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sábado, 4 de julho de 2026

A pré-reforma hussita-lollarda: raízes no catarismo, semente do regalismo e do protestantismo

A história da Igreja, se você reparar bem, raramente é um desfile pacífico de homens iluminados trazendo reformas brilhantes. Na verdade, parece mais uma longa e teimosa queda de braço contra as velhas heresias, que passam os séculos tentando dissolver a unidade visível do Corpo Místico de Cristo. Aqueles famosos movimentos pré-reformadores dos lollardos, lá na velha Inglaterra, e dos hussitas, nas terras da Boêmia, são um capítulo que merece nossa desconfiada atenção. A turma costuma chamá-los de meros reformadores morais, coitados indignados com os abusos do clero. Mas o fato é que eles carregavam no bolso algumas sementinhas bem indigestas de doutrinas herdadas do catarismo medieval. Uma vez plantadas, essas ideias deram aos príncipes a desculpa intelectual perfeita para o regalismo - aquela velha mania de submeter a Igreja ao trono - e pavimentaram a estrada para o protestantismo do século XVI.

As origens no catarismo: dualismo, anticlericalismo e a rejeição à ordem sacramental

O catarismo, aquela teimosia dualista que deu muita dor de cabeça no sul da França entre os séculos XII e XIII, não sumiu do mapa só porque a cruzada albigense e a Inquisição apareceram para acabar com a festa. As ideias deles eram do tipo que se agarra feito carrapato. Eles achavam que o mundo material era obra de um deus perverso, torciam o nariz para os sacramentos como se fossem coisas materiais indignas, desprezavam a hierarquia e sonhavam acordados com uma Igreja espiritual feita apenas de gente muito pura, os tais perfecti. Essa conversa sobreviveu pelos porões da história, deu um empurrãozinho nos valdenses e acabou influenciando a dissidência no fim da Idade Média.

Aí entram em cena o senhor John Wycliffe, lá pelos idos de 1328 a 1384, conhecido como a estrela da manhã dos lollardos, e Jan Hus, o sujeito que agitou os hussitas na Boêmia. Eles não estavam apenas resmungando contra a corrupção. Wycliffe, por exemplo, olhava para a Eucaristia e dizia que era só pão e vinho, negando a transubstanciação. Ele também achava que a autoridade do papa sumia no ar se o homem estivesse em pecado mortal. Além disso, inventou que cada um poderia interpretar a Escritura por conta própria - um embrião da sola scriptura - e exigia que o clero fosse absolutamente pobre, sugerindo, de forma bastante conveniente para os políticos da época, que o governo confiscasse os bens da Igreja. Seus seguidores, os tais murmuradores, espalhavam Bíblias na língua do povo e atiravam pedras no sacerdócio, nas indulgências, nas imagens e nas peregrinações.

Hus, que andou lendo Wycliffe na Universidade de Praga, resolveu apimentar ainda mais a receita na Boêmia. Ele gritava contra a simonia e exigia que os leigos bebessem do cálice na comunhão. O pior, no entanto, era sua ideia de que a Igreja visível era apenas um clube de predestinados, onde a autoridade de alguém dependia de quão santo ele parecia ser. Isso, meu caro leitor, é o velho donatismo de cara nova, misturado com aquela separação cátara entre o espiritual e o material, minando completamente a instituição sacramental.

É claro que você não vai encontrar um contrato assinado passando a herança do catarismo para o lollardismo, mas qualquer um com olhos abertos nota a semelhança de família. O ódio ao clero, o desdém pelos sacramentos visíveis, a obsessão por uma Igreja invisível e aquele espiritualismo vago que sempre acaba pedindo socorro ao poder secular. O catarismo detestava a matéria; seus sucessores, mesmo sem falar em deuses maus, fizeram o favor de enfraquecer a mediação dos sacramentos da mesma exata maneira.

O regalismo como fruto prático: a Igreja subjugada ao poder temporal

Um dos resultados mais desastrosos de toda essa confusão foi a musculatura que o regalismo ganhou. Essa é a curiosa doutrina que convence o rei de que ele tem o direito sagrado de dar palpites nos negócios eclesiásticos, meter a mão nos bens alheios e até escolher quem vai ser bispo. Wycliffe disse com todas as letras que os nobres deviam confiscar as propriedades da Igreja. Não é de se espantar que lollardos e hussitas logo arranjassem a amizade de príncipes que já não iam muito com a cara do papa e olhavam com cobiça para as riquezas dos mosteiros.

Na Boêmia, a coisa saiu do controle e a revolução hussita virou uma guerra civil amarga. Havia facções que levaram o negócio tão a sério que acabaram brincando de comunismo e quebrando imagens nas igrejas. Eles forçaram a aprovação do cálice para os leigos na base da espada, negociando com o Concílio de Basileia. O estrago estava feito: a Igreja se viu negociando com hereges sob ameaça militar. Era o ensaio geral para o que viria a seguir, quando monarcas como Henrique VIII ou os príncipes alemães usariam a palavra reforma como desculpa para engolir a religião. O protestantismo nasceu, em grande parte, desse abraço apertado entre teólogos descontentes e políticos gananciosos - exatamente o roteiro que Wycliffe e Hus deixaram pronto.

A semente do protestantismo: da heresia medieval à fragmentação moderna

Se a gente olhar para os fatos sem romantismo, o protestantismo nunca foi uma redescoberta luminosa do Evangelho. Foi apenas a colheita do que aqueles dois plantaram. Sujeitos como Lutero, Zwinglio e Calvino beberam da mesma água turva: a ideia de que a Escritura funciona muito bem sozinha sem a Tradição, a recusa em ouvir a autoridade papal, os ataques à Missa e o péssimo hábito de pedir aos políticos que resolvessem questões teológicas. Os lollardos ficaram escondidos nas sombras até o anglicanismo adotá-los de braços abertos, e os hussitas mais calmos acabaram inspirando a turma da Morávia, preparando o clima na Europa Central para a explosão do século XVI.

A verdadeira tragédia, no fim do dia, foi rasgar a unidade. O que começou com algumas pessoas apontando o dedo para abusos reais da Idade Média descambou rapidamente para a heresia de manual. Destruíram a fé de muita gente, patrocinaram guerras intermináveis e pavimentaram uma larga avenida para o racionalismo, o liberalismo e o mundo secular que temos hoje. A Igreja, guiada pelo Espírito Santo, condenou esses erros no Concílio de Constança em 1415, mantendo a casa em ordem. Os verdadeiros heróis foram aqueles que resistiram ao canto da sereia dessa reforma humanista, e não os teimosos que acabaram na fogueira por pura obstinação.

Uma pequena lição para os nossos tempos

No fim das contas, a lição que tiramos dessa confusão toda é bem simples. O reformador que presta não é aquele que arruma as malas e abandona a Tradição apostólica. O reformador de verdade é como os velhos santos da Contra-Reforma - pense num Inácio de Loyola ou num Pio V - que limpam a casa sem se mudar dela. O catarismo, com sua ojeriza ao mundo palpável, e esses pré-reformadores, com seu hábito de ler a Bíblia como se fosse um diário estritamente pessoal, abriram a porteira para um cristianismo subjetivo e estatal que, mais cedo ou mais tarde, sempre deságua nesse modernismo e na indiferença religiosa que vemos por aí.

Que Nossa Senhora, Mãe da Igreja, tenha a bondade de nos proteger das heresias de ontem e de hoje, e que a unidade católica, erguida firmemente sobre Pedro, continue de pé e sem rachaduras até o último apagar das luzes deste mundo.

domingo, 8 de março de 2026

EM MEIO ÀS SOLICITUDES - CARTA ENCÍCLICA DE S.S. O PAPA LEÃO XIII

[EN]

Encíclica AU MILIEU DES SOLLICITUDES. 

A Nossos Veneráveis Irmãos os Arcebispos, Bispos, ao clero e a todos os católicos da França.

Veneráveis Irmãos, caríssimos Filhos.

Em meio às solicitudes da Igreja universal, muitas vezes, durante o curso de Nosso Pontificado, Nós Nos agradamos em testemunhar Nossa afeição pela França e por seu nobre povo. E quisemos, por meio de uma de Nossas Encíclicas ainda presente na memória de todos, dizer solenemente, sobre esse assunto, todo o fundo de Nossa alma. É precisamente essa afeição que Nos manteve constantemente atento a acompanhar com o olhar, e depois a repassar em Nós mesmos, o conjunto de fatos, ora tristes, ora consoladores, que, há vários anos, se desenrolaram entre vós.

Ao penetrar a fundo, ainda nesta hora, o alcance do vasto complô que certos homens formaram para aniquilar na França o cristianismo, e a animosidade com que perseguem a realização de seu desígnio, pisoteando as noções mais elementares de liberdade e de justiça em relação ao sentimento da maioria da nação, e de respeito pelos direitos inalienáveis da Igreja Católica, como não seríamos tomados por uma viva dor? E quando vemos se revelarem, uma após a outra, as consequências funestas desses ataques culpáveis que conspiram para a ruína dos costumes, da religião e até dos interesses políticos sabiamente compreendidos, como exprimir as amarguras que Nos inundam e as apreensões que Nos assaltam?

Por outro lado, sentimos grande consolação quando vemos esse mesmo povo francês redobrar, em relação à Santa Sé, afeição e zelo, à medida que a vê mais abandonada, ou melhor, mais combatida na terra. Em várias ocasiões, movidos por um profundo sentimento de religião e de verdadeiro patriotismo, representantes de todas as classes sociais acorreram da França até Nós, felizes por suprir às necessidades incessantes da Igreja, desejosos de Nos pedir luz e conselho, para se assegurarem de que, em meio às tribulações presentes, não se afastariam em nada dos ensinamentos do Chefe dos crentes. E Nós, reciprocamente, seja por escrito, seja de viva voz, dissemos abertamente a Nossos filhos o que tinham direito de pedir a seu Pai. E longe de levá-los ao desânimo, exortamo-los fortemente a redobrar de amor e de esforços na defesa da fé católica, ao mesmo tempo que de sua pátria: dois deveres de primeira ordem, aos quais nenhum homem, nesta vida, pode se subtrair.

E hoje ainda, cremos oportuno, até mesmo necessário, elevar novamente a voz, para exortar com mais insistência, não diremos apenas os católicos, mas todos os franceses honestos e sensatos, a repelir para longe de si todo germe de dissensões políticas, a fim de consagrar unicamente suas forças à pacificação de sua pátria. Essa pacificação, todos compreendem seu preço; todos, cada vez mais, a chamam com seus votos, e Nós, que a desejamos mais que ninguém, pois representamos na terra o Deus da paz [1], convidamos, por meio desta Carta, todas as almas retas, todos os corações generosos, a Nos secundarem para torná-la estável e fecunda.

Antes de tudo, tomemos como ponto de partida uma verdade notória, subscrita por todo homem de bom senso e altamente proclamada pela história de todos os povos: a saber, que a religião, e somente a religião, pode criar o vínculo social; que só ela basta para manter sobre fundamentos sólidos a paz de uma nação. Quando diversas famílias, sem renunciar aos direitos e deveres da sociedade doméstica, se unem sob a inspiração da natureza para se constituírem membros de outra família mais vasta, chamada sociedade civil, seu fim não é apenas encontrar aí os meios de prover ao bem-estar material, mas sobretudo haurir o benefício de seu aperfeiçoamento moral. Do contrário, a sociedade se elevaria pouco acima de uma agregação de seres sem razão, cuja vida inteira está na satisfação dos instintos sensuais. Mais ainda: sem esse aperfeiçoamento moral, dificilmente se demonstraria que a sociedade civil, longe de ser para o homem, enquanto homem, uma vantagem, não se voltaria em seu detrimento.

