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domingo, 8 de março de 2026

EM MEIO ÀS SOLICITUDES - CARTA ENCÍCLICA DE S.S. O PAPA LEÃO XIII

[EN]

Encíclica AU MILIEU DES SOLLICITUDES. 

A Nossos Veneráveis Irmãos os Arcebispos, Bispos, ao clero e a todos os católicos da França.

Veneráveis Irmãos, caríssimos Filhos.

Em meio às solicitudes da Igreja universal, muitas vezes, durante o curso de Nosso Pontificado, Nós Nos agradamos em testemunhar Nossa afeição pela França e por seu nobre povo. E quisemos, por meio de uma de Nossas Encíclicas ainda presente na memória de todos, dizer solenemente, sobre esse assunto, todo o fundo de Nossa alma. É precisamente essa afeição que Nos manteve constantemente atento a acompanhar com o olhar, e depois a repassar em Nós mesmos, o conjunto de fatos, ora tristes, ora consoladores, que, há vários anos, se desenrolaram entre vós.

Ao penetrar a fundo, ainda nesta hora, o alcance do vasto complô que certos homens formaram para aniquilar na França o cristianismo, e a animosidade com que perseguem a realização de seu desígnio, pisoteando as noções mais elementares de liberdade e de justiça em relação ao sentimento da maioria da nação, e de respeito pelos direitos inalienáveis da Igreja Católica, como não seríamos tomados por uma viva dor? E quando vemos se revelarem, uma após a outra, as consequências funestas desses ataques culpáveis que conspiram para a ruína dos costumes, da religião e até dos interesses políticos sabiamente compreendidos, como exprimir as amarguras que Nos inundam e as apreensões que Nos assaltam?

Por outro lado, sentimos grande consolação quando vemos esse mesmo povo francês redobrar, em relação à Santa Sé, afeição e zelo, à medida que a vê mais abandonada, ou melhor, mais combatida na terra. Em várias ocasiões, movidos por um profundo sentimento de religião e de verdadeiro patriotismo, representantes de todas as classes sociais acorreram da França até Nós, felizes por suprir às necessidades incessantes da Igreja, desejosos de Nos pedir luz e conselho, para se assegurarem de que, em meio às tribulações presentes, não se afastariam em nada dos ensinamentos do Chefe dos crentes. E Nós, reciprocamente, seja por escrito, seja de viva voz, dissemos abertamente a Nossos filhos o que tinham direito de pedir a seu Pai. E longe de levá-los ao desânimo, exortamo-los fortemente a redobrar de amor e de esforços na defesa da fé católica, ao mesmo tempo que de sua pátria: dois deveres de primeira ordem, aos quais nenhum homem, nesta vida, pode se subtrair.

E hoje ainda, cremos oportuno, até mesmo necessário, elevar novamente a voz, para exortar com mais insistência, não diremos apenas os católicos, mas todos os franceses honestos e sensatos, a repelir para longe de si todo germe de dissensões políticas, a fim de consagrar unicamente suas forças à pacificação de sua pátria. Essa pacificação, todos compreendem seu preço; todos, cada vez mais, a chamam com seus votos, e Nós, que a desejamos mais que ninguém, pois representamos na terra o Deus da paz [1], convidamos, por meio desta Carta, todas as almas retas, todos os corações generosos, a Nos secundarem para torná-la estável e fecunda.

Antes de tudo, tomemos como ponto de partida uma verdade notória, subscrita por todo homem de bom senso e altamente proclamada pela história de todos os povos: a saber, que a religião, e somente a religião, pode criar o vínculo social; que só ela basta para manter sobre fundamentos sólidos a paz de uma nação. Quando diversas famílias, sem renunciar aos direitos e deveres da sociedade doméstica, se unem sob a inspiração da natureza para se constituírem membros de outra família mais vasta, chamada sociedade civil, seu fim não é apenas encontrar aí os meios de prover ao bem-estar material, mas sobretudo haurir o benefício de seu aperfeiçoamento moral. Do contrário, a sociedade se elevaria pouco acima de uma agregação de seres sem razão, cuja vida inteira está na satisfação dos instintos sensuais. Mais ainda: sem esse aperfeiçoamento moral, dificilmente se demonstraria que a sociedade civil, longe de ser para o homem, enquanto homem, uma vantagem, não se voltaria em seu detrimento.

Ora, a moralidade no homem, pelo fato mesmo de que deve harmonizar tantos direitos e tantos deveres diferentes, pois entra como elemento em todo ato humano, supõe necessariamente Deus e, com Deus, a religião, esse vínculo sagrado cujo privilégio é unir, antes de qualquer outro vínculo, o homem a Deus. Com efeito, a ideia de moralidade importa antes de tudo uma ordem de dependência em relação ao verdadeiro, que é a luz do espírito; em relação ao bem, que é o fim da vontade: sem o verdadeiro, sem o bem, não há moral digna desse nome. E qual é, pois, a verdade principal e essencial, da qual toda verdade deriva? É Deus. Qual é ainda a bondade suprema da qual procede todo outro bem? É Deus. Qual é, enfim, o criador e conservador de nossa razão, de nossa vontade, de todo nosso ser, como é o fim de nossa vida? Sempre Deus. Portanto, como a religião é a expressão interior e exterior dessa dependência que devemos a Deus a título de justiça, dela se desprende uma grave consequência que se impõe: Todos os cidadãos são obrigados a se unir para manter na nação o verdadeiro sentimento religioso, e para defendê-lo, se necessário, caso alguma escola ateia, apesar das protestações da natureza e da história, se esforçasse por expulsar Deus da sociedade, certa por isso de aniquilar o sentido moral no fundo mesmo da consciência humana. Nesse ponto, entre homens que não perderam a noção de honestidade, nenhuma dissidência poderia subsistir.

Nos católicos franceses, o sentimento religioso deve ser ainda mais profundo e mais universal, pois têm a felicidade de pertencer à verdadeira religião. Se, com efeito, as crenças religiosas foram sempre e em toda parte dadas como base à moralidade das ações humanas e à existência de toda sociedade bem ordenada, é evidente que a religião católica, pelo fato mesmo de ser a verdadeira Igreja de Jesus Cristo, possui mais que qualquer outra a eficácia necessária para bem regular a vida, na sociedade como no indivíduo. É preciso um exemplo brilhante? A própria França o fornece. — À medida que progredia na fé cristã, via-se ela subir gradualmente àquela grandeza moral que atingiu como potência política e militar. É que à generosidade natural de seu coração veio acrescentar uma abundante fonte de novas energias a caridade cristã; é que sua atividade maravilhosa encontrou, ao mesmo tempo como estímulo, luz diretiva e garantia de constância, essa fé cristã que, pela mão da França, traçou nas anais do gênero humano páginas tão gloriosas. E ainda hoje, sua fé não continua a acrescentar às glórias passadas novas glórias? Vê-se ela, inesgotável de gênio e de recursos, multiplicar em seu próprio solo as obras de caridade; admira-se ela partindo para países longínquos onde, por seu ouro, pelos trabalhos de seus missionários, ao preço mesmo de seu sangue, propaga ao mesmo tempo a fama da França e os benefícios da religião católica. Renunciar a tais glórias, nenhum francês, quaisquer que sejam aliás suas convicções, ousaria; seria renegar a pátria.

Ora, a história de um povo revela, de modo incontestável, qual é o elemento gerador e conservador de sua grandeza moral. Assim, se esse elemento vier a faltar, nem a superabundância de ouro, nem a força das armas poderão salvá-lo da decadência moral, talvez da morte. Quem não compreende agora que, para todos os franceses que professam a religião católica, a grande solicitude deve ser assegurar sua conservação; e isso com tanto mais devotamento quanto, no meio deles, o cristianismo se torna, da parte das seitas, objeto de hostilidades mais implacáveis? Nesse terreno, não podem permitir nem indolência na ação, nem divisão de partidos; uma acusaria uma covardia indigna do cristão, a outra seria causa de uma fraqueza desastrosa.

E aqui, antes de prosseguir, é preciso assinalar uma calúnia astuciosamente difundida, para acreditar contra os católicos e contra a própria Santa Sé imputações odiosas. — Pretende-se que a união e o vigor de ação inculcados aos católicos para a defesa de sua fé têm, como móvel secreto, bem menos a salvaguarda dos interesses religiosos do que a ambição de proporcionar à Igreja uma dominação política sobre o Estado. — Verdadeiramente, é querer ressuscitar uma calúnia bem antiga, pois sua invenção pertence aos primeiros inimigos do cristianismo. Não foi ela formulada primeiramente contra a pessoa adorável do Redentor? Sim, acusavam-no de agir por vistas políticas, enquanto iluminava as almas por sua pregação e aliviava as sofrimentos corporais ou espirituais dos infelizes com os tesouros de sua divina bondade: “Encontramos este homem subvertendo nossa nação, proibindo pagar tributo a César e dizendo-se Cristo-Rei. Se o soltas, não és amigo de César: pois todo aquele que se faz rei opõe-se a César… Não temos outro rei senão César” [2].

Foram essas calúnias ameaçadoras que arrancaram de Pilatos a sentença de morte contra Aquele que várias vezes declarara inocente. E os autores dessas mentiras, ou outros da mesma força, nada omitiram para propagá-las ao longe, por seus emissários, como São Justino Mártir reprovava aos judeus de seu tempo: “Longe de vos arrependerdes, depois que soubestes de sua ressurreição dentre os mortos, enviastes de Jerusalém homens habilmente escolhidos para anunciar que uma heresia e uma seita ímpia e iníqua haviam sido suscitadas por um certo sedutor chamado Jesus da Galileia” [3].

Ao difamar tão audaciosamente o cristianismo, seus inimigos sabiam o que faziam; seu plano era suscitar contra sua propagação um formidável adversário, o Império Romano. A calúnia abriu caminho; e os pagãos, em sua credulidade, chamavam a porfia os primeiros cristãos de “seres inúteis, cidadãos perigosos, facciosos, inimigos do Império e dos imperadores” [4]. Em vão os apologistas do cristianismo, por seus escritos, em vão os cristãos, por sua bela conduta, esforçaram-se por demonstrar quão absurdo e criminoso eram essas qualificações: nem sequer se dignavam ouvi-los. Seu nome só valia uma declaração de guerra; e os cristãos, pelo simples fato de serem cristãos, sem outra causa, viam-se necessariamente colocados nessa alternativa: ou a apostasia ou o martírio.

Os mesmos agravos e as mesmas rigores se renovaram mais ou menos nos séculos seguintes, cada vez que se encontraram governos desrazonavelmente ciumentos de seu poder e animados contra a Igreja de intenções malévolas. Sempre souberam colocar à frente, diante do público, o pretexto dos pretensos invasões da Igreja sobre o Estado, para fornecer ao Estado aparências de direito em seus atropelos e violências contra a religião católica.

Quisemos recordar, em alguns traços, esse passado, para que os católicos não se desconcertem com o presente. A luta, em substância, é sempre a mesma: sempre Jesus Cristo posto em mira pelos contraditores do mundo; sempre os mesmos meios postos em obra pelos inimigos modernos do cristianismo, meios muito velhos no fundo, modificados apenas na forma; mas sempre também os mesmos meios de defesa claramente indicados aos cristãos dos tempos presentes por nossos apologistas, nossos doutores, nossos mártires. O que fizeram, incumbe-nos fazê-lo por nossa vez. Coloquemos, pois, acima de tudo a glória de Deus e de sua Igreja; trabalhemos por ela, com aplicação constante e efetiva; e deixemos o cuidado do sucesso a Jesus Cristo, que nos diz: “No mundo tereis tribulações; mas tende confiança, Eu venci o mundo” [5].

Para chegar aí, já o notamos, é necessária uma grande união, e, se se quer alcançá-la, é indispensável pôr de lado toda preocupação capaz de diminuir sua força e eficácia. — Aqui, aludimos principalmente às divergências políticas dos franceses sobre a conduta a ter em relação à República atual: questão que desejamos tratar com a clareza exigida pela gravidade do assunto, falando dos princípios e descendo às consequências práticas.

Diversos governos políticos se sucederam na França no curso deste século, cada um com sua forma distinta: impérios, monarquias, repúblicas. Limitando-se às abstrações, chegar-se-ia a definir qual é a melhor dessas formas, consideradas em si mesmas; pode-se afirmar igualmente, em toda verdade, que cada uma delas é boa, contanto que saiba marchar reto para seu fim, isto é, o bem comum, para o qual a autoridade social é constituída; convém acrescentar finalmente que, de um ponto de vista relativo, tal ou tal forma de governo pode ser preferível, adaptando-se melhor ao caráter e aos costumes de tal ou tal nação. Nessa ordem de ideias especulativas, os católicos, como todo cidadão, têm plena liberdade de preferir uma forma de governo a outra, precisamente porque nenhuma dessas formas sociais se opõe, por si mesma, aos dados da sã razão, nem às máximas da doutrina cristã. E isso basta para justificar plenamente a sabedoria da Igreja quando, em suas relações com os poderes políticos, faz abstração das formas que os diferenciam, para tratar com eles os grandes interesses religiosos dos povos, sabendo que tem o dever de tomar sua tutela, acima de qualquer outro interesse. Nossas precedentes Encíclicas já expuseram esses princípios; era contudo necessário recordá-los para o desenvolvimento do assunto que hoje Nos ocupa.

Se, porém, se descer das abstrações ao terreno dos fatos, é preciso guardar-se bem de renegar os princípios estabelecidos há pouco; eles permanecem inabaláveis. Somente, ao se encarnarem nos fatos, revestem um caráter de contingência, determinado pelo meio em que se produz sua aplicação. Em outras palavras, se cada forma política é boa em si mesma e pode ser aplicada ao governo dos povos, na prática, contudo, não se encontra em todos os povos o poder político sob a mesma forma; cada um possui a sua própria. Essa forma nasce do conjunto de circunstâncias históricas ou nacionais, mas sempre humanas, que fazem surgir numa nação suas leis tradicionais e mesmo fundamentais: e, por elas, determina-se tal forma particular de governo, tal base de transmissão dos poderes supremos.

Inútil recordar que todos os indivíduos são obrigados a aceitar esses governos e a nada tentar para derrubá-los ou mudar sua forma. Daí vem que a Igreja, guardiã da noção mais verdadeira e mais alta sobre a soberania política, pois a faz derivar de Deus, sempre reprovou as doutrinas e sempre condenou os homens rebeldes à autoridade legítima. E isso, no próprio tempo em que os depositários do poder abusavam dele contra Ela, privando-se assim do mais poderoso apoio dado à sua autoridade, e do meio mais eficaz para obter do povo a obediência às suas leis. Não se pode meditar demais sobre esse assunto as célebres prescrições que o Príncipe dos apóstolos, em meio às perseguições, dava aos primeiros cristãos: “Honrai a todos; amai a fraternidade: temei a Deus: honrai o rei” [6]. E a de São Paulo: “Exorto-vos, pois, antes de tudo, a que se façam súplicas, orações, petições, ações de graças por todos os homens, pelos reis e por todos os que estão elevados em dignidade, a fim de que levemos uma vida tranquila, em toda piedade e castidade: pois isso é bom e agradável diante de Deus nosso Salvador” [7].

Contudo, é preciso notar cuidadosamente aqui: qualquer que seja a forma dos poderes civis numa nação, não se pode considerá-la tão definitiva que deva permanecer imutável, ainda que fosse a intenção daqueles que, no origem, a determinaram.

Somente a Igreja de Jesus Cristo pôde conservar e conservará seguramente até a consumação dos séculos sua forma de governo. Fundada por Aquele que era, que é e que será nos séculos [8], recebeu Dele, desde sua origem, tudo o que é necessário para prosseguir sua missão divina através do oceano móvel das coisas humanas. E, longe de precisar transformar sua constituição essencial, nem sequer tem o poder de renunciar às condições de verdadeira liberdade e de soberana independência, de que a Providência a muniu no interesse geral das almas.

Mas quanto às sociedades puramente humanas, é um fato gravado cem vezes na história que o tempo, esse grande transformador de tudo aqui embaixo, opera em suas instituições políticas profundas mudanças. Às vezes, limita-se a modificar algo na forma de governo estabelecida; outras vezes, vai até substituir às formas primitivas outras formas totalmente diferentes, sem excluir o modo de transmissão do poder soberano.

E como se produzem essas mudanças políticas de que falamos? Sucedeem às vezes a crises violentas, demasiado frequentemente sangrentas, no meio das quais os governos preexistentes desaparecem de fato; eis a anarquia que domina; logo, a ordem pública é abalada até seus fundamentos. Desde então, uma necessidade social se impõe à nação; ela deve sem demora prover a si mesma. Como não teria o direito, e mais ainda o dever, de se defender contra um estado de coisas que a perturba tão profundamente, e de restabelecer a paz pública na tranquilidade da ordem?

Ora, essa necessidade social justifica a criação e a existência dos novos governos, qualquer forma que tomem; pois, na hipótese em que raciocinamos, esses novos governos são necessariamente requeridos pela ordem pública, sendo todo ordem público impossível sem um governo. Segue-se daí que, em conjunturas semelhantes, toda a novidade se limita à forma política dos poderes civis, ou ao seu modo de transmissão; não afeta de modo algum o poder considerado em si mesmo. Este continua imutável e digno de respeito; pois, considerado em sua natureza, é constituído e se impõe para prover ao bem comum, fim supremo que dá origem à sociedade humana. Em outras palavras, em toda hipótese, o poder civil, considerado como tal, é de Deus e sempre de Deus: “Pois não há poder senão de Deus” [9].

Portanto, quando os novos governos que representam esse poder imutável são constituídos, aceitá-los não é somente permitido, mas reclamado, até mesmo imposto pela necessidade do bem social que os fez e os mantém. Tanto mais quanto a insurreição atiça o ódio entre cidadãos, provoca guerras civis e pode lançar a nação no caos da anarquia. E esse grande dever de respeito e de submissão persistirá enquanto as exigências do bem comum o demandarem, pois esse bem é, depois de Deus, na sociedade, a lei primeira e última.

Por aí se explica por si mesma a sabedoria da Igreja na manutenção de suas relações com os numerosos governos que se sucederam na França, em menos de um século, e nunca sem produzir abalos violentos e profundos. Tal atitude é a linha de conduta mais segura e mais salutar para todos os franceses, em suas relações civis com a república, que é o governo atual de sua nação. Longe deles essas dissensões políticas que os dividem; todos os seus esforços devem se combinar para conservar ou restaurar a grandeza moral de sua pátria.

Mas surge uma dificuldade: “Essa república, observa-se, é animada de sentimentos tão anticristãos que os homens honestos, e muito mais os católicos, não poderiam conscienciosamente aceitá-la.” Eis sobretudo o que deu origem às dissensões e as agravou.

