O presente artigo tem por objetivo sintetizar a monumental análise teológica realizada pelo Padre Johannes Dormann sobre o pontificado de João Paulo II. A obra disseca as premissas doutrinárias que culminaram no Encontro de Oração de Assis em 1986, um evento que, sob a ótica da Tradição Católica, representa um escândalo sem precedentes e uma ruptura com o Magistério perene. Dormann demonstra, através de uma exegese minuciosa dos escritos de Karol Wojtyla - desde suas conferências pré-papais até suas três primeiras encíclicas (a "Trilogia Trinitária") - que o Papa polonês não agiu por um impulso pastoral isolado, mas sim como o executor sistemático de uma "Nova Teologia". Esta teologia, fundamentada no Concílio Vaticano II, substitui o dogma católico da Redenção pela tese da "Salvação Universal", promovendo um antropocentrismo radical que dissolve a distinção entre a natureza e a graça, e entre a Igreja e o mundo.
🚫 1. A ruptura com a tradição: De Mortalium Animos a Assis
Dormann inicia sua investigação contrastando o evento de Assis com o ensinamento perene da Igreja, especificamente a Encíclica Mortalium Animos (1928) de Pio XI. Enquanto a Tradição sempre condenou o indiferentismo religioso e a colaboração em cultos com falsas religiões, Assis apresentou ao mundo o espetáculo de um Papa presidindo um panteão de idolatria. Dormann argumenta que, para um católico fiel, "Assis toca a substância da Revelação Bíblica e da Fé Católica" (Part I, p. 8), constituindo uma violação do Primeiro Mandamento.
A justificação para tal ato não se encontra na Escritura ou na Tradição, mas exclusivamente no Concílio Vaticano II. Dormann aponta que o Concílio, com sua "linguagem pastoral" e abandono da precisão escolástica, introduziu ambiguidades calculadas - "frases carregadas" (Part I, p. 27) - que permitiram a infiltração da Nova Teologia. O Papa João Paulo II, descrito como o "homem do Vaticano II", utiliza o Concílio não à luz da Tradição, mas vê a Tradição e a Escritura re-lidas através da nova consciência conciliar.
👤 2. A teologia natural de Karol Wojtyla: O homem como caminho
Analisando o livro Sinal de Contradição (retiro pregado por Wojtyla em 1976), Dormann identifica as raízes do erro. Wojtyla propõe uma teologia onde a transcendência do espírito humano é o ponto de contato com Deus, independentemente da religião.
Dormann critica ferozmente a tese de Wojtyla de que "todos os homens, desde o início do mundo até o seu fim, foram redimidos e justificados por Cristo e Sua cruz" (Part I, p. 65). Esta afirmação ignora a necessidade da aceitação subjetiva da Redenção (Fé e Batismo). Para Dormann, Wojtyla transforma a Redenção objetiva (suficiente para todos) em Redenção subjetiva (eficiente em todos) a priori. O resultado é que a graça deixa de ser um dom gratuito sobrenatural para se tornar um constituinte da natureza humana, uma tese condenada pelo Magistério anterior.
🌍 3. Redemptor Hominis: O axioma da salvação universal
Na análise da primeira encíclica da trilogia, Redemptor Hominis (O Redentor do Homem), Dormann expõe o coração da teologia de João Paulo II. O ponto central é a interpretação da frase da Gaudium et Spes 22: "Pela sua encarnação, Ele [o Filho de Deus], de certo modo, uniu-se a cada homem".
Dormann demonstra que o Papa interpreta este "uniu-se" não como uma possibilidade ou oferta, mas como um fato ontológico consumado. "Trata-se de 'cada' homem, pois cada um foi incluído no mistério da Redenção e com cada um Cristo uniu-se para sempre através deste mistério" (Part II, Vol. 1, p. 186).
As consequências críticas levantadas por Dormann são devastadoras:
Cristianismo Anônimo: Se Cristo está unido a cada homem para sempre, então todo homem é cristão, saiba disso ou não. A distinção entre a Igreja (Corpo Místico) e a humanidade desaparece na prática.
A Nova Missão: A missão da Igreja deixa de ser batizar para salvar das trevas (cf. Mc 16, 16) e passa a ser apenas "revelar ao homem a sua própria dignidade". O Papa afirma que "Cristo revela plenamente o homem ao próprio homem" (Part II, Vol. 1, p. 112). A revelação deixa de ser teocêntrica para se tornar antropocêntrica.
Dupla Revelação: Dormann identifica dois conceitos de revelação na teologia papal. A "Revelação A Priori" (o fato interior de que todo homem já está unido a Deus) e a "Revelação A Posteriori" (o Evangelho histórico que apenas conscientiza o homem dessa realidade preexistente) (Part II, Vol. 1, p. 112).
👐 4. Dives in Misericordia: A distorção da paternidade divina
No segundo volume da Parte II, Dormann analisa a encíclica sobre Deus Pai. Aqui, o autor denuncia como o Papa reinterpreta a parábola do Filho Pródigo para negar a realidade da perda da graça santificante pelo pecado mortal.