Ora, a moralidade no homem, pelo fato mesmo de que deve harmonizar tantos direitos e tantos deveres diferentes, pois entra como elemento em todo ato humano, supõe necessariamente Deus e, com Deus, a religião, esse vínculo sagrado cujo privilégio é unir, antes de qualquer outro vínculo, o homem a Deus. Com efeito, a ideia de moralidade importa antes de tudo uma ordem de dependência em relação ao verdadeiro, que é a luz do espírito; em relação ao bem, que é o fim da vontade: sem o verdadeiro, sem o bem, não há moral digna desse nome. E qual é, pois, a verdade principal e essencial, da qual toda verdade deriva? É Deus. Qual é ainda a bondade suprema da qual procede todo outro bem? É Deus. Qual é, enfim, o criador e conservador de nossa razão, de nossa vontade, de todo nosso ser, como é o fim de nossa vida? Sempre Deus. Portanto, como a religião é a expressão interior e exterior dessa dependência que devemos a Deus a título de justiça, dela se desprende uma grave consequência que se impõe: Todos os cidadãos são obrigados a se unir para manter na nação o verdadeiro sentimento religioso, e para defendê-lo, se necessário, caso alguma escola ateia, apesar das protestações da natureza e da história, se esforçasse por expulsar Deus da sociedade, certa por isso de aniquilar o sentido moral no fundo mesmo da consciência humana. Nesse ponto, entre homens que não perderam a noção de honestidade, nenhuma dissidência poderia subsistir.

Nos católicos franceses, o sentimento religioso deve ser ainda mais profundo e mais universal, pois têm a felicidade de pertencer à verdadeira religião. Se, com efeito, as crenças religiosas foram sempre e em toda parte dadas como base à moralidade das ações humanas e à existência de toda sociedade bem ordenada, é evidente que a religião católica, pelo fato mesmo de ser a verdadeira Igreja de Jesus Cristo, possui mais que qualquer outra a eficácia necessária para bem regular a vida, na sociedade como no indivíduo. É preciso um exemplo brilhante? A própria França o fornece. — À medida que progredia na fé cristã, via-se ela subir gradualmente àquela grandeza moral que atingiu como potência política e militar. É que à generosidade natural de seu coração veio acrescentar uma abundante fonte de novas energias a caridade cristã; é que sua atividade maravilhosa encontrou, ao mesmo tempo como estímulo, luz diretiva e garantia de constância, essa fé cristã que, pela mão da França, traçou nas anais do gênero humano páginas tão gloriosas. E ainda hoje, sua fé não continua a acrescentar às glórias passadas novas glórias? Vê-se ela, inesgotável de gênio e de recursos, multiplicar em seu próprio solo as obras de caridade; admira-se ela partindo para países longínquos onde, por seu ouro, pelos trabalhos de seus missionários, ao preço mesmo de seu sangue, propaga ao mesmo tempo a fama da França e os benefícios da religião católica. Renunciar a tais glórias, nenhum francês, quaisquer que sejam aliás suas convicções, ousaria; seria renegar a pátria.

Ora, a história de um povo revela, de modo incontestável, qual é o elemento gerador e conservador de sua grandeza moral. Assim, se esse elemento vier a faltar, nem a superabundância de ouro, nem a força das armas poderão salvá-lo da decadência moral, talvez da morte. Quem não compreende agora que, para todos os franceses que professam a religião católica, a grande solicitude deve ser assegurar sua conservação; e isso com tanto mais devotamento quanto, no meio deles, o cristianismo se torna, da parte das seitas, objeto de hostilidades mais implacáveis? Nesse terreno, não podem permitir nem indolência na ação, nem divisão de partidos; uma acusaria uma covardia indigna do cristão, a outra seria causa de uma fraqueza desastrosa.

E aqui, antes de prosseguir, é preciso assinalar uma calúnia astuciosamente difundida, para acreditar contra os católicos e contra a própria Santa Sé imputações odiosas. — Pretende-se que a união e o vigor de ação inculcados aos católicos para a defesa de sua fé têm, como móvel secreto, bem menos a salvaguarda dos interesses religiosos do que a ambição de proporcionar à Igreja uma dominação política sobre o Estado. — Verdadeiramente, é querer ressuscitar uma calúnia bem antiga, pois sua invenção pertence aos primeiros inimigos do cristianismo. Não foi ela formulada primeiramente contra a pessoa adorável do Redentor? Sim, acusavam-no de agir por vistas políticas, enquanto iluminava as almas por sua pregação e aliviava as sofrimentos corporais ou espirituais dos infelizes com os tesouros de sua divina bondade: “Encontramos este homem subvertendo nossa nação, proibindo pagar tributo a César e dizendo-se Cristo-Rei. Se o soltas, não és amigo de César: pois todo aquele que se faz rei opõe-se a César… Não temos outro rei senão César” [2].

Foram essas calúnias ameaçadoras que arrancaram de Pilatos a sentença de morte contra Aquele que várias vezes declarara inocente. E os autores dessas mentiras, ou outros da mesma força, nada omitiram para propagá-las ao longe, por seus emissários, como São Justino Mártir reprovava aos judeus de seu tempo: “Longe de vos arrependerdes, depois que soubestes de sua ressurreição dentre os mortos, enviastes de Jerusalém homens habilmente escolhidos para anunciar que uma heresia e uma seita ímpia e iníqua haviam sido suscitadas por um certo sedutor chamado Jesus da Galileia” [3].

Ao difamar tão audaciosamente o cristianismo, seus inimigos sabiam o que faziam; seu plano era suscitar contra sua propagação um formidável adversário, o Império Romano. A calúnia abriu caminho; e os pagãos, em sua credulidade, chamavam a porfia os primeiros cristãos de “seres inúteis, cidadãos perigosos, facciosos, inimigos do Império e dos imperadores” [4]. Em vão os apologistas do cristianismo, por seus escritos, em vão os cristãos, por sua bela conduta, esforçaram-se por demonstrar quão absurdo e criminoso eram essas qualificações: nem sequer se dignavam ouvi-los. Seu nome só valia uma declaração de guerra; e os cristãos, pelo simples fato de serem cristãos, sem outra causa, viam-se necessariamente colocados nessa alternativa: ou a apostasia ou o martírio.

Os mesmos agravos e as mesmas rigores se renovaram mais ou menos nos séculos seguintes, cada vez que se encontraram governos desrazonavelmente ciumentos de seu poder e animados contra a Igreja de intenções malévolas. Sempre souberam colocar à frente, diante do público, o pretexto dos pretensos invasões da Igreja sobre o Estado, para fornecer ao Estado aparências de direito em seus atropelos e violências contra a religião católica.

Quisemos recordar, em alguns traços, esse passado, para que os católicos não se desconcertem com o presente. A luta, em substância, é sempre a mesma: sempre Jesus Cristo posto em mira pelos contraditores do mundo; sempre os mesmos meios postos em obra pelos inimigos modernos do cristianismo, meios muito velhos no fundo, modificados apenas na forma; mas sempre também os mesmos meios de defesa claramente indicados aos cristãos dos tempos presentes por nossos apologistas, nossos doutores, nossos mártires. O que fizeram, incumbe-nos fazê-lo por nossa vez. Coloquemos, pois, acima de tudo a glória de Deus e de sua Igreja; trabalhemos por ela, com aplicação constante e efetiva; e deixemos o cuidado do sucesso a Jesus Cristo, que nos diz: “No mundo tereis tribulações; mas tende confiança, Eu venci o mundo” [5].

Para chegar aí, já o notamos, é necessária uma grande união, e, se se quer alcançá-la, é indispensável pôr de lado toda preocupação capaz de diminuir sua força e eficácia. — Aqui, aludimos principalmente às divergências políticas dos franceses sobre a conduta a ter em relação à República atual: questão que desejamos tratar com a clareza exigida pela gravidade do assunto, falando dos princípios e descendo às consequências práticas.

Diversos governos políticos se sucederam na França no curso deste século, cada um com sua forma distinta: impérios, monarquias, repúblicas. Limitando-se às abstrações, chegar-se-ia a definir qual é a melhor dessas formas, consideradas em si mesmas; pode-se afirmar igualmente, em toda verdade, que cada uma delas é boa, contanto que saiba marchar reto para seu fim, isto é, o bem comum, para o qual a autoridade social é constituída; convém acrescentar finalmente que, de um ponto de vista relativo, tal ou tal forma de governo pode ser preferível, adaptando-se melhor ao caráter e aos costumes de tal ou tal nação. Nessa ordem de ideias especulativas, os católicos, como todo cidadão, têm plena liberdade de preferir uma forma de governo a outra, precisamente porque nenhuma dessas formas sociais se opõe, por si mesma, aos dados da sã razão, nem às máximas da doutrina cristã. E isso basta para justificar plenamente a sabedoria da Igreja quando, em suas relações com os poderes políticos, faz abstração das formas que os diferenciam, para tratar com eles os grandes interesses religiosos dos povos, sabendo que tem o dever de tomar sua tutela, acima de qualquer outro interesse. Nossas precedentes Encíclicas já expuseram esses princípios; era contudo necessário recordá-los para o desenvolvimento do assunto que hoje Nos ocupa.

Se, porém, se descer das abstrações ao terreno dos fatos, é preciso guardar-se bem de renegar os princípios estabelecidos há pouco; eles permanecem inabaláveis. Somente, ao se encarnarem nos fatos, revestem um caráter de contingência, determinado pelo meio em que se produz sua aplicação. Em outras palavras, se cada forma política é boa em si mesma e pode ser aplicada ao governo dos povos, na prática, contudo, não se encontra em todos os povos o poder político sob a mesma forma; cada um possui a sua própria. Essa forma nasce do conjunto de circunstâncias históricas ou nacionais, mas sempre humanas, que fazem surgir numa nação suas leis tradicionais e mesmo fundamentais: e, por elas, determina-se tal forma particular de governo, tal base de transmissão dos poderes supremos.

Inútil recordar que todos os indivíduos são obrigados a aceitar esses governos e a nada tentar para derrubá-los ou mudar sua forma. Daí vem que a Igreja, guardiã da noção mais verdadeira e mais alta sobre a soberania política, pois a faz derivar de Deus, sempre reprovou as doutrinas e sempre condenou os homens rebeldes à autoridade legítima. E isso, no próprio tempo em que os depositários do poder abusavam dele contra Ela, privando-se assim do mais poderoso apoio dado à sua autoridade, e do meio mais eficaz para obter do povo a obediência às suas leis. Não se pode meditar demais sobre esse assunto as célebres prescrições que o Príncipe dos apóstolos, em meio às perseguições, dava aos primeiros cristãos: “Honrai a todos; amai a fraternidade: temei a Deus: honrai o rei” [6]. E a de São Paulo: “Exorto-vos, pois, antes de tudo, a que se façam súplicas, orações, petições, ações de graças por todos os homens, pelos reis e por todos os que estão elevados em dignidade, a fim de que levemos uma vida tranquila, em toda piedade e castidade: pois isso é bom e agradável diante de Deus nosso Salvador” [7].

Contudo, é preciso notar cuidadosamente aqui: qualquer que seja a forma dos poderes civis numa nação, não se pode considerá-la tão definitiva que deva permanecer imutável, ainda que fosse a intenção daqueles que, no origem, a determinaram.

Somente a Igreja de Jesus Cristo pôde conservar e conservará seguramente até a consumação dos séculos sua forma de governo. Fundada por Aquele que era, que é e que será nos séculos [8], recebeu Dele, desde sua origem, tudo o que é necessário para prosseguir sua missão divina através do oceano móvel das coisas humanas. E, longe de precisar transformar sua constituição essencial, nem sequer tem o poder de renunciar às condições de verdadeira liberdade e de soberana independência, de que a Providência a muniu no interesse geral das almas.

Mas quanto às sociedades puramente humanas, é um fato gravado cem vezes na história que o tempo, esse grande transformador de tudo aqui embaixo, opera em suas instituições políticas profundas mudanças. Às vezes, limita-se a modificar algo na forma de governo estabelecida; outras vezes, vai até substituir às formas primitivas outras formas totalmente diferentes, sem excluir o modo de transmissão do poder soberano.