Essas lamentáveis divergências teriam sido evitadas se se tivesse sabido levar em conta cuidadosamente a distinção considerável que há entre Poderes constituídos e Legislação. A legislação difere a tal ponto dos poderes políticos e de sua forma, que, sob o regime cuja forma é a mais excelente, a legislação pode ser detestável; enquanto que, ao contrário, sob o regime cuja forma é a mais imperfeita, pode se encontrar uma excelente legislação. Provar, com a história na mão, essa verdade seria coisa fácil; mas para quê? Todos estão convencidos. E quem melhor que a Igreja está em condições de sabê-lo, ela que se esforçou por manter relações habituais com todos os regimes políticos? Certamente, mais que qualquer outra potência, ela saberia dizer o que lhe trouxeram muitas vezes de consolações ou de dores as leis dos diversos governos que sucessivamente regeram os povos, do Império Romano até nós.

Se a distinção estabelecida há pouco tem sua importância maior, tem também sua razão manifesta; a legislação é obra dos homens investidos do poder e que, de fato, governam a nação. Donde resulta que, na prática, a qualidade das leis depende mais da qualidade desses homens do que da forma do poder. Essas leis serão, pois, boas ou más, segundo que os legisladores tenham o espírito imbuído de bons ou maus princípios e se deixem dirigir pela prudência política ou pela paixão.

Que na França, há vários anos, diversos atos importantes da legislação tenham procedido de tendências hostis à religião, e consequentemente aos interesses da nação, é o reconhecimento de todos, infelizmente confirmado pela evidência dos fatos.

Nós mesmos, obedecendo a um dever sagrado, dirigimos queixas vivamente sentidas àquele que era então chefe da República. Essas tendências, contudo, persistiram, o mal se agravou, e não se pode estranhar que os membros do Episcopado francês, colocados pelo Espírito Santo para reger suas diferentes e ilustres Igrejas, tenham considerado, ainda bem recentemente, como uma obrigação expressar publicamente sua dor quanto à situação criada na França à religião católica.

Pobre França! Só Deus pode medir o abismo de males em que ela se afundaria se essa legislação, longe de melhorar, se obstinasse em tal desvio, que chegaria a arrancar do espírito e do coração dos franceses a religião que os fez tão grandes.

E eis precisamente o terreno sobre o qual, pondo de lado toda dissensão política, os homens de bem devem se unir como um só homem, para combater, por todos os meios legais e honestos, essa legislação. O respeito devido aos poderes constituídos não o pode proibir: não pode importar nem o respeito, nem muito menos obediência sem limites a toda medida legislativa qualquer, editada por esses mesmos poderes. Não se esqueça: a lei é uma prescrição ordenada segundo a razão e promulgada, para o bem da comunidade, por aqueles que receberam para esse fim o depósito do poder.

Em consequência, nunca se pode aprovar pontos de legislação hostis à religião e a Deus; ao contrário, é um dever reprová-los. É o que o grande bispo de Hipona, São Agostinho, colocava em perfeita luz nesse raciocínio cheio de eloquência: “Às vezes, os poderes da terra são bons e temem a Deus; outras vezes, não o temem. Juliano era um imperador infiel a Deus, um apóstata, um perverso, idólatra. Os soldados cristãos serviram esse imperador infiel. Mas, quando se tratava da causa de Jesus Cristo, não reconheciam senão Aquele que está no céu. Juliano lhes prescrevia honrar os ídolos e incensá-los? Punham Deus acima do príncipe. Mas, dizia-lhes ele, formai vossas fileiras para marchar contra tal nação inimiga? No instante obedeciam. Distinguiam o Mestre eterno do mestre temporal, e contudo, em vista do Mestre eterno, submetiam-se mesmo a tal mestre temporal” [10]. Sabemos que o ateu, por um lamentável abuso de sua razão e mais ainda de sua vontade, nega esses princípios. Mas, em definitivo, o ateísmo é um erro tão monstruoso que nunca poderá, diga-se em honra da humanidade, aniquilar nela a consciência dos direitos de Deus para substituir a idolatria do Estado.

Definidos assim os princípios que devem regular nossa conduta em relação a Deus e aos governos humanos, nenhum homem imparcial poderá acusar os católicos franceses se, sem poupar fadigas nem sacrifícios, trabalham para conservar a sua pátria o que é para ela condição de salvação, o que resume tantas tradições gloriosas registradas pela história, e que todo francês tem o dever de não esquecer.

Antes de terminar Nossa Carta, queremos tocar em dois pontos conexos entre si, e que, se ligando mais de perto aos interesses religiosos, puderam suscitar entre os católicos alguma divisão.

Um deles é o Concordat que, durante tantos anos, facilitou na França a harmonia entre o governo da Igreja e o do Estado. Sobre a manutenção desse pacto solene e bilateral, sempre fielmente observado da parte da Santa Sé, os adversários da religião católica mesmos não se põem de acordo.

Os mais violentos querem sua abolição, para deixar ao Estado toda liberdade de molestar a Igreja de Jesus Cristo.

Outros, ao contrário, com mais astúcia, querem, ou ao menos asseguram querer a conservação do Concordat: não porque reconheçam ao Estado o dever de cumprir em relação à Igreja os compromissos assumidos, mas unicamente para fazê-lo beneficiar das concessões feitas pela Igreja; como se pudesse separar a seu bel-prazer os compromissos tomados das concessões obtidas, quando essas duas coisas fazem parte substancial de um só todo. Para eles, o Concordat não restaria senão como uma cadeia própria para entravar a liberdade da Igreja, essa liberdade santa a que ela tem direito divino e inalienável.

Dessas duas opiniões, qual prevalecerá? Ignoramo-lo. Quisemos somente recordá-lo, para recomendar aos católicos que não provoquem cisão sobre um assunto que cabe à Santa Sé tratar.

Não teremos a mesma linguagem sobre o outro ponto, concernente ao princípio da separação do Estado e da Igreja, o que equivale a separar a legislação humana da legislação cristã e divina. Não queremos nos deter aqui para demonstrar tudo o que tem de absurdo a teoria dessa separação; cada um o compreenderá por si mesmo. Desde que o Estado recusa dar a Deus o que é de Deus, recusa, por consequência necessária, dar aos cidadãos o que lhes cabe como homens; pois, queiram ou não, os verdadeiros direitos do homem nascem precisamente de seus deveres para com Deus. Donde se segue que o Estado, faltando nesse ponto ao fim principal de sua instituição, chega na realidade a se negar a si mesmo e a desmentir o que é a razão de sua própria existência. Essas verdades superiores são tão claramente proclamadas pela voz mesma da razão natural que se impõem a todo homem que não seja cegado pela violência da paixão.

Os católicos, em consequência, não podem se guardar demais de apoiar tal separação. Com efeito, querer que o Estado se separe da Igreja seria querer, por consequência lógica, que a Igreja fosse reduzida à liberdade de viver segundo o direito comum a todos os cidadãos.

Essa situação, é verdade, se produz em certos países. É uma maneira de ser que, se tem numerosos e graves inconvenientes, oferece também algumas vantagens, sobretudo quando o legislador, por uma feliz inconsequência, não deixa de se inspirar em princípios cristãos; e essas vantagens, embora não possam justificar o falso princípio da separação, nem autorizar a defendê-lo, tornam contudo digno de tolerância um estado de coisas que, praticamente, não é o pior de todos.

Mas na França, nação católica por suas tradições e pela fé presente da grande maioria de seus filhos, a Igreja não deve ser posta na situação precária que sofre em outros povos. Os católicos podem tanto menos preconizar a separação quanto melhor conhecem as intenções dos inimigos que a desejam. Para estes últimos, e eles o dizem bastante claramente, essa separação é a independência inteira da legislação política em relação à legislação religiosa; mais ainda, é a indiferença absoluta do poder em relação aos interesses da sociedade cristã, isto é, da Igreja, e a própria negação de sua existência. — Fazem contudo uma reserva que se formula assim: Desde que a Igreja, utilizando os recursos que o direito comum deixa aos menores dos franceses, souber, por um redobro de sua atividade nativa, fazer prosperar sua obra, logo o Estado intervindo poderá e deverá pôr os católicos franceses fora do próprio direito comum.

Para dizer tudo numa palavra, o ideal desses homens seria o retorno ao paganismo: o Estado não reconhece a Igreja senão no dia em que lhe apraz persegui-la.

Explicamos, Veneráveis Irmãos, de modo abreviado mas claro, senão todos, ao menos os principais pontos sobre os quais os católicos franceses e todos os homens sensatos devem praticar a união e a concórdia, para curar, tanto quanto ainda é possível, os males de que a França está afligida, e para elevar mesmo sua grandeza moral. Esses pontos são: a religião e a pátria, os poderes políticos e a legislação, a conduta a ter em relação a esses poderes e a essa legislação, o concordato, a separação do Estado e da Igreja.

Nutrimos a esperança e a confiança de que o esclarecimento desses pontos dissipará os preconceitos de vários homens de boa-fé, facilitará a pacificação dos espíritos, e por ela a união perfeita de todos os católicos, para sustentar a grande causa de Cristo que ama os francos.

Que consolação para Nosso coração encorajar-vos nesse caminho e contemplar-vos a todos respondendo docilmente a Nosso apelo! — Vós, Veneráveis Irmãos, por Vossa autoridade e com o zelo tão esclarecido pela Igreja e pela Pátria que Vos distingue, trareis um poderoso auxílio a essa obra pacificadora. — Amamos mesmo esperar que aqueles que estão no poder queiram apreciar bem Nossas palavras, que visam à prosperidade e à felicidade da França.

Enquanto isso, como penhor de Nossa afeição paternal, damos a Vós, Veneráveis Irmãos, a Vosso Clero, assim como a todos os católicos da França, a Bênção Apostólica.

Dado em Roma, aos 16 de fevereiro do ano de 1892, do Nosso Pontificado o décimo quarto.

Leão XIII, Papa

ASS, vol. XXIV (1891-92), pp. 519-529.

[1] Pois Deus não é Deus de dissensão, mas de paz, 1 Cor 14,33. [2] Luc 23,2; Jo 19,12-15. [3] Diálogo com Trifão (São Justino). [4] Alusão a autores pagãos como Tácito, Suetônio etc. [5] Jo 16,33. [6] 1 Pd 2,17. [7] 1 Tm 2,1-3. [8] Ap 1,8. [9] Rm 13,1. [10] Alusão a sermão de Santo Agostinho sobre obediência civil.

sábado, 4 de outubro de 2025

A Luz Eterna da Sabedoria: O Chamado Perene de Leão XIII à Sanidade Filosófica (sobre o naturalismo prático denunciado na encíclica Aeterni Patris)

A encíclica Aeterni Patris, promulgada pelo Papa Leão XIII em 1879, representa um marco na história intelectual da Igreja Católica. Diante de uma modernidade marcada por sistemas filosóficos que conduziam ao ceticismo, ao materialismo e ao racionalismo, o documento apresenta um diagnóstico claro e uma solução vigorosa: a restauração da filosofia cristã, tendo como mestre e guia seguro Santo Tomás de Aquino. A encíclica argumenta que a filosofia moderna, ao divorciar a razão da fé, produziu "frutos venenosos", gerando desordem não apenas no campo do saber, mas também na vida social e moral. Em contrapartida, a filosofia tomista é apresentada como um baluarte da verdade, um instrumento capaz de demonstrar os preâmbulos da fé, defender os dogmas contra os erros e ordenar o conhecimento humano em harmonia com a revelação divina. Leão XIII exorta bispos, clérigos e acadêmicos a "restaurar a áurea sabedoria de Tomás e propagá-la o mais longe possível", não como um sistema fechado, mas como um manancial de princípios sólidos e perenes capazes de iluminar os desafios de qualquer época. O documento conclui com um apelo à união de esforços para que a sã doutrina filosófica possa novamente florescer, servindo como fundamento para a teologia e como guia seguro para a cultura.

🌪️O Diagnóstico de uma Enfermidade Moderna: O Naturalismo Prático

A encíclica Aeterni Patris identifica a raiz dos males modernos na separação entre fé e razão, uma cisão que levou a filosofia a confiar presunçosamente em suas próprias forças, resultando em contradição e ceticismo (Leão XIII, 1879). Essa autonomia orgulhosa do intelecto é o reflexo, no campo filosófico, daquilo que na vida espiritual se manifesta como "naturalismo prático". Trata-se da tentativa de organizar a vida sem Deus, ou, mais sutilmente, sem a necessidade de Sua graça interior para curar e elevar a natureza ferida (Garrigou-Lagrange, 1989, v. 1, p. 275). Assim como a filosofia moderna buscou uma autossuficiência que a conduziu ao erro, a alma que vive segundo o espírito da natureza, confiando em suas próprias luzes e forças, acaba por julgar as coisas divinas de um ponto de vista inferior, caindo naquilo que as Escrituras chamam de "loucura espiritual" (Garrigou-Lagrange, 1989, v. 1, p. 356). A desordem social e moral denunciada na encíclica é, em última análise, o fruto de almas desordenadas, cujo intelecto, não purificado pela fé, torna-se presa da curiosidade, do orgulho e da cegueira espiritual.

🏗️O Remédio Tomista: Para Além da Filosofia, Rumo à Santidade

Ao propor a restauração do tomismo, a intenção não é meramente acadêmica. A filosofia de São Tomás de Aquino é apresentada como um remédio porque oferece a estrutura intelectual que corresponde à realidade do ser humano e à sua ordenação a um fim sobrenatural. Para a vida interior, isso se traduz na necessidade de "firmeza de princípios" (Garrigou-Lagrange, 1989, v. 1, p. v). Sem uma metafísica sólida que reconheça a contingência da criatura e a absoluta transcendência de Deus, a alma dificilmente se abrirá à humildade, que é o fundamento de todo o edifício espiritual. O tomismo, ao estabelecer a distinção real entre essência e existência em tudo o que não é Deus, fornece a base racional para a compreensão do mistério da criação ex nihilo e, consequentemente, para o ato de humildade que reconhece: "Eu sou Aquele que é; tu és aquela que não é" (Garrigou-Lagrange, 1989, v. 1, p. 106). Assim, a restauração da sã filosofia não é um fim em si mesma, mas um meio indispensável para purificar o intelecto, ordenando-o à verdade e preparando-o para receber a luz superior da fé.

✨A Harmonia entre Fé e Razão: A Purificação do Intelecto

Aeterni Patris insiste que a fé não destrói a razão, mas a aperfeiçoa, elevando-a e protegendo-a do erro (Leão XIII, 1879). Na vida espiritual, esse princípio se concretiza na purificação ativa do intelecto. A razão humana, ferida pelo pecado original, tende à curiosidade vã, à presunção e à cegueira espiritual. A virtude da fé, portanto, não atua apenas como um conjunto de verdades a serem cridas, mas como um princípio de purificação (Garrigou-Lagrange, 1989, v. 1, p. 359). O "espírito de fé" consiste em julgar todas as coisas — a nós mesmos, ao próximo, aos acontecimentos — sob a luz da revelação. Esse exercício contínuo de submeter o juízo próprio à autoridade de Deus revelador é a verdadeira mortificação do intelecto. É o que permite à alma passar de uma visão horizontal das coisas, imersa no tempo, para uma visão vertical que as conecta ao instante imóvel da eternidade (Garrigou-Lagrange, 1989, v. 1, p. 346). A razão, assim purificada e elevada pela fé, torna-se dócil às inspirações dos dons do Espírito Santo, especialmente os de entendimento e sabedoria, que a conduzem a uma penetração viva e saborosa dos mistérios divinos, que é a contemplação infusa (Garrigou-Lagrange, 1989, v. 2, p. 313).

🌳Os Frutos da Verdadeira Filosofia: Ordem na Alma e na Sociedade

A encíclica sublinha que a restauração da filosofia tomista traria grandes benefícios para a sociedade, promovendo a ordem, a justiça e a paz (Leão XIII, 1879). Essa paz exterior, contudo, é reflexo da "tranquilidade da ordem" que deve reinar primeiro na alma. O amor-próprio desordenado é a causa de toda desunião, pois leva o homem a buscar bens materiais que dividem, em vez de bens espirituais que unem (Garrigou-Lagrange, 1989, v. 1, p. 141). Uma filosofia que não ordena o homem a Deus, seu Fim Último, inevitavelmente o deixará cativo de seu egoísmo. Ao contrário, uma filosofia realista e teocêntrica, como a tomista, ao mostrar a hierarquia dos bens, educa a vontade para que ela se conforme à vontade divina. O fruto último da sã filosofia, portanto, não é apenas uma sociedade mais justa, mas almas que, tendo seus intelectos e vontades purificados, caminham na via da perfeição, cuja meta é a união íntima com Deus, prelúdio da vida eterna.

📚Referências

GARRIGOU-LAGRANGE, R. The Three Ages of the Interior Life. 2 vols. Rockford: TAN Books, 1989.

sexta-feira, 3 de outubro de 2025

ENCÍCLICA AETERNI PATRIS, LEÃO XIII

CARTA ENCÍCLICA AETERNI PATRIS

DO SUMO PONTÍFICE LEÃO XIII

SOBRE A RESTAURAÇÃO DA FILOSOFIA CRISTàSEGUNDO A DOUTRINA DE SANTO TOMÁS DE AQUINO

Veneráveis Irmãos:
Saúde e bênção apostólica.

O Filho Unigênito do Eterno Pai, que apareceu sobre a terra para trazer ao gênero humano a salvação e a luz da sabedoria divina, fez certamente um grande e admirável benefício ao mundo quando, prestes a subir novamente aos céus, ordenou aos apóstolos que «fossem e ensinassem a todas as gentes» (Mt 28,19), e deixou a Igreja por ele fundada como mestra comum e suprema dos povos. Pois os homens, a quem a verdade havia libertado, deviam ser conservados pela verdade; nem teriam durado por longo tempo os frutos das doutrinas celestiais, pelos quais o homem adquiriu a salvação, se Cristo Nosso Senhor não tivesse constituído um magistério perene para instruir os entendimentos na fé. Mas a Igreja, ora animada com as promessas do seu divino autor, ora imitando a sua caridade, cumpriu de tal modo os seus preceitos, que sempre teve por mira e foi seu principal desejo ensinar a religião e lutar perpetuamente contra os erros. A isso tendem os diligentes trabalhos de cada um dos Bispos, a isso as leis e decretos promulgados dos Concílios e, em especial, a cotidiana solicitude dos Romanos Pontífices, a quem, como sucessores no primado do bem-aventurado Pedro, Príncipe dos Apóstolos, pertencem o direito e a obrigação de ensinar e confirmar os seus irmãos na fé. Mas como, segundo o aviso do Apóstolo, «pela filosofia e vã falácia» (Col 2,18) costumam ser enganadas as mentes dos fiéis cristãos e é corrompida a sinceridade da fé nos homens, os supremos pastores da Igreja sempre julgaram ser também próprio da sua missão promover com todas as suas forças as ciências que merecem tal nome, e ao mesmo tempo prover com singular vigilância para que as ciências humanas se ensinassem em toda parte segundo a regra da fé católica, e em especial a filosofia, da qual sem dúvida depende em grande parte o reto ensino das demais ciências. Já Nós, veneráveis irmãos, vos advertimos brevemente, entre outras coisas, sobre isto mesmo, quando pela primeira vez nos dirigimos a vós por cartas Encíclicas; mas agora, pela gravidade do assunto e pela condição dos tempos, vemo-nos compelidos pela segunda vez a tratar convosco de estabelecer para os estudos filosóficos um método que não só corresponda perfeitamente ao bem da fé, mas que esteja também conforme com a própria dignidade das ciências humanas.

