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sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Livro: Sobre Duas Asas: Fé Humilde e Bom Senso na Fundação Americana, de Michael Novak

🕯️ O revisionismo de Novak e o mito secular

A historiografia contemporânea tende frequentemente a interpretar a Fundação Americana através de uma lente estritamente secularista, enfatizando a influência de John Locke e do Iluminismo racionalista, enquanto marginaliza a religiosidade dos Pais Fundadores, reduzindo-a a um deísmo cerimonial e distante. Em On Two Wings (2002), o filósofo e teólogo católico Michael Novak desafia essa narrativa hegemônica.

Novak propõe uma metáfora central: a águia americana necessita de duas asas para voar. Uma asa representa o bom senso (common sense) e a razão prática do Iluminismo (especificamente o Iluminismo Escocês); a outra asa representa a fé humilde, enraizada nas Escrituras judaico-cristãs. A tese de Novak é que, sem uma dessas asas, a compreensão do experimento americano torna-se instável e historicamente imprecisa. Para o autor, a modernidade tentou "cortar uma das asas", resultando em uma visão distorcida da liberdade política (NOVAK, 2002).

🕍 A metafísica hebraica e a concepção de história

Um dos pontos mais originais e profundos da obra de Novak é a identificação do que ele denomina "metafísica hebraica" (Hebrew Metaphysic) como substrato intelectual dos fundadores. Diferente da concepção cíclica de tempo presente na filosofia grega clássica, a visão hebraica introduz a noção de progresso linear e narrativa histórica, onde as ações humanas possuem significado moral sob o julgamento da Providência.

Novak argumenta que, embora muitos fundadores fossem cristãos (anglicanos, presbiterianos, congregacionalistas), a linguagem política que utilizavam era predominantemente veterotestamentária. A narrativa do Êxodo - a libertação da tirania e a aliança com Deus - serviu como o arquétipo primordial para a Revolução Americana.

"A linguagem de Canaã era a língua franca da fundação americana. [...] Eles não se viam apenas como filósofos construindo uma república racional, mas como atores em um drama bíblico." (Análise interpretativa baseada em NOVAK, 2002, p. 19-22).

Para Novak, ignorar essa metafísica é não compreender por que a liberdade americana difere da liberdade da Revolução Francesa. Enquanto a vertente francesa tendia ao ateísmo militante e à perfectibilidade humana através da razão (uma forma de idolatria da razão), a vertente americana, informada pela Bíblia, mantinha uma consciência aguda da falibilidade humana e da soberania divina.

⚖️ Antropologia do pecado e o senso comum

Aprofundando a intersecção entre as "duas asas", Novak demonstra como a fé influenciou a arquitetura prática do Estado. A antropologia dos fundadores não era otimista no sentido rousseauniano; era realista e bíblica. A crença no pecado original - ou, na linguagem secular, na tendência inata do homem ao egoísmo e à corrupção - exigia um sistema de governo que não dependesse da virtude angelical de seus líderes.

Aqui entra a colaboração com o "Common Sense" do Iluminismo Escocês (influenciado por pensadores como Thomas Reid e Francis Hutcheson). A razão prática ditava que o poder deveria ser dividido para ser controlado. Nesta dinâmica, a "Fé Humilde" atua reconhecendo que nenhum homem é Deus, portanto, nenhum homem deve ter poder absoluto; a liberdade é um dom divino, mas deve ser exercida com responsabilidade moral. Simultaneamente, o "Senso Comum" reconhece que, empiricamente, os homens abusam do poder. Logo, a engenharia institucional (pesos e contrapesos) torna-se necessária para conter os vícios humanos e preservar a liberdade ordenada.

Novak (2002) destaca que a religião não era vista pelos fundadores como uma ferramenta de opressão (como no anticlericalismo europeu), mas como o baluarte indispensável da moralidade pública necessária para a autogovernança. Citando o Farewell Address de George Washington, Novak reforça que "razão e experiência nos proíbem de esperar que a moralidade nacional possa prevalecer em exclusão do princípio religioso".

🕊️ A providência intervencionista vs. o deísmo do relojoeiro

Uma contribuição crucial do aprofundamento de Novak é a refutação da categorização simplista dos fundadores como "deístas". O Deísmo clássico pressupõe um "Deus Relojoeiro" que cria o universo e o abandona às suas próprias leis mecânicas.

Novak demonstra, através de uma exaustiva análise documental de cartas, discursos e diários de figuras como Washington, Jefferson, Adams e Madison, que eles acreditavam fervorosamente na Providência. Eles oravam pedindo intervenção, acreditavam que Deus agia na história (especialmente nas batalhas da Revolução) e que as nações eram julgadas por seus atos morais.

"Para os fundadores, Deus não era uma abstração distante, mas o Juiz Supremo do mundo e o patrono da liberdade humana. A liberdade não era a ausência de restrições, mas a liberdade para cumprir o dever diante de Deus." (Síntese da argumentação de NOVAK, 2002, cap. 2).

Essa "Fé Humilde" não era necessariamente dogmática ou sectária, mas era teísta e ativa. Ela fornecia a base para a dignidade humana: os direitos são inalienáveis precisamente porque são concedidos pelo Criador, e não pelo Estado. Se a fonte dos direitos fosse apenas o consenso social (razão pura), eles poderiam ser revogados por um novo consenso. Ao ancorá-los no Transcendente, os fundadores criaram uma barreira metafísica contra a tirania.

⛪ Conclusão

Em On Two Wings, Michael Novak não propõe uma teocracia, nem nega a importância crucial da razão iluminista na formação dos EUA. Seu aprofundamento reside na demonstração de que a razão, por si só, era considerada insuficiente pelos fundadores para sustentar uma república livre.