E como se produzem essas mudanças políticas de que falamos? Sucedeem às vezes a crises violentas, demasiado frequentemente sangrentas, no meio das quais os governos preexistentes desaparecem de fato; eis a anarquia que domina; logo, a ordem pública é abalada até seus fundamentos. Desde então, uma necessidade social se impõe à nação; ela deve sem demora prover a si mesma. Como não teria o direito, e mais ainda o dever, de se defender contra um estado de coisas que a perturba tão profundamente, e de restabelecer a paz pública na tranquilidade da ordem?

Ora, essa necessidade social justifica a criação e a existência dos novos governos, qualquer forma que tomem; pois, na hipótese em que raciocinamos, esses novos governos são necessariamente requeridos pela ordem pública, sendo todo ordem público impossível sem um governo. Segue-se daí que, em conjunturas semelhantes, toda a novidade se limita à forma política dos poderes civis, ou ao seu modo de transmissão; não afeta de modo algum o poder considerado em si mesmo. Este continua imutável e digno de respeito; pois, considerado em sua natureza, é constituído e se impõe para prover ao bem comum, fim supremo que dá origem à sociedade humana. Em outras palavras, em toda hipótese, o poder civil, considerado como tal, é de Deus e sempre de Deus: “Pois não há poder senão de Deus” [9].

Portanto, quando os novos governos que representam esse poder imutável são constituídos, aceitá-los não é somente permitido, mas reclamado, até mesmo imposto pela necessidade do bem social que os fez e os mantém. Tanto mais quanto a insurreição atiça o ódio entre cidadãos, provoca guerras civis e pode lançar a nação no caos da anarquia. E esse grande dever de respeito e de submissão persistirá enquanto as exigências do bem comum o demandarem, pois esse bem é, depois de Deus, na sociedade, a lei primeira e última.

Por aí se explica por si mesma a sabedoria da Igreja na manutenção de suas relações com os numerosos governos que se sucederam na França, em menos de um século, e nunca sem produzir abalos violentos e profundos. Tal atitude é a linha de conduta mais segura e mais salutar para todos os franceses, em suas relações civis com a república, que é o governo atual de sua nação. Longe deles essas dissensões políticas que os dividem; todos os seus esforços devem se combinar para conservar ou restaurar a grandeza moral de sua pátria.

Mas surge uma dificuldade: “Essa república, observa-se, é animada de sentimentos tão anticristãos que os homens honestos, e muito mais os católicos, não poderiam conscienciosamente aceitá-la.” Eis sobretudo o que deu origem às dissensões e as agravou.

Essas lamentáveis divergências teriam sido evitadas se se tivesse sabido levar em conta cuidadosamente a distinção considerável que há entre Poderes constituídos e Legislação. A legislação difere a tal ponto dos poderes políticos e de sua forma, que, sob o regime cuja forma é a mais excelente, a legislação pode ser detestável; enquanto que, ao contrário, sob o regime cuja forma é a mais imperfeita, pode se encontrar uma excelente legislação. Provar, com a história na mão, essa verdade seria coisa fácil; mas para quê? Todos estão convencidos. E quem melhor que a Igreja está em condições de sabê-lo, ela que se esforçou por manter relações habituais com todos os regimes políticos? Certamente, mais que qualquer outra potência, ela saberia dizer o que lhe trouxeram muitas vezes de consolações ou de dores as leis dos diversos governos que sucessivamente regeram os povos, do Império Romano até nós.

Se a distinção estabelecida há pouco tem sua importância maior, tem também sua razão manifesta; a legislação é obra dos homens investidos do poder e que, de fato, governam a nação. Donde resulta que, na prática, a qualidade das leis depende mais da qualidade desses homens do que da forma do poder. Essas leis serão, pois, boas ou más, segundo que os legisladores tenham o espírito imbuído de bons ou maus princípios e se deixem dirigir pela prudência política ou pela paixão.

Que na França, há vários anos, diversos atos importantes da legislação tenham procedido de tendências hostis à religião, e consequentemente aos interesses da nação, é o reconhecimento de todos, infelizmente confirmado pela evidência dos fatos.

Nós mesmos, obedecendo a um dever sagrado, dirigimos queixas vivamente sentidas àquele que era então chefe da República. Essas tendências, contudo, persistiram, o mal se agravou, e não se pode estranhar que os membros do Episcopado francês, colocados pelo Espírito Santo para reger suas diferentes e ilustres Igrejas, tenham considerado, ainda bem recentemente, como uma obrigação expressar publicamente sua dor quanto à situação criada na França à religião católica.

Pobre França! Só Deus pode medir o abismo de males em que ela se afundaria se essa legislação, longe de melhorar, se obstinasse em tal desvio, que chegaria a arrancar do espírito e do coração dos franceses a religião que os fez tão grandes.

E eis precisamente o terreno sobre o qual, pondo de lado toda dissensão política, os homens de bem devem se unir como um só homem, para combater, por todos os meios legais e honestos, essa legislação. O respeito devido aos poderes constituídos não o pode proibir: não pode importar nem o respeito, nem muito menos obediência sem limites a toda medida legislativa qualquer, editada por esses mesmos poderes. Não se esqueça: a lei é uma prescrição ordenada segundo a razão e promulgada, para o bem da comunidade, por aqueles que receberam para esse fim o depósito do poder.

Em consequência, nunca se pode aprovar pontos de legislação hostis à religião e a Deus; ao contrário, é um dever reprová-los. É o que o grande bispo de Hipona, São Agostinho, colocava em perfeita luz nesse raciocínio cheio de eloquência: “Às vezes, os poderes da terra são bons e temem a Deus; outras vezes, não o temem. Juliano era um imperador infiel a Deus, um apóstata, um perverso, idólatra. Os soldados cristãos serviram esse imperador infiel. Mas, quando se tratava da causa de Jesus Cristo, não reconheciam senão Aquele que está no céu. Juliano lhes prescrevia honrar os ídolos e incensá-los? Punham Deus acima do príncipe. Mas, dizia-lhes ele, formai vossas fileiras para marchar contra tal nação inimiga? No instante obedeciam. Distinguiam o Mestre eterno do mestre temporal, e contudo, em vista do Mestre eterno, submetiam-se mesmo a tal mestre temporal” [10]. Sabemos que o ateu, por um lamentável abuso de sua razão e mais ainda de sua vontade, nega esses princípios. Mas, em definitivo, o ateísmo é um erro tão monstruoso que nunca poderá, diga-se em honra da humanidade, aniquilar nela a consciência dos direitos de Deus para substituir a idolatria do Estado.

Definidos assim os princípios que devem regular nossa conduta em relação a Deus e aos governos humanos, nenhum homem imparcial poderá acusar os católicos franceses se, sem poupar fadigas nem sacrifícios, trabalham para conservar a sua pátria o que é para ela condição de salvação, o que resume tantas tradições gloriosas registradas pela história, e que todo francês tem o dever de não esquecer.

Antes de terminar Nossa Carta, queremos tocar em dois pontos conexos entre si, e que, se ligando mais de perto aos interesses religiosos, puderam suscitar entre os católicos alguma divisão.

Um deles é o Concordat que, durante tantos anos, facilitou na França a harmonia entre o governo da Igreja e o do Estado. Sobre a manutenção desse pacto solene e bilateral, sempre fielmente observado da parte da Santa Sé, os adversários da religião católica mesmos não se põem de acordo.

Os mais violentos querem sua abolição, para deixar ao Estado toda liberdade de molestar a Igreja de Jesus Cristo.

Outros, ao contrário, com mais astúcia, querem, ou ao menos asseguram querer a conservação do Concordat: não porque reconheçam ao Estado o dever de cumprir em relação à Igreja os compromissos assumidos, mas unicamente para fazê-lo beneficiar das concessões feitas pela Igreja; como se pudesse separar a seu bel-prazer os compromissos tomados das concessões obtidas, quando essas duas coisas fazem parte substancial de um só todo. Para eles, o Concordat não restaria senão como uma cadeia própria para entravar a liberdade da Igreja, essa liberdade santa a que ela tem direito divino e inalienável.

Dessas duas opiniões, qual prevalecerá? Ignoramo-lo. Quisemos somente recordá-lo, para recomendar aos católicos que não provoquem cisão sobre um assunto que cabe à Santa Sé tratar.

Não teremos a mesma linguagem sobre o outro ponto, concernente ao princípio da separação do Estado e da Igreja, o que equivale a separar a legislação humana da legislação cristã e divina. Não queremos nos deter aqui para demonstrar tudo o que tem de absurdo a teoria dessa separação; cada um o compreenderá por si mesmo. Desde que o Estado recusa dar a Deus o que é de Deus, recusa, por consequência necessária, dar aos cidadãos o que lhes cabe como homens; pois, queiram ou não, os verdadeiros direitos do homem nascem precisamente de seus deveres para com Deus. Donde se segue que o Estado, faltando nesse ponto ao fim principal de sua instituição, chega na realidade a se negar a si mesmo e a desmentir o que é a razão de sua própria existência. Essas verdades superiores são tão claramente proclamadas pela voz mesma da razão natural que se impõem a todo homem que não seja cegado pela violência da paixão.

Os católicos, em consequência, não podem se guardar demais de apoiar tal separação. Com efeito, querer que o Estado se separe da Igreja seria querer, por consequência lógica, que a Igreja fosse reduzida à liberdade de viver segundo o direito comum a todos os cidadãos.

Essa situação, é verdade, se produz em certos países. É uma maneira de ser que, se tem numerosos e graves inconvenientes, oferece também algumas vantagens, sobretudo quando o legislador, por uma feliz inconsequência, não deixa de se inspirar em princípios cristãos; e essas vantagens, embora não possam justificar o falso princípio da separação, nem autorizar a defendê-lo, tornam contudo digno de tolerância um estado de coisas que, praticamente, não é o pior de todos.

Mas na França, nação católica por suas tradições e pela fé presente da grande maioria de seus filhos, a Igreja não deve ser posta na situação precária que sofre em outros povos. Os católicos podem tanto menos preconizar a separação quanto melhor conhecem as intenções dos inimigos que a desejam. Para estes últimos, e eles o dizem bastante claramente, essa separação é a independência inteira da legislação política em relação à legislação religiosa; mais ainda, é a indiferença absoluta do poder em relação aos interesses da sociedade cristã, isto é, da Igreja, e a própria negação de sua existência. — Fazem contudo uma reserva que se formula assim: Desde que a Igreja, utilizando os recursos que o direito comum deixa aos menores dos franceses, souber, por um redobro de sua atividade nativa, fazer prosperar sua obra, logo o Estado intervindo poderá e deverá pôr os católicos franceses fora do próprio direito comum.

Para dizer tudo numa palavra, o ideal desses homens seria o retorno ao paganismo: o Estado não reconhece a Igreja senão no dia em que lhe apraz persegui-la.

Explicamos, Veneráveis Irmãos, de modo abreviado mas claro, senão todos, ao menos os principais pontos sobre os quais os católicos franceses e todos os homens sensatos devem praticar a união e a concórdia, para curar, tanto quanto ainda é possível, os males de que a França está afligida, e para elevar mesmo sua grandeza moral. Esses pontos são: a religião e a pátria, os poderes políticos e a legislação, a conduta a ter em relação a esses poderes e a essa legislação, o concordato, a separação do Estado e da Igreja.

Nutrimos a esperança e a confiança de que o esclarecimento desses pontos dissipará os preconceitos de vários homens de boa-fé, facilitará a pacificação dos espíritos, e por ela a união perfeita de todos os católicos, para sustentar a grande causa de Cristo que ama os francos.

Que consolação para Nosso coração encorajar-vos nesse caminho e contemplar-vos a todos respondendo docilmente a Nosso apelo! — Vós, Veneráveis Irmãos, por Vossa autoridade e com o zelo tão esclarecido pela Igreja e pela Pátria que Vos distingue, trareis um poderoso auxílio a essa obra pacificadora. — Amamos mesmo esperar que aqueles que estão no poder queiram apreciar bem Nossas palavras, que visam à prosperidade e à felicidade da França.

