discurso era para eles obscuro; e não penetravam o que lhes dizia. E aconteceu que, chegando Ele perto de Jericó, estava um cego sentado junto ao caminho, a mendigar. E ouvindo muita gente passar, perguntou que era aquilo. Disseram-lhe que passava Jesus Nazareno. Ele clamou, dizendo: Jesus, Filho de Davi, tende piedade de mim. E os que iam adiante o repreendiam, para que se calasse. Ele, porém, cada vez mais clamava: Filho de Davi, tende piedade de mim. Jesus parou e mandou que o levassem à sua presença. E quando ele se aproximou, interrogou-o com estas palavras: Que queres que te faça? Ele respondeu: Senhor, que eu veja. E Jesus lhe disse: Vê, a tua fé te salvou. E logo o cego viu, e O foi seguindo, glorificando a Deus. E todo o povo, vendo isto, rendeu louvores a Deus.
❤️ A primazia da caridade e a cura da cegueira espiritual
Neste Domingo da Quinquagésima, a Igreja nos coloca no limiar do grande combate quaresmal, oferecendo-nos as armas indispensáveis para a vitória: a visão clara da fé e o ardor da caridade. O Evangelho narra a cura do cego de Jericó, um episódio que São Gregório Magno interpreta magistralmente como uma alegoria da condição humana: "O cego é o gênero humano que, expulso do paraíso em nossos primeiros pais, ignora o esplendor da luz divina e sofre as trevas da condenação; mas sente a presença do Redentor e clama: Jesus, Filho de Davi, tem piedade de mim!" (São Gregório Magno, Homilia 2 in Evangelia). Estamos à beira da estrada da vida, muitas vezes imersos nas trevas do pecado e da ignorância, incapazes de compreender o mistério da Cruz. Note-se que, no início do Evangelho, Jesus prediz Sua Paixão e Morte, mas os discípulos "nada entenderam"; havia neles uma cegueira espiritual semelhante à física do mendigo. Para entrar na Quaresma e subir a Jerusalém com Cristo, precisamos primeiro pedir: "Senhor, que eu veja". Precisamos da luz da fé para compreender que o sofrimento não é um castigo cego, mas o instrumento de nossa redenção. Contudo, a visão e o sacrifício, por si sós, são insuficientes sem a alma de toda virtude cristã: a Caridade. A Epístola de São Paulo aos Coríntios é proclamada hoje para nos alertar que o jejum, a esmola e a penitência quaresmal, se desprovidos do amor a Deus e ao próximo, são "como o bronze que soa". São Tomás de Aquino ensina que a caridade é a "forma das virtudes", o que significa que é ela quem vivifica e orienta todas as nossas boas obras para o seu fim último, que é Deus (Suma Teológica, II-II, q. 23, a. 8). Entregar o corpo para ser queimado sem caridade de nada serve; logo, a mortificação quaresmal deve ser um exercício de amor, não de estoicismo orgulhoso. Assim como o cego, após recuperar a visão, "seguia a Jesus glorificando a Deus", nós também, curados de nossa cegueira pelo Sacramento da Penitência e iluminados pela fé, devemos seguir o Senhor no caminho da Cruz, revestidos da caridade que "tudo sofre, tudo crê, tudo espera e tudo suporta". Que esta liturgia nos conceda a graça de ver a Deus em nossos sofrimentos e de amá-Lo sobre todas as coisas, transformando nossa Quaresma em uma verdadeira ascensão ao Calvário e à Glória da Ressurreição.