A obra conclui que a vitalidade do experimento americano depende da manutenção da tensão saudável entre essas duas asas. A tentativa contemporânea de impor um secularismo radical, removendo a "asa da fé" do discurso público, não é um avanço em direção à neutralidade, mas uma mutilação da própria lógica que gerou os direitos humanos e a liberdade política nos Estados Unidos. Novak nos lembra que a fé humilde oferece o horizonte moral, enquanto o senso comum oferece o mapa prático; sem ambos, o voo da águia torna-se errático e perigoso.

📚 Referências bibliográficas

NOVAK, Michael. On Two Wings: Humble Faith and Common Sense at the American Founding. San Francisco: Encounter Books, 2002.

MADISON, James. The Federalist No. 51. In: HAMILTON, Alexander; MADISON, James; JAY, John. The Federalist Papers. New York: Mentor, 1961 [1788].

WASHINGTON, George. Farewell Address. 1796. Disponível em: The Avalon Project, Yale Law School. Acesso em: jan. 2025.
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sexta-feira, 3 de outubro de 2025

O Império da Fé Secular: A Religião Civil e a Alma da América

A chamada "religião civil" é um conceito que descreve um conjunto de crenças, valores e rituais que, embora não ligados a uma religião tradicional, funcionam como uma força unificadora em uma sociedade, promovendo a coesão social e legitimando a autoridade do Estado. Trata-se, em essência, da "religião do Império", um projeto de poder que visa preencher o vácuo espiritual deixado pelo declínio da fé transcendente com um culto imanente à própria estrutura política e social (Carvalho, 1998). No contexto americano, ela está profundamente enraizada em ideias deístas e iluministas, com influências de pensadores como Jean-Jacques Rousseau, e se manifesta no excepcionalismo americano, na veneração da Constituição, no patriotismo cívico e em figuras como John F. Kennedy, que encarnam essa narrativa.

🏛️Origens e Contexto Filosófico

O termo "religião civil" foi popularizado por Rousseau em O Contrato Social (1762), onde ele propõe uma religião secular que substituiria as religiões tradicionais para unificar a sociedade sob valores comuns. Para Rousseau, a religião civil deveria promover a lealdade ao Estado e à comunidade, com "dogmas" simples baseados na razão, como a crença na justiça, na igualdade e na soberania do povo. Essa ideia ressoou no Iluminismo, que valorizava a razão humana acima da autoridade religiosa tradicional, e no Deísmo, que via Deus como um criador distante, rejeitando dogmas sobrenaturais. Este movimento representa mais do que uma simples secularização; é uma inversão fundamental, onde a dimensão vertical da existência — a ligação do homem com o transcendente — é suprimida em favor de uma expansão total da dimensão horizontal, focada exclusivamente no projeto social e político. A cruz da espiritualidade tradicional é, assim, achatada em seus "braços", perdendo sua conexão com o céu (Carvalho, 1998). A proposta de Rousseau, portanto, não é apenas política, mas reflete uma profunda ambição gnóstica de recriar a ordem social e a própria natureza humana a partir de um plano puramente intramundano, rejeitando a ordem herdada da tradição e da revelação (Carvalho, 1998).

Nos Estados Unidos, a religião civil emergiu como uma fusão de ideais iluministas, valores protestantes e a crença na missão divina do país. A fundação dos EUA, com documentos como a Declaração de Independência (1776) e a Constituição (1787), reflete essa herança: a linguagem dos "direitos inalienáveis" e da "liberdade" ecoa o Deísmo, enquanto a ausência de uma religião estatal formal abriu espaço para uma espiritualidade cívica. Essa ausência, contudo, não significou neutralidade, mas sim a criação de um terreno fértil para que o Estado se tornasse o novo centro do sagrado, transformando seus documentos fundadores em "escrituras" e seus líderes em "profetas" de uma nova fé coletiva.

🇺🇸A religião civil americana é caracterizada por:

Excepcionalismo Americano: A crença de que os EUA têm uma missão única, quase divina, de espalhar liberdade e democracia. Essa ideia remonta aos puritanos, que viam a América como uma "cidade brilhante sobre a colina" (John Winthrop, 1630), e foi reforçada por eventos como a Revolução Americana e a expansão para o Oeste, interpretada como "Destino Manifesto". Essa crença não é um mero patriotismo, mas a manifestação moderna do Cæsar Redivivus — a ressurreição do ideal imperial universalista sob uma nova forma, onde a nação se atribui uma função soteriológica global, buscando impor seu modelo como a única via para a salvação política da humanidade (Carvalho, 1998).

Símbolos e Rituais: A Constituição, a Bandeira, o Juramento de Lealdade ("Pledge of Allegiance") e feriados como o Dia da Independência são tratados com reverência quase sagrada. Monumentos como o Lincoln Memorial e discursos como o de Gettysburg de Lincoln são "textos sagrados" dessa religião. Essa sacralização de símbolos temporais constitui uma forma de idolatria, na qual a lealdade devida ao transcendente é transferida para a nação e seus aparatos, exigindo uma submissão da consciência individual à vontade coletiva encarnada no Estado.

Mandamentos Humanos: Em vez de mandamentos divinos, a religião civil americana se baseia em princípios seculares como liberdade, igualdade, democracia e justiça, codificados na Constituição e na Declaração de Direitos. Esses princípios, uma vez absolutizados, tornam-se os dogmas de um "materialismo espiritual" que, sob a aparência de ética, busca subordinar e, em última análise, dissolver as leis morais das religiões tradicionais, que são vistas como obstáculos ao projeto de unificação social total (Carvalho, 1998).

Patriotismo Cívico: A lealdade ao país é expressa não apenas em termos políticos, mas como uma fé na "grandeza" americana, muitas vezes com tons messiânicos. Essa fé, quando levada ao extremo, alimenta uma mentalidade revolucionária que não se contenta em governar seu próprio território, mas aspira a uma reordenação completa do cenário mundial à sua imagem e semelhança.