Se alguém fixa a consideração na acridez dos nossos tempos, e abraça com o pensamento a condição das coisas que pública e privadamente se executam, descobrirá sem dúvida que a causa fecunda dos males, tanto daqueles que hoje nos oprimem, como dos que tememos, consiste em que os perversos princípios sobre as coisas divinas e humanas, emanados há muito tempo das escolas dos filósofos, se introduziram em todas as ordens da sociedade, recebidos pelo sufrágio comum de muitos. Pois, sendo natural ao homem que no agir tenha a razão por guia, se em algo falta a inteligência, facilmente cai também no mesmo a vontade; e assim acontece que a perversidade das opiniões, cujo assento está na inteligência, influi nas ações humanas e as perverte. Pelo contrário, se está são o entendimento do homem e se apoia firmemente em sólidos e verdadeiros princípios, produzirá muitos benefícios de utilidade pública e privada. Certamente não atribuímos tal força e autoridade à filosofia humana, que a julguemos suficiente para repelir e arrancar todos os erros; pois assim como quando no princípio foi instituída a religião cristã, o mundo teve a dita de ser restituído à sua dignidade primitiva, mediante a luz admirável da fé, «não com as palavras persuasivas da sabedoria humana, mas na manifestação do espírito e da virtude» (1Cor 2,4), assim também no presente deve-se esperar principalmente do onipotente poder de Deus e do seu auxílio, que as inteligências dos homens, dissipadas as trevas do erro, voltem à verdade. Mas não se hão de desprezar nem postergar os auxílios naturais, que por benefício da divina sabedoria, que dispõe forte e suavemente todas as coisas, estão à disposição do gênero humano, entre cujos auxílios consta ser o principal o reto uso da filosofia. Não em vão imprimiu Deus na mente humana a luz da razão, e dista tanto de apagar ou diminuir a acrescentada luz da fé a virtude da inteligência, que antes a aperfeiçoa e, aumentadas as suas forças, a torna hábil para maiores empresas. Pede, pois, a ordem da própria Providência, que se peça apoio inclusive à ciência humana, ao chamar os povos à fé e à salvação: indústria plausível e sábia que os monumentos da antiguidade atestam ter sido praticada pelos preclaríssimos Padres da Igreja. Estes costumavam ocupar a razão em muitos e importantes ofícios, todos os que o grande Agostinho compendiou brevíssimamente, «atribuindo a esta ciência... aquilo com que a fé salubérrima... se engendra, se nutre, se defende, se consolida»[1].

Em primeiro lugar, a filosofia, se se emprega devidamente pelos sábios, pode de certo aplainar e facilitar de algum modo o caminho para a verdadeira fé e preparar convenientemente os ânimos dos seus alunos a receber a revelação; pelo qual, não sem injustiça, foi chamada pelos antigos, «ora prévia instituição à fé cristã»[2], «ora prelúdio e auxílio do cristianismo»[3], «ora pedagogo do Evangelho»[4].

E, na verdade, nosso benigníssimo Deus, no que toca às coisas divinas, não nos manifestou somente aquelas verdades para cujo conhecimento é insuficiente a inteligência humana, mas manifestou também algumas, não de todo inacessíveis à razão, para que, sobrevindo a autoridade de Deus, imediatamente e sem nenhuma mistura de erro, se fizessem a todos manifestas. Daqui que os próprios sábios, iluminados tão só pela razão natural, tenham conhecido, demonstrado e defendido com argumentos convenientes algumas verdades que, ou se propõem como objeto de fé divina, ou estão unidas por certos laços estreitíssimos com a doutrina da fé. «Porque as coisas invisíveis dele, depois da criação do mundo, se veem, sendo consideradas pelas obras criadas, assim o seu sempiterno poder como a sua divindade» (Rm 1, 20), e «as gentes que não têm a lei... mostram, contudo, a obra da lei escrita nos seus corações» (Rm 2, 14, 15). É, pois, sumamente oportuno que estas verdades, ainda que reconhecidas pelos próprios sábios pagãos, se convertam em proveito e utilidade da doutrina revelada, para que, com efeito, se manifeste que também a sabedoria humana e o próprio testemunho dos adversários favorecem a fé cristã; cujo modelo de agir consta que não foi recentemente introduzido, mas que é antigo, e foi usado muitas vezes pelos Santos Padres da Igreja. Mais ainda: estas veneráveis testemunhas e guardiães das tradições religiosas reconhecem certa norma disto, e quase uma figura no fato dos hebreus que, ao tempo de sair do Egito, receberam o mandato de levar consigo os vasos de ouro e prata dos egípcios, para que, mudado repentinamente o seu uso, servisse à religião do Deus verdadeiro aquela baixela, que antes havia servido para ritos ignominiosos e para a superstição. Gregório de Neocesareia[5] louva Orígenes, porque converteu com admirável destreza muitos conhecimentos tomados engenhosamente das máximas dos infiéis, como dardos quase arrebatados aos inimigos, em defesa da filosofia cristã e em prejuízo da superstição. E o mesmo modo de disputar louvam e aprovam em Basílio Magno, quer Gregório Nazianzeno[6], quer Gregório de Nissa[7], e Jerônimo recomenda-o grandemente em Quadrado, discípulo dos Apóstolos, em Arístides, em Justino, em Ireneu e em muitos outros[8]. E Agostinho diz: «Não vemos com quanto ouro e prata, e com que vestes saiu carregado do Egito Cipriano, doutor suavíssimo e mártir beatíssimo? Com quanto Lactâncio? Com quanto Vitorino, Optato, Hilário? E para não falar dos vivos, com quantos inumeráveis gregos?»[9]. Verdadeiramente, se a razão natural deu tão opima semente de doutrina antes de ser fecundada com a virtude de Cristo, muito mais abundante a produzirá certamente depois que a graça do Salvador restaurou e enriqueceu as forças naturais da mente humana. E quem não vê que com este modo de filosofar se abre um caminho plano e praticável para a fé?

Não se circunscreve, não obstante, dentro destes limites a utilidade que dimana daquela maneira de filosofar. E realmente, as páginas da sabedoria divina repreendem gravemente a loucura daqueles homens «que dos bens que se veem não souberam conhecer aquele que é, nem, considerando as obras, reconheceram quem fosse o seu artífice» (Sab 13,1). Assim, em primeiro lugar, o grande e excelentíssimo fruto que se colhe da razão humana é o demonstrar que há um Deus: «pois pela grandeza da formosura da criatura poder-se-á claramente vir ao conhecimento do Criador delas» (Sab 13,5). Depois demonstra (a razão) que Deus sobressai singularmente pela reunião de todas as perfeições, primeiro pela infinita sabedoria, à qual jamais pode ocultar-se coisa alguma, e pela suma justiça, à qual nunca pode vencer afeto algum perverso; pelo mesmo que Deus não só é veraz, mas também a própria verdade, incapaz de enganar e de ser enganado. Do qual se segue clarissimamente que a razão humana granjeia à palavra de Deus pleníssima fé e autoridade. Igualmente a razão declara que a doutrina evangélica brilhou ainda desde a sua origem por certos prodígios, como argumentos certos da verdade, e que, portanto, todos os que creem no Evangelho não creem temerariamente, como se seguissem doutas fábulas (cf. 2Pd 1, 16), mas com um obséquio de todo racional, sujeitam a sua inteligência e o seu juízo à autoridade divina. Entenda-se que não é de menor preço que a razão ponha de manifesto que a igreja instituída por Cristo, como estabeleceu o Concílio Vaticano, «pela sua admirável propagação, exímia santidade e inesgotável fecundidade em todas as religiões, pela unidade católica e invencível estabilidade, é um grande e perene motivo de credibilidade e testemunho irrefragável da sua divina missão»[10].

Postos assim estes solidíssimos fundamentos, ainda se requer um uso perpétuo e múltiplo da filosofia para que a sagrada teologia tome e vista a natureza, o hábito e a índole de verdadeira ciência. Nesta, a mais nobre de todas as ciências, é grandemente necessário que as muitas e diversas partes das doutrinas celestiais se reúnam como num corpo, para que cada uma delas, convenientemente disposta no seu lugar, e deduzida dos seus próprios princípios, esteja relacionada com as demais por uma conexão oportuna; por último, que todas e cada uma delas se confirmem nos seus próprios e invencíveis argumentos. Nem se há de passar em silêncio ou estimar em pouco aquele mais diligente e abundante conhecimento das coisas, que dos próprios mistérios da fé, que Agostinho e outros Santos Padres louvaram e procuraram conseguir, e que o mesmo Concílio Vaticano[11] julgou frutuosíssimo; e certamente conseguirão mais perfeita e facilmente este conhecimento e esta inteligência aqueles que, com a integridade da vida e o amor à fé, reúnam um engenho adornado com as ciências filosóficas, especialmente ensinando o Sínodo Vaticano, que esta mesma inteligência dos sagrados dogmas convém tomá-la «quer da analogia das coisas que naturalmente se conhecem, quer do enlace dos próprios mistérios entre si e com o fim último do homem»[12].

Por último, também pertence às ciências filosóficas defender religiosamente as verdades ensinadas por revelação e resistir aos que se atrevam a impugná-las. Sob este aspecto é grande louvor da filosofia o ser considerada baluarte da fé e como firme defesa da religião. Como atesta Clemente de Alexandria, «é por si mesma perfeita a doutrina do Salvador e de ninguém necessita, sendo virtude e sabedoria de Deus. A filosofia grega, que se lhe une, não torna mais poderosa a verdade; mas, fazendo débeis os argumentos dos sofistas contra aquela, e repelindo as enganosas ciladas contra a mesma, foi chamada oportunamente cerca e sebe da vinha»[13]. Certamente, assim como os inimigos do nome cristão, para pelejar contra a religião, tomam muitas vezes da razão filosófica os seus instrumentos bélicos; assim os defensores das ciências divinas tomam do arsenal da filosofia muitas coisas com que poder defender os dogmas revelados. Nem se há de julgar que obtenha pequeno triunfo a fé cristã, porque as armas dos adversários, preparadas pela arte da razão humana para causar dano, sejam repelidas poderosa e prontamente pela mesma razão humana.

Esta espécie de combate religioso foi usado pelo próprio Apóstolo das gentes, como o recorda São Jerônimo escrevendo a Magno: «Paulo, capitão do exército cristão, é orador invicto, defendendo a causa de Cristo, faz servir com arte uma inscrição fortuita para argumento da fé; havia aprendido do verdadeiro Davi a arrancar a espada das mãos dos inimigos, e a cortar a cabeça do soberbo Golias com a sua própria espada»[14]. E a própria Igreja não somente aconselha, mas também ordena que os doutores católicos peçam este auxílio à filosofia. Pois o V Concílio de Latrão, depois de estabelecer que «toda asserção contrária à verdade da fé revelada é completamente falsa, porque a verdade jamais se opôs à verdade»[15], manda aos Doutores de filosofia que se ocupem diligentemente em resolver os enganosos argumentos, pois, como testifica Agostinho, «se se dá uma razão contra a autoridade das Divinas Escrituras, por mais aguda que seja, enganará com a semelhança da verdade, mas não pode ser verdadeira»[16].

Mas para que a filosofia seja capaz de produzir os preciosos frutos que recebemos, é de todo ponto necessário que jamais se afaste daqueles caminhos que seguiu a veneranda antiguidade dos Padres e que o Sínodo Vaticano aprovou com o solene sufrágio da autoridade. Na verdade, está claramente averiguado que se hão de aceitar muitas verdades da ordem sobrenatural que superam em muito as forças de todas as inteligências, a razão humana, conhecedora da própria debilidade, não se atreve a aceitar coisas superiores a ela, nem negar as mesmas verdades, nem medi-las com a sua própria capacidade, nem interpretá-las a seu bel-prazer; antes, deve recebê-las com plena e humilde fé e ter em suma honra o ser-lhe permitido, por benefício de Deus, servir como escrava e servidora às doutrinas celestiais e de algum modo chegar a conhecê-las. Em todas estas doutrinas principais, que a inteligência humana não pode receber naturalmente, é muito justo que a filosofia use do seu método, dos seus princípios e argumentos; mas não de tal modo que pareça querer subtrair-se à autoridade divina. Antes, constando que as coisas conhecidas por revelação gozam de uma verdade indiscutível, e que as que se opõem à fé pugnam também com a reta razão, deve ter presente o filósofo católico que violará ao mesmo tempo os direitos da fé e da razão, abraçando algum princípio que conhece que repugna à doutrina revelada.

Sabemos muito bem que não faltam quienes, exaltando mais do que o justo as faculdades da natureza humana, defendam que a inteligência do homem, uma vez submetida à autoridade divina, cai da sua dignidade natural, está ligada e como que impedida de poder chegar ao cume da verdade e da excelência. Mas estas doutrinas estão cheias de erro e de falácia, e finalmente tendem a que os homens, com suma insensatez, e não sem o crime de ingratidão, repudiem as mais sublimes verdades e espontaneamente rejeitem o benefício da fé, da qual, inclusive para a sociedade civil, brotaram as fontes de todos os bens. Pois, encontrando-se a mente humana encerrada em certos e muito estreitos limites, está sujeita a muitos erros e a ignorar muitas coisas. Pelo contrário, a fé cristã, apoiando-se na autoridade de Deus, é mestra infalível da verdade, seguindo a qual ninguém cai nos laços do erro, nem é agitado pelas ondas de incertas opiniões. Por isso, os que unem o estudo da filosofia com a obediência à fé cristã, raciocinam perfeitamente, pressupondo que o esplendor das verdades divinas, recebido pela alma, auxilia a inteligência, à qual não tira nada da sua dignidade, mas antes lhe acrescenta muitíssima nobreza, penetração e energia. E quando dirigem a perspicácia do engenho a repelir as sentenças que repugnam à fé e a aprovar as que concordam com esta, exercitam digna e utilissimamente a razão: pois no primeiro caso descobrem as causas do erro e conhecem o vício dos argumentos, e no último estão na posse das razões com que se demonstra solidamente e se persuade a todo homem prudente da verdade de ditas sentenças. Aquele que negue que com esta indústria e exercício se aumentam as riquezas da mente e se desenvolvem as suas faculdades, é necessário que absurdamente pretenda que não conduz ao aperfeiçoamento do engenho a distinção do verdadeiro e do falso. Com razão o Concílio Vaticano recorda com estas palavras os benefícios que a fé presta à razão: «A fé livra e defende a razão dos erros e a instrui em muitos conhecimentos»[17]. E, por conseguinte, o homem, se o entendesse, não deveria culpar a fé de inimiga da razão, antes deveria dar dignas graças a Deus, e alegrar-se veementemente de que, entre as muitas causas da ignorância e no meio das ondas dos erros, lhe tenha iluminado aquela fé santíssima, que como estrela amiga indica o porto da verdade, excluindo todo temor de errar.

Porque, Veneráveis Irmãos, se dirigirdes um olhar à história da filosofia, compreendereis que todas as coisas que pouco antes dissemos se comprovam com os fatos. E certamente, dos antigos filósofos, que careceram do benefício da fé, mesmo os que são considerados mais sábios, erraram pessimamente em muitas coisas, falsas e indecorosas, quantas incertas e duvidosas, entre algumas verdadeiras, ensinaram sobre a verdadeira natureza da divindade, sobre a origem primitiva das coisas, sobre o governo do mundo, sobre o conhecimento divino das coisas futuras, sobre a causa e princípio dos males, sobre o último fim do homem e a eterna bem-aventurança, sobre as virtudes e os vícios e sobre outras doutrinas cujo verdadeiro e certo conhecimento é a coisa mais necessária ao gênero humano.

Pelo contrário, os primeiros Padres e Doutores da Igreja, que haviam entendido muito bem que por decreto da divina vontade o restaurador da ciência humana era também Jesus Cristo, que é a virtude de Deus e a sua sabedoria (1Cor 1,24), e «no qual estão escondidos os tesouros da sabedoria» (Col 2,3), trataram de investigar os livros dos antigos sábios e de comparar as suas sentenças com as doutrinas reveladas, e com prudente eleição abraçaram as que neles viram perfeitamente ditas e sabiamente pensadas, emendando ou rejeitando as demais. Pois assim como Deus, infinitamente providente, suscitou para defesa da Igreja mártires fortíssimos, pródigos das suas grandes almas, contra a crueldade dos tiranos, assim aos falsos filósofos ou hereges opôs varões grandíssimos em sabedoria, que defendessem, ainda com o apoio da razão, o depósito das verdades reveladas. E assim, desde os primeiros dias da Igreja, a doutrina católica teve adversários muito hostis que, zombando dos dogmas e instituições dos cristãos, sustentavam a pluralidade dos deuses, que a matéria do mundo careceu de princípio e de causa, e que o curso das coisas se conservava mediante uma força cega e uma necessidade fatal e não era dirigido pelo conselho da Divina Providência. Ora bem; com estes mestres de disparatada doutrina disputaram oportunamente aqueles sábios que chamamos Apologistas, os quais, precedidos da fé, usaram também os argumentos da sabedoria humana com os quais estabeleceram que deve ser adorado um só Deus, excelentíssimo em todo gênero de perfeições, que todas as coisas que foram tiradas do nada pela sua onipotente virtude, subsistem pela sua sabedoria e cada uma se move e dirige aos seus próprios fins. Ocupa o primeiro posto entre estes São Justino mártir, quem, depois de ter percorrido as mais célebres academias dos gregos para adquirir experiência, e de ter visto, como ele mesmo confessa abertamente, que a verdade somente pode ser extraída das doutrinas reveladas, abraçando-as com todo o ardor do seu espírito, as purificou de calúnias perante os Imperadores romanos, e em não poucas sentenças dos filósofos gregos concordou com estes. O mesmo fizeram excelentemente por este tempo Quadrado e Arístides, Hérmias e Atenágoras. Nem menos glória conseguiu pelo mesmo motivo Ireneu, mártir invicto e Bispo da igreja de Lião, quem, refutando valorosamente as perversas opiniões dos orientais disseminadas graças aos gnósticos por todo o império romano, «explicou, segundo São Jerônimo, os princípios de cada uma das heresias e de que fontes filosóficas dimanaram»[18]. Todos conhecem as disputas de Clemente de Alexandria, que o mesmo Jerônimo, para honrá-las, recorda assim: «Que há nelas de indouto? E mais, que não há da filosofia média?»[19]. Ele mesmo tratou com incrível variedade de muitas coisas utilíssimas para fundar a filosofia da história, exercitar oportunamente a dialética, estabelecer a concórdia entre a razão e a fé. Seguindo a este, Orígenes, insigne no magistério da igreja alexandrina, eruditíssimo nas doutrinas dos gregos e dos orientais, deu à luz muitos e eruditos volumes para explicar as sagradas letras e para ilustrar os dogmas sagrados, cujas obras, embora como hoje existem não careçam absolutamente de erros, contêm, não obstante, grande quantidade de sentenças, com as quais se aumentam as verdades naturais em número e em firmeza. Tertuliano combate contra os hereges com a autoridade das sagradas letras, e com os filósofos, mudando o gênero de armas, filosoficamente, e convence a estes tão sutil e eruditamente que abertamente e com confiança lhes diz: «Nem na ciência nem na arte somos igualados, como pensais vós»[20].

