A divinização do Estado e a ruína da pessoa humana: a crítica de Jouvenel ao gnosticismo político de Hegel


Exame das ideias de Hegel na obra "Du Pouvoir: Histoire naturelle de sa croissance" de Bertrand de Jouvenel (edição de 1972), com ênfase particular no Livro Primeiro, Capítulo III ("Les Théories organiques du Pouvoir") e reflexos no Livro Terceiro, Capítulo VII.

🗿 Introdução: o abandono da ordem natural e a gênese do ídolo

A profunda radiografia da monstruosidade estatal empreendida por Bertrand de Jouvenel em Du Pouvoir encontra um de seus pontos culminantes na análise da revolução filosófica do século XIX. A partir do Livro Primeiro, Capítulo III ("As Teorias orgânicas do Poder"), o autor demonstra como a subversão da ordem católica e medieval - que via a sociedade como uma comunidade de almas sob a lei imutável de Deus - abriu caminho para a idolatria da Nação. Neste contexto de apostasia e de negação da metafísica cristã, emerge a figura de Georg Wilhelm Friedrich Hegel. A obra de Jouvenel revela que Hegel não é apenas um filósofo, mas o sumo sacerdote de um panteísmo político. Ele forneceu ao Minotauro desacorrentado a sua justificação teórica definitiva: a divinização do Estado como a marcha do Absoluto na Terra, obliterando a dignidade da pessoa humana e legitimando os totalitarismos que ensanguentariam os séculos vindouros.

✝️ Da sociedade cristã à hipóstase da nação

Jouvenel constata que, antes da Revolução Francesa e do advento do romantismo filosófico, o pensamento ocidental concebia a sociedade de forma "nominalista". O povo era visto como um agregado de homens reais, detentores de direitos e deveres naturais, subordinados a um fim transcendente. Contudo, a Revolução operou uma profunda comoção psicológica: "O trono não foi derrubado, mas o Todo, a personagem Nação, subiu ao trono" (p. 92). A Nação transformou-se em um "Nós hipostasiado" (p. 92), um Ser supremo que transcende e absorve as partes.

É no bojo desse fervor nacionalista germânico que Hegel, segundo Jouvenel, "formula a primeira doutrina coerente do fenômeno novo e concede à Nação um diploma de existência filosófica" (p. 93). A tragédia do pensamento hegeliano, denunciada pela constatação jouveneliana, reside na dicotomia artificial e perversa que o filósofo alemão estabelece entre a "sociedade civil" e o "Estado". A "sociedade civil" é relegada ao âmbito dos interesses particulares e transitórios. O "Estado", ao contrário, torna-se a encarnação da Razão e da Moralidade objetiva. Para Hegel, o homem só alcança sua destinação verdadeira quando passa a "integrar conscientemente sua atividade na atividade geral, a encontrar sua satisfação na realização da Sociedade, a tomá-la enfim como meta" (p. 93-94).

Para o católico tradicional, tal postulado é a mais rasteira das idolatrias. O fim último do homem não é a Sociedade ou o Estado, mas a Bem-Aventurança eterna em Deus. Ao transferir o fim escatológico para a imanência do Estado hegeliano, o indivíduo perde o seu valor absoluto de criatura feita à imagem e semelhança do Criador, tornando-se uma mera engrenagem sacrificial no altar da "coletividade".

📈 A perversão do bem comum e a justificação do crescimento estatal

A filosofia de Hegel destrói irremediavelmente a concepção tomista e medieval de Bem Comum. Jouvenel ensina que, na Idade Média, o fim do Poder era a Justiça (jus suum cuique tribuere), balizada por uma Lei fixa e pelo Direito Objetivo, o que tornava a atividade do rei "essencialmente conservatória" e colocava um freio no desenvolvimento do Poder (p. 94).

Com a "concepção realista da Sociedade" de jaez hegeliano, "a noção de Bem Comum recebe um conteúdo completamente diferente" (p. 94). O objetivo não é mais proteger o direito do indivíduo, mas "procurar um Bem Social muito menos definido" e realizar uma "Moralidade cada vez mais alta que deve se realizar na Sociedade" (p. 94-95). A consequência dessa indefinição é letal: "Como agente dessa realização, e em razão desse objetivo, o Poder poderá justificar não importa qual crescimento de sua extensão" (p. 95). A teoria hegeliana oferece ao Estado um cheque em branco. Se o fim do Estado é a realização do Espírito, nenhuma barreira moral, costumeira ou religiosa pode se opor à sua fome expansionista.

👁️ O gnosticismo político e a tirania dos "conscientes"

O aspecto mais devastador da análise de Jouvenel sobre Hegel encontra-se na dissecação da "Vontade Geral". Enquanto Rousseau atrelava a vontade geral ao consenso das vontades particulares (ainda que de forma confusa e falha), Hegel a emancipa totalmente do povo real. Para Hegel, a Vontade Geral é aquela que "tende ao objetivo... à realização da vida coletiva mais alta" (p. 96). Ela é o que "deve ser realizado, com ou sem o assentimento dos indivíduos que não têm consciência do objetivo" (p. 96).

