♱Quarta-feira de cinzas


🗓️A Quarta-feira de Cinzas inaugura o tempo santo da Quaresma, um período de quarenta dias dedicado à oração, ao jejum e à penitência, em preparação para a Páscoa do Senhor. Na liturgia tradicional, a estação reúne-se na Basílica de Santa Sabina, no Monte Aventino, simbolizando o retorno às fontes da fé romana. A cerimônia central deste dia é a bênção e imposição das cinzas, obtidas da queima dos ramos abençoados no Domingo de Ramos do ano anterior. Este sacramental recorda a condição mortal do homem através da fórmula "Lembra-te, ó homem, que és pó e em pó te hás de tornar" (Gn 3, 19), derivada da expulsão de Adão do Paraíso. Antigamente, este rito marcava o início da penitência pública para os pecadores notórios, que eram expulsos da igreja até a Quinta-feira Santa; com o tempo, a Igreja estendeu este gesto de humildade a todos os fiéis, pois diante da santidade de Deus, todos necessitam de conversão. Os textos da Missa, desde o Introito até o Evangelho, harmonizam a gravidade do juízo divino com a doçura da Sua misericórdia, exortando não apenas à maceração corporal, mas, sobretudo, à renovação interior do coração ("rasgai os vossos corações"), fundamentada na esperança do perdão e na busca dos tesouros celestes que a traça não corrói.

📜 Introito (Sab 11, 24, 25 e 27 | Sl 56, 2)

Miseréris ómnium, Dómine, et nihil odísti eórum quæ fecísti, dissímulans peccáta hóminum propter pœniténtiam et parcens illis: quia tu es Dóminus, Deus noster. Ps. Miserére mei, Deus, miserére mei: quóniam in te confídit ánima mea. ℣. Glória Patri.

Tendes piedade de todos, Senhor, e não odiais nenhuma das vossas criaturas. Vós usais de indulgência para com os pecados dos homens e lhes perdoais quando eles fazem penitência; porque sois o Senhor, nosso Deus. Sl. Tende piedade de mim, ó Deus, tende piedade de mim, porque a minha alma confia em Vós. ℣. Glória ao Pai.

✉️ Epístola (Joel 2, 12-19)

Hæc dicit Dóminus: Convertímini ad me in toto corde vestro, in jejúnio, et in fletu, et in planctu. Et scíndite corda vestra, et non vestiménta vestra, et convertímini ad Dóminum, Deum vestrum: quia benígnus et miséricors est, pátiens, et multæ misericórdiæ, et præstábilis super malítia. Quis scit, si convertátur, et ignóscat, et relínquat post se benedictiónem, sacrifícium et libámen Dómino, Deo vestro? Cánite tuba in Sion, sanctificáte jejúnium, vocáte cœtum, congregáte pópulum, sanctificáte ecclésiam, coadunáte senes, congregáte párvulos et sugéntes úbera: egrediátur sponsus de cubíli suo, et sponsa de thálamo suo. Inter vestíbulum et altáre plorábunt sacerdótes minístri Dómini, et dicent: Parce, Dómine, parce pópulo tuo: et ne des hereditátem tuam in oppróbrium, ut dominéntur eis natiónes. Quare dicunt in pópulis: Ubi est Deus eórum? Zelátus est Dóminus terram suam, et pepércit pópulo suo. Et respóndit Dóminus, et dixit pópulo suo: Ecce, ego mittam vobis fruméntum et vinum et óleum, et replebímini eis: et non dabo vos ultra oppróbrium in géntibus: dicit Dóminus omnípotens.

