† SEXTA-FEIRA DA 4ª SEMANA DA QUARESMA
O Senhor da vida e a vitória sobre a morte

[LA EN] A liturgia desta sexta-feira da quarta semana da Quaresma nos conduz à histórica basílica romana de Santo Eusébio, celebrando a tradicional Statio ad S. Eusebium. Santo Eusébio foi um sacerdote romano do século IV que defendeu heroicamente a fé ortodoxa e o Credo de Niceia contra a heresia ariana, que negava a divindade de Cristo. Por sua firmeza doutrinária, o imperador Constâncio mandou trancá-lo em sua própria casa, onde pereceu após meses de inanição, recebendo a coroa do martírio. A escolha desta estação quaresmal não é acidental; a Igreja, ao aproximar-se do Tempo da Paixão, ancora-se no testemunho de um mártir que deu a vida para atestar que Jesus Cristo é verdadeiro Deus e verdadeiro homem. A comemoração de hoje convida os fiéis a renovarem sua profissão de fé na divindade do Salvador, unindo os sacrifícios e jejuns quaresmais ao sofrimento dos mártires, preparando a alma para contemplar o mistério da Cruz com uma convicção inabalável de que aquele que padece no Calvário é o próprio Autor da vida.

📖 Introito (Sl 18, 15. 2)

Meditátio cordis mei in conspéctu tuo semper: Dómine, adjútor meus, et redémptor meus. Ps. ibid., 2. Cœli enárrant glóriam Dei: et ópera mánuum ejus annúntiat firmaméntum. ℣. Glória Patri.

A meditação do meu coração esteja sempre na vossa presença: Senhor, meu amparo e meu redentor. Salmo: Os céus narram a glória de Deus, e o firmamento anuncia a obra das suas mãos. Glória ao Pai.

📜 Epístola (3 Reis 17, 17-24)

Naqueles dias, adoeceu o filho de uma mulher, mãe de família, e tão grande era a sua fraqueza que não havia nele respiração. Disse ela pois, a Elias: Que há entre ti e mim, homem de Deus? Vieste porventura a mim, para me lembrares os meus pecados e matares o meu filho? E disse-lhe Elias: Dá-me o teu filho. Tomando-o no seu colo, levou-o ao aposento em que morava, pondo-o sobre o seu leito. E clamando ao Senhor, disse: Senhor, Deus meu, por que afligistes esta viúva que me sustenta, chegando ao ponto de deixardes morrer o seu filho? Estendendo-se em seguida, por três vezes sobre o menino, disse ao Senhor, em oração: Senhor, Deus meu, fazei, eu Vos suplico, que a alma deste menino volte a seu corpo. E ouviu, o Senhor, a voz de Elias: a alma do menino a ele voltou e ele ressuscitou. Tomando o menino, Elias desceu do quarto ao andar térreo da casa e entregando-o à mãe dele, disse-lhe: Eis que o teu filho vive. Respondeu a mulher a Elias: Reconheço agora, por esta ação, que és um homem de Deus e que a palavra do Senhor em tua boca é verdadeira.

✝️ Evangelho (Jo 11, 1-45)

Naquele tempo, um homem chamado Lázaro estava doente em Betânia, aldeia de Maria, e de Marta, sua irmã. (Maria era aquela que ungira o Senhor com bálsamo e Lhe enxugara os pés com seus cabelos, e cujo irmão, Lázaro, adoecera.) Suas irmãs enviaram a Jesus um recado, dizendo: Senhor, aquele a quem amais, está enfermo. Ouvindo isto, Jesus disse-lhes: Esta enfermidade não é mortal, porém é para a glória de Deus e para que seja glorificado por ela o Filho de Deus. Ora, Jesus amava a Marta, a sua irmã Maria, e a Lázaro. Tendo sabido que este enfermara, ficou entretanto ainda dois dias no mesmo lugar. Só então, disse a seus discípulos: Voltemos à Judeia, novamente. Disseram-Lhe os discípulos: Mestre, não queriam os judeus Te lapidar e queres voltar para lá? Jesus respondeu: Não tem o dia doze horas? Se alguém caminhar de dia não se magoa, porque vê a luz deste mundo. Se no entanto caminhar de noite, magoar-se-á, porque lhe falta a luz. Falando assim, após estas palavras disse: Lázaro, nosso amigo, dorme; porém, eu irei, e do sono o despertarei. Responderam os discípulos: Senhor, se ele dorme, será salvo. Jesus lhes falara, no entanto, de sua morte, porém eles julgaram que Ele falasse do descanso do sono. Então Jesus lhes disse, claramente: Lázaro morreu, e eu me alegro que lá não estivesse, por vossa causa, para que acrediteis. Vamos, porém, até ele. Disse então Tomé, chamado Dídimo, aos companheiros: Vamos também nós, e morramos com Ele! Chegou Jesus, e aconteceu que Lázaro já estava no sepulcro, havia quatro dias. (Estava Betânia quase a quinze estádios de Jerusalém - cerca de 3 km.) Muitos eram os judeus que haviam vindo consolar a Marta e Maria, por causa de seu irmão. Marta, logo que soube da vinda de Jesus, correu a seu encontro; Maria, porém, ficou em casa, sentada. Disse Marta a Jesus: Senhor, se estivésseis aqui, meu irmão não estaria morto. Sei, porém, que ainda agora, a tudo que pedirdes a Deus, Ele vo-lo dará. Respondeu-lhe Jesus: Teu irmão ressuscitará. Disse-lhe Marta: Sei que ressuscitará na ressurreição do dia do Juízo. Jesus lhe disse: Eu sou a Ressurreição e a Vida; quem crer em mim, mesmo que morto esteja, viverá; e qualquer que viva e creia em mim, jamais morrerá. Crês isto? E ela: Sim, Senhor, creio que sois o Cristo, o Filho de Deus vivo, que a este mundo veio. Depois destas palavras, retirou-se ela, e chamou a Maria, sua irmã, em voz baixa, dizendo: O Mestre aí está e te chama. Ouvindo isto, Maria depressa se levantou e foi ter com Ele; porque Jesus ainda não entrara na aldeia, permanecendo no lugar em que Marta O encontrara. Os judeus, no entanto, que estavam em casa com ela, consolando-a, vendo Maria levantar-se e sair, seguiram-na, dizendo: Ela vai ao sepulcro para chorar ali. Quando Maria chegou onde estava Jesus, vendo-O, lançou-se a seus pés e disse-Lhe: Senhor, se estivésseis aqui, meu irmão não estaria morto. Jesus então, vendo-a em lágrimas e os judeus que haviam vindo com ela, a chorar, comoveu-se e perturbando-se em seu íntimo, disse: Onde o pusestes? Disseram-Lhe: Senhor, vinde e vede. E Jesus chorou. Os judeus disseram então: Vede como Ele o amava. Alguns porém insinuaram: Não poderia Este que abriu os olhos do cego de nascença, fazer com que Lázaro não tivesse morrido? Jesus estremeceu novamente em si mesmo, e aproximou-se do sepulcro. Era uma gruta, e uma lápide fora posta sobre ela. Replicou-Lhe Marta, a irmã daquele que morrera: Senhor, já cheira mal, porque há quatro dias que está aqui. Respondeu-lhe Jesus: Não te disse que se acreditares, verás a glória de Deus? Tiraram pois a lápide. E Jesus elevando os olhos aos céus, disse: Pai, graças Te dou, porque me ouviste. Sabia eu que sempre me ouves, porém se assim falei, foi por causa do povo que me cerca, a fim de que creia que foste Tu quem me enviou. Tendo dito isto, clamou em alta voz: Lázaro, vem para fora! E logo saiu o que estivera morto, ligados os pés e as mãos por faixas e envolta a cabeça em um sudário. Disse-lhes Jesus: Desligai-o e deixai-o ir. Muitos dos judeus que tinham vindo com Maria e Marta, e haviam visto o milagre que Jesus fizera, n'Ele acreditaram.