Arnóbio, nos livros publicados contra os hereges, e Lactâncio, especialmente nas suas instituições divinas, esforçam-se valorosamente por persuadir os homens com igual eloquência e galhardia da verdade dos preceitos da sabedoria cristã, não destruindo a filosofia, como costumam os acadêmicos[21], mas convencendo aqueles, em parte com as suas próprias armas, e em parte com as tomadas da luta dos filósofos entre si[22].

As coisas que sobre a alma humana, os atributos divinos e outras questões de suma importância deixaram escritas o grande Atanásio e Crisóstomo, o Príncipe dos oradores, de tal maneira, a juízo de todos, sobressaem, que parece não se poder acrescentar quase nada à sua engenhosidade e riqueza. E para não sermos pesados em enumerar cada um dos apologistas, acrescentamos o catálogo dos excelsos varões de que se fez menção, a Basílio Magno e aos dois Gregórios, os quais, tendo saído de Atenas, empório das humanas letras, equipados abundantemente com todo o armamento da filosofia, converteram aquelas mesmas ciências, que com ardoroso estudo haviam adquirido, em refutar os hereges e instruir os cristãos. Mas a todos arrebatou a glória Agostinho, quem de engenho poderoso, e imbuído perfeitamente nas ciências sagradas e profanas, lutou acerrimamente contra todos os erros dos seus tempos com fé suma e não menor doutrina. Que ponto da filosofia não tratou e, mais ainda, qual não investigou diligentissimamente, ora quando propunha aos fiéis os altíssimos mistérios da fé e os defendia contra os furiosos ímpetos dos adversários, ora quando, reduzidas a nada as fábulas dos maniqueus ou acadêmicos, colocava sobre terra firme os fundamentos da ciência humana e a sua estabilidade, ou indagava a razão da origem, e as causas dos males que oprimem o gênero humano? Quanto não discutiu sutilissimamente acerca dos anjos, da alma, da mente humana, da vontade e do livre arbítrio, da religião e da vida bem-aventurada, e até da própria natureza dos corpos mutáveis? Depois deste tempo, no Oriente João Damasceno, seguindo as pegadas de Basílio e Gregório de Nazianzo, e no Ocidente Boécio e Anselmo, professando as doutrinas de Agostinho, enriqueceram muitíssimo o patrimônio da filosofia.

Em seguida, os Doutores da Idade Média, chamados escolásticos, acometeram uma obra magna, a saber: reunir diligentemente as fecundas e abundantes messes de doutrina, refundidas nas volumosas obras dos Santos Padres, e reunidas, colocá-las num só lugar para uso e comodidade dos vindouros. Qual seja a origem, a índole e a excelência da ciência escolástica, é útil aqui, Veneráveis Irmãos, mostrá-lo mais difusamente com as palavras de sapientíssimo varão, nosso predecessor, Sisto V: «Por dom divino d'Aquele, único que dá o espírito da ciência, da sabedoria e do entendimento, e que enriquece com novos benefícios a sua Igreja ao longo dos séculos, segundo o reclama a necessidade, e a provê de novos auxílios, foi encontrada por nossos santíssimos maiores a teologia escolástica, a qual cultivaram e adornaram principalmente dois gloriosos Doutores, o angélico Santo Tomás e o seráfico São Boaventura, claríssimos Professores desta faculdade... com engenho excelente, assíduo estudo, grandes trabalhos e vigílias, e a legaram à posteridade, disposta otimamente e explicada com brilhantismo de muitas maneiras. E, na verdade, o conhecimento e exercício desta salutar ciência, que flui das abundantíssimas fontes das diversas letras, Sumos Pontífices, Santos Padres e Concílios, pôde sempre proporcionar grande auxílio à Igreja, quer para entender e interpretar verdadeira e sanamente as mesmas Escrituras, quer para ler e explicar mais segura e utilmente os Padres, quer para descobrir e rebater os vários erros e heresias; mas nestes últimos dias, em que chegaram já os tempos perigosos descritos pelo Apóstolo, e homens blasfemos, soberbos, sedutores, crescem em maldade, errando e induzindo outros ao erro, é na verdade sumamente necessária para confirmar os dogmas da fé católica e para refutar as heresias.»[23]

Palavras são estas que, embora pareçam abraçar somente a teologia escolástica, está claro que devem entender-se também da filosofia e dos seus louvores. Pois as preclaras dotes que tornam tão temível aos inimigos da verdade a teologia escolástica, como diz o mesmo Pontífice, «aquela oportuna e encadeada coerência de causas e de coisas entre si, aquela ordem e aquela disposição como a formação dos soldados em batalha, aquelas claras definições e distinções, aquela firmeza dos argumentos e das agudíssimas disputas em que se distinguem a luz das trevas, o verdadeiro do falso, as mentiras dos hereges envoltas em muitas aparências e falácias, que como se se lhes tirasse o vestido aparecem manifestas e desnudas»[24]; estas excelsas e admiráveis dotes, dizemos, derivam-se unicamente do reto uso daquela filosofia que os mestres escolásticos, de propósito e com sábio conselho, costumaram usar frequentemente até nas disputas filosóficas. Além disso, sendo próprio e singular dos teólogos escolásticos o terem unido a ciência humana e a divina entre si com estreitíssimo laço, a teologia, na qual sobressaíram, não teria obtido tantas honras e louvores da parte dos homens se tivessem empregado uma filosofia manca e imperfeita ou ligeira.

Ora bem: entre os Doutores escolásticos brilha grandemente Santo Tomás de Aquino, Príncipe e Mestre de todos, o qual, como adverte Caetano, «por ter venerado em grande maneira os antigos Doutores sagrados, obteve de algum modo a inteligência de todos»[25]. As suas doutrinas, como membros dispersos de um corpo, reuniu e congregou Tomás num todo, dispôs com ordem admirável, e de tal modo as aumentou com novos princípios, que com razão e justiça é tido por singular apoio da Igreja católica; de dócil e penetrante engenho, de memória fácil e tenaz, de vida integérrima, amador unicamente da verdade, riquíssimo na ciência divina e humana, comparado ao sol, animou o mundo com o calor das suas virtudes, e o iluminou com esplendor. Não há parte da filosofia que não tenha tratado aguda e ao mesmo tempo solidamente: tratou das leis do raciocínio, de Deus e das substâncias incorpóreas, do homem e de outras coisas sensíveis, dos atos humanos e dos seus princípios, de tal modo que não se echa de menos nele, nem a abundância de questões, nem a oportuna disposição das partes, nem a firmeza dos princípios ou a robustez dos argumentos, nem a clareza e propriedade da linguagem, nem certa facilidade de explicar as coisas abstrusas.

Acrescenta-se a isto que o Doutor Angélico indagou as conclusões filosóficas nas razões e princípios das coisas, os quais se estendem muito latamente, e encerram como que no seu seio as sementes de quase infinitas verdades, que haviam de se abrir com fruto abundantíssimo pelos mestres posteriores. Tendo empregado este método de filosofia, conseguiu ter vencido ele só os erros dos tempos passados, e ter fornecido armas invencíveis, para refutar os erros que perpetuamente se hão de renovar nos séculos futuros. Além disso, distinguindo muito bem a razão da fé, como é justo, e associando-as, contudo, amigavelmente, conservou os direitos de uma e outra, proveu à sua dignidade de tal sorte, que a razão, elevada à maior altura nas asas de Tomás, já quase não pode levantar-se a regiões mais sublimes, nem a fé pode quase esperar da razão mais e mais poderosos auxílios do que os que até aqui conseguiu por Tomás.

Por estas razões, homens doutíssimos nas idades passadas, e digníssimos de louvor pelo seu saber teológico e filosófico, buscando com indizível afã os volumes imortais de Tomás, consagraram-se à sua angélica sabedoria, não tanto para aperfeiçoá-lo nela, quanto para serem totalmente por ela sustentados. É um fato constante que quase todos os fundadores e legisladores das ordens religiosas mandaram aos seus companheiros estudar as doutrinas de Santo Tomás, e aderir a elas religiosamente, dispondo que a ninguém fosse lícito impunemente separar-se, nem mesmo no mínimo, das pegadas de tão grande Mestre. E deixando de lado a família dominicana, que com direito indisputável se gloria deste seu sumo Doutor, estão obrigados a esta lei os Beneditinos, os Carmelitas, os Agostinianos, os Jesuítas e muitas outras ordens sagradas, como os estatutos de cada uma nos manifestam.

E neste lugar, com indizível prazer recorda a alma aquelas celebérrimas Academias e escolas que em outro tempo floresceram na Europa, a saber: a parisiense, a salamanquense, a complutense, a duacense, a tolosana, a lovaniense, a patavina, a bolonhesa, a napolitana, a coimbrã e muitas outras. Ninguém ignora que a fama destas cresceu de certo modo com o tempo, e que as sentenças que se lhes pediam quando se agitavam gravíssimas questões, tinham muita autoridade entre os sábios. Pois bem, é coisa fora de dúvida que naqueles grandes empórios do saber humano, como no seu reino, dominou como príncipe Tomás, e que os ânimos de todos, tanto mestres como discípulos, descansaram com admirável concórdia no magistério e autoridade do Doutor Angélico.

Mas o que é mais, os Romanos Pontífices, nossos predecessores, honraram a sabedoria de Tomás de Aquino com singulares elogios e testemunhos amplíssimos. Pois Clemente VI[26], Nicolau V[27], Bento XIII[28] e outros, atestam que a Igreja universal é ilustrada com a sua admirável doutrina; São Pio V[29] confessa que com a mesma doutrina as heresias, confundidas e vencidas, se dissipam, e o universo mundo é libertado cotidianamente; outros, com Clemente XII[30], afirmam que das suas doutrinas dimanaram à Igreja católica abundantíssimos bens, e que ele mesmo deve ser venerado com aquela honra que se dá aos Sumos Doutores da Igreja Gregório, Ambrósio, Agostinho e Jerônimo; outros, finalmente, não duvidaram em propor nas Academias e grandes liceus a Santo Tomás como exemplar e mestre, a quem se devia seguir com pé firme. A respeito do que parecem muito dignas de se recordar as palavras do B. Urbano V: «Queremos, e pelas presentes vos mandamos, que adoteis a doutrina do bem-aventurado Tomás, como verídica e católica, e procureis ampliá-la com todas as vossas forças»[31]. Renovaram o exemplo de Urbano na Universidade de estudos de Lovaina Inocêncio XII[32], e Bento XIV[33], no Colégio Dionisiano dos Granatenses. Acrescente-se a estes juízos dos Sumos Pontífices sobre Tomás de Aquino, o testemunho de Inocêncio VI, como complemento: «A doutrina deste tem sobre as demais, excetuada a canônica, propriedade nas palavras, ordem nas matérias, verdade nas sentenças, de tal sorte que nunca aqueles que a seguirem se verão apartar do caminho da verdade, e sempre será suspeito de erro aquele que a impugnar»[34].

Também os Concílios Ecumênicos, nos quais brilha a flor da sabedoria escolhida em todo o orbe, procuraram perpetuamente tributar honra singular a Tomás de Aquino. Nos Concílios de Lião, de Viena, de Florença e Vaticano, pode-se dizer que Tomás interveio nas deliberações e decretos dos Padres, e quase foi o presidente, pelejando com força inelutável e faustíssimo êxito contra os erros dos gregos, dos hereges e dos racionalistas. Mas a maior glória própria de Tomás, louvor nunca partilhado por nenhum dos Doutores católicos, consiste em que os Padres tridentinos, para estabelecer a ordem no mesmo Concílio, quiseram que juntamente com os livros da Escritura e os decretos dos Sumos Pontífices se visse sobre o altar a Suma de Tomás de Aquino, à qual se pedissem conselhos, razões e oráculos.

Ultimamente, também estava reservada ao varão incomparável obter a palma de conseguir obséquios, louvores, admiração dos próprios adversários do nome católico. Pois está averiguado que não faltaram chefes das facções heréticas que confessassem publicamente que, uma vez retirada do meio a doutrina de Tomás de Aquino, «podiam facilmente entrar em combate com todos os Doutores católicos, e vencê-los e derrotar a Igreja»[35]. Vã esperança, certamente, mas testemunho não vão.

Por isto, veneráveis irmãos, sempre que consideramos a bondade, a força e as excelentes utilidades da sua ciência filosófica, que tanto amaram os nossos maiores, julgamos que se agiu temerariamente não conservando sempre e em toda parte a honra que lhe é devida; constando especialmente que o uso contínuo, o juízo de grandes homens, e o que é mais, o sufrágio da Igreja, favoreciam a filosofia escolástica. E em lugar da antiga doutrina apresentou-se em várias partes certa nova espécie de filosofia, da qual não se colheram os frutos desejados e salutares que a Igreja e a própria sociedade civil haviam anelado. Procurando-o os inovadores do século XVI, agradou o filosofar sem respeito algum à fé, e foi pedida alternativamente a potestade de excogitar segundo o gosto e o gênio de quaisquer coisas. Por cujo motivo foi já fácil que se multiplicassem mais do que o justo os gêneros de filosofia e nascessem sentenças diversas e contrárias entre si, mesmo acerca das coisas principais nos conhecimentos humanos. Da multidão das sentenças passou-se frequentissimamente às vacilações e às dúvidas, e desde a luta, quão facilmente caem em erro os entendimentos dos homens, não há ninguém que o ignore. Deixando-se arrastar os homens pelo exemplo, o amor à novidade pareceu também invadir em algumas partes os ânimos dos filósofos católicos, os quais, rejeitando o patrimônio da antiga sabedoria, quiseram, mas com prudência certamente pouco sábia e não sem detrimento das ciências, fazer coisas novas, em vez de aumentar e aperfeiçoar com as novas as antigas. Pois esta múltipla regra de doutrina, fundando-se na autoridade e arbítrio de cada um dos mestres, tem fundamento variável, e por esta razão não torna a filosofia firme, estável nem robusta como a antiga, mas flutuante e movediça, à qual, se porventura sucede que se a encontre alguma vez insuficiente para sofrer o ímpeto dos inimigos, saiba-se que a causa e a culpa disto reside nela mesma. E ao dizer isto não condenamos na verdade aqueles homens doutos e engenhosos que põem a sua indústria e erudição e as riquezas das novas descobertas ao serviço da filosofia; pois sabemos muito bem que com isto recebe incremento a ciência. Mas há de se evitar diligentissimamente não fazer consistir naquela indústria e erudição todo ou o principal exercício da filosofia. Do mesmo modo se há de julgar da Sagrada Teologia, a qual nos agrada que seja ajudada e ilustrada com os múltiplos auxílios da erudição; mas é de todo ponto necessário que seja tratada segundo o grave costume dos escolásticos, para que unidas nela as forças da revelação e da razão continue sendo «defesa invencível da fé»[36].

Com excelente conselho, não poucos cultivadores das ciências filosóficas tentaram nestes últimos tempos restaurar ultimamente a filosofia, renovar a preclara doutrina de Tomás de Aquino e devolver-lhe o seu antigo esplendor.

Soubemos, veneráveis irmãos, que muitos da vossa ordem, com igual desejo, entraram galhardamente por esta via com grande regozijo do nosso ânimo. Aos quais louvamos ardentemente e exortamos a permanecer no plano começado; e a todos os demais de entre vós em particular vos fazemos saber, que nada nos é mais grato nem mais apetecível do que todos vós forneçais copiosa e abundantemente à juventude estudiosa os rios puríssimos de sabedoria que emanam em contínua e riquíssima veia do Doutor Angélico.

Os motivos que nos movem a querer isto com grande ardor são muitos. Primeiramente, sendo costume nos nossos dias tempestuosos combater a fé com as maquinações e as astúcias de uma falsa sabedoria, todos os jovens, e em especial os que se educam para esperança da Igreja, devem ser alimentados por isto mesmo com o poderoso e robusto pasto da doutrina, para que, potentes com as suas forças e equipados com suficiente armamento, se acostumem a tempo a defender forte e sabiamente a causa da religião, dispostos sempre, segundo os conselhos evangélicos, «a satisfazer a todo o que pergunte a razão daquela esperança que temos» (1Pd 3,15), e «a exortar com a sã doutrina e a arguir os que contradizem» (Tt 1,9). Além disso, muitos dos homens que, afastando o seu espírito da fé, aborrecem os ensinamentos católicos, professam que para ela é só a razão mestra e guia. E para sarar a estes e devolvê-los à fé católica, além do auxílio sobrenatural de Deus, julgamos que nada é mais oportuno do que a sólida doutrina dos Padres e dos escolásticos, os quais demonstram com tanta evidência e energia os firmíssimos fundamentos da fé, a sua divina origem, a sua infalível verdade, os argumentos com que se provam, os benefícios que prestou ao gênero humano e a sua perfeita harmonia com a razão, quanto basta e ainda sobra para dobrar os entendimentos, mesmo os mais opostos e contrários.

A própria sociedade civil e a doméstica, que se encontra no grave perigo que todos sabemos, por causa da peste dominante das perversas opiniões, viveria certamente mais tranquila e mais segura, se nas Academias e nas escolas se ensinasse doutrina mais sã e mais conforme com o magistério do ensinamento da Igreja, tal como a contêm os volumes de Tomás de Aquino. Tudo o que é relativo à genuína noção da liberdade, que hoje degenera em licença, à origem divina de toda autoridade, às leis e à sua força, ao paternal e equitativo império dos Príncipes supremos, à obediência às potestades superiores, à mútua caridade entre todos; tudo o que destas coisas e outras do mesmo teor é ensinado por Tomás, tem uma robustez grandíssima e invencível para deitar por terra os princípios do novo direito, que, como todos sabem, são perigosos para a tranquila ordem das coisas e para o bem-estar público. Finalmente, todas as ciências humanas devem esperar aumento e prometer-se grande auxílio desta restauração das ciências filosóficas por Nós proposta. Porque todas as boas artes costumaram tomar da filosofia, como da ciência reguladora, o são ensinamento e o reto modo, e daquela, como de fonte comum de vida, tirar energia.

