Introito - Os justi meditábitur sapiéntiam, et lingua ejus loquétur judícium: lex Dei ejus in corde ipsíus. Ps. Noli æmulári in malignántibus: neque zeláveris faciéntes iniquitátem.A boca do justo destilará sabedoria, e a sua língua será a expressão da justiça: o seu coração está cheio da lei do seu Deus. Sl. Não tenhas inveja dos ímpios nem ciúmes dos que praticam a iniquidade.
Santo Aleixo, glória da nobreza romana e espelho da mais sublime abnegação, floresceu nos albores do século V. Filho de uma família opulenta e patrícia, no exato dia de suas núpcias, tocado por uma luz superior, abandonou secretamente sua esposa, seus pais e todas as promessas de um futuro glorioso na terra, para abraçar o despojamento absoluto por amor a Cristo. Peregrinou como mendigo desconhecido até o Oriente, vivendo de esmolas e oração contínua. Tempos depois, guiado pela inescrutável Providência, retornou irreconhecível à casa paterna em Roma. Ali, no desvão de uma escada de seu próprio palácio, viveu os últimos dezessete anos de sua vida terrena como um estranho, suportando em silêncio o desprezo, os escárnios e os maus-tratos dos próprios servos de seu pai, enquanto ouvia de perto os lamentos de seus progenitores que choravam sua ausência. Apenas na hora de sua morte, quando os sinos de Roma soaram milagrosamente e o Papa Inocêncio I o procurou, sua identidade foi revelada por um pergaminho que apertava firmemente nas mãos. Seu corpo venerável descansa até hoje na Basílica de São Bonifácio e Santo Aleixo, no monte Aventino, testemunhando para sempre que a verdadeira grandeza reside na humildade oculta e no aniquilamento de si mesmo.
Contemplai, ó almas atentas, o admirável espetáculo que a sagrada Liturgia hoje nos apresenta sobre o altar: um príncipe de sangue que se faz mendigo, um herdeiro de palácios que escolhe o pó! O Apóstolo nos adverte na Epístola de forma contundente que a raiz de todos os males é o apetite pelas riquezas terrenas. No entanto, olhai para a nossa época! Vivemos dias sombrios em que os corações recuam de horror diante da cruz, do sofrimento e do sacrifício. O espírito dos nossos tempos, inebriado pelos confortos passageiros e pelas facilidades ilusórias, tenta despojar a fé de sua força redentora. Este veneno sorrateiro, esta negação velada da mortificação cristã, infiltrou-se paulatinamente nos recintos sagrados, onde muitos buscam ansiosamente os aplausos das multidões e o sorriso do mundo, em vez de agradar a majestade implacável do Deus vivo. Sob a máscara de uma falsa compaixão e de uma linguagem ambígua, camuflam a doutrina austera da salvação, limando as arestas da verdade para não ferir os ouvidos acostumados às lisonjas da terra. Mas Santo Aleixo levanta-se como um farol fulgurante contra esta terrível ruína! A sua grande missão, a tarefa invisível mas retumbante que desempenha hoje diante de nós, é esmagar a mentira de uma vida cristã sem renúncia. Ele combate com a própria carne o perigo letal de adorarmos a criatura no lugar do Criador. Quando escutou a voz do Cristo no Evangelho - assegurando que aquele que deixar casas e pais por amor a Ele receberá o cêntuplo -, Aleixo não fez cálculos humanos. Ele abandonou a seda e o mármore para habitar, invisível e desprezado, no escuro e úmido desvão de uma escada. Acaso somos nós mais sábios do que ele, nós que nos apegamos desesperadamente ao que as traças corroem? Como ensinava o sábio bispo de Hipona, o verdadeiro tesouro do justo não está nos cofres de ferro, mas no santuário do coração, onde os ladrões do século não podem penetrar. Aleixo foi tratado como a escória do mundo pelos servos do próprio pai, suportou o fel da zombaria, e precisamente por isso o Rei dos reis o convida hoje para julgar as tribos de Israel. Vede o contraste formidável: as trevas debaixo de uma escada tornaram-se o pórtico luminoso da glória eterna! O aniquilamento temporal gerou a plenitude da graça! Acordemos, pois, do nosso torpor carnal! Ao participarmos destes divinos e tremendos mistérios, deixemos que a realidade sobrenatural desta Liturgia atravesse as nossas almas como uma espada. Peçamos a Deus que, pelo exemplo fulminante deste nobre mendigo, tenhamos a firmeza de rejeitar os engodos de uma religião frouxa, para abraçarmos o madeiro áspero da Cruz, preferindo ser o escárnio do mundo a perder a nossa coroa imarcescível nos céus.