🕊️John F. Kennedy e a Religião Civil

John F. Kennedy (1917-1963) é uma figura emblemática dessa religião civil. Seu discurso de posse em 1961, com a famosa frase "Não pergunte o que seu país pode fazer por você, mas o que você pode fazer por seu país", encapsula o chamado ao dever cívico e à unidade nacional. Kennedy personificava o ideal americano: jovem, carismático, defensor da liberdade durante a Guerra Fria, ele projetava a imagem de um líder que unia a nação sob valores compartilhados. Sua morte trágica em 1963 reforçou seu status quase mítico, como um mártir da religião civil. A transformação de uma figura política em mártir é um mecanismo essencial para a religião civil, que constrói sua própria hagiografia para solidificar sua legitimidade emocional e espiritual, mimetizando as estruturas simbólicas das religiões que busca substituir.

Kennedy também navegou a tensão entre a religião civil e a diversidade religiosa dos EUA. Como primeiro presidente católico, ele enfrentou preconceitos, mas reforçou a separação entre Igreja e Estado, alinhando-se com a ideia iluminista de que a lealdade ao Estado transcende divisões religiosas. Essa defesa da separação, no entanto, funciona na prática como uma estratégia de subordinação: a religião tradicional é relegada à esfera privada, tornando-se inofensiva ao poder público, enquanto a religião civil monopoliza o espaço público e define os termos da moralidade coletiva. Sua visão de uma América liderando o mundo livre contra o comunismo reforçou o excepcionalismo americano, apresentando os EUA como a vanguarda da liberdade, cumprindo perfeitamente o papel de sumo sacerdote da religião imperial em sua fase de expansão global.

📚Referências

Carvalho, Olavo de. O Jardim das Aflições: De Epicuro à Ressurreição de César - Ensaio sobre o Materialismo e a Religião Civil. 2. ed. Rio de Janeiro: Topbooks, 1998.
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terça-feira, 19 de agosto de 2025

A Canonização do Americanismo: Isaac Hecker e a Rendição da Igreja ao Liberalismo

No final de 2023, o episcopado católico dos Estados Unidos deu um passo decisivo em um projeto de profundo significado simbólico: a causa de canonização de Isaac Thomas Hecker, fundador dos Padres Paulistas, avançou com um endosso quase unânime. Este evento, no entanto, transcende a simples veneração de uma figura histórica; ele representa a tentativa de canonizar a própria ideologia que buscou harmonizar a Igreja com o regime liberal americano, um projeto condenado formalmente pelo Papa Leão XIII como a heresia do "Americanismo".

A figura de Isaac Hecker é o arquétipo do católico que, fascinado pelo dinamismo e pela aparente liberdade da república americana, buscou remodelar a fé para torná-la palatável a essa nova ordem. Seu programa consistia em uma adaptação estratégica: minimizar as doutrinas católicas que confrontavam diretamente o ethos liberal e pluralista, enquanto exaltava as virtudes "ativas" — como o empreendedorismo e o ativismo — em detrimento das virtudes "passivas", como a obediência e a vida contemplativa, consideradas inadequadas ao espírito pragmático do Novo Mundo. Essencialmente, Hecker propôs uma trégua, senão uma aliança, com os princípios de um regime fundado sobre a separação entre Igreja e Estado, um princípio que a Igreja sempre viu como uma capitulação da ordem sobrenatural à natural.

Christopher Ferrara observa que esse tipo de postura não foi uma peculiaridade isolada de Hecker, mas o reflexo de um movimento mais amplo que buscou reinterpretar o catolicismo segundo as categorias da democracia liberal americana. Para Ferrara (2012, p. 87-94), o chamado “Americanismo” não apenas suavizou a doutrina católica para adequá-la à sensibilidade republicana, mas inaugurou uma tradição de submissão voluntária à ordem constitucional americana, elevando-a à condição de paradigma da liberdade humana. Assim, o que deveria ser visto como um sistema político construído deliberadamente contra a Cristandade tornou-se, para figuras como Hecker, uma espécie de ambiente providencial para o florescimento da fé — uma inversão completa da perspectiva católica tradicional.

O que torna este avanço recente tão revelador é o apoio esmagador que recebeu da hierarquia. A aprovação da causa por uma margem de 230 votos a 7 não é um testemunho da santidade de Hecker, mas sim um diagnóstico alarmante da mentalidade do próprio episcopado. Ele demonstra que o projeto americanista não é mais uma tendência marginal, mas a posição dominante e institucionalizada. Os sucessores dos apóstolos na América parecem ter abandonado a missão de converter a nação ao Reinado Social de Cristo para, em vez disso, assumirem o papel de capelães de um regime liberal, vendo a sua estrutura não como um perigo para a fé, mas como o ambiente ideal para a sua prosperidade.

Ferrara (2012, p. 143) entende que este movimento de adaptação reflete uma traição à própria lógica missionária da Igreja: o liberalismo americano não deseja converter-se, mas converter a Igreja ao seu modelo; e a aceitação dessa premissa leva inevitavelmente à mutilação do Evangelho em nome da civilidade democrática. O episcopado, ao apoiar Hecker quase unanimemente, confirma que o liberalismo, outrora condenado como heresia por Leão XIII em Testem Benevolentiae (1899), foi assimilado de modo estrutural na mentalidade eclesial.

A linguagem usada para promover a causa é, em si, uma confissão. Descrever Hecker como "um santo para os nossos tempos" é uma inversão completa da concepção tradicional de santidade. Os santos não são canonizados por se conformarem aos seus tempos, mas por os desafiarem radicalmente em nome de uma verdade eterna. Um santo é quase sempre uma figura contra o seu tempo. Um "santo para os nossos tempos" de apostasia liberal só pode ser alguém cuja vida e doutrina não ofendem o espírito do mundo, mas o validam.

