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quinta-feira, 4 de junho de 2026

✧ Cardeal McElroy remove Exorcista por dizer que demônios se disfarçam de alienígenas ✧ Mais um sinal da mentalidade naturalista na Igreja modernista

McElroy, conhecido por sua heterodoxia sobre homossexualidade e outras questões, afirmou que os comentários do Monsenhor Stephen Rossetti sobre demônios e alienígenas 'minam gravemente' o ensino católico (fonte).

A recente decisão do cardeal Robert McElroy de remover Monsenhor Stephen Rossetti da função de exorcista da Arquidiocese de Washington e romper os vínculos da arquidiocese com o Saint Michael Center for Spiritual Renewal revela, mais uma vez, a crescente influência de uma mentalidade naturalista dentro de setores da hierarquia eclesiástica.

A decisão do cardeal McElroy e o afastamento do exorcista

Segundo a notícia divulgada em 4 de junho de 2026, Monsenhor Rossetti foi afastado após afirmar que demônios podem se disfarçar sob a aparência de alienígenas ou fenômenos associados aos chamados OVNIs. O cardeal McElroy justificou sua decisão alegando que tais declarações "minam gravemente o ensinamento muito preciso da Igreja sobre o diabo, demônios e exorcismo".

A tradição católica e as manifestações demoníacas

Contudo, sob a ótica da tradição católica, a questão central não é saber se determinados fenômenos são necessariamente demoníacos, mas reconhecer que os espíritos malignos possuem a capacidade de enganar os homens mediante aparências sensíveis e manifestações extraordinárias.

Desde as páginas do Gênesis, a Sagrada Escritura apresenta Satanás utilizando uma forma visível para seduzir o homem. A serpente do Éden não constitui precisamente um exemplo de uma manifestação adaptada à percepção humana? Ao longo de toda a tradição cristã, encontramos relatos de ilusões diabólicas, aparições enganosas, falsos prodígios e fenômenos destinados a desviar as almas da verdade.

sábado, 4 de outubro de 2025

A Luz Eterna da Sabedoria: O Chamado Perene de Leão XIII à Sanidade Filosófica (sobre o naturalismo prático denunciado na encíclica Aeterni Patris)

A encíclica Aeterni Patris, promulgada pelo Papa Leão XIII em 1879, representa um marco na história intelectual da Igreja Católica. Diante de uma modernidade marcada por sistemas filosóficos que conduziam ao ceticismo, ao materialismo e ao racionalismo, o documento apresenta um diagnóstico claro e uma solução vigorosa: a restauração da filosofia cristã, tendo como mestre e guia seguro Santo Tomás de Aquino. A encíclica argumenta que a filosofia moderna, ao divorciar a razão da fé, produziu "frutos venenosos", gerando desordem não apenas no campo do saber, mas também na vida social e moral. Em contrapartida, a filosofia tomista é apresentada como um baluarte da verdade, um instrumento capaz de demonstrar os preâmbulos da fé, defender os dogmas contra os erros e ordenar o conhecimento humano em harmonia com a revelação divina. Leão XIII exorta bispos, clérigos e acadêmicos a "restaurar a áurea sabedoria de Tomás e propagá-la o mais longe possível", não como um sistema fechado, mas como um manancial de princípios sólidos e perenes capazes de iluminar os desafios de qualquer época. O documento conclui com um apelo à união de esforços para que a sã doutrina filosófica possa novamente florescer, servindo como fundamento para a teologia e como guia seguro para a cultura.