Eis o que diz o Senhor: Convertei-vos a Mim de todo o vosso coração, em jejuns, em lágrimas e gemidos. Rasgai os vossos corações e não as vossas vestes; convertei-vos ao Senhor, vosso Deus, que é benigno e compassivo, paciente e rico em misericórdia, e pronto a perdoar a maldade. Quem sabe se Ele não se voltará para vós, se vos perdoará, e não deixará uma bênção atrás de Si, para apresentardes novamente sacrifício e libação ao Senhor, vosso Deus? Tocai a trombeta em Sião, guardai um jejum sagrado, convocai a assembleia, reuni o povo, santificai a Igreja, reuni os velhos, congregai os pequeninos e os meninos de peito; saia o esposo de seu aposento e a esposa do seu leito nupcial. Os sacerdotes, ministros do Senhor, chorem entre o vestíbulo e o altar, dizendo: Perdoai, Senhor, perdoai ao vosso povo, e não deixeis cair a vossa herança no opróbrio, expondo-a aos insultos das nações. Porque se diria entre as nações: Onde está o seu Deus? O Senhor zela por sua terra e perdoa o seu povo. E o Senhor responde e diz a seu povo: Eis que vou enviar-vos trigo, vinho e azeite; deles ficareis abastecidos e nunca mais vos entregarei aos insultos das nações. Assim diz o Senhor Onipotente.

📖 Evangelho (Mt 6, 16-21)

In illo témpore: Dixit Jesus discípulis suis: Cum jejunátis, nolíte fíeri, sicut hypócritæ, tristes. Extérminant enim fácies suas, ut appáreant homínibus jejunántes. Amen, dico vobis, quia recepérunt mercédem suam. Tu autem, cum jejúnas, unge caput tuum, et fáciem tuam lava, ne videáris homínibus jejúnans, sed Patri tuo, qui est in abscóndito: et Pater tuus, qui videt in abscóndito, reddet tibi. Nolíte thesaurizáre vobis thesáuros in terra: ubi ærúgo et tínea demólitur: et ubi fures effódiunt et furántur. Thesaurizáte autem vobis thesáuros in cœlo: ubi neque ærúgo neque tínea demólitur; et ubi fures non effódiunt nec furántur. Ubi enim est thesáurus tuus, ibi est et cor tuum.

Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: Quando jejuardes, não tomeis um ar tristonho, como o fazem os hipócritas, que desfiguram suas faces, para que os homens vejam como jejuam. Em verdade, eu vos digo: já receberam a recompensa. Mas, quando tu jejuares, unge a tua cabeça e lava o teu rosto, para que não mostres aos homens que estás jejuando, mas só a teu Pai, que está presente ao que há de mais secreto; e teu Pai, que vê no oculto, te dará a recompensa. Não ajunteis para vós tesouros na terra, onde a ferrugem e a traça consomem e onde os ladrões desenterram e roubam. Ajuntai, porém, tesouros no céu, onde não há ferrugem nem traça que consomem, nem ladrões que desenterram e roubam. Porque onde está o teu tesouro, está também aí o teu coração.

💎 A interioridade da penitência e o tesouro da graça

A liturgia da Quarta-feira de Cinzas nos introduz na arena do combate espiritual, onde as armas não são carnais, mas divinas: a oração, o jejum e a esmola. O profeta Joel, na Epístola, estabelece o fundamento deste tempo sagrado ao clamar: "Rasgai os vossos corações e não as vossas vestes", indicando que a verdadeira conversão ocorre no recôndito da alma, onde a vontade humana se dobra diante da Majestade Divina, e não apenas nas manifestações exteriores de dor. Santo Agostinho nos ensina que o jejum purifica a alma e eleva a mente, mas adverte que tal prática é estéril se desvinculada da caridade e da retidão de intenção; jejuar das comidas sem jejuar dos pecados é uma zombaria a Deus (Santo Agostinho, Sermão 142). Cristo, no Evangelho, radicaliza esta exigência ao condenar a hipocrisia dos que buscam a glória humana através de atos religiosos; Ele ordena que a penitência seja feita "em segredo", sob o olhar do Pai, pois a vaidade é a "traça" que corrói o tesouro das boas obras antes mesmo que elas cheguem ao céu. São Tomás de Aquino explica que o jejum assume um triplo valor: reprime a concupiscência da carne, dispõe a mente para a contemplação das verdades eternas e serve como satisfação pelos pecados cometidos (São Tomás de Aquino, Suma Teológica, II-II, q. 147). Portanto, as cinzas que hoje recebemos não são um fim em si mesmas, mas um sinal pedagógico de nossa contingência e mortalidade, impulsionando-nos a desprezar os bens perecíveis - onde a ferrugem consome e os ladrões roubam - e a acumular, através de uma humildade sincera e oculta, o tesouro imperecível da graça divina, o único capaz de saciar o coração humano que foi criado para a eternidade.