Enquanto isso, como penhor de Nossa afeição paternal, damos a Vós, Veneráveis Irmãos, a Vosso Clero, assim como a todos os católicos da França, a Bênção Apostólica.

Dado em Roma, aos 16 de fevereiro do ano de 1892, do Nosso Pontificado o décimo quarto.

Leão XIII, Papa

ASS, vol. XXIV (1891-92), pp. 519-529.

[1] Pois Deus não é Deus de dissensão, mas de paz, 1 Cor 14,33. [2] Luc 23,2; Jo 19,12-15. [3] Diálogo com Trifão (São Justino). [4] Alusão a autores pagãos como Tácito, Suetônio etc. [5] Jo 16,33. [6] 1 Pd 2,17. [7] 1 Tm 2,1-3. [8] Ap 1,8. [9] Rm 13,1. [10] Alusão a sermão de Santo Agostinho sobre obediência civil.

sexta-feira, 24 de outubro de 2025

ENCÍCLICA QUAS PRIMAS, DO SUMO PONTÍFICE PÍO XI, SOBRE A FESTA DE CRISTO REI


Na primeira encíclica, que ao iniciar nosso Pontificado enviamos a todos os bispos do orbe católico, analisávamos as causas supremas das calamidades que víamos abrumar e afligir o gênero humano.

E nela proclamamos claramente não só que esse cúmulo de males havia invadido a terra, porque a maioria dos homens se haviam afastado de Jesus Cristo e de sua lei santíssima, tanto em sua vida e costumes como na família e na governação do Estado, mas também que nunca resplandeceria uma esperança certa de paz verdadeira entre os povos enquanto os indivíduos e as nações negassem e rejeitassem o império de nosso Salvador.

A «paz de Cristo no reino de Cristo»

1. Por isso, não apenas exortamos então a buscar a paz de Cristo no reino de Cristo, mas também prometemos que, para tal fim, faríamos tudo quanto nos fosse possível. No reino de Cristo, dissemos: pois estávamos persuadidos de que não há meio mais eficaz para restabelecer e vigorizar a paz que procurar a restauração do reinado de Jesus Cristo.

2. Entre tanto, não deixou de nos infundir sólida esperança de tempos melhores a favorável atitude dos povos para com Cristo e sua Igreja, única que pode salvá-los; atitude nova em uns, reavivada em outros, de onde se podia inferir que muitos que até então haviam estado como desterrados do reino do Redentor, por terem desprezado sua soberania, se preparavam felizmente e até se apressavam em voltar aos seus deveres de obediência.

E tudo quanto aconteceu no transcurso do Ano Santo, digno tudo de perpétua memória e recordação, acaso não redundou em indecível honra e glória do Fundador da Igreja, Senhor e Rei Supremo?

«Ano Santo»

3. Porque maravilha é quanto comoveu as almas a Exposição Missionária, que ofereceu a todos o conhecer bem ora o infatigável esforço da Igreja em dilatar cada vez mais o reino de seu Esposo por todos os continentes e ilhas — até mesmo, destas, as dos mares mais remotos —, ora o elevado número de regiões conquistadas para a fé católica pelo sangue e os suores de esforçadíssimos e invictos missionários, ora também as vastas regiões que ainda restam por submeter à suave e salvadora soberania de nosso Rei.

Além disso, quantos — em tão grandes multidões — durante o Ano Santo vieram de todas as partes a Roma guiados por seus bispos e sacerdotes, que outro propósito trouxeram senão prostrar-se, com suas almas purificadas, ante o sepulcro dos apóstolos e visitar-nos para proclamar que vivem e viverão sujeitos à soberania de Jesus Cristo?

4. Como uma nova luz pareceu também resplandecer este reinado de nosso Salvador quando Nós mesmos, depois de comprovar os extraordinários méritos e virtudes de seis virgens e confessores, os elevamos ao honor dos altares. Ó, quanto gozo e quanto consolo embargou nossa alma quando, após promulgados por Nós os decretos de canonização, uma imensa multidão de fiéis, cheia de gratidão, cantou o Tu, Rex gloriae Christe no majestoso templo de São Pedro!

E assim, enquanto os homens e as nações, afastados de Deus, correm à ruína e à morte por entre incêndios de ódios e lutas fratricidas, a Igreja de Deus, sem jamais deixar de oferecer aos homens o sustento espiritual, engendra e forma novas gerações de santos e de santas para Cristo, o qual não cessa de elevar até a eterna bem-aventurança do reino celestial aqueles que lhe obedeceram e serviram fielmente no reino da terra.

5. Da mesma forma, ao cumprir-se no Ano Jubilar o XVI Centenário do Concílio de Niceia, com tanto maior gosto mandamos celebrar essa festa, e a celebramos Nós mesmos na Basílica Vaticana, quanto aquele sagrado concílio definiu e proclamou como dogma de fé católica a consubstancialidade do Filho Unigênito com o Pai, além de que, ao incluir as palavras cujo reino não terá fim em seu Símbolo ou fórmula de fé, promulgava a real dignidade de Jesus Cristo.

Tendo, pois, concorrido neste Ano Santo tão oportunas circunstâncias para realçar o reinado de Jesus Cristo, parece-nos que cumpriremos um ato muito conforme ao nosso dever apostólico se, atendendo às súplicas elevadas a Nós, individualmente e em comum, por muitos cardeais, bispos e fiéis católicos, pomos digno fim a este Ano Jubilar introduzindo na sagrada liturgia uma festividade especialmente dedicada a Nosso Senhor Jesus Cristo Rei. E isso de tal modo nos complace, que desejamos, veneráveis irmãos, dizer-vos algo acerca do assunto. A vós cabe acomodar depois à inteligência do povo quanto vos vamos dizer sobre o culto de Cristo Rei; dessa forma, a solenidade recém-instituída produzirá, no futuro e já desde o primeiro momento, os mais variados frutos.

I. A REALEZA DE CRISTO

6. Tem sido costume muito geral e antigo chamar Rei a Jesus Cristo, em sentido metafórico, por causa do supremo grau de excelência que possui e que o eleva entre todas as coisas criadas. Assim, diz-se que reina nas inteligências dos homens, não tanto pelo sublime e altíssimo grau de sua ciência quanto porque Ele é a Verdade e porque os homens precisam beber d’Ele e receber obedientemente a verdade. Diz-se também que reina nas vontades dos homens, não só porque n’Ele a vontade humana está inteira e perfeitamente submetida à santa vontade divina, mas também porque com suas moções e inspirações influi em nossa livre vontade e a incendeia em nobilíssimos propósitos. Finalmente, diz-se com verdade que Cristo reina nos corações dos homens porque, com sua supereminente caridade[1] e com sua mansidão e benignidade, faz-se amar pelas almas de maneira que jamais ninguém — entre todos os nascidos — foi ou será tão amado como Cristo Jesus. Mas, entrando agora de cheio no assunto, é evidente que também em sentido próprio e estrito pertence a Jesus Cristo como homem o título e a potestade de Rei; pois somente enquanto homem se diz d’Ele que recebeu do Pai a potestade, a honra e o reino[2]; porque como Verbo de Deus, cuja substância é idêntica à do Pai, não pode deixar de ter em comum com Ele o que é próprio da divindade e, portanto, possuir também como o Pai o mesmo império supremo e absolutíssimo sobre todas as criaturas.

a) No Antigo Testamento

7. Que Cristo é Rei, dizem-no a cada passo as Sagradas Escrituras.

Assim, chamam-no o dominador que há de nascer da estirpe de Jacó[3]; o que pelo Pai foi constituído Rei sobre o monte santo de Sião e receberá as gentes em herança e em posse os confins da terra[4]. O salmo nupcial, onde sob a imagem e representação de um Rei muito opulento e muito poderoso se celebrava aquele que havia de ser o verdadeiro Rei de Israel, contém estas frases: O trono teu, ó Deus!, permanece pelos séculos dos séculos; o cetro de seu reino é cetro de retidão[5]. E, omitindo outros muitos textos semelhantes, em outro lugar, como para melhor delinear os caracteres de Cristo, prediz-se que seu reino não terá limites e estará enriquecido com os dons da justiça e da paz: Florecerá em seus dias a justiça e a abundância de paz... e dominará de um mar a outro, e desde um até o outro extremo do orbe da terra[6].

8. A este testemunho somam-se outros, ainda mais copiosos, dos profetas, e principalmente o conhecidíssimo de Isaías: Nos nasceu um Párvulo e nos foi dado um Filho, o qual leva sobre seus ombros o principado; e terá por nome o Admirável, o Conselheiro, Deus, o Forte, o Pai do século vindouro, o Príncipe da Paz. Seu império será amplificado e a paz não terá fim; sentar-se-á sobre o trono de Davi, e possuirá seu reino para firmá-lo e consolidá-lo fazendo reinar a equidade e a justiça desde agora e para sempre[7]. O mesmo vaticinam os demais profetas. Assim Jeremias, ao predizer que da estirpe de Davi nascerá o rebento justo, que como filho de Davi reinará como Rei e será sábio e julgará na terra[8]. Assim Daniel, ao anunciar que o Deus do céu fundará um reino, o qual não será jamais destruído..., permanecerá eternamente[9]; e pouco depois acrescenta: Eu estava observando durante a visão noturna, e eis que vinha entre as nuvens do céu um personagem que parecia o Filho do Homem; quem se adiantou ao Ancião de muitos dias e foi apresentado ante Ele. E deu-lhe este a potestade, a honra e o reino: E todos os povos, tribos e línguas lhe servirão: sua potestade é potestade eterna, que não lhe será tirada, e seu reino é indestrutível[10]. Aquelas palavras de Zacarias, onde prediz o Rei manso que, subindo sobre uma asna e seu potrinho, havia de entrar em Jerusalém, como Justo e Salvador, entre as aclamações das turbas[11], acaso não as viram realizadas e comprovadas os santos evangelistas?

b) No Novo Testamento

9. Por outro lado, esta mesma doutrina sobre Cristo Rei, que extraímos dos livros do Antigo Testamento, tão longe está de faltar nos do Novo que, pelo contrário, encontra-se magnificamente e luminosamente confirmada.

Neste ponto, e passando por alto a mensagem do arcanjo, pela qual foi advertida a Virgem que daria à luz um menino a quem Deus havia de dar o trono de Davi, seu pai, e que reinaria eternamente na casa de Jacó, sem que seu reino tivesse jamais fim[12], é o próprio Cristo quem dá testemunho de sua realeza, pois ora em seu último discurso ao povo, ao falar do prêmio e das penas reservadas perpetuamente aos justos e aos réprobos; ora ao responder ao governador romano que publicamente lhe perguntava se era Rei; ora, finalmente, após sua ressurreição, ao encomendar aos apóstolos a tarefa de ensinar e batizar todas as gentes, sempre e em toda ocasião oportuna atribuiu-se o título de Rei[13] e publicamente confirmou que é Rei[14], e solenemente declarou que lhe foi dado todo poder no céu e na terra[15]. Com estas palavras, que outra coisa se significa senão a grandeza de seu poder e a extensão infinita de seu reino? Portanto, não é de admirar que São João o chame Príncipe dos reis da terra[16], e que Ele mesmo, conforme a visão apocalíptica, leve escrito em seu vestido e em seu quadril: Rei dos Reis e Senhor dos que dominam[17]. Visto que o Pai constituiu Cristo herdeiro universal de todas as coisas[18], é necessário que reine Cristo até que, ao fim dos séculos, ponha sob os pés do trono de Deus todos os seus inimigos[19].

c) Na Liturgia

10. Desta doutrina comum aos Sagrados Livros, seguiu-se necessariamente que a Igreja, reino de Cristo sobre a terra, destinada a estender-se a todos os homens e a todas as nações, celebrasse e glorificasse com multiplicadas mostras de veneração, durante o ciclo anual da liturgia, a seu Autor e Fundador como Soberano Senhor e Rei dos reis.