Ferrara (2012, p. 211-218) destaca que a idolatria da liberdade moderna produz exatamente este tipo de contrafação: santos que não santificam, mas legitimam. O “liberalismo católico”, ao absorver a retórica americana da liberdade individual, cria um simulacro de santidade cuja função principal é testemunhar não Cristo Rei, mas a suposta compatibilidade entre a Igreja e o regime fundado sobre a negação da Realeza social de Cristo.

Portanto, a iminente canonização de Hecker deve ser entendida como o ápice de um longo processo de autoneutralização da Igreja nos Estados Unidos. Seria o ato simbólico de batizar o erro, de declarar oficialmente que a fé católica e o credo liberal americano são compatíveis. Em última análise, significaria a santificação da própria rendição, elevando aos altares não um homem de virtude heróica na defesa da fé, mas o arquiteto da sua capitulação estratégica à ordem moderna.

Ferrara (2012, p. 365) resume essa contradição ao afirmar que o projeto americano jamais poderia ser visto como neutro: ele nasceu e se estruturou contra a Igreja. Dar-lhe uma auréola católica é não apenas uma falsificação histórica, mas uma espécie de apostasia prática. A canonização de Hecker, nesse sentido, não seria um ato de fidelidade, mas a legitimação final de um processo em que a Igreja, na América, aceitou tornar-se serva da ordem liberal em vez de sua crítica profética.

📚 Referência

FERRARA, Christopher A. Liberty, the God That Failed: Policing the Sacred and Constructing the Myths of the Secular State. Charlottesville: Angelico Press, 2012.
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segunda-feira, 2 de dezembro de 2024

Carta apostólica Testem Benevolentiae Nostrae de Leão XIII - Sobre o americanismo

[ LA ]

Carta apostólica Testem Benevolentiae Nostrae

Sobre novas opiniões, virtude, natureza e graça, no que diz respeito ao americanismo

Papa Leão XIII - 1899

Ao nosso amado filho, Cardeal James Gibbons, Cardeal Sacerdote do título Sancta Maria, além do Tibre, Arcebispo de Baltimore:

LEÃO XIII, Papa-Filho Amado, Saúde e Bênção Apostólica: Enviamos-lhe com esta carta uma renovada expressão daquela boa vontade que não deixamos de manifestar com frequência durante o curso de nosso pontificado a você e a seus colegas no episcopado e a todo o povo americano, aproveitando todas as oportunidades que nos são oferecidas pelo progresso de sua igreja ou o que quer que você tenha feito para salvaguardar e promover os interesses católicos. Além disso, muitas vezes consideramos e admiramos os nobres dons de sua nação, que permitem ao povo americano estar vivo para toda boa obra que promove o bem da humanidade e o esplendor da civilização. Embora esta carta não pretenda, como as anteriores, repetir as palavras de elogio tantas vezes ditas, mas sim chamar a atenção para algumas coisas a serem evitadas e corrigidas; ainda assim, porque é concebido no mesmo espírito de caridade apostólica que inspirou todas as nossas cartas, esperamos que você o tome como outra prova de nosso amor; tanto mais que se destina a suprimir certas contendas que surgiram recentemente entre vocês em detrimento da paz de muitas almas.

É sabido por você, filho amado, que a biografia de Isaac Thomas Hecker, especialmente por meio da ação daqueles que se comprometeram a traduzi-la ou interpretá-la em uma língua estrangeira, despertou não pouca controvérsia, por causa de certas opiniões apresentadas sobre o modo de levar a vida cristã.

Nós, portanto, por causa de nosso ofício apostólico, tendo que proteger a integridade da fé e a segurança dos fiéis, desejamos escrever-lhe mais longamente sobre todo esse assunto.

O princípio subjacente a essas novas opiniões é que, para atrair mais facilmente aqueles que diferem dela, a Igreja deve moldar seus ensinamentos mais de acordo com o espírito da época e relaxar um pouco de sua antiga severidade e fazer algumas concessões a novas opiniões. Muitos pensam que essas concessões devem ser feitas não apenas em relação aos modos de vida, mas até mesmo em relação às doutrinas que pertencem ao depósito da fé. Eles afirmam que seria oportuno, a fim de ganhar aqueles que diferem de nós, omitir certos pontos de seu ensinamento que são de menor importância e suavizar o significado que a Igreja sempre atribuiu a eles. Não são necessárias muitas palavras, filho amado, para provar a falsidade dessas idéias, se a natureza e a origem da doutrina que a Igreja propõe forem lembradas. O Concílio Vaticano diz a respeito deste ponto: "Pois a doutrina da fé que Deus revelou não foi proposta, como uma invenção filosófica a ser aperfeiçoada pela engenhosidade humana, mas foi entregue como um depósito divino à Esposa de Cristo para ser fielmente guardada e infalivelmente declarada. Portanto, o significado dos dogmas sagrados deve ser perpetuamente retido que nossa Santa Mãe, a Igreja, uma vez declarou, nem esse significado deve ser afastado sob o pretexto ou pretexto de uma compreensão mais profunda deles.

Não podemos considerar como totalmente irrepreensível o silêncio que propositadamente leva à omissão ou negligência de alguns dos princípios da doutrina cristã, pois todos os princípios vêm do mesmo Autor e Mestre, "o Filho Unigênito, que está no seio do Pai". -João i, I8. Eles são adaptados a todos os tempos e a todas as nações, como se vê claramente nas palavras de nosso Senhor a Seus apóstolos: "Ide, pois, ensinai todas as nações; ensinando-os a observar todas as coisas que vos ordenei, e eis que estou convosco todos os dias, até o fim do mundo." -Mate. xxviii, 19. Sobre este ponto, o Concílio Vaticano diz que: "Todas as coisas devem ser cridas com fé divina e católica que estão contidas na Palavra de Deus, escrita ou transmitida, e que a Igreja, seja por um julgamento solene ou por seu magistério ordinário e universal, propõe para crer como tendo sido divinamente reveladas". -Const. de fide, cap. iii.