Isto engendra uma heresia gnóstica aplicada à política: a ideia de que existe uma "classe universal" (p. 96) iluminada, detentora da verdadeira consciência do sentido da História. Apenas a vontade dessa minoria coincide com o "racional em si e por si" (p. 97). Jouvenel aponta que essa justificação filosófica legitima a violência contra o corpo social. A "parte consciente" não faz violência ao Todo ao forçá-lo, assim como "um parteiro não faz violência, mesmo se emprega a força" para precipitar o nascimento do que deve ser (p. 96-97).

As consequências históricas dessa doutrina são catastróficas, e Jouvenel faz questão de nomear os filhotes teóricos de Hegel:

A Administração prussiana (Beamtenstaat), a burocracia arrogante que acredita que sua vontade não é capricho, mas "conhecimento do que deve ser" (p. 97).

O Socialismo científico de Marx, onde a "parte consciente do Proletariado" fala e quer em nome do Todo, forçando a massa inerte em direção à utopia (p. 97).

O Partido Fascista, que atua como a "parte consciente da Nação, quer pela Nação, e quer a Nação tal como ela deve ser" (p. 97).

Todas essas abominações totalitárias, que afogaram a ordem cristã em rios de sangue, "saem diretamente do hegelianismo" (p. 97). A doutrina de Hegel consagra o direito de uma oligarquia de iluminados - sejam eles intelectuais, burocratas ou líderes partidários - a guiar a maioria pela força, destruindo a liberdade natural sob o pretexto de realizar o "Destino". "Parece que Hegel não quis construir uma teoria autoritária. Mas ela se julga por seus frutos", sentencia implacavelmente Jouvenel (p. 98).

🧠 A dialética do egoísmo e a cegueira moral do pensamento especulativo

Mais adiante na obra (Livro Terceiro, Capítulo VII), ao tratar do caráter expansionista do Poder, Jouvenel retoma, de forma indireta, o problema da justificação hegeliana do Mal na história. O Poder é essencialmente egoísta, mas os grandes conquistadores e os idealistas embriagados de si mesmos tendem a fundir o seu egoísmo com um suposto altruísmo histórico (a astúcia da Razão).

Jouvenel adverte que o pensamento especulativo (do qual Hegel é o ápice) despreza a ordem complexa, cristã e orgânica. Apaixonado pela unidade racional, o intelecto divorciado da Fé busca simplificar e uniformizar o mundo. "Sempre que o intelectual imagina uma ordem simples, ele serve ao crescimento do Poder" (p. 223). A filosofia hegeliana, ao postular uma evolução contínua em que o Estado moderno permite a diferenciação social apenas para "reconduzir uma diversidade sempre crescente a uma unidade cada vez mais rica" (p. 99), fornece a moldura para o esmagamento das autonomias locais e familiares (as autoridades sociais legítimas).

Ao tentar fundar o altruísmo perfeito no Estado, a filosofia produz a tirania absoluta. Pois, como adverte o autor, as mais terríveis falhas políticas derivam de visões arbitrárias do "racional" que ignoram o bom senso e o instinto moral (p. 213-214). A justificação hegeliana de que as paixões particulares e os egoísmos dos governantes acabam por servir a fins sociais inexoráveis (p. 202) é a capitulação definitiva da moralidade perante a brutalidade do Fato consumado.

☠️ Conclusão: o veneno idealista e a ascensão do anticristo político

A análise das ideias de Hegel através da pena magistral de Bertrand de Jouvenel não deixa dúvidas quanto à natureza intrinsecamente perversa do panteísmo estatal. Sob a lente da doutrina católica tradicional, o Estado hegeliano revela-se como o reverso diabólico da Santa Igreja: exige para si a adoração, a obediência incondicional e o sacrifício que pertencem unicamente a Deus.

Ao substituir o Criador transcendente e a Lei Eterna pelo "Deus terreno" marchando na história; ao trocar o Bem Comum objetivo (a Justiça) pela abstração mutável da "realização da vida coletiva"; e, sobretudo, ao armar "eleitos" gnósticos com o dever moral de curvar os ignorantes à base da força, Hegel construiu a catedral intelectual do Totalitarismo. Suas ideias destruíram as defesas morais do indivíduo e das sociedades intermediárias (a família, a Igreja, o município). Sem Deus acima do Poder, o homem foi deixado nu perante o Leviatã moderno, confirmando a tese de Jouvenel de que, longe da Tradição, toda filosofia do Estado é, no fundo, uma apologia da escravidão universal.

📚 Referências

JOUVENEL, Bertrand de. Du Pouvoir: Histoire naturelle de sa croissance. Nova ed. Paris: Hachette, 1972.