sábado, 4 de julho de 2026

A contradição da igreja sinodal: muito diálogo, menos com os católicos, muito menos com a FSSPX

Se você parar um minuto para observar a atual administração daquilo que se apresenta ao mundo como a Igreja Católica, sob Francisco e os cavalheiros que o antecederam desde o concílio, vai notar uma situação formidável, ainda que um tanto melancólica: a velha cadeira de São Pedro encontra-se indiscutivelmente vazia. Aquele modernismo, que São Pio X nos avisou solenemente para manter do lado de fora, não apenas entrou pela porta da frente, como trocou as fechaduras e assumiu a gerência. A enxurrada de excomunhões e castigos disciplinares contra a Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX) é um dos sintomas mais luminosos dessa contradição e, para quem ainda tem olhos para ver, o retrato falado de uma apostasia que virou instituição.

Essa tal igreja sinodal adora bater no peito para anunciar o quanto é aberta, misericordiosa e fã de um bom bate-papo. Na prática, porém, ela demonstra uma ferocidade de dar inveja quando lida justamente com aquelas pessoas que insistem em defender a fé do mesmíssimo jeito que ela foi ensinada por dois mil anos. Enquanto dobram os joelhos numa ginástica diplomática para agradar o mundo, eles guardam as bengalas mais pesadas - aquelas mesmas que, na teoria, eles detestam e chamam de rigoristas - para descer no lombo dos últimos sujeitos que ainda defendem a Tradição.

Duas medidas e dois pesos

É impossível não soltar uma risada amarga diante da disparidade do tratamento. Roma vive metida em acordos secretos com o regime comunista chinês, deixando que o Partido escolha os bispos, garantindo que os candidatos sejam fiéis à cartilha deles, e não necessariamente aos Evangelhos. Eles justificam essa rendição ao ateísmo de Estado em nome de um bem maior e de uma tal presença pastoral. Os anos de escândalo vão se empilhando no canto da sala, e ninguém move uma palha para resolver.

Enquanto isso, lá na Alemanha, a caminhada sinodal deles promove à luz do dia a completa subversão da moral sexual, a ordenação de mulheres, a bênção de arranjos que a Bíblia desaprova e uma nova teoria que basicamente dissolve a autoridade petrina. Teólogos e bispos alemães desafiam o depósito da fé na cara dura e, no máximo, recebem uns puxões de orelha tão suaves que parecem carinhos. O Vaticano prefere o caminho do acompanhamento e das conversas fraternas. A paciência deles, nesse caso, é mais infinita que o mar.

Não faz muito tempo, autorizaram a bênção pastoral de casais em situações irregulares, incluindo uniões do mesmo sexo. A história oficial que eles contam para dormir é que a doutrina não mudou, mas a prática do dia a dia grita exatamente o oposto. O cheiro daquela fumaça de Satanás, que Paulo VI mencionou, está ficando tão espesso que já arde nos olhos.

Ao mesmo tempo, essa mesma Roma dialoga com um entusiasmo contagiante com protestantes, ortodoxos, judeus, muçulmanos e até com quem não crê em nada. Eles constroem pontes e celebram a fraternidade universal. Mulheres que fazem campanha pelo aborto ganham cadeiras de honra na Cúria. Políticos que assinam leis terríveis e promovem todo tipo de heresia entram na fila da comunhão sem que ninguém levante uma sobrancelha - e se algum padre tentar aplicar a velha lei da Igreja, é logo carimbado como um sujeito sem misericórdia.

Mas, meu amigo, quando o assunto é a FSSPX - que, perdoe-me a franqueza, com todos os seus defeitos e sua situação irregular, ainda tenta manter viva a Missa de sempre, o catecismo antigo e a doutrina que não muda -, aí a paciência evapora como gota d'água em chapa quente. A velha excomunhão de 1988 continua sendo sacada do bolso como um revólver carregado. As restrições, a eterna desconfiança e a recusa em dar-lhes paz sem que primeiro dobrem a espinha ao Concílio Vaticano II e ao novo rito mostram a verdadeira face do negócio: eles não estão atrás de unidade na verdade, mas de uniformidade no erro. Quem guarda a fé dos avós é o inimigo que precisa ser silenciado.

O uso cínico da velha artilharia

Há um cinismo refinado em tudo isso. Essa estrutura conciliar passou décadas desmontando as antigas defesas da Igreja: jogaram o Index de livros proibidos no lixo, transformaram o direito canônico numa gelatina e converteram o Santo Ofício num departamento mais preocupado com o clima e com discurso de ódio do que com heresias reais. Contudo, quando a conveniência bate à porta, eles correm lá no porão e tiram o pó das antigas armas jurídicas - excomunhão, suspensão - para atirar naqueles que rejeitaram suas novidades.

É a velha regra do jogo: contra o inimigo, vale tudo. Esse modernismo, que engorda comendo ambiguidades, não tem o menor pudor em usar as estruturas da velha Igreja como escudo. Isso não é só um tropeço administrativo. É a prova cabal de que o gerente que administra esse estabelecimento já não é o Espírito Santo, mas um espírito de outra vizinhança.

Os fiéis como os únicos intoleráveis

A verdade nua e crua é que, nessa igreja sinodal, sempre tem um lugarzinho à mesa para qualquer um - exceto para o católico que se recusa a participar da liquidação da própria fé. Aqueles que se agarram à Sagrada Escritura lida conforme o ensino dos Papas antigos são tratados como leprosos espirituais. Para eles não há diálogo, acompanhamento ou um pingo de misericórdia. O cardápio oferece apenas vigilância, marginalização e, se der sorte, uma eliminação canônica completa.

Essa severidade seletiva não é obra do acaso. Ela escancara o projeto dessa turma: fundar uma religião novinha em folha que veste as roupas da Igreja Católica só para poder destruir a mobília com mais facilidade. Qualquer observador atento enxerga aí a realização daquela velha profecia de São Paulo sobre o homem do pecado que se acomoda confortavelmente no templo de Deus. Não estamos assistindo a uma briguinha entre conservadores e progressistas no mesmo quintal. Estamos vendo duas religiões diferentes se encarando: a velha fé apostólica contra um novo humanismo de fachada.

A necessidade de enxergar claro

As pessoas de boa vontade que ainda tentam se equilibrar nessa estrutura moderna precisam encarar os fatos sem contar mentiras para si mesmas. Esse ódio cirúrgico contra os que defendem a Tradição não nasce do zelo pela unidade, mas do mais puro pavor de ter por perto uma testemunha viva da fé intacta. Enquanto esmagam o chamado rigorismo, deixam as portas escancaradas para os ventos do mundo entrarem.

A única atitude que faz sentido para um sujeito coerente é reconhecer que a cadeira está desocupada, agarrar-se à fé exatamente como ela nos foi entregue e esperar que o Bom Deus resolva essa confusão quando achar oportuno. Isso não é rebeldia, é pura e simples lealdade. Ser excomungado por essa turma apenas por defender a Missa de sempre é, por incrível que pareça, o melhor diploma de autenticidade católica que um homem pode receber nestes tempos sombrios.

Que Nossa Senhora, que jamais permitiu que uma única gota de adulteração manchasse sua fé incontaminada, interceda por nós e não demore a trazer o triunfo de seu Imaculado Coração.