Que esteja longe da mente de qualquer pessoa suprimir por qualquer motivo qualquer doutrina que tenha sido transmitida. Tal política tenderia a separar os católicos da Igreja do que a atrair aqueles que diferem. Não há nada mais próximo do nosso coração do que ter aqueles que estão separados do rebanho de Cristo retornando a ele, mas de nenhuma outra maneira senão o caminho indicado por Cristo.

A regra de vida estabelecida para os católicos não é de tal natureza que não possa acomodar-se às exigências de vários tempos e lugares. (VOL. XXIV-13.) A Igreja tem, guiada por seu Divino Mestre, um espírito bondoso e misericordioso, razão pela qual desde o início ela tem sido o que São Paulo disse de si mesmo: "Tornei-me tudo para todos os homens para salvar a todos".

A história prova claramente que a Sé Apostólica, à qual foi confiada a missão não só de ensinar, mas de governar toda a Igreja, continuou "em uma e mesma doutrina, um e o mesmo sentido, e um e mesmo julgamento" (Const. de fide, cap. iv.

Mas, no que diz respeito aos modos de vida, ela está acostumada a ceder de tal forma que, mantendo-se intacto o princípio divino da moral, ela nunca deixou de se acomodar ao caráter e ao gênio das nações que abraça.

Quem pode duvidar de que ela agirá novamente com esse mesmo espírito se a salvação das almas o exigir? Nesse assunto, a Igreja deve ser o juiz, não os homens particulares que muitas vezes são enganados pela aparência do direito. Nisso, todos os que desejam escapar da culpa de nosso predecessor, Pio VI, devem concordar. Ele condenou como prejudicial à Igreja e ao espírito de Deus que a guia a doutrina contida na proposição lxxviii do Sínodo de Pistoia, "que a disciplina feita e aprovada pela Igreja deve ser submetida a exame, como se a Igreja pudesse formular um código de leis inútil ou mais pesado do que a liberdade humana pode suportar. "

Mas, filho amado, neste assunto atual de que estamos falando, há um perigo ainda maior e uma oposição mais manifesta à doutrina e disciplina católicas na opinião dos amantes da novidade, segundo a qual eles mantêm tal liberdade deve ser permitida na Igreja, que sua supervisão e vigilância sendo em certo sentido diminuídas, Conceda-se aos fiéis, cada um para seguir mais livremente a condução de sua própria mente e a tendência de sua própria atividade. Eles são de opinião que tal liberdade tem sua contrapartida na liberdade civil recém-concedida, que agora é o direito e a base de quase todos os estados seculares.

Nas cartas apostólicas sobre a constituição dos estados, dirigidas por nós aos bispos de toda a Igreja, discutimos longamente esse ponto; e ali expõe a diferença existente entre a Igreja, que é uma sociedade divina, e todas as outras organizações sociais humanas que dependem simplesmente do livre arbítrio e da escolha dos homens.

É bom, então, dirigir particularmente a atenção para a opinião que serve como argumento em favor dessa maior liberdade buscada e recomendada aos católicos.

Alega-se que agora o decreto do Vaticano sobre a autoridade infalível do magistério do Romano Pontífice foi proclamado que nada mais a esse respeito pode dar qualquer solicitude e, portanto, uma vez que isso foi salvaguardado e colocado fora de questão, um campo mais amplo e livre tanto para o pensamento quanto para a ação está aberto a cada um. Mas tal raciocínio é evidentemente defeituoso, uma vez que, se quisermos chegar a qualquer conclusão da autoridade infalível do magistério da Igreja, deve ser que ninguém deseje se afastar dela e, além disso, que as mentes de todos sendo fermentadas e dirigidas por isso, maior segurança contra erros privados seria desfrutada por todos. Além disso, aqueles que se valem de tal modo de raciocínio parecem afastar-se seriamente da sabedoria dominante do Altíssimo - sabedoria que, uma vez que se agradou em expor por decisão soleníssima a autoridade e os supremos direitos de ensino desta Sé Apostólica - quis essa decisão precisamente para salvaguardar as mentes dos filhos da Igreja dos perigos dos tempos atuais.

Esses perigos, a saber, a confusão de licenciosidade com liberdade, a paixão por discutir e derramar desprezo sobre qualquer assunto possível, o direito assumido de ter quaisquer opiniões que se queira sobre qualquer assunto e expô-las impressas para o mundo, envolveram as mentes em trevas que agora há uma necessidade maior do ofício de ensino da Igreja do que nunca, para que as pessoas não se tornem desatentas tanto à consciência quanto ao dever.

Nós, de fato, não pensamos em rejeitar tudo o que a indústria e o estudo modernos produziram; tão longe disso que acolhemos o patrimônio da verdade e um escopo cada vez mais amplo de bem-estar público tudo o que ajuda para o progresso do aprendizado e da virtude. No entanto, tudo isso, para ter algum benefício sólido, ou melhor, para ter uma existência e crescimento reais, só pode ser feito sob a condição de reconhecer a sabedoria e a autoridade da Igreja.

Vindo agora para falar das conclusões que foram deduzidas das opiniões acima, e para elas, acreditamos prontamente que não houve pensamento de errado ou astúcia, mas as coisas em si certamente merecem algum grau de suspeita. Primeiro, toda orientação externa é reservada para aquelas almas que estão se esforçando pela perfeição cristã como sendo supérflua ou, de fato, não útil em nenhum sentido - a alegação é que o Santo Spirrit derrama graças mais ricas e abundantes do que antes sobre as almas dos fiéis, de modo que, sem intervenção humana, Ele os ensina e guia por algum instinto oculto de Sua autoria. No entanto, é o sinal de não pequeno excesso de confiança desejar medir e determinar o modo de comunicação divina com a humanidade, uma vez que depende inteiramente de Seu próprio prazer, e Ele é um dispensador muito generoso de seus próprios dons. "O Espírito sopra onde Ele quer." - João iii, 8.

