A história da Igreja, se você reparar bem, raramente é um desfile pacífico de homens iluminados trazendo reformas brilhantes. Na verdade, parece mais uma longa e teimosa queda de braço contra as velhas heresias, que passam os séculos tentando dissolver a unidade visível do Corpo Místico de Cristo. Aqueles famosos movimentos pré-reformadores dos lollardos, lá na velha Inglaterra, e dos hussitas, nas terras da Boêmia, são um capítulo que merece nossa desconfiada atenção. A turma costuma chamá-los de meros reformadores morais, coitados indignados com os abusos do clero. Mas o fato é que eles carregavam no bolso algumas sementinhas bem indigestas de doutrinas herdadas do catarismo medieval. Uma vez plantadas, essas ideias deram aos príncipes a desculpa intelectual perfeita para o regalismo - aquela velha mania de submeter a Igreja ao trono - e pavimentaram a estrada para o protestantismo do século XVI.
As origens no catarismo: dualismo, anticlericalismo e a rejeição à ordem sacramental
O catarismo, aquela teimosia dualista que deu muita dor de cabeça no sul da França entre os séculos XII e XIII, não sumiu do mapa só porque a cruzada albigense e a Inquisição apareceram para acabar com a festa. As ideias deles eram do tipo que se agarra feito carrapato. Eles achavam que o mundo material era obra de um deus perverso, torciam o nariz para os sacramentos como se fossem coisas materiais indignas, desprezavam a hierarquia e sonhavam acordados com uma Igreja espiritual feita apenas de gente muito pura, os tais perfecti. Essa conversa sobreviveu pelos porões da história, deu um empurrãozinho nos valdenses e acabou influenciando a dissidência no fim da Idade Média.
Aí entram em cena o senhor John Wycliffe, lá pelos idos de 1328 a 1384, conhecido como a estrela da manhã dos lollardos, e Jan Hus, o sujeito que agitou os hussitas na Boêmia. Eles não estavam apenas resmungando contra a corrupção. Wycliffe, por exemplo, olhava para a Eucaristia e dizia que era só pão e vinho, negando a transubstanciação. Ele também achava que a autoridade do papa sumia no ar se o homem estivesse em pecado mortal. Além disso, inventou que cada um poderia interpretar a Escritura por conta própria - um embrião da sola scriptura - e exigia que o clero fosse absolutamente pobre, sugerindo, de forma bastante conveniente para os políticos da época, que o governo confiscasse os bens da Igreja. Seus seguidores, os tais murmuradores, espalhavam Bíblias na língua do povo e atiravam pedras no sacerdócio, nas indulgências, nas imagens e nas peregrinações.
Hus, que andou lendo Wycliffe na Universidade de Praga, resolveu apimentar ainda mais a receita na Boêmia. Ele gritava contra a simonia e exigia que os leigos bebessem do cálice na comunhão. O pior, no entanto, era sua ideia de que a Igreja visível era apenas um clube de predestinados, onde a autoridade de alguém dependia de quão santo ele parecia ser. Isso, meu caro leitor, é o velho donatismo de cara nova, misturado com aquela separação cátara entre o espiritual e o material, minando completamente a instituição sacramental.
É claro que você não vai encontrar um contrato assinado passando a herança do catarismo para o lollardismo, mas qualquer um com olhos abertos nota a semelhança de família. O ódio ao clero, o desdém pelos sacramentos visíveis, a obsessão por uma Igreja invisível e aquele espiritualismo vago que sempre acaba pedindo socorro ao poder secular. O catarismo detestava a matéria; seus sucessores, mesmo sem falar em deuses maus, fizeram o favor de enfraquecer a mediação dos sacramentos da mesma exata maneira.
O regalismo como fruto prático: a Igreja subjugada ao poder temporal
Um dos resultados mais desastrosos de toda essa confusão foi a musculatura que o regalismo ganhou. Essa é a curiosa doutrina que convence o rei de que ele tem o direito sagrado de dar palpites nos negócios eclesiásticos, meter a mão nos bens alheios e até escolher quem vai ser bispo. Wycliffe disse com todas as letras que os nobres deviam confiscar as propriedades da Igreja. Não é de se espantar que lollardos e hussitas logo arranjassem a amizade de príncipes que já não iam muito com a cara do papa e olhavam com cobiça para as riquezas dos mosteiros.
Na Boêmia, a coisa saiu do controle e a revolução hussita virou uma guerra civil amarga. Havia facções que levaram o negócio tão a sério que acabaram brincando de comunismo e quebrando imagens nas igrejas. Eles forçaram a aprovação do cálice para os leigos na base da espada, negociando com o Concílio de Basileia. O estrago estava feito: a Igreja se viu negociando com hereges sob ameaça militar. Era o ensaio geral para o que viria a seguir, quando monarcas como Henrique VIII ou os príncipes alemães usariam a palavra reforma como desculpa para engolir a religião. O protestantismo nasceu, em grande parte, desse abraço apertado entre teólogos descontentes e políticos gananciosos - exatamente o roteiro que Wycliffe e Hus deixaram pronto.
A semente do protestantismo: da heresia medieval à fragmentação moderna
Se a gente olhar para os fatos sem romantismo, o protestantismo nunca foi uma redescoberta luminosa do Evangelho. Foi apenas a colheita do que aqueles dois plantaram. Sujeitos como Lutero, Zwinglio e Calvino beberam da mesma água turva: a ideia de que a Escritura funciona muito bem sozinha sem a Tradição, a recusa em ouvir a autoridade papal, os ataques à Missa e o péssimo hábito de pedir aos políticos que resolvessem questões teológicas. Os lollardos ficaram escondidos nas sombras até o anglicanismo adotá-los de braços abertos, e os hussitas mais calmos acabaram inspirando a turma da Morávia, preparando o clima na Europa Central para a explosão do século XVI.
A verdadeira tragédia, no fim do dia, foi rasgar a unidade. O que começou com algumas pessoas apontando o dedo para abusos reais da Idade Média descambou rapidamente para a heresia de manual. Destruíram a fé de muita gente, patrocinaram guerras intermináveis e pavimentaram uma larga avenida para o racionalismo, o liberalismo e o mundo secular que temos hoje. A Igreja, guiada pelo Espírito Santo, condenou esses erros no Concílio de Constança em 1415, mantendo a casa em ordem. Os verdadeiros heróis foram aqueles que resistiram ao canto da sereia dessa reforma humanista, e não os teimosos que acabaram na fogueira por pura obstinação.
Uma pequena lição para os nossos tempos
No fim das contas, a lição que tiramos dessa confusão toda é bem simples. O reformador que presta não é aquele que arruma as malas e abandona a Tradição apostólica. O reformador de verdade é como os velhos santos da Contra-Reforma - pense num Inácio de Loyola ou num Pio V - que limpam a casa sem se mudar dela. O catarismo, com sua ojeriza ao mundo palpável, e esses pré-reformadores, com seu hábito de ler a Bíblia como se fosse um diário estritamente pessoal, abriram a porteira para um cristianismo subjetivo e estatal que, mais cedo ou mais tarde, sempre deságua nesse modernismo e na indiferença religiosa que vemos por aí.
Que Nossa Senhora, Mãe da Igreja, tenha a bondade de nos proteger das heresias de ontem e de hoje, e que a unidade católica, erguida firmemente sobre Pedro, continue de pé e sem rachaduras até o último apagar das luzes deste mundo.