Segundo a exegese de João Paulo II, o filho pródigo nunca perdeu sua dignidade real de filho, apenas a consciência dela. "O pai do Filho Pródigo é fiel à sua paternidade, fiel ao amor que ele sempre prodigalizou ao seu filho" (Part II, Vol. 2, p. 71).
Dormann contra-argumenta vigorosamente com a doutrina tradicional: pelo pecado original e mortal, o homem perde a filiação divina sobrenatural e torna-se "filho da ira" (Ef 2, 3). A teologia de Wojtyla, contudo, sugere uma "Aliança Indissolúvel" estabelecida na Criação que o pecado não pode romper.
Dormann conclui que, para o Papa, a misericórdia não é o perdão que remove o pecado e restaura a graça perdida, mas sim a "validação" de uma dignidade humana inalienável que jamais foi verdadeiramente perdida. Isso leva à ideia de "reciprocidade", onde Deus de alguma forma "deve" misericórdia ao homem devido à dignidade humana, invertendo a relação Criador-criatura (Part II, Vol. 2, p. 137).
🕊️ 5. Dominum et Vivificantem: A justificação pneumatológica do sincretismo
O terceiro volume da Parte II foca na encíclica sobre o Espírito Santo, que Dormann considera a preparação imediata e a justificação teológica para Assis.
O Papa afirma que o Espírito Santo está ativo não apenas na Igreja, mas no coração de todos os homens e nas "sementes do Verbo" presentes em todas as religiões. Dormann cita a encíclica: "O Espírito sopra onde quer... e nós possuímos 'as primícias do Espírito'" (Part II, Vol. 3, p. 262).
A crítica de Dormann é contundente:
A Onipresença Salvífica: O Papa ensina que o Espírito Santo opera a salvação universalmente, tornando as religiões não-cristãs veículos da ação do Espírito. Dormann refuta isso citando a Escritura, onde o Espírito é dado àqueles que creem em Cristo, e o "mundo" não pode recebê-Lo (Jo 14, 17).
A Trindade Fotiana: Dormann acusa o Papa de adotar uma visão da Trindade mais próxima da heresia de Fócio (o Pai como fonte única, minimizando o Filioque) para facilitar o ecumenismo, separando a ação do Espírito da ação redentora de Cristo na Cruz (Part II, Vol. 3, p. 93). Isso permite ao Papa afirmar uma ação do Espírito nas outras religiões independente da aceitação explícita de Cristo.
A Oração das Religiões: Esta teologia fundamenta a ideia de que, quando pagãos rezam aos seus ídolos ou "divindades", é o Espírito Santo que suscita essa oração no "coração do homem". Dormann classifica isso como uma aberração que iguala o culto ao Deus Verdadeiro com a idolatria material ou formal (Part II, Vol. 3, p. 302).
🤝 6. A aplicação prática: Ecumenismo e liberdade religiosa
A análise de Dormann demonstra que o ecumenismo e a liberdade religiosa não são meras estratégias diplomáticas para João Paulo II, mas consequências dogmáticas de sua antropologia.
Se todo homem é salvo e unido a Cristo, a "Igreja" torna-se apenas o "sacramento" (sinal) dessa unidade pré-existente da raça humana. A unidade da Igreja não é mais a unidade na Fé Católica, mas a "unidade do gênero humano". O Papa substitui a necessidade da conversão pela "conscientização". O direito à liberdade religiosa, condenado no Syllabus de Pio IX, é defendido por João Paulo II como baseado na dignidade ontológica do homem, uma dignidade que a Nova Teologia afirma ser divina (Part II, Vol. 1, p. 175).
⚠️ Considerações finais
O Padre Johannes Dormann conclui sua exaustiva análise com um veredito sombrio. A teologia de João Paulo II não é uma continuação ou desenvolvimento homogêneo do dogma católico, mas uma substituição gnóstica e panteísta disfarçada sob terminologia tradicional.
Ao postular a Salvação Universal a priori (pela Encarnação e não pela aplicação dos méritos da Cruz via Sacramentos e Fé), o Papa destrói a necessidade da Igreja, do Batismo e da Fé dogmática. Assis não foi um acidente, mas a "manifestação pública" dessa nova religião. Para Dormann, estamos diante de uma teologia centrada no homem, onde o dogma do Pecado Original é esvaziado e a distinção entre a ordem natural e a sobrenatural é obliterada. A obra encerra-se como um alerta gravíssimo aos fiéis católicos sobre a natureza heterodoxa dos ensinamentos que emanam da Roma pós-conciliar.
📖 Referência
DORMANN, Johannes. Pope John Paul II’s Theological Journey to the Prayer Meeting of Religions in Assisi. Part I; Part II, Vol. 1; Part II, Vol. 2; Part II, Vol. 3. Kansas City: Angelus Press, 1994-1998.