"E a cada um de nós a graça é dada segundo a medida da doação de Cristo." — Efésios iv, 7.

E alguém que se lembra da história dos apóstolos, da fé da igreja nascente, das provações e mortes dos mártires - e, acima de tudo, daqueles tempos antigos, tão frutíferos em santos - ousará medir nossa idade com estes, ou afirmar que eles receberam menos do derramamento divino do Espírito de Santidade? Para não me alongar neste ponto, não há ninguém que questione a verdade de que o Espírito Santo opera por uma descida secreta às almas dos justos e que Ele os agita igualmente por advertências e impulsos, pois, a menos que fosse esse o caso, toda defesa e autoridade externas seriam inúteis. "Porque, se alguém se persuade de que pode dar assentimento à salvação, isto é, à verdade do evangelho quando proclamada, sem qualquer iluminação do Espírito Santo, que dá a toda doçura tanto o assentimento como o retenção, tal pessoa é enganada por um espírito herético." - Do Segundo Concílio de Orange, Cânon 7.

Além disso, como mostra a experiência, essas advertências e impulsos do Espírito Santo são em sua maior parte sentidos por meio da ajuda e luz de uma autoridade externa de ensino. Para citar Santo Agostinho. "Ele (o Espírito Santo) coopera com os frutos colhidos das boas árvores, uma vez que Ele os rega e cultiva externamente pelo ministério externo dos homens, e ainda por Si mesmo concede o aumento interior." -De Gratia Christi, cap. xix. Isso, de fato, pertence à lei ordinária da amorosa providência de Deus que, como Ele decretou que os homens, em sua maioria, serão salvos pelo ministério também dos homens, Ele desejou que aqueles a quem Ele chama para os planos mais elevados de santidade fossem conduzidos a eles pelos homens; portanto, São Crisóstomo declara que somos ensinados por Deus por meio da instrumentalidade dos homens. Altar. Disto nos é dado um exemplo notável logo nos primeiros dias da Igreja.

Pois, embora Saulo, decidido a sangue e matança, tivesse ouvido a voz do próprio nosso Senhor e perguntado: "O que queres que eu faça?", ainda assim ele foi ordenado a entrar em Damasco e procurar Ananias. Atos ix: "Entra na cidade e ali te será dito o que deves fazer."

Também não podemos deixar de considerar a verdade de que aqueles que estão se esforçando pela perfeição, uma vez que por esse fato não andam em um caminho batido ou bem conhecido, são os mais propensos a se desviar e, portanto, têm maior necessidade do que outros de um professor e guia. Essa orientação sempre foi obtida na Igreja; tem sido o ensinamento universal daqueles que ao longo dos tempos foram eminentes pela sabedoria e santidade - e, portanto, rejeitá-lo seria comprometer-se com uma crença ao mesmo tempo precipitada e perigosa.

Uma consideração minuciosa deste ponto, na suposição de que nenhum guia exterior é concedido a tais almas, nos fará ver a dificuldade de localizar ou determinar a direção e aplicação daquele influxo mais abundante do Espírito Santo tão grandemente exaltado pelos inovadores. no entanto, encontramos aqueles que gostam de novidades dando uma importância injustificada às virtudes naturais, como se respondessem melhor aos costumes e necessidades dos tempos e que, tendo-as como sua roupa, o homem se torna mais pronto para agir e mais extenuante na ação. Não é fácil compreender como é que as pessoas dotadas de sabedoria cristã podem preferir as virtudes naturais às sobrenaturais, ou atribuir-lhes uma maior eficácia e fruição. Será que a natureza conjugada com a graça é mais fraca do que quando deixada a si mesma?

Será que aqueles homens ilustres pela santidade, a quem a Igreja distingue e homenageia abertamente, eram deficientes, ficaram aquém da ordem da natureza e de seus dotes, porque se destacaram na força cristã? E embora às vezes seja permitido admirar atos dignos de admiração que são o resultado da virtude natural - existe alguém dotado simplesmente de uma roupa de virtude natural? Existe alguém que não seja tentado pela ansiedade mental, e isso em nenhum grau leve? No entanto, sempre para dominá-los, como também para preservar em sua totalidade a lei da ordem natural, requer uma assistência do alto. Esses atos notáveis a que aludimos, freqüentemente, após uma investigação mais detalhada, serão encontrados para exibir a aparência e não a realidade da virtude. Admitindo que é virtude, a menos que "corramos em vão" e não nos esqueçamos daquela bem-aventurança eterna que um bom Deus em sua misericórdia destinou para nós, de que servem as virtudes naturais, a menos que sejam secundadas pelo dom da graça divina? Por isso, Santo Agostinho bem diz: "Maravilhosa é a força e rápido o curso, mas fora do verdadeiro caminho". Pois, assim como a natureza do homem, devido à culpa primordial, é inclinada para o mal e a desonra, ainda assim, com a ajuda da graça, é levantada, é suportada com uma nova grandeza e força, assim também a virtude, que não é produto apenas da natureza, mas também da graça, torna-se frutífera para a vida eterna e assume um caráter mais forte e duradouro.

Essa superestimação da virtude natural encontra um método de expressão na suposição de dividir todas as virtudes em ativas e passivas, e alega-se que, enquanto as virtudes passivas encontraram melhor lugar nos tempos passados, nossa época deve ser caracterizada pelas ativas. Que tal divisão e distinção não podem ser mantidas é patente - pois não há, nem pode haver, meramente virtude passiva. "A virtude", diz São Tomás de Aquino, "designa a perfeição de alguma faculdade, mas o fim de tal faculdade é um ato, e um ato de virtude nada mais é do que o bom uso do livre arbítrio", agindo, isto é, sob a graça de Deus, se o ato for de virtude sobrenatural.