Uma constante experiência nos demonstra que, quando floresceram maiormente as artes liberais, permaneceu incólume a honra e o sábio juízo da filosofia, e que foram descuidadas e quase esquecidas, quando a filosofia se inclinou aos erros ou se enredou em inépcias. Pelo qual, ainda as ciências físicas que são hoje tão apreciadas e excitam singular admiração com tantos inventos, não receberão prejuízo algum com a restauração da antiga filosofia, mas, pelo contrário, receberão grande auxílio. Pois para o seu frutuoso exercício e incremento, não somente se hão de considerar os fatos e se há de contemplar a natureza, mas dos fatos há de se subir mais alto e há de se trabalhar engenhosamente para conhecer a essência das coisas corpóreas, para investigar as leis a que obedecem, e os princípios de onde procedem a sua ordem e unidade na variedade, e a mútua afinidade na diversidade. A cujas investigações é maravilhosa quanta força, luz e auxílio dá a filosofia católica, se se ensina com um sábio método.

Acerca do que se deve advertir também que é grave injúria atribuir à filosofia o ser contrária ao incremento e desenvolvimento das ciências naturais. Pois quando os escolásticos, seguindo o sentir dos Santos Padres, ensinaram com frequência na antropologia, que a inteligência humana somente pelas coisas sensíveis se elevava a conhecer as coisas que careciam de corpo e de matéria, naturalmente que nada era mais útil ao filósofo do que investigar diligentemente os arcanos da natureza e ocupar-se no estudo das coisas físicas muito e por muito tempo. O qual confirmaram com a sua conduta, pois Santo Tomás, o bem-aventurado Alberto Magno, e outros príncipes dos escolásticos não se consagraram à contemplação da filosofia, de tal sorte que não pusessem grande empenho em conhecer as coisas naturais, e muitos ditos e sentenças suas neste gênero de coisas os aprovam os mestres modernos, e confessam estar conformes com a verdade. Além disso, nos nossos próprios dias, muitos e muito insignes Doutores das ciências físicas atestam clara e manifestamente que entre as certas e aprovadas conclusões da física mais recente e os princípios filosóficos da Escola, não existe verdadeira pugna.

Nós, pois, enquanto manifestamos que receberemos com boa vontade e agradecimento tudo o que se tenha dito sabiamente, tudo o útil que se tenha inventado e excogitado por qualquer um, a vós todos, veneráveis irmãos, com grave empenho exortamos a que, para defesa e glória da fé católica, bem da sociedade e incremento de todas as ciências, renoveis e propagueis latissimamente a áurea sabedoria de Santo Tomás. Dizemos a sabedoria de Santo Tomás, pois se há alguma coisa tratada pelos escolásticos com demasiada sutileza ou ensinada inconsideradamente; se há algo menos concorde com as doutrinas manifestas das últimas idades, ou finalmente, não louvável de qualquer modo, de nenhuma maneira está no nosso ânimo propô-lo para ser imitado na nossa idade. Pelo demais, procurem os mestres escolhidos inteligentemente por vós, insinuar nos ânimos dos seus discípulos a doutrina de Tomás de Aquino, e ponham em evidência a sua solidez e excelência sobre todas as demais. As Academias fundadas por vós, ou as que haveis de fundar, ilustrem e defendam a mesma doutrina e a usem para a refutação dos erros que circulam. Mas para que não se beba a suposta doutrina pela verdadeira, nem a corrompida pela sincera, cuidai de que a sabedoria de Tomás se tome das mesmas fontes ou ao menos daqueles rios que, segundo certa e conhecida opinião de homens sábios, saíram da mesma fonte e ainda correm íntegros e puros; mas dos que se dizem ter procedido destes e na realidade cresceram com águas alheias e não saudáveis, procurai afastar os ânimos dos jovens.

Muito bem conhecemos que os nossos propósitos serão de nenhum valor se não favorecer as comuns empresas, Veneráveis Irmãos, Aquele que nas divinas letras é chamado «Deus das ciências» (1Sm 2, 3) nas quais também aprendemos «que toda dádiva boa e todo dom perfeito vem do alto, descendo do Pai das luzes» (Tg 1, 17). E além disso; «se algum de vós necessita de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá abundantemente e não censura, e ser-lhe-á dada» (Tg 1, 5).

Também nisto sigamos o exemplo do Doutor Angélico, que nunca se pôs a ler e a escrever sem se ter tornado propício a Deus com as suas preces, e o qual confessou candidamente que tudo o que sabia não o havia adquirido tanto com o seu estudo e trabalho, mas que o havia recebido divinamente; e pelo mesmo roguemos todos juntamente a Deus com humilde e concorde súplica que derrame sobre todos os filhos da Igreja o espírito de ciência e de entendimento e lhes abra o sentido para entender a sabedoria. E para perceber mais abundantes frutos da divina bondade, interponde também diante de Deus o patrocínio eficacíssimo da Virgem Maria, que é chamada sede da sabedoria, e ao mesmo tempo tomai por intercessores o bem-aventurado José, puríssimo esposo da Virgem Maria, e os grandes Apóstolos Pedro e Paulo, que renovaram com a verdade o universo mundo corrompido pelo imundo lodo dos erros e o encheram com a luz da celestial sabedoria.

Por último, sustentados com a esperança do divino auxílio e confiados na vossa diligência pastoral, vos damos amantissimamente no Senhor a todos vós, Veneráveis Irmãos, a todo o Clero e povo, a cada um de vós encomendado, a apostólica bênção, augúrio de dons celestiais e testemunho da nossa singular benevolência.

Dado em Roma, em São Pedro, a 4 de Agosto de 1879. No ano segundo do nosso Pontificado.

LEÃO PP XIII

Notas

[1] De Trin. lib. XIV, c. 1.

[2] Clem. Alex. Strom. lib. 1, c. 16; l. VII, c. 3.

[3] Orig. ad Greg. Thaum.

[4] Clem. Alex., Strom. I, c. 5.

[5] Orat. paneg. ad Origen.

[6] Vit. Moys.

[7] Carm. 1, Iamb. 3.

[8] Epist. ad Magn.

[9] De doctr. christ. I. 11, c. 40.

[10] Const. dogm. de Fid. Cath., cap. 3.

[11] Const. dogm. de Fid. Cath. cap. 4.

[12] Ibid.

[13] Strom. lib. 1, c. 20.

[14] Epist. ad Magn.

[15] Bula Apostolici regiminis.

[16] Epist. 143 (al 7) ad Marcellin., n. 7.

[17] Const. dogm. de Fid. Cath., cap. 4.

[18] Epis. ad Magn.

[19] Ibid.

[20] Apologet. §46.

[21] Inst. VII, cap. 7.

[22] De opif. Dei, cap. 21.

[23] Bula Triumphantis, an. 1588.

[24] Ibid.

[25] In 2ª, 2ª, q. 148, a. 4, in fin.

[26] Bula In ordine.

[27] Breve ad fratres. ord. Praedicat. 1451.

[28] Bula Pretiosus.

[29] Bula Mirabilis.

[30] Bula Verbo Dei.

[31] Const. 5ª dat die 3 Aug. 1368 ad Cancell. Univ. Tolos.

[32] Litt. in form. Brer., die 6 Febr. 1694.

[33] Litt. in form. Brer., die 21 Aug. 1752.

[34] Serm. de S. Tom.

[35] Beza Bucerus.

[36] Sixtus V, Bull. cit.

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domingo, 3 de agosto de 2025

A Defesa da Igreja Católica Frente à Conjuração Anticristã: Uma Revisão de Documentos Magisteriais (séc. II–XX)

Ao longo de sua história, a Igreja Católica tem se posicionado de maneira firme contra ameaças externas que colocam em risco sua liberdade, doutrina e missão sobrenatural. Desde o Império Romano até os totalitarismos do século XX, passando por regimes absolutistas, ideologias laicistas e sistemas ateus, a Igreja enfrentou múltiplos desafios. Contudo, apresentar estes confrontos como fenómenos isolados é um erro capital, pois obscurece a unidade e a continuidade da guerra que lhes subjaz. A presente exposição apresenta os principais documentos magisteriais que articulam essa resistência, não como reações a ataques díspares, mas como baluartes de uma única e mesma batalha contra a conjuração anticristã, motor da civilização moderna que, desde a Renascença, trabalha para destruir a ordem sobrenatural (Delassus, 2010, I, p. 34).

🏛 Período Antigo e Patrístico

Carta aos Cristãos de Esmirna – Santo Inácio de Antioquia (séc. II)
No contexto das perseguições romanas, Santo Inácio escreve à comunidade de Esmirna para exortar os fiéis à unidade com o bispo e à fidelidade à Igreja mesmo diante do martírio. Trata-se de um testemunho do papel da hierarquia legítima e da resistência eclesial contra o poder estatal hostil, cuja causa primeira se encontra no ódio da sinagoga de Satã, que instigou o Império a perseguir os cristãos. Com efeito, como foi demonstrado, “as sinagogas são as fontes de onde emana a perseguição” (Delassus, 2010, I, p. 170), e este documento é a primeira manifestação da resistência da Igreja contra a conjuração já em seus primórdios.

🏰 Idade Média

Unam Sanctam – Papa Bonifácio VIII (1302)
Elaborada em meio ao confronto com o rei Filipe IV da França, esta bula afirma que fora da submissão ao Romano Pontífice não há salvação. Proclama a superioridade do poder espiritual sobre o temporal, advertindo os príncipes que tentam usurpar prerrogativas espirituais. É um marco do ensinamento sobre a soberania da Igreja frente ao absolutismo nascente, que marcou um ponto de viragem funesto, pois o atentado de Anagni que se seguiu deu um “primeiro e rudíssimo golpe” na Cristandade, abrindo as portas ao Grande Cisma e, subsequentemente, à Reforma (Delassus, 2010, I, p. 23).

📜 Idade Moderna e Início da Modernidade

Regiminis Apostolici – Papa Alexandre VII (1665)
Condenando 45 proposições jansenistas, esta bula reafirma a autoridade doutrinal do Papa e combate as teses galicanas que defendiam maior autonomia das igrejas locais frente a Roma. Trata-se de um esforço para conter tanto os desvios morais como as influências políticas locais sobre a vida teológica da Igreja, influências estas que constituem os “tóxicos de ordem intelectual” semeados pela seita anticristã para preparar o terreno da Revolução (Delassus, 2010, I, p. 34).

⚖️ Contra o Liberalismo, Comunismo e Totalitarismos (Séc. XIX e XX)

Mirari Vos – Papa Gregório XVI (1832)
Reagindo ao racionalismo e ao liberalismo emergente no pós-Revolução Francesa, Gregório XVI denuncia o indiferentismo religioso, a liberdade de consciência absoluta, a separação entre Igreja e Estado e a liberdade irrestrita de imprensa. A encíclica marca o início da crítica sistemática do Magistério aos chamados “erros modernos”, que nada mais são do que os dogmas da franco-maçonaria, concebidos para perverter as ideias e conduzir as nações à apostasia (Delassus, 2010, II, p. 85).

Quanta Cura e Syllabus Errorum – Papa Pio IX (1864)
Quanta Cura condena o liberalismo doutrinal e o secularismo, enquanto o Syllabus anexa 80 proposições condenadas, incluindo a relativização da autoridade papal, o laicismo e a negação do direito da Igreja de ensinar publicamente. Ambos os documentos formam a base da doutrina antimoderna da Igreja do século XIX, constituindo o antídoto direto ao veneno maçônico semeado para destruir a civilização cristã.

Rerum Novarum – Papa Leão XIII (1891)
Considerada a pedra angular da doutrina social da Igreja, a encíclica responde aos abusos do capitalismo e ao materialismo socialista. Leão XIII defende a dignidade do trabalhador, o direito à propriedade privada e o papel mediador da Igreja nas questões sociais. O texto apresenta uma alternativa cristã aos modelos econômicos materialistas, os quais, em verdade, são as duas faces da mesma moeda revolucionária que, após minar a ordem política e religiosa, ataca necessariamente a propriedade e a família, tendo o socialismo como sua consequência lógica e final (Delassus, 2010, I, p. 46).

Non Abbiamo Bisogno – Papa Pio XI (1931)
Esta carta ao episcopado italiano denuncia a hostilidade do regime fascista à Ação Católica e suas tentativas de monopolizar a formação da juventude. Pio XI condena o “culto do Estado” como idolatria e afirma a liberdade da Igreja de organizar sua própria ação pastoral e educativa.

Mit Brennender Sorge – Papa Pio XI (1937)
Encíclica escrita em alemão e lida secretamente nas igrejas da Alemanha, é a mais direta condenação do nacional-socialismo. Pio XI denuncia o racismo, o neopaganismo, a repressão religiosa e a traição dos compromissos assumidos pelo regime. Defende a dignidade da pessoa humana e a liberdade da fé frente ao totalitarismo.

Divini Redemptoris – Papa Pio XI (1937)
Publicada poucos dias após a anterior, é uma denúncia abrangente do comunismo ateu. O Papa acusa o marxismo de eliminar a religião, dissolver a família e substituir a lei natural pela ideologia. Como resposta, propõe uma ordem social cristã baseada no princípio de subsidiariedade e no amor ao próximo. Estas três encíclicas de Pio XI são admiráveis em denunciar as manifestações do mesmo mal: a divinização do Estado, seja sob a forma da nação, da raça ou da classe. Todos estes totalitarismos são frutos da Revolução, que, em sua essência, é satânica e visa reconstruir a sociedade sobre as ruínas do cristianismo (Delassus, 2010, I, p. 38), erigindo o Templo maçônico sob a direção do Grande Arquiteto, que é Satã.

Humani Generis – Papa Pio XII (1950)
Dirigida especialmente ao mundo teológico, a encíclica adverte contra filosofias como o existencialismo, o historicismo e o evolucionismo dogmático. Pio XII condena a relativização da verdade revelada e reafirma o papel do Magistério na interpretação legítima da doutrina, frente a infiltrações ideológicas no próprio seio eclesial, o que demonstra a fase mais perigosa e sutil da conjuração: a tentativa de corromper a Igreja desde dentro, fazendo o clero marchar sob o estandarte da seita, crendo ainda servir a Cristo (Delassus, 2010, II, p. 103).

Conclusão

Os documentos aqui apresentados mostram a coerência da Igreja em sua defesa da verdade, da liberdade e da fé diante de contextos políticos e ideológicos hostis. Em todos os tempos, o Magistério procurou discernir os perigos, reafirmar a doutrina imutável e garantir a liberdade da Igreja em cumprir sua missão evangelizadora. Esta luta não é contra “contextos” abstratos, mas contra a conjuração da seita anticristã. A voz profética do Magistério continua sendo o ponto de referência para a resistência contra a dissolução universal que o Poder Oculto planeja, e a única esperança para a restauração da civilização cristã.

Referências

Congar, Y. (2002). A Igreja e o poder temporal. São Paulo: Paulinas.
Delassus, H. (2010). A Conjuração Anticristã: O Templo Maçônico que quer se erguer sobre as ruínas da Igreja Católica. (Tomo I e II).
Denzinger, H. (2009). Compêndio dos símbolos, definições e declarações de fé e moral (DH). Petrópolis: Vozes.
Gregório XVI. (1832). Mirari Vos.
Inácio de Antioquia. Epístola aos Esmirnenses. Tradução brasileira pela Paulus.
Leão XIII. (1891). Rerum Novarum.
Leão XIII. (1896). Apostolicae Curae.
Pio IX. (1864). Syllabus Errorum e Quanta Cura.
Pio XI. (1931). Non Abbiamo Bisogno.
Pio XI. (1937). Mit Brennender Sorge.
Pio XI. (1937). Divini Redemptoris.
Pio XII. (1950). Humani Generis.
Tierney, B. (1988). The Crisis of Church and State, 1050–1300. Toronto: University of Toronto Press.

sexta-feira, 16 de maio de 2025

Encíclica LIBERTAS PRAESTANTISSIMUM

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CARTA ENCÍCLICA
LIBERTAS PRAESTANTISSIMUM
DEL SUMO PONTÍFICE
LEÓN XIII

SOBRE LA LIBERTAD Y EL LIBERALISMO

l. La libertad, don excelente de la Naturaleza, propio y exclusivo de los seres racionales, confiere al hombre la dignidad de estar en manos de su albedrío[1] y de ser dueño de sus acciones. Pero lo más importante en esta dignidad es el modo de su ejercicio, porque del uso de la libertad nacen los mayores bienes y los mayores males. Sin duda alguna, el hombre puede obedecer a la razón, practicar el bien moral, tender por el camino recto a su último fin. Pero el hombre puede también seguir una dirección totalmente contraria y, yendo tras el espejismo de unas ilusorias apariencias, perturbar el orden debido y correr a su perdición voluntaria.

Jesucristo, liberador del género humano, que vino para restaurar y acrecentar la dignidad antigua de la Naturaleza, ha socorrido de modo extraordinario la voluntad del hombre y la ha levantado a un estado mejor, concediéndole, por una parte, los auxilios de su gracia y abriéndole, por otra parte, la perspectiva de una eterna felicidad en los cielos. De modo semejante, la Iglesia ha sido y será siempre benemérita de este preciado don de la Naturaleza, porque su misión es precisamente la conservación, a lo largo de la Historia, de los bienes que hemos adquirido por medio de Jesucristo. Son, sin embargo, muchos los hombres para los cuales la Iglesia es enemiga de la libertad humana. La causa de este perjuicio reside en una errónea y adulterada idea de la libertad. Porque, al alterar su contenido, o al darle una extensión excesiva, como le dan, pretenden incluir dentro del ámbito de la libertad cosas que quedan fuera del concepto exacto de libertad.

2. Nos hemos hablado ya en otras ocasiones, especialmente en la encíclica Immortale Dei[2], sobre las llamadas libertades modernas, separando lo que en éstas hay de bueno de lo que en ellas hay de malo. Hemos demostrado al mismo tiempo que todo lo bueno que estas libertades presentan es tan antiguo como la misma verdad, y que la Iglesia lo ha aprobado siempre de buena voluntad y lo ha incorporado siempre a la práctica diaria de su vida. La novedad añadida modernamente, si hemos de decir la verdad, no es más que una auténtica corrupción producida por las turbulencias de la época y por la inmoderada fiebre de revoluciones. Pero como son muchos los que se obstinan en ver, aun en los aspectos viciosos de estas libertades, la gloria suprema de nuestros tiempos y el fundamento necesario de toda constitución política, como si fuera imposible concebir sin estas libertades el gobierno perfecto del Estado, nos ha parecido necesario, para la utilidad de todos, tratar con particular atención este asunto.