🌿 O Senhor da vida e a vitória sobre a morte

A grandiosa narrativa da ressurreição de Lázaro manifesta de forma insofismável o mistério da divindade de Cristo, tema tão arduamente defendido por Santo Eusébio em seu martírio. Santo Agostinho (Sermão 49 sobre João 11) ensina que a demora de Jesus em intervir não denota abandono, mas um sublime desígnio para que o milagre, ocorrendo após quatro dias de sepultura, extirpasse qualquer dúvida sobre a vitória real sobre a morte. São Bernardo de Claraval aprofunda este mistério ao identificar nos quatro dias de morte as quatro terríveis feridas da queda humana: a ignorância, a concupiscência, a fraqueza e a malícia. Ao clamar "Lázaro, vem para fora!", a voz do Redentor rompe as correntes do pecado mais inveterado. As lágrimas do Senhor atestam a sua verdadeira humanidade, que se compadece de nossas misérias, enquanto a sua ordem soberana atesta o poder divino que tudo recria. São Tomás de Aquino (Suma Teológica, Parte III, Q. 53-56) recorda que, ao declarar-se "a Ressurreição e a Vida", Cristo se revela não apenas como o restaurador da vida mortal, mas como a causa eficiente e modelar de nossa ressurreição gloriosa no fim dos tempos.

Este poder vivificador já se anunciava nas figuras da Antiga Aliança, como revela a leitura sobre o profeta Elias. A angústia da viúva, que enxerga na morte do filho um castigo pelos seus pecados, reflete o desespero da alma humana aprisionada pela culpa, desprovida da respiração da graça divina. A ação de Elias, que se estende três vezes sobre o menino, é uma prefiguração admirável do mistério trinitário e dos três dias que Cristo repousaria no sepulcro antes de vencer a morte. A liturgia nos mostra que a oração confiante e o contato com o enviado de Deus têm o poder de devolver a vida àquilo que pereceu. Na economia da salvação, assim como a viúva reconheceu a verdade na boca de Elias após a restituição de seu filho, nós somos convidados, através da penitência quaresmal e do exemplo de confessores como Santo Eusébio, a reconhecer a Palavra de Deus operante em nós, capaz de ressuscitar as almas entorpecidas pelas paixões mundanas e devolvê-las ao convívio da graça.

Ambos os relatos convergem para a promessa definitiva de que o domínio da morte foi subjugado pela intervenção direta do Senhor. A figura do filho da viúva devolvido à sua mãe e de Lázaro devolvido às suas irmãs apontam para a restauração suprema da humanidade ferida, que será devolvida ao seio de Deus Pai. A exortação litúrgica de hoje é um chamado imperativo ao despertar espiritual: devemos permitir que a graça divina remova a pedra do nosso coração endurecido e desate as faixas dos nossos apegos terrenos. A meditação incessante da presença de Deus, pedida no Introito, é o antídoto contra a letargia do pecado. Fortalecidos pela fé inabalável que sustentou os mártires, devemos ouvir a voz de Cristo que nos chama para fora do sepulcro de nossas misérias, caminhando na luz deste mundo para alcançarmos, por meio Dele que é a Ressurreição e a Vida, a imortalidade bem-aventurada.