Só ele poderia desejar que algumas virtudes cristãs fossem adaptadas a certos tempos e diferentes para outros tempos que não se esquece das palavras do apóstolo: "Que aqueles que de antemão conheceu, predestinou para serem feitos conformes à imagem de seu Filho". - Romanos viii, 29. Cristo é o mestre e o exemplo de toda santidade, e devem conformar-se com Sua norma todos os que desejam a vida eterna. Nem Cristo conhece qualquer mudança com o passar dos séculos, "pois Ele é ontem e hoje e o mesmo para sempre". -Hebreus xiii, 8. Aos homens de todas as épocas foi dado o preceito: "Aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração." -Mate. xi, 29.

A todos os séculos Ele nos foi manifestado como obediente até a morte; em todas as épocas, o ditado do apóstolo tem sua força: "Aqueles que são de Cristo crucificaram sua carne com seus vícios e concupiscências". Queira Deus que hoje em dia mais pratiquem essas virtudes no grau dos santos dos tempos passados, que em humildade, obediência e autocontrole eram poderosos "em palavras e ações" - para a grande vantagem não apenas da confiança, mas do estado e do bem-estar público.

A partir desse desrespeito às virtudes angélicas, erroneamente denominadas passivas, o passo foi curto para um desprezo pela vida religiosa que, em algum grau, se apoderou das mentes. Que tal valor é geralmente mantido pelos defensores de novos pontos de vista, inferimos de certas declarações sobre os votos que as ordens religiosas fazem. Dizem que os votos são estranhos ao espírito de nossos tempos, pois limitam os limites da liberdade humana; que eles são mais adequados para mentes fracas do que ›o fortes; que, longe de contribuir para a perfeição humana e o bem da organização humana, eles são prejudiciais a ambos; mas que isso é o mais falso possível da prática e da doutrina da Igreja é claro, uma vez que ela sempre deu a mais alta aprovação ao método religioso de vida; nem sem boa causa, pois aqueles que, sob o chamado divino, abraçaram livremente esse estado de vida, não se contentaram com a observância dos preceitos, mas, avançando para os conselhos evangélicos, mostraram-se soldados prontos e valentes de Cristo. Devemos julgar isso como uma característica de mentes fracas, ou devemos dizer que é inútil ou prejudicial para um estado de vida mais perfeito?

Aqueles que assim se ligam pelos votos da religião, longe de terem sofrido uma perda de liberdade, desfrutam daquele tipo mais completo e livre, aquela liberdade, a saber, pela qual Cristo nos libertou. E essa visão adicional deles, a saber, que a vida religiosa é totalmente inútil ou de pouco serviço à Igreja, além de ser prejudicial às ordens religiosas, não pode ser a opinião de ninguém que tenha lido os anais da Igreja. O seu país, os Estados Unidos, não teve os primórdios da fé e da cultura dos filhos destas famílias religiosas? a um dos quais, mas muito recentemente, uma coisa muito louvável para você, você decretou que uma estátua fosse erguida publicamente. E mesmo no tempo presente, onde quer que as famílias religiosas sejam encontradas, quão rápida e frutífera é a colheita de boas obras que elas não produzem! Quantos saem de casa e buscam terras estranhas para transmitir a verdade do evangelho e ampliar os limites da civilização; e isso eles fazem com a maior alegria em meio a múltiplos perigos! De seu número, não menos, de fato, do que do resto do clero, o mundo cristão encontra os pregadores da Palavra de Deus, os diretores da consciência, os professores da juventude e a própria Igreja os exemplos de toda santidade.

Nem deve ser feita qualquer diferença de louvor entre aqueles que seguem o estado ativo da vida e aqueles que, encantados com a solidão, se entregam à oração e à mortificação corporal. E quanto, de fato, de boa fama eles mereceram e merecem, é conhecido certamente por todos os que não esquecem que a "oração contínua do homem justo" serve para aplacar e trazer as bênçãos do céu quando a tais orações a mortificação corporal é adicionada.

Mas se houver aqueles que preferem formar um corpo sem a obrigação dos votos, que sigam esse caminho. Não é novo na Igreja, nem de forma alguma censurável. Que eles tenham cuidado, no entanto, para não estabelecer tal estado acima do das ordens religiosas. Mas, antes, uma vez que a humanidade está mais disposta no momento presente a se entregar aos prazeres, que aqueles sejam tidos em maior estima "que, tendo deixado todas as coisas, seguiram a Cristo".

Finalmente, para não se alongar muito, afirma-se que o caminho e o método até agora em uso entre os católicos para trazer de volta aqueles que se afastaram da Igreja devem ser deixados de lado e outro escolhido, assunto em que será suficiente notar que não é parte da prudência negligenciar o que a antiguidade em sua longa experiência aprovou e que também é ensinado pela autoridade apostólica. As escrituras nos ensinam que é dever de todos ser solícitos pela salvação do próximo, de acordo com o poder e a posição de cada um. Os fiéis fazem-no cumprindo religiosamente os deveres do seu estado de vida, com a rectidão do seu comportamento, com as suas obras de caridade cristã e com a oração fervorosa e contínua a Deus. Por outro lado, aqueles que pertencem ao clero devem fazê-lo por um cumprimento iluminado de seu ministério de pregação, pela pompa e esplendor das cerimônias, especialmente expondo aquela forma sã de doutrina que São Paulo inculcou a Tito e Timóteo. Mas se, entre as diferentes maneiras de pregar a palavra de Deus, às vezes parece ser preferível, que se dirige aos não-católicos, não nas igrejas, mas em algum lugar adequado, de tal forma que não se busca controvérsia, mas conferência amigável, tal método é certamente sem falha. Mas que aqueles que assumem tal ministério sejam separados pela autoridade dos bispos e sejam homens cuja ciência e virtude tenham sido previamente verificadas. Pois pensamos que há muitos em seu país que estão separados da verdade católica mais por ignorância do que por má vontade, que talvez possam ser mais facilmente atraídos para o único rebanho de Cristo se essa verdade lhes for apresentada de maneira amigável e familiar.