I. DOCTRINA CATÓLICA SOBRE LA LIBERTAD

Libertad natural

3. El objeto directo de esta exposición es la libertad moral, considerada tanto en el individuo como en la sociedad. Conviene, sin embargo, al principio exponer brevemente algunas ideas sobre la libertad natural, pues si bien ésta es totalmente distinta de la libertad moral, es, sin embargo, la fuente y el principio de donde nacen y derivan espontáneamente todas las especies de libertad. El juicio recto y el sentido común de todos los hombres, voz segura de la Naturaleza, reconoce esta libertad solamente en los seres que tienen inteligencia o razón; y es esta libertad la que hace al hombre responsable de todos sus actos. No podía ser de otro modo. Porque mientras los animales obedecen solamente a sus sentidos y bajo el impulso exclusivo de la naturaleza buscan lo que les es útil y huyen lo que les es perjudicial, el hombre tiene a la razón como guía en todas y en cada una de las acciones de su vida. Pero la razón, a la vista de los bienes de este mundo, juzga de todos y de cada uno de ellos que lo mismo pueden existir que no existir; y concluyendo, por esto mismo, que ninguno de los referidos bienes es absolutamente necesario, la razón da a la voluntad el poder de elegir lo que ésta quiera. Ahora bien: el hombre puede juzgar de la contingencia de estos bienes que hemos citado, porque tiene un alma de naturaleza simple, espiritual, capaz de pensar; un alma que, por su propia entidad, no proviene de las cosas corporales ni depende de éstas en su conservación, sino que, creada inmediatamente por Dios y muy superior a la común condición de los cuerpos, tiene un modo propio de vida y un modo no menos propio de obrar; esto es lo que explica que el hombre, con el conocimiento intelectual de las inmutables y necesarias esencias del bien y de la verdad, descubra con certeza que estos bienes particulares no son en modo alguno bienes necesarios. De esta manera, afirmar que el alma humana está libre de todo elemento mortal y dotada de la facultad de pensar, equivale a establecer la libertad natural sobre su más sólido fundamento.

4. Ahora bien: así como ha sido la Iglesia católica la más alta propagadora y la defensora más constante de la simplicidad, espiritualidad e inmortalidad del alma humana, así también es la Iglesia la defensora más firme de la libertad. La Iglesia ha enseñado siempre estas dos realidades y las defiende como dogmas de fe. Y no sólo esto. Frente a los ataques de los herejes y de los fautores de novedades, ha sido la Iglesia la que tomó a su cargo la defensa de la libertad y la que libró de la ruina a esta tan excelsa cualidad del hombre. La historia de la teología demuestra la enérgica reacción de la Iglesia contra los intentos alocados de los maniqueos y otros herejes. Y, en tiempos más recientes, todos conocen el vigoroso esfuerzo que la Iglesia realizó, primero en el concilio de Trento y después contra los discípulos de Jansenio, para defender la libertad del hombre, sin permitir que el fatalismo arraigue en tiempo o en lugar alguno.

Libertad moral

5. La libertad es, por tanto, como hemos dicho, patrimonio exclusivo de los seres dotados de inteligencia o razón. Considerada en su misma naturaleza, esta libertad no es otra cosa que la facultad de elegir entre los medios que son aptos para alcanzar un fin determinado, en el sentido de que el que tiene facultad de elegir una cosa entre muchas es dueño de sus propias acciones. Ahora bien: como todo lo que uno elige como medio para obtener otra cosa pertenece al género del denominado bien útil, y el bien por su propia naturaleza tiene la facultad de mover la voluntad, por esto se concluye que la libertad es propia de la voluntad, o más exactamente, es la voluntad misma, en cuanto que ésta, al obrar, posee la facultad de elegir. Pero el movimiento de la voluntad es imposible si el conocimiento intelectual no la precede iluminándola como una antorcha, o sea, que el bien deseado por la voluntad es necesariamente bien en cuanto conocido previamente por la razón. Tanto más cuanto que en todas las voliciones humanas la elección es posterior al juicio sobre la verdad de los bienes propuestos y sobre el orden de preferencia que debe observarse en éstos. Pero el juicio es, sin duda alguna, acto de la razón, no de la voluntad. Si la libertad, por tanto, reside en la voluntad, que es por su misma naturaleza un apetito obediente a la razón, síguese que la libertad, lo mismo que la voluntad, tiene por objeto un bien conforme a la razón. No obstante, como la razón y la voluntad son facultades imperfectas, puede suceder, y sucede muchas veces, que la razón proponga a la voluntad un objeto que, siendo en realidad malo, presenta una engañosa apariencia de bien, y que a él se aplique la voluntad. Pero así como la posibilidad de errar y el error de hecho es un defecto que arguye un entendimiento imperfecto, así también adherirse a un bien engañoso y fingido, aun siendo indicio de libre albedrío, como la enfermedad es señal de la vida, constituye, sin embargo, un defecto de la libertad. De modo parecido, la voluntad, por el solo hecho de su dependencia de la razón, cuando apetece un objeto que se aparta de la recta razón, incurre en el defecto radical de corromper y abusar de la libertad. Y ésta es la causa de que Dios, infinitamente perfecto, y que por ser sumamente inteligente y bondad por esencia es sumamente libre, no pueda en modo alguno querer el mal moral; como tampoco pueden quererlo los bienaventurados del cielo, a causa de la contemplación del bien supremo. Esta era la objeción que sabiamente ponían San Agustín y otros autores contra los pelagianos. Si la posibilidad de apartarse del bien perteneciera a la esencia y a la perfección de la libertad, entonces Dios, Jesucristo, los ángeles y los bienaventurados, todos los cuales carecen de ese poder, o no serían libres o, al menos, no lo serían con la misma perfección que el hombre en estado de prueba e imperfección.

El Doctor Angélico se ha ocupado con frecuencia de esta cuestión, y de sus exposiciones se puede concluir que la posibilidad de pecar no es una libertad, sino una esclavitud. Sobre las palabras de Cristo, nuestro Señor, el que comete pecado es siervo del pecado[3], escribe con agudeza: «Todo ser es lo que le conviene ser por su propia naturaleza. Por consiguiente, cuando es movido por un agente exterior, no obra por su propia naturaleza, sino por un impulso ajeno, lo cual es propio de un esclavo. Ahora bien: el hombre, por su propia naturaleza, es un ser racional. Por tanto, cuando obra según la razón, actúa en virtud de un impulso propio y de acuerdo con su naturaleza, en lo cual consiste precisamente la libertad; pero cuando peca, obra al margen de la razón, y actúa entonces lo mismo que si fuese movido por otro y estuviese sometido al dominio ajeno; y por esto, el que comete el pecado es siervo del pecado»[4]. Es lo que había visto con bastante claridad la filosofía antigua, especialmente los que enseñaban que sólo el sabio era libre, entendiendo por sabio, como es sabido, aquel que había aprendido a vivir según la naturaleza, es decir, de acuerdo con la moral y la virtud.

La ley

6. Siendo ésta la condición de la libertad humana, le hacía falta a la libertad una protección y un auxilio capaces de dirigir todos sus movimientos hacia el bien y de apartarlos del mal. De lo contrario, la libertad habría sido gravemente perjudicial para el hombre. En primer lugar, le era necesaria una ley, es decir, una norma de lo que hay que hacer y de lo que hay que evitar. La ley, en sentido propio, no puede darse en los animales, que obran por necesidad, pues realizan todos sus actos por instinto natural y no pueden adoptar por sí mismos otra manera de acción. En cambio, los seres que gozan de libertad tienen la facultad de obrar o no obrar, de actuar de esta o de aquella manera, porque la elección del objeto de su volición es posterior al juicio de la razón, a que antes nos hemos referido. Este juicio establece no sólo lo que es bueno o lo que es malo por naturaleza, sino además lo que es bueno y, por consiguiente, debe hacerse, y lo que es malo y, por consiguiente, debe evitarse. Es decir, la razón prescribe a la voluntad lo que debe buscar y lo que debe evitar para que el hombre pueda algún día alcanzar su último fin, al cual debe dirigir todas sus acciones. Y precisamente esta ordenación de la razón es lo que se llama ley. Por lo cual la justificación de la necesidad de la ley para el hombre ha de buscarse primera y radicalmente en la misma libertad, es decir, en la necesidad de que la voluntad humana no se aparte de la recta razón. No hay afirmación más absurda y peligrosa que ésta: que el hombre, por ser naturalmente libre, debe vivir desligado de toda ley. Porque si esta premisa fuese verdadera, la conclusión lógica sería que es esencial a la libertad andar en desacuerdo con la razón, siendo así que la afirmación verdadera es la contradictoria, o sea, que el hombre, precisamente por ser libre, ha de vivir sometido a la ley. De este modo es la ley la que guía al hombre en su acción y es la ley la que mueve al hombre, con el aliciente del premio y con el temor del castigo, a obrar el bien y a evitar el mal. Tal es la principal de todas las leyes, la ley natural, escrita y grabada en el corazón de cada hombre, por ser la misma razón humana que manda al hombre obrar el bien y prohíbe al hombre hacer el mal.

Pero este precepto de la razón humana no podría tener fuerza de ley si no fuera órgano e intérprete de otra razón más alta, a la que deben estar sometidos nuestro entendimiento y nuestra libertad. Porque siendo la función de la ley imponer obligaciones y atribuir derechos, la ley se apoya por entero en la autoridad, esto es, en un poder capaz de establecer obligaciones, atribuir derechos y sancionar además, por medio de premios y castigos, las órdenes dadas; cosas todas que evidentemente resultan imposibles si fuese el hombre quien como supremo legislador se diera a sí mismo la regla normativa de sus propias acciones. Síguese, pues, de lo dicho que la ley natural es la misma ley eterna, que, grabada en los seres racionales, inclina a éstos a las obras y al fin que les son propios; ley eterna que es, a su vez, la razón eterna de Dios, Creador y Gobernador de todo el universo.

La gracia sobrenatural

A esta regla de nuestras acciones, a este freno del pecado, la bondad divina ha añadido ciertos auxilios especiales, aptísimos para dirigir y confirmar la voluntad del hombre. El principal y más eficaz auxilio de todos estos socorros es la gracia divina, la cual, iluminando el entendimiento y robusteciendo e impulsando la voluntad hacia el bien moral, facilita y asegura al mismo tiempo, con saludable constancia, el ejercicio de nuestra libertad natural. Es totalmente errónea la afirmación de que las mociones de la voluntad, a causa de esta intervención divina, son menos libres. Porque la influencia de la gracia divina alcanza las profundidades más íntimas del hombre y se armoniza con las tendencias naturales de éste, porque la gracia nace de aquel que es autor de nuestro entendimiento y de nuestra voluntad y mueve todos los seres de un modo adecuado a la naturaleza de cada uno. Como advierte el Doctor Angélico, la gracia divina, por proceder del Creador de la Naturaleza, está admirablemente capacitada para defender todas las naturalezas individuales y para conservar sus caracteres, sus facultades y su eficacia.

La libertad moral social

7. Lo dicho acerca de la libertad de cada individuo es fácilmente aplicable a los hombres unidos en sociedad civil. Porque lo que en cada hombre hacen la razón y la ley natural, esto mismo hace en los asociados la ley humana, promulgada para el bien común de los ciudadanos. Entre estas leyes humanas hay algunas cuyo objeto consiste en lo que es bueno o malo por naturaleza, añadiendo al precepto de practicar el bien y de evitar el mal la sanción conveniente. El origen de estas leyes no es en modo alguno el Estado; porque así como la sociedad no es origen de la naturaleza humana, de la misma manera la sociedad no es fuente tampoco de la concordancia del bien y de la discordancia del mal con la naturaleza. Todo lo contrario. Estas leyes son anteriores a la misma sociedad, y su origen hay que buscarlo en la ley natural y, por tanto, en la ley eterna. Por consiguiente, los preceptos de derecho natural incluidos en las leyes humanas no tienen simplemente el valor de una ley positiva, sino que además, y principalmente, incluyen un poder mucho más alto y augusto que proviene de la misma ley natural y de la ley eterna. En esta clase de leyes la misión del legislador civil se limita a lograr, por medio de una disciplina común, la obediencia de los ciudadanos, castigando a los perversos y viciosos, para apartarlos del mal y devolverlos al bien, o para impedir, al menos, que perjudiquen a la sociedad y dañen a sus conciudadanos.

Existen otras disposiciones del poder civil que no proceden del derecho natural inmediata y próximamente, sino remota e indirectamente, determinando una variedad de cosas que han sido reguladas por la naturaleza de un modo general y en conjunto. Así, por ejemplo, la naturaleza ordena que los ciudadanos cooperen con su trabajo a la tranquilidad y prosperidad públicas. Pero la medida, el modo y el objeto de esta colaboración no están determinados por el derecho natural, sino por la prudencia humana. Estas reglas peculiares de la convivencia social, determinadas según la razón y promulgadas por la legítima potestad, constituyen el ámbito de la ley humana propiamente dicha. Esta ley ordena a todos los ciudadanos colaborar en el fin que la comunidad se propone y les prohíbe desertar de este servicio; y mientras sigue sumisa y se conforma con los preceptos de la naturaleza, esa ley conduce al bien y aparta del mal. De todo lo cual se concluye que hay que poner en la ley eterna de Dios la norma reguladora de la libertad, no sólo de los particulares, sino también de la comunidad social. Por consiguiente, en una sociedad humana, la verdadera libertad no consiste en hacer el capricho personal de cada uno; esto provocaría una extrema confusión y una perturbación, que acabarían destruyendo al propio Estado; sino que consiste en que, por medio de las leyes civiles, pueda cada cual fácilmente vivir según los preceptos de la ley eterna. Y para los gobernantes la libertad no está en que manden al azar y a su capricho, proceder criminal que implicaría, al mismo tiempo, grandes daños para el Estado, sino que la eficacia de las leyes humanas consiste en su reconocida derivación de la ley eterna y en la sanción exclusiva de todo lo que está contenido en esta ley eterna, como en fuente radical de todo el derecho. Con suma sabiduría lo ha expresado San Agustín: «Pienso que comprendes que nada hay justo y legítimo en la [ley] temporal que no lo hayan tomado los hombres de la [ley] eterna»[5]. Si, por consiguiente, tenemos una ley establecida por una autoridad cualquiera, y esta ley es contraria a la recta razón y perniciosa para el Estado, su fuerza legal es nula, porque no es norma de justicia y porque aparta a los hombres del bien para el que ha sido establecido el Estado.

8. Por tanto, la naturaleza de la libertad humana, sea el que sea el campo en que la consideremos, en los particulares o en la comunidad, en los gobernantes o en los gobernados, incluye la necesidad de obedecer a una razón suprema y eterna, que no es otra que la autoridad de Dios imponiendo sus mandamientos y prohibiciones. Y este justísimo dominio de Dios sobre los hombres está tan lejos de suprimir o debilitar siquiera la libertad humana, que lo que hace es precisamente todo lo contrario: defenderla y perfeccionarla; porque la perfección verdadera de todo ser creado consiste en tender a su propio fin y alcanzarlo. Ahora bien: el fin supremo al que debe aspirar la libertad humana no es otro que el mismo Dios.

La Iglesia, defensora de la verdadera libertad social

9. La Iglesia, aleccionada con las enseñanzas y con los ejemplos de su divino Fundador, ha defendido y propagado por todas partes estos preceptos de profunda y verdadera doctrina, conocidos incluso por la sola luz de la razón. Nunca ha cesado la Iglesia de medir con ellos su misión y de educar en ellos a los pueblos cristianos. En lo tocante a la moral, la ley evangélica no sólo supera con mucho a toda la sabiduría pagana, sino que además llama abiertamente al hombre y le capacita para una santidad desconocida en la antigüedad, y, acercándolo más a Dios, le pone en posesión de una libertad más perfecta. De esta manera ha brillado siempre la maravillosa eficacia de la Iglesia en orden a la defensa y mantenimiento de la libertad civil y política de los pueblos.

No es necesario enumerar ahora los méritos de la Iglesia en este campo. Basta recordar la esclavitud, esa antigua vergüenza del paganismo, abolida principalmente por la feliz intervención de la Iglesia. Ha sido Jesucristo el primero en proclamar la verdadera igualdad jurídica y la auténtica fraternidad de todos los hombres. Eco fiel de esta enseñanza fue la voz de los dos apóstoles que declaraba suprimidas las diferencias entre judíos y griegos, bárbaros y escitas[6], y proclamaba la fraternidad de todos en Cristo. La eficacia de la Iglesia en este punto ha sido tan honda y tan evidente, que dondequiera que la Iglesia quedó establecida la experiencia ha comprobado que desaparece en poco tiempo la barbarie de las costumbres. A la brutalidad sucede rápidamente la dulzura; a las tinieblas de la barbarie, la luz de la verdad. Igualmente nunca ha dejado la Iglesia de derramar beneficios en los pueblos civilizados, resistiendo unas veces el capricho de los hombres perversos, alejando otras veces de los inocentes y de los débiles las injusticias, procurando, por último, que los pueblos tuvieran una constitución política que se hiciera amar de los ciudadanos por su justicia y se hiciera temer de los extraños por su poder.

10. Es, además, una obligación muy seria respetar a la autoridad y obedecer las leyes justas, quedando así los ciudadanos defendidos de la injusticia de los criminales gracias a la eficacia vigilante de la ley. El poder legítimo viene de Dios, y el que resiste a da autoridad, resiste a la disposición de Dios[7]. De esta manera, la obediencia queda dignificada de un modo extraordinario, pues se presta obediencia a la más justa y elevada autoridad. Pero cuando no existe el derecho de mandar, o se manda algo contrario a la razón, a la ley eterna, a la autoridad de Dios, es justo entonces desobedecer a los hombres para obedecer a Dios. Cerrada así la puerta a la tiranía, no lo absorberá todo el Estado. Quedarán a salvo los derechos de cada ciudadano, los derechos de la familia, los derechos de todos los miembros del Estado, y todos tendrán amplia participación en la libertad verdadera, que consiste, como hemos demostrado, en poder vivir cada uno según las leyes y según la recta razón.

II. DOCTRINA DEL LIBERALISMO SOBRE LA LIBERTAD

11. Si los que a cada paso hablan de la libertad entendieran por tal la libertad buena y legítima que acabamos de describir, nadie osaría acusar a la Iglesia, con el injusto reproche que le hacen, de ser enemiga de la libertad de los individuos y de la libertad del Estado. Pero son ya muchos los que, imitando a Lucifer, del cual es aquella criminal expresión: No serviré[8], entienden por libertad lo que es una pura y absurda licencia. Tales son los partidarios de ese sistema tan extendido y poderoso, y que, tomando el nombre de la misma libertad, se llaman a sí mismos liberales.

Liberalismo de primer grado

12. El naturalismo o racionalismo en la filosofía coincide con el liberalismo en la moral y en la política, pues los seguidores del liberalismo aplican a la moral y a la práctica de la vida los mismos principios que establecen los defensores del naturalismo. Ahora bien: el principio fundamental de todo el racionalismo es la soberanía de la razón humana, que, negando la obediencia debida a la divina y eterna razón y declarándose a sí misma independiente, se convierte en sumo principio, fuente exclusiva y juez único de la verdad. Esta es la pretensión de los referidos seguidores del liberalismo; según ellos no hay en la vida práctica autoridad divina alguna a la que haya que obedecer; cada ciudadano es ley de sí mismo. De aquí nace esa denominada moral independiente, que, apartando a la voluntad, bajo pretexto de libertad, de la observancia de los mandamientos divinos, concede al hombre una licencia ilimitada. Las consecuencias últimas de estas afirmaciones, sobre todo en el orden social, son fáciles de ver. Porque, cuando el hombre se persuade que no tiene sobre si superior alguno, la conclusión inmediata es colocar la causa eficiente de la comunidad civil y política no en un principio exterior o superior al hombre, sino en la libre voluntad de cada uno; derivar el poder político de la multitud como de fuente primera. Y así como la razón individual es para el individuo en su vida privada la única norma reguladora de su conducta, de la misma manera la razón colectiva debe ser para todos la única regla normativa en la esfera de la vida pública. De aquí el número como fuerza decisiva y la mayoría como creadora exclusiva del derecho y del deber.