E assim como na antiga salmodia e nos antigos Sacramentários usou destes títulos honoríficos que com maravilhosa variedade de palavras expressam o mesmo conceito, assim também os emprega atualmente nos diários atos de oração e culto à Divina Majestade e no Santo Sacrifício da Missa. Nesta perpétua alabanza a Cristo Rei descobre-se facilmente a harmonia tão bela entre nosso rito e o rito oriental, de modo que se manifestou também neste caso que a lei da oração constitui a lei da crença.

d) Fundada na união hipostática

11. Para mostrar agora em que consiste o fundamento desta dignidade e deste poder de Jesus Cristo, eis o que escreve muito bem São Cirilo de Alexandria: Possui Cristo soberania sobre todas as criaturas, não arrancada por força nem tomada a ninguém, mas em virtude de sua mesma essência e natureza[20]. Ou seja, a soberania ou principado de Cristo funda-se na maravilhosa união chamada hipostática. Donde se segue que Cristo não só deve ser adorado enquanto Deus pelos anjos e pelos homens, mas também que uns e outros estão sujeitos a seu império e lhe devem obedecer também enquanto homem; de maneira que pelo só fato da união hipostática, Cristo tem potestade sobre todas as criaturas.

e) E na redenção

12. Mas, além disso, que coisa haverá para nós mais doce e suave que o pensamento de que Cristo impera sobre nós, não só por direito de natureza, mas também por direito de conquista, adquirido a custo da redenção? Oxalá todos os homens, tão esquecidos, recordassem quanto custamos a nosso Salvador. Fostes resgatados não com ouro ou prata, que são coisas perecíveis, mas com o sangue precioso de Cristo, como de um Cordeiro Imaculado e sem mácula[21]. Não somos, pois, já nossos, posto que Cristo nos comprou por preço grande[22]; até nossos próprios corpos são membros de Jesus Cristo[23].

II. CARÁTER DA REALEZA DE CRISTO

a) Tripla potestade

13. Vindo agora a explicar a força e a natureza deste principado e soberania de Jesus Cristo, indicaremos brevemente que contém uma tríplice potestade, sem a qual apenas se concebe um verdadeiro e próprio principado. Os testemunhos, aduzidos das Sagradas Escrituras, acerca do império universal de nosso Redentor, provam mais que suficientemente quanto dissemos; e é dogma, além disso, de fé católica, que Jesus Cristo foi dado aos homens como Redentor, em quem devem confiar, e como legislador a quem devem obedecer[24]. Os santos Evangelhos não só narram que Cristo legislou, mas também nos apresentam legislando. Em diferentes circunstâncias e com diversas expressões, diz o Divino Mestre que quem guardar seus preceitos demonstrará que o ama e permanecerá em sua caridade[25]. O próprio Jesus, ao responder aos judeus, que o acusavam de haver violado o sábado com a maravilhosa cura do paralítico, afirma que o Pai lhe deu a potestade judicial, porque o Pai não julga ninguém, mas deu ao Filho todo o poder de julgar[26]. No que se compreende também seu direito de premiar e castigar os homens, até durante sua vida mortal, porque isto não pode separar-se de uma forma de juízo. Além disso, deve-se atribuir a Jesus Cristo a potestade chamada executiva, posto que é necessário que todos obedeçam a seu mandato, potestade que aos rebeldes inflige castigos, aos quais ninguém pode subtrair-se.

b) Campo da realeza de Cristo

a) No espiritual

14. Contudo, os textos que citamos da Escritura demonstram evidentissimamente, e o próprio Jesus Cristo o confirma com seu modo de agir, que este reino é principalmente espiritual e refere-se às coisas espirituais. Com efeito, em várias ocasiões, quando os judeus, e até os próprios apóstolos, imaginaram erroneamente que o Messias devolveria a liberdade ao povo e restabeleceria o reino de Israel, Cristo lhes tirou e arrancou esta vã imaginação e esperança. Da mesma forma, quando ia ser proclamado Rei pela multidão, que, cheia de admiração, o rodeava, Ele recusou tal título de honra, fugindo e escondendo-se na solidão. Finalmente, em presença do governador romano, manifestou que seu reino não era deste mundo. Este reino mostra-se nos evangelhos com tais caracteres, que os homens, para entrar nele, devem preparar-se fazendo penitência e não podem entrar senão pela fé e pelo batismo, o qual, embora seja um rito externo, significa e produz a regeneração interior. Este reino opõe-se unicamente ao reino de Satanás e à potestade das trevas; e exige de seus súditos não só que, desapegadas suas almas das coisas e riquezas terrenas, guardem costumes ordenados e tenham fome e sede de justiça, mas também que se neguem a si mesmos e tomem sua cruz. Tendo Cristo, como Redentor, resgatado a Igreja com seu Sangue e oferecendo-se a si mesmo, como Sacerdote e como Vítima, pelos pecados do mundo, oferecimento que se renova cada dia perpetuamente, quem não vê que a dignidade real do Salvador se reveste e participa da natureza espiritual de ambos os ofícios?

b) No temporal

15. Por outro lado, erraria gravemente quem negasse a Cristo-Homem o poder sobre todas as coisas humanas e temporais, posto que o Pai lhe conferiu um direito absolutíssimo sobre as coisas criadas, de tal sorte que todas estão submetidas a seu arbítrio. Contudo, enquanto viveu sobre a terra, absteve-se inteiramente de exercer este poder, e assim como então desprezou a posse e o cuidado das coisas humanas, assim também permitiu, e segue permitindo, que os possuidores delas as utilizem.

A esse respeito, diz bem aquela frase: Não tira os reinos mortais aquele que dá os celestiais[27]. Portanto, a todos os homens se estende o domínio de nosso Redentor, como afirmam estas palavras de nosso predecessor, de feliz memória, Leão XIII, as quais fazemos com gosto nossas: O império de Cristo se estende não só sobre os povos católicos e sobre aqueles que, tendo recebido o batismo, pertencem de direito à Igreja, embora o erro os tenha extraviado ou o cisma os separe da caridade, mas compreende também a quantos não participam da fé cristã, de sorte que sob a potestade de Jesus se encontra todo o gênero humano[28].

c) Nos indivíduos e na sociedade

16. Ele é, com efeito, a fonte do bem público e privado. Fora d’Ele não se deve buscar a salvação em nenhum outro; pois não se deu aos homens outro nome debaixo do céu pelo qual devamos salvar-nos[29].

Ele é o único que dá a prosperidade e a felicidade verdadeira, tanto aos indivíduos como às nações: porque a felicidade da nação não procede de distinta fonte que a felicidade dos cidadãos, pois a nação não é outra coisa senão o conjunto concorde de cidadãos[30]. Não se neguem, pois, os governantes das nações a dar por si mesmos e pelo povo públicas mostras de veneração e de obediência ao império de Cristo, se quiserem conservar incólume sua autoridade e fazer a felicidade e a fortuna de sua pátria. O que ao iniciar nosso pontificado escrevíamos sobre o grande menoscabo que padecem a autoridade e o poder legítimos, não é menos oportuno e necessário nos presentes tempos, a saber: Desterrados Deus e Jesus Cristo — lamentávamos — das leis e da governação dos povos, e derivada a autoridade, não de Deus, mas dos homens, aconteceu que... até os próprios fundamentos da autoridade foram arrancados, uma vez suprimida a causa principal de que uns tenham o direito de mandar e outros a obrigação de obedecer. Disso não pôde deixar de seguir-se uma violenta comoção de toda a sociedade humana, privada de todo apoio e fundamento sólido[31].

17. Em contrapartida, se os homens, pública e privadamente, reconhecerem a régia potestade de Cristo, necessariamente virão à sociedade civil incríveis benefícios, como justa liberdade, tranquilidade e disciplina, paz e concórdia. A régia dignidade de Nosso Senhor, assim como faz sacra, em certo modo, a autoridade humana dos chefes e governantes do Estado, também enobrece os deveres e a obediência dos súditos. Por isso, o apóstol São Paulo, embora ordenasse às casadas e aos servos que reverenciassem a Cristo na pessoa de seus maridos e senhores, também lhes advertiu que não obedecessem a estes como a simples homens, mas apenas como representantes de Cristo, porque é indigno de homens redimidos por Cristo servir a outros homens: Resgatados fostes a grande custo; não queirais tornar-vos servos dos homens[32].

18. E se os príncipes e os governantes legitimamente eleitos se persuadirem de que mandam, mais por mandato e em representação do Rei divino do que por direito próprio, a ninguém se ocultará quão santa e sabiamente deverão usar de sua autoridade e quão grande conta deverão ter, ao dar as leis e exigir seu cumprimento, com o bem comum e com a dignidade humana de seus inferiores. Daí se seguirá, sem dúvida, o florescimento estável da tranquilidade e da ordem, suprimida toda causa de sedição; pois, embora o cidadão veja no governante ou nas demais autoridades públicas homens de natureza igual à sua e até indignos ou vituperáveis por qualquer coisa, nem por isso recusará obedecer-lhes quando neles contemplar a imagem e a autoridade de Jesus Cristo, Deus e homem verdadeiro.

19. No que se refere à concórdia e à paz, é evidente que, quanto mais vasto é o reino e com maior amplitude abraça o gênero humano, tanto mais se arraiga na consciência dos homens o vínculo de fraternidade que os une. Esta convicção, assim como afasta e dissipa os conflitos frequentes, também suaviza e diminui suas amarguras. E se o reino de Cristo abraçasse de fato todos os homens, como os abraça de direito, por que não haveríamos de esperar aquela paz que o Rei pacífico trouxe à terra, aquele Rei que veio para reconciliar todas as coisas; que não veio para ser servido, mas para servir; que, sendo o Senhor de todos, se fez exemplo de humildade e estabeleceu como lei principal esta virtude, unida ao mandato da caridade; que, finalmente, disse: Meu jugo é suave e meu fardo é leve.

Ó, que felicidade poderíamos gozar se os indivíduos, as famílias e as sociedades se deixassem governar por Cristo! Então, verdadeiramente — diremos com as mesmas palavras de nosso predecessor Leão XIII dirigiu há vinte e cinco anos a todos os bispos do orbe católico —, então se poderão curar tantas feridas, todo direito recobrará seu vigor antigo, voltarão os bens da paz, cairão das mãos as espadas e as armas, quando todos aceitarem de boa vontade o império de Cristo, quando lhe obedecerem, quando toda língua proclamar que Nosso Senhor Jesus Cristo está na glória de Deus Pai[33].

III. A FESTA DE JESUS CRISTO REI

20. Ora, para que esses inapreciáveis proveitos se colham mais abundantes e vivam estáveis na sociedade cristã, é necessário que se propague o mais possível o conhecimento da régia dignidade de nosso Salvador, para o qual nada será mais eficaz que instituir a festividade própria e peculiar de Cristo Rei.

As festas da Igreja

Porque, para instruir o povo nas coisas da fé e atraí-lo por meio delas aos íntimos gozos do espírito, muito mais eficácia têm as festas anuais dos sagrados mistérios que quaisquer ensinanças, por autorizadas que sejam, do eclesiástico magistério.

Estas só são conhecidas, na maioria das vezes, por uns poucos fiéis, mais instruídos que os demais; aquelas impressionam e instruem todos os fiéis; estas — digamo-lo assim — falam uma só vez, aquelas cada ano e perpetuamente; estas penetram nas inteligências, aquelas nos corações, ao homem inteiro. Além disso, como o homem consta de alma e corpo, de tal maneira o hão de comover necessariamente as solenidades externas dos dias festivos, que pela variedade e beleza dos atos litúrgicos aprenderá melhor as divinas doutrinas, e, convertendo-as em seu próprio jugo e sangue, aproveitará muito mais na vida espiritual.