Do exposto, é manifesto, filho amado, que não somos capazes de aprovar essas visões que, em seu sentido coletivo, são chamadas por alguns de "americanismo". Mas se por esse nome devem ser entendidos certos dons de espírito que pertencem ao povo americano, assim como outras características pertencem a várias outras nações, e se, além disso, por ele é designada sua condição política e as leis e costumes pelos quais você é governado, não há razão para fazer exceção ao nome. Mas se isso for entendido de tal forma que as doutrinas que foram advertidas acima não sejam apenas indicadas, mas exaltadas, não pode haver dúvida de que nossos veneráveis irmãos, os bispos da América, seriam os primeiros a repudiá-la e condená-la como sendo a mais prejudicial a si mesmos e a seu país. Pois isso daria origem à suspeita de que há entre vocês alguns que concebem e gostariam que a Igreja na América fosse diferente do que é no resto do mundo.

Mas a verdadeira igreja é uma, como pela unidade de doutrina, também pela unidade de governo, e ela também é católica. Uma vez que Deus colocou o centro e o fundamento da unidade na cátedra do Bem-aventurado Pedro, ela é justamente chamada de Igreja Romana, pois "onde Pedro está, aí está a igreja". Portanto, se alguém deseja ser considerado um verdadeiro católico, deve ser capaz de dizer de coração as mesmas palavras que Jerônimo dirigiu ao Papa Dâmaso: "Eu, não reconhecendo nenhum outro líder além de Cristo, estou ligado em comunhão com Vossa Santidade; isto é, com a cadeira de Pedro. Sei que a igreja foi edificada sobre ele como sua rocha, e que todo aquele que não ajunta convosco, espalha."

Achamos apropriado, filho amado, em vista de seu alto cargo, que esta carta fosse endereçada especialmente a você. Também será nosso cuidado providenciar que cópias sejam enviadas aos bispos dos Estados Unidos, testificando novamente o amor pelo qual abraçamos todo o seu país, um país que em tempos passados fez tanto pela causa da religião e que, com a assistência divina, continuará a fazer coisas ainda maiores. A Vós, e a todos os fiéis da América, concedemos com muito amor, como penhor da assistência divina, a nossa bênção apostólica.

Dado em Roma, de São Pedro, no dia 22 de janeiro de 1899 e no vigésimo primeiro de nosso pontificado.

Leão XIII
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Americanismo - Condenação pelo Papa Leão XIII

O Papa Leão XIII, na carta Testem benevolentiae de 1899, condenou a heresia do Americanismo. Esta heresia defendia que a Igreja deveria adaptar seus ensinamentos ao espírito da época, suavizando sua severidade e fazendo concessões às novas opiniões, algo que seria retomado pelo Modernismo e visto no Concílio Vaticano II. O Papa condenou o Americanismo, considerando-o uma forma de ativismo que continua sendo uma tentação e um perigo para a Igreja. Ele via essa tendência como uma ameaça à integridade da fé e à autoridade da Igreja, temendo que a adaptação excessiva ao mundo moderno pudesse diluir os ensinamentos tradicionais e comprometer a missão espiritual da Igreja.

O Americanismo criticava a constituição tradicional da Igreja, argumentando que o futuro pertencia às democracias e que a liberdade tinha um poder mágico sobre os espíritos. Os americanistas acreditavam que a Igreja deveria deixar de ser uma religião de autoridade e se tornar uma religião de liberdade, semelhante ao protestantismo. Eles também defendiam a revisão dos valores espirituais, priorizando virtudes ativas como energia na ação e apostolado externo, em vez das virtudes passivas da Idade Média, como humildade e obediência. Para os americanistas, o importante era o aperfeiçoamento natural do homem e não a vida sobrenatural. A religião dos americanistas era uma “religião da humanidade enxertada no Cristianismo”, focada mais em salvar a sociedade do que os indivíduos, oferecendo o aperfeiçoamento social como recompensa em vez do Paraíso. O espírito americanista também inspirava um ecumenismo que ignorava diferenças dogmáticas em prol da “união no amor” e nivelava todas as religiões. A formação clerical era criticada por ser excessivamente religiosa e insuficientemente humana, sugerindo que os seminários deveriam ensinar mais sociologia e economia.

Liberdade Individual: A ênfase na liberdade individual era compatível com os valores democráticos americanos e poderia atrair mais pessoas para a fé católica.

Separação entre Igreja e Estado: A separação entre Igreja e Estado era vista como uma maneira de garantir a liberdade religiosa e evitar a interferência do governo nos assuntos da Igreja.

Modernização da Igreja: A adaptação dos ensinamentos e práticas da Igreja às novas condições sociais e culturais era necessária para manter a relevância do catolicismo em um mundo em rápida mudança.

Evangelização: A abordagem mais flexível e adaptável do americanismo era considerada eficaz para a evangelização e para alcançar um público mais amplo.

Os principais representantes do Americanismo

Fundador da Congregação dos Paulistas (Paulist Fathers) em 1858, Hecker foi uma figura central no movimento americanista. Ele defendia uma Igreja mais adaptada ao espírito americano, com menos ênfase nos votos religiosos tradicionais e mais foco na ação e no apostolado externo.

Cardeal James Gibbons: Arcebispo de Baltimore e Primaz dos Estados Unidos, Gibbons foi um dos destinatários da carta Testem Benevolentiae do Papa Leão XIII, que condenou o Americanismo.

Modernismo

Início do século XX: Movimento artístico e cultural que rejeita o pensamento iluminista e busca representar melhor a realidade em um mundo industrializado.

1910-1935: Período central do modernismo americano, com forte influência na arte, literatura, música, cinema, design e arquitetura.

Condenação pelo Papa Pio X: O modernismo é condenado pela Igreja Católica, sendo visto como uma continuação dos erros do americanismo.
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