Todos estos principios y conclusiones están en contradicción con la razón. Lo dicho anteriormente lo demuestra. Porque es totalmente contraria a la naturaleza la pretensión de que no existe vínculo alguno entre el hombre o el Estado y Dios, creador y, por tanto, legislador supremo y universal. Y no sólo es contraria esa tendencia a la naturaleza humana, sino también a toda la naturaleza creada. Porque todas las cosas creadas tienen que estar forzosamente vinculadas con algún lazo a la causa que las hizo. Es necesario a todas las naturalezas y pertenece a la perfección propia de cada una de ellas mantenerse en el lugar y en el grado que les asigna el orden natural; esto es, que el ser inferior se someta y obedezca al ser que le es superior. Pero además esta doctrina es en extremo perniciosa, tanto para los particulares como para los Estados. Porque, si el juicio sobre la verdad y el bien queda exclusivamente en manos de la razón humana abandonada a sí sola, desaparece toda diferencia objetiva entre el bien y el mal; el vicio y la virtud no se distinguen ya en el orden de la realidad, sino solamente en el juicio subjetivo de cada individuo; será lícito cuanto agrade, y establecida una moral impotente para refrenar y calmar las pasiones desordenadas del alma, quedará espontáneamente abierta la puerta a toda clase de corrupciones. En cuanto a la vida pública, el poder de mandar queda separado de su verdadero origen natural, del cual recibe toda la eficacia realizadora del bien común; y la ley, reguladora de lo que hay que hacer y lo que hay que evitar, queda abandonada al capricho de una mayoría numérica, verdadero plano inclinado que lleva a la tiranía.

La negación del dominio de Dios sobre el hombre y sobre el Estado arrastra consigo como consecuencia inevitable la ausencia de toda religión en el Estado, y consiguientemente el abandono más absoluto en todo la referente a la vida religiosa. Armada la multitud con la idea de su propia soberanía, fácilmente degenera en la anarquía y en la revolución, y suprimidos los frenos del deber y de la conciencia, no queda más que la fuerza; la fuerza, que es radicalmente incapaz para dominar por sí solas las pasiones desatadas de las multitudes. Tenemos pruebas convincentes de todas estas consecuencias en la diaria lucha contra los socialistas y revolucionarios, que desde hace ya mucho tiempo se esfuerzan por sacudir los mismos cimientos del Estado. Analicen, pues, y determinen los rectos enjuiciadores de la realidad si esta doctrina es provechosa para la verdadera libertad digna del hombre o si es más bien una teoría corruptora y destructora de esta libertad.

Liberalismo de segundo grado

13. Es cierto que no todos los defensores del liberalismo están de acuerdo con estas opiniones, terribles por su misma monstruosidad, contrarias abiertamente a la verdad y causa, como hemos visto, de los mayores males. Obligados por la fuerza de la verdad, muchos liberales reconocen sin rubor e incluso afirman espontáneamente que la libertad, cuando es ejercida sin reparar en exceso alguno y con desprecio de la verdad y de la justicia, es una libertad pervertida que degenera en abierta licencia; y que, por tanto, la libertad debe ser dirigida y gobernada por la recta razón, y consiguientemente debe quedar sometida al derecho natural y a la ley eterna de Dios. Piensan que esto basta y niegan que el hombre libre deba someterse a las leyes que Dios quiera imponerle por un camino distinto al de la razón natural. Pero al poner esta limitación no son consecuentes consigo mismos. Porque si, como ellos admiten y nadie puede razonablemente negar, hay que obedecer a la voluntad de Dios legislador, por la total dependencia del hombre respecto de Dios y por la tendencia del hombre hacia Dios, la consecuencia es que nadie puede poner límites o condiciones a este poder legislativo de Dios sin quebrantar al mismo tiempo la obediencia debida a Dios. Más aún: si la razón del hombre llegara a arrogarse el poder de establecer por sí misma la naturaleza y la extensión de los derechos de Dios y de sus propias obligaciones, el respeto a las leyes divinas sería una apariencia, no una realidad, y el juicio del hombre valdría más que la autoridad y la providencia del mismo Dios. Es necesario, por tanto, que la norma de nuestra vida se ajuste continua y religiosamente no sólo a la ley eterna, sino también a todas y cada una de las demás leyes que Dios, en su infinita sabiduria, en su infinito poder y por los medios que le ha parecido, nos ha comunicado; leyes que podemos conocer con seguridad por medio de señales claras e indubitables. Necesidad acentuada por el hecho de que esta clase de leyes, al tener el mismo principio y el mismo autor que la ley eterna, concuerdan enteramente con la razón, perfeccionan el derecho natural e incluyen además el magisterio del mismo Dios, quien, para que nuestro entendimiento y nuestra voluntad no caigan en error, rige a entrambos benignamente con su amorosa dirección. Manténgase, pues, santa e inviolablemente unido lo que no puede ni debe ser separado, y sírvase a Dios en todas las cosas, como lo ordena la misma razón natural, con toda sumisión y obediencia.

Liberalismo de tercer grado

14. Hay otros liberales algo más moderados, pero no por esto más consecuentes consigo mismos; estos liberales afirman que, efectivamente, las leyes divinas deben regular la vida y la conducta de los particulares, pero no la vida y la conducta del Estado; es lícito en la vida política apartarse de los preceptos de Dios y legislar sin tenerlos en cuenta para nada. De esta noble afirmación brota la perniciosa consecuencia de que es necesaria la separación entre la Iglesia y el Estado. Es fácil de comprender el absurdo error de estas afirmaciones.

Es la misma naturaleza la que exige a voces que la sociedad proporcione a los ciudadanos medios abundantes y facilidades para vivir virtuosamente, es decir, según las leyes de Dios, ya que Dios es el principio de toda virtud y de toda justicia. Por esto, es absolutamente contrario a la naturaleza que pueda lícitamente el Estado despreocuparse de esas leyes divinas o establecer una legislación positiva que las contradiga. Pero, además, los gobernantes tienen, respecto de la sociedad, la obligación estricta de procurarle por medio de una prudente acción legislativa no sólo la prosperidad y los bienes exteriores, sino también y principalmente los bienes del espíritu. Ahora bien: en orden al aumento de estos bienes espirituales, nada hay ni puede haber más adecuado que las leyes establecidas por el mismo Dios. Por esta razón, los que en el gobierno de Estado pretenden desentenderse de las leyes divinas desvían el poder político de su propia institución y del orden impuesto por la misma naturaleza.

Pero hay otro hecho importante, que Nos mismo hemos subrayado más de una vez en otras ocasiones: el poder político y el poder religioso, aunque tienen fines y medios específicamente distintos, deben, sin embargo, necesariamente, en el ejercicio de sus respectivas funciones, encontrarse algunas veces. Ambos poderes ejercen su autoridad sobre los mismos hombres, y no es raro que uno y otro poder legislen acerca de una misma materia, aunque por razones distintas. En esta convergencia de poderes, el conflicto sería absurdo y repugnaría abiertamente a la infinita sabiduría de la voluntad divina; es necesario, por tanto, que haya un medio, un procedimiento para evitar los motivos de disputas y luchas y para establecer un acuerdo en la práctica. Acertadamente ha sido comparado este acuerdo a la unión del alma con el cuerpo, unión igualmente provechosa para ambos, y cuya desunión, por el contrario, es perniciosa particularmente para el cuerpo, que con ella pierde la vida.

III. LAS CONQUISTAS DEL LIBERALISMO

Libertad de cultos

15. Para dar mayor claridad a los puntos tratados es conveniente examinar por separado las diversas clases de libertad, que algunos proponen como conquistas de nuestro tiempo. En primer lugar examinemos, en relación con los particulares, esa libertad tan contraria a la virtud de la religión, la llamada libertad de cultos, libertad fundada en la tesis de que cada uno puede, a su arbitrio, profesar la religión que prefiera o no profesar ninguna. Esta tesis es contraria a la verdad. Porque de todas las obligaciones del hombre, la mayor y más sagrada es, sin duda alguna, la que nos manda dar a Dios el culto de la religión y de la piedad. Este deber es la consecuencia necesaria de nuestra perpetua dependencia de Dios, de nuestro gobierno por Dios y de nuestro origen primero y fin supremo, que es Dios. Hay que añadir, además, que sin la virtud de la religión no es posible virtud auténtica alguna, porque la virtud moral es aquella virtud cuyos actos tienen por objeto todo lo que nos lleva a Dios, considerado como supremo y último bien del hombre; y por esto, la religión, cuyo oficio es realizar todo lo que tiene por fin directo e inmediato el honor de Dios[9], es la reina y la regla a la vez de todas las virtudes. Y si se pregunta cuál es la religión que hay que seguir entre tantas religiones opuestas entre sí, la respuesta la dan al unísono la razón y naturaleza: la religión que Dios ha mandado, y que es fácilmente reconocible por medio de ciertas notas exteriores con las que la divina Providencia ha querido distinguirla, para evitar un error, que, en asunto de tanta trascendencia, implicaría desastrosas consecuencias. Por esto, conceder al hombre esta libertad de cultos de que estamos hablando equivale a concederle el derecho de desnaturalizar impunemente una obligación santísima y de ser infiel a ella, abandonando el bien para entregarse al mal. Esto, lo hemos dicho ya, no es libertad, es una depravación de la libertad y una esclavitud del alma entregada al pecado.

16. Considerada desde el punto de vista social y político, esta libertad de cultos pretende que el Estado no rinda a Dios culto alguno o no autorice culto público alguno, que ningún culto sea preferido a otro, que todos gocen de los mismos derechos y que el pueblo no signifique nada cuando profesa la religión católica. Para que estas pretensiones fuesen acertadas haría falta que los deberes del Estado para con Dios fuesen nulos o pudieran al menos ser quebrantados impunemente por el Estado. Ambos supuestos son falsos. Porque nadie puede dudar que la existencia de la sociedad civil es obra de la voluntad de Dios, ya se considere esta sociedad en sus miembros, ya en su forma, que es la autoridad; ya en su causa, ya en los copiosos beneficios que proporciona al hombre. Es Dios quien ha hecho al hombre sociable y quien le ha colocado en medio de sus semejantes, para que las exigencias naturales que él por sí solo no puede colmar las vea satisfechas dentro de la sociedad. Por esto es necesario que el Estado, por el mero hecho de ser sociedad, reconozca a Dios como Padre y autor y reverencie y adore su poder y su dominio. La justicia y la razón prohíben, por tanto, el ateísmo del Estado, o, lo que equivaldría al ateísmo, el indiferentismo del Estado en materia religiosa, y la igualdad jurídica indiscriminada de todas las religiones. Siendo, pues, necesaria en el Estado la profesión pública de una religión, el Estado debe profesar la única religión verdadera, la cual es reconocible con facilidad, singularmente en los pueblos católicos, puesto que en ella aparecen como grabados los caracteres distintivos de la verdad. Esta es la religión que deben conservar y proteger los gobernantes, si quieren atender con prudente utilidad, como es su obligación, a la comunidad política. Porque el poder político ha sido constituido para utilidad de los gobernados. Y aunque el fin próximo de su actuación es proporcionar a los ciudadanos la prosperidad de esta vida terrena, sin embargo, no debe disminuir, sino aumentar, al ciudadano las facilidades para conseguir el sumo y último bien, en que está la sempiterna bienaventuranza del hombre, y al cual no puede éste llegar si se descuida la religión.

17. Ya en otras ocasiones hemos hablado ampliamente de este punto[10]. Ahora sólo queremos hacer una advertencia: la libertad de cultos es muy perjudicial para la libertad verdadera, tanto de los gobernantes como de los gobernados. La religión, en cambio, es sumamente provechosa para esa libertad, porque coloca en Dios el origen primero del poder e impone con la máxima autoridad a los gobernantes la obligación de no olvidar sus deberes, de no mandar con injusticia o dureza y de gobernar a los pueblos con benignidad y con un amor casi paterno. Por otra parte, la religión manda a los ciudadanos la sumisión a los poderes legítimos como a representantes de Dios y los une a los gobernantes no solamente por medio de la obediencia, sino también con un respeto amoroso, prohibiendo toda revolución y todo conato que pueda turbar el orden y la tranquilidad pública, y que al cabo son causa de que se vea sometida a mayores limitaciones la libertad de los ciudadanos. Dejamos a un lado la influencia de la religión sobre la sana moral y la influencia de esta moral sobre la misma libertad. La razón demuestra y la historia confirma este hecho: la libertad, la prosperidad y la grandeza de un Estado están en razón directa de la moral de sus hombres.

Libertad de expresión y libertad de imprenta

18. Digamos ahora algunas palabras sobre la libertad de expresión y la libertad de imprenta. Resulta casi innecesario afirmar que no existe el derecho a esta libertad cuando se ejerce sin moderación alguna, traspasando todo freno y todo límite. Porque el derecho es una facultad moral que, como hemos dicho ya y conviene repetir con insistencia, no podemos suponer concedida por la naturaleza de igual modo a la verdad y al error, a la virtud y al vicio Existe el derecho de propagar en la sociedad, con libertad y prudencia, todo lo verdadero y todo lo virtuoso para que pueda participar de las ventajas de la verdad y del bien el mayor número posible de ciudadanos. Pero las opiniones falsas, máxima dolencia mortal del entendimiento humano, y los vicios corruptores del espíritu y de la moral pública deben ser reprimidos por el poder público para impedir su paulatina propagación, dañosa en extremo para la misma sociedad. Los errores de los intelectuales depravados ejercen sobre las masas una verdadera tiranía y deben ser reprimidos por la ley con la misma energía que otro cualquier delito inferido con violencia a los débiles. Esta represión es aún más necesaria, porque la inmensa mayoría de los ciudadanos no puede en modo alguno, o a lo sumo con mucha dificultad, prevenirse contra los artificios del estilo y las sutilezas de la dialéctica, sobre todo cuando éstas y aquéllos son utilizados para halagar las pasiones. Si se concede a todos una licencia ilimitada en el hablar y en el escribir, nada quedará ya sagrado e inviolable. Ni siquiera serán exceptuadas esas primeras verdades, esos principios naturales que constituyen el más noble patrimonio común de toda la humanidad. Se oscurece así poco a poco la verdad con las tinieblas y, como muchas veces sucede, se hace dueña del campo una numerosa plaga de perniciosos errores. Todo lo que la licencia gana lo pierde la libertad. La grandeza y la seguridad de la libertad están en razón directa de los frenos que se opongan a la licencia. Pero en las materias opinables, dejadas por Dios a la libre discusión de los hombres, está permitido a cada uno tener la opinión que le agrade y exponer libremente la propia opinión. La naturaleza no se opone a ello, porque esta libertad nunca lleva al hombre a oprimir la verdad. Por el contrario, muchas veces conduce al hallazgo y manifestación de la verdad.

Libertad de enseñanza

19. Respecto a la llamada libertad de enseñanza, el juicio que hay que dar es muy parecido. Solamente la verdad debe penetrar en el entendimiento, porque en la verdad encuentran las naturalezas racionales su bien, su fin y su perfección; por esta razón, la doctrina dada tanto a los ignorantes como a los sabios debe tener por objeto exclusivo la verdad, para dirigir a los primeros hacia el conocimiento de la verdad y para conservar a los segundos en la posesión de la verdad. Este es el fundamento de la obligación principal de los que enseñan: extirpar el error de los entendimientos y bloquear con eficacia el camino a las teorías falsas. Es evidente, por tanto, que la libertad de que tratamos, al pretender arrogarse el derecho de enseñarlo todo a su capricho, está en contradicción flagrante con la razón y tiende por su propia naturaleza a la perversión más completa de los espíritus. El poder público no puede conceder a la sociedad esta libertad de enseñanza sin quebrantar sus propios deberes. Prohibición cuyo rigor aumenta por dos razones: porque la autoridad del maestro es muy grande ante los oyentes y porque son muy pocos los discípulos que pueden juzgar por sí mismos si es verdadero o falso lo que el maestro les explica.

20. Por lo cual es necesario que también esta libertad, si ha de ser virtuosa, quede circunscrita dentro de ciertos límites, para evitar que la enseñanza se trueque impunemente en instrumento de corrupción. Ahora bien: la verdad, que debe ser el objeto único de la enseñanza, es de dos clases: una, natural; otra, sobrenatural.

Las verdades naturales, a las cuales pertenecen los principios naturales y las conclusiones inmediatas derivadas de éstos por la razón, constituyen el patrimonio común del género humano y el firme fundamento en que se apoyan la moral, la justicia, la religión y la misma sociedad. Por esto, no hay impiedad mayor, no hay locura más inhumana que permitir impunemente la violación y la desintegración de este patrimonio. Con no menor reverencia debe ser conservado el precioso y sagrado tesoro de las verdades que Dios nos ha dado a conocer por la revelación. Los principales capítulos de esta revelación se demuestran con muchos argumentos de extraordinario valor, utilizados con frecuencia por los apologistas. Tales son: el hecho de la revelación divina de algunas verdades, la encarnación del Hijo unigénito de Dios para dar testimonio de la verdad, la fundación por el mismo Jesucristo de una sociedad perfecta, que es la Iglesia, cuya cabeza es El mismo, y con la cual prometió estar hasta la consumación de los siglos. A esta sociedad ha querido encomendar todas las verdades por El enseñadas, con el encargo de guardarlas, defenderlas y enseñarlas con autoridad legítima. A1 mismo tiempo, ha ordenado a todos los hombres que obedezcan a la Iglesia igual que a El mismo, amenazando con la ruina eterna a todos los que desobedezcan este mandato.