No momento oportuno

21. Por outro lado, os documentos históricos demonstram que essas festividades foram instituídas uma após outra no transcurso dos séculos, conforme o pediam a necessidade e a utilidade do povo cristão, isto é, quando era preciso robustecê-lo contra um perigo comum, ou defendê-lo contra os insidiosos erros da heresia, ou animá-lo e incendiá-lo com maior frequência para que conhecesse e venerasse com maior devoção algum mistério da fé, ou algum benefício da divina bondade. Assim, desde os primeiros séculos do cristianismo, quando os fiéis eram acerbamente perseguidos, começou a liturgia a commemorar os mártires para que, como diz Santo Agostinho, as festividades dos mártires fossem outras tantas exortações ao martírio[34]. Mais tarde, os honores litúrgicos concedidos aos santos confessores, virgens e viúvas serviram maravilhosamente para reavivar nos fiéis o amor às virtudes, tão necessário até em tempos pacíficos. Sobretudo, as festividades instituídas em honra à Santíssima Virgem contribuíram, sem dúvida, para que o povo cristão não só enfervorizasse seu culto à Mãe de Deus, sua poderosíssima protetora, mas também se incendiasse em mais forte amor para com a Mãe celestial que o Redentor lhe legara como herança. Além disso, entre os benefícios que produz o público e legítimo culto da Virgem e dos Santos, não deve ser passado em silêncio o que a Igreja tenha podido em todo tempo rejeitar vitoriosamente a peste dos erros e heresias.

22. Neste ponto, devemos admirar os desígnios da divina Providência, a qual, assim como costuma tirar bem do mal, também permitiu que por vezes se entibiasse a fé e a piedade dos fiéis, ou que ameaçassem à verdade católica falsas doutrinas, embora ao cabo voltou ela a resplandecer com novo fulgor, e voltaram os fiéis, despertados de seu letargo, a se enfervorizarem na virtude e na santidade. Da mesma forma, as festividades incluídas no ano litúrgico durante os tempos modernos tiveram também o mesmo origem e produziram idênticos frutos. Assim, quando se entibiou a reverência e o culto ao Santíssimo Sacramento, então se instituiu a festa do Corpus Christi, e se mandou celebrá-la de tal modo que a solenidade e magnificência litúrgicas durassem por toda a oitava, para atrair os fiéis a que venerassem publicamente o Senhor. Assim também, a festividade do Sacratíssimo Coração de Jesus foi instituída quando as almas, debilitadas e abatidas pela triste e gélida severidade dos jansenistas, haviam-se esfriado e afastado do amor de Deus e da confiança em sua eterna salvação.

Contra o moderno laicismo

23. E se agora mandamos que Cristo Rei seja honrado por todos os católicos do mundo, com isso proveremos também às necessidades dos tempos presentes, e poremos um remédio eficacíssimo à peste que hoje inficiona a sociedade humana. Julgamos peste de nossos tempos o chamado laicismo com seus erros e abomináveis intentos; e vós sabeis, veneráveis irmãos, que tal impiedade não amadureceu em um só dia, mas incubava-se desde muito antes nas entranhas da sociedade. Começou-se por negar o império de Cristo sobre todas as gentes; negou-se à Igreja o direito, fundado no direito do próprio Cristo, de ensinar o gênero humano, isto é, de dar leis e de dirigir os povos para conduzi-los à eterna felicidade. Depois, pouco a pouco, a religião cristã foi igualada às demais religiões falsas e rebaixada indecorosamente ao nível destas. Submeteu-se-a, em seguida, ao poder civil e à arbitrária permissão dos governantes e magistrados. E avançou-se mais: houve alguns destes que imaginaram substituir a religião de Cristo por certa religião natural, com certos sentimentos puramente humanos. Não faltaram Estados que creram poder passar-se sem Deus, e puseram sua religião na impiedade e no desprezo de Deus.

24. Os amarguíssimos frutos que este afastamento de Cristo por parte dos indivíduos e das nações produziu com tanta frequência e durante tanto tempo, já os lamentamos em nossa encíclica Ubi arcano, e os voltamos hoje a lamentar, ao ver o germe da discórdia semeado por todas as partes; acesos entre os povos os ódios e rivalidades que tanto retardam, ainda, o restabelecimento da paz; as cobiças desenfreadas, que com frequência se escondem sob as aparências do bem público e do amor pátrio; e, brotando de tudo isso, as discórdias civis, junto com um cego e desatado egoísmo, só atento a seus particulares proveitos e comodidades e medindo tudo por eles; destruída de raiz a paz doméstica pelo esquecimento e a relaxação dos deveres familiares; rota a união e a estabilidade das famílias; e, enfim, sacudida e empurrada à morte a sociedade humana.

A festa de Cristo Rei

25. Anima-nos, contudo, a doce esperança de que a festa anual de Cristo Rei, que se celebrará em seguida, impulse felizmente a sociedade a voltar-se a nosso amadíssimo Salvador. Preparar e acelerar essa volta com a ação e com a obra seria, certamente, dever dos católicos; mas muitos deles parece que não têm na chamada convivência social nem o posto nem a autoridade que é indigno lhes faltem aos que levam diante de si a tocha da verdade. Estas desvantagens talvez procedam da apatia e timidez dos bons, que se abstêm de lutar ou resistem debilmente; com o que é força que os adversários da Igreja cobrem maior temeridade e audácia. Mas, se os fiéis todos compreenderem que devem militar com infatigável esforço sob a bandeira de Cristo Rei, então, inflamando-se no fogo do apostolado, se dedicarão a levar a Deus de novo os rebeldes e ignorantes, e trabalharão animosos por manter incólumes os direitos do Senhor.

Além disso, para condenar e reparar de alguma maneira esta pública apostasia, produzida, com tanto dano da sociedade, pelo laicismo, não parece que deve ajudar grandemente a celebração anual da festa de Cristo Rei entre todas as gentes? Em verdade: quanto mais se oprime com indigno silêncio o nome suavíssimo de nosso Redentor, nas reuniões internacionais e nos Parlamentos, tanto mais alto há que gritá-lo e com maior publicidade há que afirmar os direitos de sua real dignidade e potestade.

Continúa uma tradição

26. E quem não percebe que, já desde fins do século passado, se preparava maravilhosamente o caminho para a instituição desta festividade? Ninguém ignora quão sábia e eloquentemente foi defendido este culto em numerosos livros publicados em grande variedade de línguas e por todas as partes do mundo; e, da mesma forma, que o império e a soberania de Cristo foram reconhecidos com a piedosa prática de dedicar e consagrar quase inumeráveis famílias ao Sacratíssimo Coração de Jesus. E não somente se consagraram as famílias, mas também cidades e nações. Mais ainda: por iniciativa e desejo de Leão XIII, foi consagrado ao Divino Coração todo o gênero humano durante o Ano Santo de 1900.

27. Não se deve passar em silêncio que, para confirmar solenemente esta soberania de Cristo sobre a sociedade humana, serviram de maneira maravilhosa os frequentíssimos Congressos Eucarísticos que costumam celebrar-se em nossos tempos, e cujo fim é convocar os fiéis de cada uma das dioceses, regiões, nações e até do mundo todo, para venerar e adorar a Cristo Rei, escondido sob os véus eucarísticos; e por meio de discursos nas assembleias e nos templos, da adoração, em comum, do augusto Sacramento publicamente exposto e de solenes procissões, proclamar a Cristo como Rei que nos foi dado pelo céu. Bem e com razão poderia dizer-se que o povo cristão, movido como por uma inspiração divina, tirando do silêncio e como esconderijo dos templos aquele mesmo Jesus a quem os ímpios, quando veio ao mundo, não quiseram receber, e levando-o como a um triunfador pelas vias públicas, quer restabelecê-lo em todos os seus reais direitos.

Coroada no Ano Santo

28. Ora, para realizar nossa ideia que acabamos de expor, o Ano Santo, que toca a seu fim, nos oferece tal oportunidade que não haverá outra melhor; posto que Deus, havendo benignamente elevado a mente e o coração dos fiéis à consideração dos bens celestiais que superam o sentido, lhes devolveu o dom de sua graça, ou os confirmou no caminho reto, dando-lhes novos estímulos para emular melhores carismas. Ora, pois, atendamos a tantas súplicas como nos foram feitas, ora consideremos os acontecimentos do Ano Santo, em verdade que sobram motivos para nos convencermos de que, por fim, chegou o dia, tão veementemente desejado, em que anunciemos que se deve honrar com festa própria e especial a Cristo como Rei de todo o gênero humano.

29. Porque neste ano, como dissemos ao princípio, o Rei divino, verdadeiramente admirável em seus santos, foi gloriosamente magnificado com a elevação de um novo grupo de seus fiéis soldados ao honor dos altares. Da mesma forma, neste ano, por meio de uma inusitada Exposição Missionária, puderam todos admirar os triunfos que ganharam para Cristo seus obreiros evangélicos ao estender seu reino. Finalmente, neste ano, com a celebração do centenário do Concílio de Niceia, commemoramos a vindicação do dogma da consubstancialidade do Verbo encarnado com o Pai, sobre a qual se apoia como em seu próprio fundamento a soberania do mesmo Cristo sobre todos os povos.

Condição litúrgica da festa

30. Por tanto, com nossa autoridade apostólica, instituímos a festa de Nosso Senhor Jesus Cristo Rei, e decretamos que se celebre em todas as partes da terra no último domingo de outubro, isto é, o domingo que imediatamente precede a festividade de Todos os Santos. Da mesma forma, ordenamos que nesse dia se renove todos os anos a consagração de todo o gênero humano ao Sacratíssimo Coração de Jesus, com a mesma fórmula que nosso predecessor, de santa memória, Pio X, mandou recitar anualmente.

Este ano, contudo, queremos que se renove no dia 31 de dezembro, em que Nós mesmos oficiaremos um solene pontifical em honra de Cristo Rei, e ordenaremos que dita consagração se faça em nossa presença. Cremos que não podemos fechar melhor nem mais convenientemente o Ano Santo, nem dar a Cristo, Rei imortal dos séculos, mais amplo testemunho de nossa gratidão — com o qual interpretamos a de todos os católicos — pelos benefícios que durante este Ano Santo recebemos Nós, a Igreja e todo o orbe católico.

31. Não é necessário, veneráveis irmãos, que vos expliquemos detalhadamente os motivos pelos quais decretamos que a festividade de Cristo Rei se celebre separadamente daquelas outras nas quais parece já indicada e implicitamente solenizada esta mesma dignidade real. Basta advertir que, embora em todas as festas de Nosso Senhor o objeto material delas seja Cristo, seu objeto formal é inteiramente distinto do título e da potestade real de Jesus Cristo. A razão pela qual quisemos estabelecer esta festividade em dia de domingo é para que não só o clero honre a Cristo Rei com a celebração da missa e o rezo do ofício divino, mas também para que o povo, livre das preocupações e com espírito de santa alegria, renda a Cristo preclaro testemunho de sua obediência e devoção. Pareceu-nos também o último domingo de outubro muito mais acomodado para esta festividade que todos os demais, porque nele quase finaliza o ano litúrgico; pois assim sucederá que os mistérios da vida de Cristo, commemorados no transcurso do ano, terminem e recebam coroamento nesta solenidade de Cristo Rei, e antes de celebrar a glória de Todos os Santos, se celebre e exalte a glória daquele que triunfa em todos os santos e eleitos. Seja, pois, vosso dever e vosso ofício, veneráveis irmãos, fazer de modo que à celebração desta festa anual preceda, em dias determinados, um curso de pregação ao povo em todas as paróquias, de maneira que, instruídos cuidadosamente os fiéis sobre a natureza, a significação e a importância desta festividade, empreendam e ordenem um gênero de vida que seja verdadeiramente digno dos que anseiam servir amorosa e fielmente a seu Rei, Jesus Cristo.

Com os melhores frutos

32. Antes de terminar esta carta, nos apraz, veneráveis irmãos, indicar brevemente as utilidades que, em bem, já da Igreja e da sociedade civil, já de cada um dos fiéis, esperamos e Nos prometemos deste público homenagem de culto a Cristo Rei.

a) Para a Igreja

Em efeito: tributando estes honores à soberania real de Jesus Cristo, recordarão necessariamente os homens que a Igreja, como sociedade perfeita instituída por Cristo, exige — por direito próprio e impossível de renunciar — plena liberdade e independência do poder civil; e que no cumprimento do ofício encomendado a ela por Deus, de ensinar, reger e conduzir à eterna felicidade quantos pertencem ao Reino de Cristo, não podem depender do arbítrio de ninguém.

Mais ainda: o Estado deve também conceder a mesma liberdade às ordens e congregações religiosas de ambos os sexos, as quais, sendo como são valiosíssimos auxiliares dos pastores da Igreja, cooperam grandemente ao estabelecimento e propagação do reino de Cristo, já combatendo com a observação dos três votos a tríplice concupiscência do mundo, já professando uma vida mais perfeita, mercê da qual aquela santidade que o divino Fundador da Igreja quis dar a esta como nota característica dela, resplandece e alumia, cada dia com perpétuo e mais vivo esplendor, diante dos olhos de todos.

b) Para a sociedade civil

33. A celebração desta festa, que se renovará cada ano, ensinará também às nações que o dever de adorar publicamente e obedecer a Jesus Cristo não só obriga os particulares, mas também os magistrados e governantes.

A estes trará à memória o pensamento do juízo final, quando Cristo, não tanto por haver sido arrojado da governação do Estado quanto também por só haver sido ignorado ou menosprezado, vingará terrivelmente todas estas injúrias; pois sua régia dignidade exige que a sociedade inteira se ajuste aos mandamentos divinos e aos princípios cristãos, ora ao estabelecer as leis, ora ao administrar justiça, ora, finalmente, ao formar as almas dos jovens na sã doutrina e na retidão de costumes. É, além disso, maravilhosa a força e a virtude que da meditação destas coisas poderão tirar os fiéis para modelar seu espírito segundo as verdadeiras normas da vida cristã.

c) Para os fiéis

34. Porque, se a Cristo Nosso Senhor lhe foi dado todo poder no céu e na terra; se os homens, por haverem sido redimidos com seu sangue, estão sujeitos por um novo título a sua autoridade; se, enfim, esta potestade abraça toda a natureza humana, claramente se vê que não há em nós nenhuma faculdade que se subtraia a tão alta soberania. É, pois, necessário que Cristo reine na inteligência do homem, a qual, com perfeito acatamento, deve assentir firme e constantemente às verdades reveladas e à doutrina de Cristo; é necessário que reine na vontade, a qual deve obedecer às leis e preceitos divinos; é necessário que reine no coração, o qual, pospondo os afetos naturais, deve amar a Deus sobre todas as coisas, e só a Ele estar unido; é necessário que reine no corpo e em seus membros, que como instrumentos, ou, na frase do apóstol São Paulo, como armas de justiça para Deus[35], devem servir para a interna santificação da alma. Tudo isso, se se propõe à meditação e profunda consideração dos fiéis, não há dúvida de que estes se inclinarão mais facilmente à perfeição.

35. Faça o Senhor, veneráveis irmãos, que todos quantos se encontram fora de seu reino desejem e recebam o suave jugo de Cristo; que todos quantos por sua misericórdia somos já seus súditos e filhos levemos este jugo não de má vontade, mas com gosto, com amor e santidade, e que nossa vida, conformada sempre às leis do reino divino, seja rica em belos e abundantes frutos; para que, sendo considerados por Cristo como servos bons e fiéis, cheguemos a ser com Ele participantes do reino celestial, de sua eterna felicidade e glória.

Estes desejos que formulamos para a festa da Natividade de Nosso Senhor Jesus Cristo, sejam para vós, veneráveis irmãos, prova de nosso paternal afeto; e recebei a bênção apostólica, que em penhor dos divinos favores vos damos de todo coração, a vós, veneráveis irmãos, e a todo vosso clero e povo.

Dado em Roma, junto a São Pedro, em 11 de dezembro de 1925, ano quarto de nosso pontificado.

PÍO PP XI

Notas

[1] Ef 3,19.

[2] Dan 7,13-14.

[3] Núm 24,19.

[4] Sal 2.

[5] Sal 44.

[6] Sal 71.

[7] Is 9,6-7.

[8] Jer 23,5.

[9] Dan 2,44.

[10] Dan 7,13-14.

[11] Zac 9,9.

[12] Lc 1,32-33.

[13] Mt 25,31-40.

[14] Jn 18,37.

[15] Mt 28,18.

[16] Ap 1,5.

[17] Ibíd., 19,16.

[18] Heb 1,1.

[19] 1 Cor 15,25.

[20] In Luc. 10.

[21] 1 Pt 1,18-19.

[22] 1 Cor 6,20.

[23] Ibíd., 6,15.

[24] Conc. Trid., ses.6 c.21.

[25] Jn 14,15; 15,10.

[26] Jn 5,22.

[27] Hino Crudelis Herodes, no ofício de Epifania.

[28] Enc. Annum sacrum, 25 maio 1899.

[29] Hech 4,12.

[30] S. Agostinho, Ep. ad Macedonium c.3.

[31] Enc. Ubi arcano.

[32] 1 Cor 7,23.

[33] Enc. Annum sacrum, 25 maio 1899.

[34] Sermão 47: De sanctis.

[35] Rom 6,13.

A Destronização Litúrgica de Cristo Rei: Duas Festas, Duas Teologias

Este texto baseia-se nas ideias apresentadas no texto "Due date, due feste diverse: ottobre contro novembre 'Cristo Re'", de Peter Kwasniewski, em substack.com, e analisa criticamente a mudança da festa de Cristo Rei do calendário tradicional para o novo, defendendo que não se tratou de uma simples alteração de data, mas de uma profunda subversão teológica com consequências devastadoras para a Igreja e a sociedade. O abandono do Reinado Social de Cristo na liturgia reflete a apostasia mais ampla das nações que, ao rejeitarem o Seu jugo suave, abrem caminho para uma ordem mundial naturalista e anticristã.
 
🛡️A Defesa da Mudança e a Intenção Original de Pio XI

O texto inicia a sua análise crítica contrastando as duas datas da celebração de Cristo Rei: a tradicional, no último domingo de outubro, e a do Novus Ordo, no último domingo do ano litúrgico, em novembro. A crítica é enquadrada pela justificação de um padre, J. David Carter, que defende a mudança afirmando que a colocação original era "de alguma forma arbitrária", enquanto a nova data no final do ano litúrgico é "mais apropriada" para celebrar a vinda de Cristo na Sua glória para reinar. O artigo dedica-se a desmantelar completamente esta visão, demonstrando que a escolha original de Pio XI estava longe de ser arbitrária e que a mudança representou um enfraquecimento deliberado da doutrina do Reinado Social de Cristo.

Para compreender a profundidade da festa original, o texto recorre diretamente à encíclica Quas Primas de Pio XI. O Papa instituiu a festa no último domingo de outubro, imediatamente antes da Festa de Todos os Santos, com um propósito claro: sublinhar que a glória de Cristo, inaugurada na Sua missão terrena, é perpetuada na história através dos santos. A festa celebra, primariamente, "a realeza incessante de Cristo sobre toda a realidade, incluindo este mundo presente". O objetivo era insistir nos direitos de Jesus Cristo "aqui e agora" e nos correspondentes deveres dos homens e das nações na Terra. A encíclica é inequívoca ao afirmar que "todo o género humano está sujeito ao poder de Jesus Cristo" e que os governantes das nações, para conservarem a sua autoridade e promoverem a prosperidade, têm o "dever público de reverência e obediência ao governo de Cristo". Além disso, o texto aponta um contexto polémico crucial: o último domingo de outubro era celebrado há séculos como o "Domingo da Reforma" protestante. Instituir nesta data uma festa católica sobre a realeza universal de Cristo e a autoridade da Sua Igreja era uma aplicação direta e poderosa do princípio lex orandi, lex credendi, uma verdadeira contra-festa católica.

Esta intenção original não era apenas um ato de piedade, mas uma declaração política e teológica contra o avanço do laicismo e do naturalismo, que buscam relegar a religião à esfera privada e negar a autoridade de Cristo sobre a sociedade. A festa original era um chamado à militância católica, um lembrete de que a fé não pode ser divorciada da vida pública. A recusa em aceitar o Reinado Social de Cristo é, em última análise, uma rejeição do Plano Divino para a ordem, que exige que os Estados e as nações reconheçam a Igreja Católica como o único caminho estabelecido por Deus para o retorno ordenado dos seres humanos a Ele (Fahey, 1953, p. 9). A separação entre Igreja e Estado, celebrada pelo mundo moderno, é na verdade a entronização de um programa satânico que coloca todas as religiões no mesmo nível, incluindo "a perfídia judaica", e prepara o caminho para a apostasia nacional (Fahey, 1953, p. 12, 37).
 
🔄A Substituição de uma Festa por Outra: A Nova Teologia Escatológica

O ponto central da crítica do texto é que a festa não foi simplesmente movida; foi transformada e substituída. Citando diretamente o documento de Paulo VI, Calendarium Romanum, o autor salienta o uso da palavra latina loco, que significa "em vez de" ou "no lugar de". A Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo, do Novus Ordo, substitui a festa instituída por Pio XI. Esta substituição alterou o seu conteúdo teológico, diminuindo a importância do reinado social de Cristo e trocando-o por um "Cristo cósmico e escatológico", nas palavras do reformador litúrgico Pierre Jounel.

A nova localização, no final do ano litúrgico, confere à celebração um caráter predominantemente escatológico. A realeza de Cristo é apresentada como algo que, embora presente "como num mistério", só será plenamente manifestado no fim dos tempos. O texto denuncia que esta perspectiva "trai uma certa fraqueza diante do desafio da secularização moderna, bem como uma hesitação em relação a um percebido 'triunfalismo' da doutrina social católica tradicional". Em outras palavras, a realeza de Cristo torna-se aceitável desde que a sua realização seja adiada para o fim dos tempos e "não incida excessivamente na ordem política e social atual". O Reino de Nosso Senhor deixa de ser visto como "um fermento que entra e permeia a história", para se tornar um Deus ex machina no final dos tempos. O modelo deixa de ser o Rei São Luís IX e passa a ser o Ponto Ómega de Teilhard de Chardin.

Esta mudança para uma ênfase escatológica não é neutra; é uma concessão ao espírito do mundo, que odeia a reivindicação de Cristo sobre a ordem temporal. Ao adiar o Reinado de Cristo para o futuro, a nova liturgia implicitamente aceita a soberania do homem e do Estado no presente. Esta mentalidade é precisamente o que as forças organizadas do naturalismo, como a Maçonaria e o nacionalismo judaico, têm procurado impor desde a Revolução Francesa. O objetivo delas é "desarraigar completamente toda a ordem religiosa e política do mundo, que foi trazida à existência pelo Cristianismo, e substituí-la por outra em harmonia com o seu modo de pensar" (Fahey, 1953, p. 34). A nova festa, com sua teologia enfraquecida, torna-se, assim, cúmplice, ainda que passivamente, deste projeto de secularização.
 
📜A Evidência Litúrgica da Subversão Doutrinária

A prova mais contundente desta mudança de paradigma encontra-se nas alterações feitas à própria liturgia do dia. O texto detalha como referências diretas à realeza de Cristo sobre os Estados e os governantes foram sistematicamente suprimidas. A Coleta da missa de 1925 pedia a Deus que "todas as famílias das nações, laceradas pela ferida do pecado, sejam postas sob o seu governo amabilíssimo". A versão de 1969, que a substitui, desvia-se radicalmente deste pedido, rezando para que "toda a criação, liberada da escravidão, renda homenagem à vossa majestade e proclame incessantemente o vosso louvor". A ênfase muda do social e político para o cósmico e genérico.