Consta, pues, claramente que el mejor y más seguro maestro del hombre es Dios, fuente y principio de toda verdad; y también el Unigénito, que está en el seno del Padre y es camino, verdad, vida, luz verdadera que ilumina a todo hombre, a cuya enseñanza deben prestarse todos los hombres dócilmente: "y serán todos enseñados por Dios"[11]. Ahora bien: en materia de fe y de moral, Dios mismo ha hecho a la Iglesia partícipe del magisterio divino y le ha concedido el privilegio divino de no conocer el error. Por esto la Iglesia es la más alta y segura maestra de los mortales y tiene un derecho inviolable a la libertad de magisterio. Por otra parte, la Iglesia, apoyándose en el firme fundamento de la doctrina revelada, ha antepuesto, de hecho, a todo el cumplimiento exacto de esta misión que Dios le ha confiado. Superior a las dificultades que por todas partes la envuelven, no ha dejado jamás de defender la libertad de su magisterio. Por este camino el mundo entero, liberado de la calamidad de las supersticiones, ha encontrado en la sabiduría cristiana su total renovación. Y como la razón por sí sola demuestra claramente que entre las verdades reveladas y las verdades naturales no puede existir oposición verdadera y todo lo que se oponga a las primeras es necesariamente falso, por esto el divino magisterio de la Iglesia, lejos de obstaculizar el deseo de saber y el desarrollo en las ciencias o de retardar de alguna manera el progreso de la civilización, ofrece, por el contrario, en todos estos campos abundante luz y segura garantía. Y por la misma razón el magisterio eclesiástico es sumamente provechoso para el desenvolvimiento de la libertad humana, porque es sentencia de Jesucristo, Salvador nuestro, que el hombre se hace libre por la verdad: conoceréis la verdad, y la verdad os hará libres[12].

No hay, pues, motivo para que la libertad legítima se indigne o la verdadera ciencia lleve a mal las justas y debidas leyes que la Iglesia y la razón exigen igualmente para regular las ciencias humanas. Más aún: la Iglesia, como lo demuestra la experiencia a cada paso, al obrar así con la finalidad primordial de defender la fe cristiana, procura también el fomento y el adelanto de todas las ciencias humanas. Buenos son en sí mismos y loables y deseables la belleza y la elegancia del estilo. Y todo conocimiento científico que provenga de un recto juicio y esté de acuerdo con el orden objetivo de las cosas, presta un gran servicio al esclarecimiento de las verdades reveladas. De hecho, el mundo es deudor a la Iglesia de estos insignes beneficios: la conservación cuidadosa de los monumentos de la sabiduría antigua; la fundación por todas partes de universidades científicas; el estímulo constante de la actividad de los ingenios, fomentando con todo empeño las mismas artes que embellecen la variada cultura de nuestro siglo.

Por último, no debemos olvidar que queda un campo inmenso abierto a los hombres; en el que pueden éstos extender su industria y ejercitar libremente su ingenio; todo ese conjunto de materias que no tienen conexión necesaria con la fe y con la moral cristianas, o que la Iglesia, sin hacer uso de su autoridad, deja enteramente libre al juicio de los sabios. De estas consideraciones se desprende la naturaleza de la libertad de enseñanza que exigen y propagan con igual empeño los seguidores del liberalismo. Por una parte, se conceden a sí mismos y conceden al Estado una libertad tan grande, que no dudan dar paso libre a los errores más peligrosos. Y, por otra parte, ponen mil estorbos a la Iglesia y restringen hasta el máximo la libertad de ésta, siendo así que de la doctrina de la Iglesia no hay que temer daño alguno, sino que, por el contrario se pueden esperar de ella toda clase de bienes.

Libertad de conciencia

21. Mucho se habla también de la Ilamada libertad de conciencia. Si esta libertad se entiende en el sentido de que es lícito a cada uno, según le plazca, dar o no dar culto a Dios, queda suficientemente refutada con los argumentos expuestos anteriormente. Pero puede entenderse también en el sentido de que el hombre en el Estado tiene el derecho de seguir, según su conciencia, la voluntad de Dios y de cumplir sus mandamientos sin impedimento alguno. Esta libertad, la libertad verdadera, la libertad digna de los hijos de Dios, que protege tan gloriosamente la dignidad de la persona humana, está por encima de toda violencia y de toda opresión y ha sido siempre el objeto de los deseos y del amor de la Iglesia. Esta es la libertad que reivindicaron constantemente para sí los apóstoles, ésta es la libertad que confirmaron con sus escritos los apologistas, ésta es la libertad que consagraron con su sangre los innumerables mártires cristianos. Y con razón, porque la suprema autoridad de Dios sobre los hombres y el supremo deber del hombre para con Dios encuentran en esta libertad cristiana un testimonio definitivo. Nada tiene de común esta libertad cristiana con el espíritu de sedición y de desobediencia. Ni pretende derogar el respeto debido al poder público, porque el poder humano en tanto tiene el derecho de mandar y de exigir obediencia en cuanto no se aparta del poder divino y se mantiene dentro del orden establecido por Dios. Pero cuando el poder humano manda algo claramente contrario a la voluntad divina, traspasa los límites que tiene fijados y entra en conflicto con la divina autoridad. En este caso es justo no obedecer.

22. Por el contrario, los partidarios del liberalismo, que atribuyen al Estado un poder despótico e ilimitado y afirman que hemos de vivir sin tener en cuenta para nada a Dios, rechazan totalmente esta libertad de que hablamos, y que está tan íntimamente unida a la virtud y a la religión. Y califican de delito contra el Estado todo cuanto se hace para conservar esta libertad cristiana. Si fuesen consecuentes con sus principios el hombre estaría obligado, según ellos, a obedecer a cualquier gobierno, por muy tiránico que fuese.

IV. LA TOLERANCIA

23. La Iglesia desea ardientemente que en todos los órdenes de la sociedad penetren y se practiquen estas enseñanzas cristianas que hemos expuesto sumariamente. Todas estas enseñanzas poseen una eficacia maravillosa para remediar los no escasos ni leves males actuales, nacidos en gran parte de esas mismas libertades que, pregonadas con tantos ditirambos, parecían albergar dentro de sí las semillas del bienestar y de la gloria. Estas esperanzas han quedado defraudadas por los hechos. En lugar de frutos agradables y sanos hemos recogido frutos amargos y corrompidos. Si se busca el remedio, búsquese en el restablecimiento de los sanos principios, de los que sola y exclusivamente puede esperarse con confianza la conservación del orden y la garantía, por tanto, de la verdadera libertad. Esto no obstante, la Iglesia se hace cargo maternalmente del grave peso de las debilidades humanas. No ignora la Iglesia la trayectoria que describe la historia espiritual y política de nuestros tiempos. Por esta causa, aun concediendo derechos sola y exclusivamente a la verdad y a la virtud no se opone la Iglesia, sin embargo, a la tolerancia por parte de los poderes públicos de algunas situaciones contrarias a la verdad y a la justicia para evitar un mal mayor o para adquirir o conservar un mayor bien. Dios mismo, en su providencia, aun siendo infinitamente bueno y todopoderoso, permite, sin embargo, la existencia de algunos males en el mundo, en parte para que no se impidan mayores bienes y en parte para que no se sigan mayores males. Justo es imitar en el gobierno político al que gobierna el mundo. Más aún: no pudiendo la autoridad humana impedir todos los males, debe «permitir y dejar impunes muchas cosas que son, sin embargo, castigadas justamente por la divina Providencia»[13].

Pero en tales circunstancias, si por causa del bien común, y únicamente por ella, puede y aun debe la ley humana tolerar el mal, no puede, sin embargo, ni debe jamás aprobarlo ni quererlo en sí mismo. Porque siendo el mal por su misma esencia privación de un bien, es contrario al bien común, el cual el legislador debe buscar y debe defender en la medida de todas sus posibilidades. También en este punto la ley humana debe proponerse la imitación de Dios, quien al permitir la existencia del mal en el mundo, «ni quiere que se haga el mal ni quiere que no se haga; lo que quiere es permitir que se haga, y esto es bueno»[14]. Sentencia del Doctor Angélico, que encierra en pocas palabras toda la doctrina sobre la tolerancia del mal. Pero hay que reconocer, si queremos mantenernos dentro de la verdad, que cuanto mayor es el mal que a la fuerza debe ser tolerado en un Estado, tanto mayor es la distancia que separa a este Estado del mejor régimen político. De la misma manera, al ser la tolerancia del mal un postulado propio de la prudencia política, debe quedar estrictamente circunscrita a los límites requeridos por la razón de esa tolerancia, esto es, el bien público. Por este motivo, si la tolerancia daña al bien público o causa al Estado mayores males, la consecuencia es su ilicitud, porque en tales circunstancias la tolerancia deja de ser un bien. Y si por las condiciones particulares en que se encuentra la Iglesia permite ésta algunas de las libertades modernas, lo hace no porque las prefiera en sí mismas, sino porque juzga conveniente su tolerancia; y una vez que la situación haya mejorado, la Iglesia usará su libertad, y con la persuasión, las exhortaciones y la oración procurará, como debe, cumplir la misión que Dios le ha encomendado de procurar la salvación eterna de los hombres.

Sin embargo, permanece siempre fija la verdad de este principio: la libertad concedida indistintamente a todos y para todo, nunca, como hemos repetido varias veces, debe ser buscada por sí misma, porque es contrario a la razón que la verdad y el error tengan los mismos derechos. En lo tocante a la tolerancia, es sorprendente cuán lejos están de la prudencia y de la justicia de la Iglesia los seguidores del liberalismo. Porque al conceder al ciudadano en todas las materias que hemos señalado una libertad ilimitada, pierden por completo toda norma y llegan a colocar en un mismo plano de igualdad jurídica la verdad y la virtud con el error y el vicio. Y cuando la Iglesia, columna y firmamento de la verdad, maestra incorrupta de la moral verdadera, juzga que es su obligación protestar sin descanso contra una tolerancia tan licenciosa y desordenada, es entonces acusada por los liberales de falta de paciencia y mansedumbre. No advierten que al hablar así califican de vicio lo que es precisamente una virtud de la Iglesia. Por otra parte, es muy frecuente que estos grandes predicadores de la tolerancia sean, en la práctica, estrechos e intolerantes cuando se trata del catolicismo. Los que son pródigos en repartir a todos libertades sin cuento, niegan continuamente a la Iglesia su libertad.

V. JUICIO CRÍTICO SOBRE LAS DISTINTAS
FORMAS DE LIBERALISMO

24. Para mayor claridad, recapitularemos brevemente la exposición hecha y deduciremos las consecuencias prácticas. El núcleo esencial es el siguiente: es absolutamente necesario que el hombre quede todo entero bajo la dependencia efectiva y constante de Dios. Por consiguiente, es totalmente inconcebible una libertad humana que no esté sumisa a Dios y sujeta a su voluntad. Negar a Dios este dominio supremo o negarse a aceptarlo no es libertad, sino abuso de la libertad y rebelión contra Dios. Es ésta precisamente la disposición de espíritu que origina y constituye el mal fundamental del liberalismo. Sin embargo, son varias las formas que éste presenta, porque la voluntad puede separarse de la obediencia debida a Dios o de la obediencia debida a los que participan de la autoridad divina, de muchas formas y en grados muy diversos.

25. La perversión mayor de la libertad, que constituye al mismo tiempo la especie peor de liberalismo, consiste en rechazar por completo la suprema autoridad de Dios y rehusarle toda obediencia, tanto en la vida pública como en la vida privada y doméstica. Todo lo que Nos hemos expuesto hasta aquí se refiere a esta especie de liberalismo.

26. La segunda clase es el sistema de aquellos liberales que, por una parte, reconocen la necesidad de someterse a Díos, creador, señor del mundo y gobernador providente de la naturaleza; pero, por otra parte, rechazan audazmente las normas de dogma y de moral que, superando la naturaleza, son comunicadas por el mismo Dios, o pretenden por lo menos que no hay razón alguna para tenerlas en cuenta sobre todo en la vida política del Estado. Ya expusimos anteriormente las dimensiones de este error y la gran inconsecuencia de estos liberales. Esta doctrina es la fuente principal de la perniciosa teoría de la separación entre la Iglesia y el Estado; cuando, por el contrario, es evidente que ambas potestades, aunque diferentes en misión y desiguales por su dignidad, deben colaborar una con otra y completarse mutuamente.

27. Dos opiniones específicamente distintas caben dentro de este error genérico. Muchos pretenden la separación total y absoluta entre la Iglesia y el Estado, de tal forma que todo el ordenamiento jurídico, las instituciones, las costumbres, las leyes, los cargos del Estado, la educación de la juventud, queden al margen de la Iglesia, como si ésta no existiera. Conceden a los ciudadanos, todo lo más, la facultad, si quieren, de ejercitar la religión en privado. Contra estos liberales mantienen todo su vigor los argumentos con que hemos rechazado la teoría de la separación entre la Iglesia y el Estado, con el agravante de que es un completo absurdo que la Iglesia sea respetada por el ciudadano y al mismo tiempo despreciada por el Estado.

28. Otros admiten la existencia de la Iglesia —negarla sería imposible—, pero le niegan la naturaleza y los derechos propios de una sociedad perfecta y afirman que la Iglesia carece del poder legislativo, judicial y coactivo, y que sólo le corresponde la función exhortativa, persuasiva y rectora respecto de los que espontánea y voluntariamente se le sujetan. Esta teoría falsea la naturaleza de esta sociedad divina, debilita y restringe su autoridad, su magisterio; en una palabra: toda su eficacia, exagerando al mismo tiempo de tal manera la influencia y el poder del Estado, que la Iglesia de Dios queda sometida a la jurisdicción y al poder del Estado como si fuera una mera asociación civil. Los argumentos usados por los apologistas, que Nos hemos recordado singularmente en la encíclica Immortale Dei, son más que suficientes para demostrar el error de esta teoría. La apologética demuestra que por voluntad de Dios la Iglesia posee todos los caracteres y todos los derechos propios de una sociedad legítima, suprema y totalmente perfecta.

29. Por último, son muchos los que no aprueban la separación entre la Iglesia y el Estado, pero juzgan que la Iglesia debe amoldarse a los tiempos, cediendo y acomodándose a las exigencias de la moderna prudencia en la administración pública del Estado. Esta opinión es recta si se refiere a una condescendencia razonable que pueda conciliarse con la verdad y con la justicia; es decir, que la Iglesia, con la esperanza comprobada de un bien muy notable, se muestre indulgente y conceda a las circunstancias lo que puede concederles sin violar la santidad de su misión. Pero la cosa cambia por completo cuando se trata de prácticas y doctrinas introducidas contra todo derecho por la decadencia de la moral y por la aberración intelectual de los espíritus. Ningún período histórico puede vivir sin religión, sin verdad, sin justicia. Y como estas supremas realidades sagradas han sido encomendadas por el mismo Dios a la tutela de la Iglesia, nada hay tan contrario a la Iglesia como pretender de ella que tolere con disimulo el error y la injusticia o favorezca con su connivencia lo que perjudica a la religión.

VI. APLICACIONES PRÁCTICAS
DE CARÁCTER GENERAL

30. De las consideraciones expuestas se sigue que es totalmente ilícito pedir, defender, conceder la libertad de pensamiento, de imprenta, de enseñanza, de cultos, como otros tantos derechos dados por la naturaleza al hombre. Porque si el hombre hubiera recibido realmente estos derechos de la naturaleza, tendría derecho a rechazar la autoridad de Dios y la libertad humana no podría ser limitada por ley alguna. Síguese, además, que estas libertades, si existen causas justas, pueden ser toleradas, pero dentro de ciertos límites para que no degeneren en un insolente desorden. Donde estas libertades estén vigentes, usen de ellas los ciudadanos para el bien, pero piensen acerca de ellas lo mismo que la Iglesia piensa. Una libertad no debe ser considerada legítima más que cuando supone un aumento en la facilidad para vivir según la virtud. Fuera de este caso, nunca.

31. Donde exista ya o donde amenace la existencia de un gobierno que tenga a la nación oprimida injustamente por la violación o prive por la fuerza a la Iglesia de la libertad debida, es lícito procurar al Estado otra organización política más moderada, bajo la cual se pueda obrar libremente. No se pretende, en este caso, una libertad inmoderada y viciosa; se busca un alivio para el bien común de todos; con ello únicamente se pretende que donde se concede licencia para el mal no se impida el derecho de hacer el bien.

32. Ni está prohibido tampoco en sí mismo preferir para el Estado una forma de gobierno moderada por el elemento democrático, salva siempre la doctrina católica acerca del origen y el ejercicio del poder político. La Iglesia no condena forma alguna de gobierno, con tal que sea apta por sí misma la utilidad de los ciudadanos. Pero exige, de acuerdo con la naturaleza, que cada una de esas formas quede establecida sin lesionar a nadie y, sobre todo, respetando íntegramente los derechos de la Iglesia.

33. Es bueno participar en la vida política, a menos que en algunos lugares, por circunstancias de tiempo y situación, se imponga otra conducta. Más todavía: la Iglesia aprueba la colaboración personal de todos con su trabajo al bien común y que cada uno, en las medidas de sus fuerzas, procure la defensa, la conservación y la prosperidad del Estado.

34. No condena tampoco la Iglesia el deseo de liberarse de la dominación de una potencia extranjera o de un tirano, con tal que ese deseo pueda realizarse sin violar la justicia. Tampoco reprende, finalmente, a los que procuran que los Estados vivan de acuerdo con su propia legislación y que los ciudadanos gocen de medios más amplios para aumentar su bienestar. Siempre fue la Iglesia fidelísima defensora de las libertades cívicas moderadas. Lo demuestran sobre todo las ciudades de Italia, que lograron, bajo el régimen municipal, prosperidad, riqueza y nombre glorioso en aquellos tiempos en que la influencia saludable de la Iglesia había penetrado sin oposición de nadie en todas las partes del Estado.

35. Estas enseñanzas, venerables hermanos, que, dictadas por la fe y la razón al mismo tiempo, os hemos transmitido en cumplimiento de nuestro oficio apostólico, confiamos que habrán de ser fructuosas para muchos, principalmente al unir vuestros esfuerzos a los nuestros. Nos, con humildad de corazón, alzamos a Dios nuestros ojos suplicantes y con todo fervor le pedimos que se digne conceder benignamente a los hombres la luz de su sabiduría y de su consejo, para que, fortalecidos con su virtud, puedan en cosas tan importantes ver la verdad y vivir según la verdad, tanto en la vida privada como en la vida pública, en todos los tiempos y con inquebrantable constancia.

Como prenda de estos celestiales dones y testimonio de nuestra benevolencia, a vosotros, venerables hermanos, y al clero y pueblo que gobernáis, damos con todo afecto en el Señor la bendición apostólica.

Dado en Roma, junto a San Pedro, el día 20 de junio de 1888, año undécimo de nuestro pontificado.

LEÓN PP XIII

Notas

[1] Eclo 15,14.

[2] ASS 18 (1885) 161-180.

[3] Jn 8,34.

[4] Santo Tomás, In Ioannem 8 lect.4 n.3.

[5] San Agustín, De libero arbitrio 1,6,15: PL 32,1229.

[6] Cf. Gál 3,28.

[7] Rom 13,2.

[8] Jer 2,20.

[9] Cf. Santo Tomás, Sum. Theol. II-II q.81 a.6 c.

[10] Véase la Enc. Immortale Dei: ASS 18 ( 1885) 161-180.

[11] Jn 6,45.

[12] Jn 8,32.

[13] San Agustín, De libero arbitrio 1,6,14: PL 32,1228.

[14] Santo Tomás, Sum. Theol. 1 q.19 a.9 ad 3.

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