A subversão torna-se ainda mais flagrante na Liturgia das Horas, onde versos inteiros do hino Te Saeculorum Principem foram simplesmente removidos. Os versos eliminados eram os que pediam explicitamente: "Que os governantes das nações Te exaltem com honra pública; Te adorem os governadores e os juízes, Te expressem as leis e as artes". Da mesma forma, foi retirado o pedido para que a "nossa pátria e as nossas casas" se submetam ao Seu "doce governo". Estas omissões não são acidentais; elas constituem, segundo o texto, uma "silenciosa negação da realeza de Cristo sobre nações, povos e governantes".

A remoção sistemática destas orações é a prova irrefutável de que a mudança litúrgica foi, de fato, uma mudança doutrinária. Ao eliminar o apelo explícito à submissão das autoridades civis e das estruturas sociais a Cristo Rei, a nova liturgia reflete a mentalidade liberal que o Papa Pio XI condenou, na qual "a religião de Cristo foi colocada no mesmo nível das falsas religiões e ignominiosamente inserida na mesma categoria que elas" (Fahey, 1953, p. 11). A Igreja, em sua oração pública, deixou de confrontar o mundo com a verdade integral do Reinado de Cristo, optando por uma linguagem inofensiva e vaga que não desafia o status quo secular. Este é o triunfo do naturalismo dentro do próprio santuário.
 
📉As Causas e Consequências da Destronização de Cristo

O texto atribui estas mudanças ao fato de o "aparente 'integralismo' do Papa Pio XI se ter tornado motivo de embaraço" para figuras progressistas como Montini (Paulo VI) e Bugnini. Eles haviam aderido à filosofia do secularismo e queriam garantir que a liturgia não celebrasse a autoridade de Cristo sobre a ordem sociopolítica. O resultado foi a promoção de um Cristo que é rei do "nível mais micro" (o coração) e do "nível mais macro" (o cosmos), mas não do que está no meio: "não rei da cultura, da sociedade, da indústria e do comércio, da educação, do governo civil". Para estas esferas intermédias, o novo credo passou a ser o grito ímpio: "não temos outro rei senão César".

As consequências desta destronização litúrgica são vistas como catastróficas, contribuindo para a "autodemolição da Igreja na Terra". A deturpação da doutrina social refletiu-se internamente: a própria Igreja, como consequência de documentos como a Dignitatis Humanae, tornou-se secularizada, passando a não poder "confessar Cristo inequivocamente como o único Salvador da humanidade" e a ajoelhar-se "diante de presidentes e parlamentos". A festa original de Pio XI, ainda celebrada no Rito Romano autêntico, proclama a verdade plena da Doutrina Social da Igreja, enquanto a festa reorganizada que a substituiu subverte essa mesma verdade. Conclui-se que a vitalidade na Igreja hoje se encontra onde os ritos tradicionais foram preservados, e que a festa original de Cristo Rei, em outubro, tornou-se a "festa titular... da Reconquista cultural e política agora nos seus primórdios".

A "autodemolição" mencionada é a consequência lógica e inevitável da apostasia social. Uma nação, ou mesmo a própria estrutura visível da Igreja, que se recusa a submeter-se a Cristo Rei, entrega-se ao caos e à desordem. A fraqueza da Igreja moderna diante do secularismo é o resultado direto de ter abandonado a sua missão de moldar a sociedade segundo o Plano Divino. Ao fazê-lo, ela não só falha em converter o mundo, mas também se torna vulnerável à infiltração das forças naturalistas que buscam a sua destruição. A destronização de Cristo na liturgia é o sintoma de uma doença mais profunda: a perda da fé na missão sobrenatural da Igreja de ser "senhora e guia de todas as outras sociedades" (Fahey, 1953, p. 13). A única esperança de restauração reside num retorno corajoso à proclamação integral dos direitos de Cristo Rei sobre cada alma, cada família e cada nação. A festa original de outubro é, portanto, mais do que uma data no calendário; é um estandarte de batalha para aqueles que se recusam a capitular perante o mundo moderno.
 
📚Referências
 
Fahey, D. (1953). The Kingship of Christ and The Conversion of the Jewish Nation. Dublin: Regina Publications.

terça-feira, 26 de agosto de 2025

O Dilema da Razão Moderna: Da Lógica à Vida Interior

O Trilema de C.S. Lewis, conhecido como o argumento "Lunático, Mentiroso ou Senhor", é uma defesa apologética da divindade de Jesus Cristo, apresentada em Cristianismo Puro e Simples. O argumento postula que as reivindicações de Jesus sobre Si mesmo, registradas nos Evangelhos, limitam as conclusões lógicas a apenas três possibilidades. Ele não poderia ser simplesmente um "grande mestre moral", pois as suas afirmações de ser Deus são demasiado radicais para tal. Se as suas reivindicações fossem falsas, Ele seria ou um lunático, por acreditar ser Deus sem o ser, ou um mentiroso, por enganar deliberadamente os outros. Se Ele não era nem lunático nem mentiroso, então a única alternativa restante é que Ele era exatamente quem afirmava ser: o Senhor. Assim, Lewis desafia o leitor a confrontar a identidade de Cristo, rejeitando a posição de neutralidade moral.

O espírito moderno, tendo perdido o rumo da fé, busca na razão humana a solução para os grandes mistérios da existência, inclusive a identidade de Nosso Senhor Jesus Cristo. Um desses esforços intelectuais, conhecido como o Trilema, propõe uma encruzilhada lógica: diante de Suas próprias palavras, Cristo só poderia ser um lunático, um mentiroso, ou de fato o Senhor. Embora tal exercício da razão possa servir de ponto de partida, ele apenas arranha a superfície de uma verdade muito mais profunda, uma verdade que a confusão de nossa época, infestada por doutrinas nefastas.

A questão central levantada pelo dilema "Lunático, Mentiroso ou Senhor" é a identidade de Jesus Cristo. Enquanto a argumentação lógica oferece um ponto de partida indispensável para a razão, a verdadeira compreensão de quem é Cristo transcende a apologética e mergulha no mistério da vida sobrenatural. Analisar a divindade de Cristo não é apenas um exercício intelectual, mas o portal para a vida interior, a união com Deus, que é o destino final da alma.

💡A Fundação da Fé: Para Além da Lógica Humana

A lógica do Trilema conduz a mente a uma encruzilhada inescapável. No entanto, a adesão à divindade de Cristo não se completa apenas com a certeza racional. Existe uma distinção fundamental entre a fé adquirida, que nasce do exame histórico e lógico, e a fé infusa, que é um dom essencialmente sobrenatural. A fé adquirida pode convencer o intelecto de que Cristo não era um mentiroso nem um lunático, mas apenas a fé infusa, um dom de Deus, pode introduzir a alma num mundo superior, permitindo-lhe aderir à verdade revelada não apenas como uma conclusão lógica, mas como a própria Palavra de Deus (Garrigou-Lagrange, 1989a, p. 52-54).

As palavras de Cristo não são meras proposições para análise, mas são "espírito e vida" (Garrigou-Lagrange, 1989a, p. 30). Elas comunicam uma realidade divina que só pode ser plenamente recebida através da graça. Portanto, o Trilema serve como um meio providencial para remover os obstáculos da razão, preparando o terreno para que a alma receba a luz da fé infusa. Sem esta graça, mesmo a mais brilhante conclusão lógica permanece estéril, incapaz de justificar e santificar a alma. A verdadeira fé não é apenas a ausência de dúvida racional, mas uma adesão viva e amorosa que transforma toda a existência.

🍇O Mistério da Encarnação e os Seus Frutos

A conclusão de que Jesus é o Senhor abre a porta para o mistério central do Cristianismo: a Encarnação. Ele não é apenas um ser divino distante, mas "o Verbo que se fez carne e habitou entre nós" (Garrigou-Lagrange, 1989a, p. 104). Esta verdade é a fonte de toda a vida interior. Cristo é a "videira verdadeira", e nós, os "ramos", que não podem dar fruto por si mesmos (Garrigou-Lagrange, 1989a, p. 109). A sua divindade não é um título honorífico, mas a causa eficiente da nossa salvação e santificação.

Da Sua plenitude, recebemos a vida da graça, que é uma participação na própria vida íntima de Deus (Garrigou-Lagrange, 1989a, p. 34). Ele é a Cabeça do Corpo Místico, comunicando a cada membro o influxo vital da graça através dos sacramentos, especialmente da Eucaristia (Garrigou-Lagrange, 1989a, p. 111-112). Portanto, aceitar Cristo como Senhor é reconhecê-Lo como a fonte da nossa vida sobrenatural, o manancial de "água viva que jorra para a vida eterna" (Garrigou-Lagrange, 1989a, p. 34). A lógica do Trilema, ao estabelecer a Sua identidade, aponta para esta realidade dinâmica: a união progressiva da alma com Cristo.

🙏A Humildade do Deus-Homem: O Paradoxo Divino

As opções "lunático" ou "mentiroso" perdem a sua força quando se contempla o mistério da humildade de Cristo. A Sua divindade não foi exercida com a arrogância de um tirano, mas com a humildade de um servo. Ele, "sendo de condição divina, [...] aniquilou-se a si mesmo, tomando a forma de servo" (Garrigou-Lagrange, 1989b, p. 127). Este ato de kenosis (esvaziamento) é o selo da autenticidade divina. Um lunático não possui tal coerência, e um mentiroso não se humilharia até à morte de cruz para sustentar uma falsidade.

A Sua vida foi a manifestação de um amor que se entrega totalmente, unindo a mais profunda humildade à mais alta magnanimidade (Garrigou-Lagrange, 1989b, p. 132). Ele não veio "para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos" (Garrigou-Lagrange, 1989b, p. 124). Esta união de opostos — majestade e humildade, poder e serviço — é a assinatura do divino. A Sua divindade é a divindade do Bom Pastor que dá a vida pelas Suas ovelhas. Contemplar este paradoxo dissolve a aparente força das alternativas propostas pelo Trilema e revela a sabedoria da Cruz, que é "escândalo para os judeus e loucura para os gentios, mas para os que são chamados [...] poder de Deus e sabedoria de Deus" (Garrigou-Lagrange, 1989b, p. 481).

🔥O Objetivo Final: A União Íntima com Cristo

O Trilema, em última análise, não é um fim em si mesmo, mas um convite. Aceitar Jesus como Senhor é o primeiro passo de uma jornada que deve conduzir à união íntima com Ele. A vida cristã não se resume a uma adesão intelectual, mas a uma transformação progressiva da alma, que passa por três idades espirituais: a via purgativa dos principiantes, a via iluminativa dos proficientes e a via unitiva dos perfeitos (Garrigou-Lagrange, 1989a, p. 225).

O objetivo final é a contemplação infusa dos mistérios de Cristo e a união de amor que dela resulta (Garrigou-Lagrange, 1989b, p. 280). Esta união não é um privilégio extraordinário, mas o desenvolvimento normal da vida da graça na alma que é fiel (Garrigou-Lagrange, 1989b, p. 319). Passa-se de uma meditação discursiva sobre quem é Cristo para uma contemplação amorosa, um "comércio de amizade" com Aquele que sabemos que nos ama (Garrigou-Lagrange, 1989a, p. 445). A lógica do Trilema estabelece o fundamento, mas a vida de oração, os sacramentos e a docilidade ao Espírito Santo constroem o edifício espiritual sobre essa rocha, que é Cristo, conduzindo a alma à união transformante, o prelúdio da vida eterna (Garrigou-Lagrange, 1989b, p. 527).

📚Referências

Garrigou-Lagrange, R. The three ages of the interior life: prelude of eternal life. Volume one. Rockford: TAN Books and Publishers, 1989a.
Garrigou-Lagrange, R. The three ages of the interior life: prelude of eternal life. Volume two. Rockford: TAN Books and Publishers, 1989b.