🌪️O Diagnóstico de uma Enfermidade Moderna: O Naturalismo Prático

A encíclica Aeterni Patris identifica a raiz dos males modernos na separação entre fé e razão, uma cisão que levou a filosofia a confiar presunçosamente em suas próprias forças, resultando em contradição e ceticismo (Leão XIII, 1879). Essa autonomia orgulhosa do intelecto é o reflexo, no campo filosófico, daquilo que na vida espiritual se manifesta como "naturalismo prático". Trata-se da tentativa de organizar a vida sem Deus, ou, mais sutilmente, sem a necessidade de Sua graça interior para curar e elevar a natureza ferida (Garrigou-Lagrange, 1989, v. 1, p. 275). Assim como a filosofia moderna buscou uma autossuficiência que a conduziu ao erro, a alma que vive segundo o espírito da natureza, confiando em suas próprias luzes e forças, acaba por julgar as coisas divinas de um ponto de vista inferior, caindo naquilo que as Escrituras chamam de "loucura espiritual" (Garrigou-Lagrange, 1989, v. 1, p. 356). A desordem social e moral denunciada na encíclica é, em última análise, o fruto de almas desordenadas, cujo intelecto, não purificado pela fé, torna-se presa da curiosidade, do orgulho e da cegueira espiritual.

🏗️O Remédio Tomista: Para Além da Filosofia, Rumo à Santidade

Ao propor a restauração do tomismo, a intenção não é meramente acadêmica. A filosofia de São Tomás de Aquino é apresentada como um remédio porque oferece a estrutura intelectual que corresponde à realidade do ser humano e à sua ordenação a um fim sobrenatural. Para a vida interior, isso se traduz na necessidade de "firmeza de princípios" (Garrigou-Lagrange, 1989, v. 1, p. v). Sem uma metafísica sólida que reconheça a contingência da criatura e a absoluta transcendência de Deus, a alma dificilmente se abrirá à humildade, que é o fundamento de todo o edifício espiritual. O tomismo, ao estabelecer a distinção real entre essência e existência em tudo o que não é Deus, fornece a base racional para a compreensão do mistério da criação ex nihilo e, consequentemente, para o ato de humildade que reconhece: "Eu sou Aquele que é; tu és aquela que não é" (Garrigou-Lagrange, 1989, v. 1, p. 106). Assim, a restauração da sã filosofia não é um fim em si mesma, mas um meio indispensável para purificar o intelecto, ordenando-o à verdade e preparando-o para receber a luz superior da fé.

✨A Harmonia entre Fé e Razão: A Purificação do Intelecto

Aeterni Patris insiste que a fé não destrói a razão, mas a aperfeiçoa, elevando-a e protegendo-a do erro (Leão XIII, 1879). Na vida espiritual, esse princípio se concretiza na purificação ativa do intelecto. A razão humana, ferida pelo pecado original, tende à curiosidade vã, à presunção e à cegueira espiritual. A virtude da fé, portanto, não atua apenas como um conjunto de verdades a serem cridas, mas como um princípio de purificação (Garrigou-Lagrange, 1989, v. 1, p. 359). O "espírito de fé" consiste em julgar todas as coisas — a nós mesmos, ao próximo, aos acontecimentos — sob a luz da revelação. Esse exercício contínuo de submeter o juízo próprio à autoridade de Deus revelador é a verdadeira mortificação do intelecto. É o que permite à alma passar de uma visão horizontal das coisas, imersa no tempo, para uma visão vertical que as conecta ao instante imóvel da eternidade (Garrigou-Lagrange, 1989, v. 1, p. 346). A razão, assim purificada e elevada pela fé, torna-se dócil às inspirações dos dons do Espírito Santo, especialmente os de entendimento e sabedoria, que a conduzem a uma penetração viva e saborosa dos mistérios divinos, que é a contemplação infusa (Garrigou-Lagrange, 1989, v. 2, p. 313).

🌳Os Frutos da Verdadeira Filosofia: Ordem na Alma e na Sociedade

A encíclica sublinha que a restauração da filosofia tomista traria grandes benefícios para a sociedade, promovendo a ordem, a justiça e a paz (Leão XIII, 1879). Essa paz exterior, contudo, é reflexo da "tranquilidade da ordem" que deve reinar primeiro na alma. O amor-próprio desordenado é a causa de toda desunião, pois leva o homem a buscar bens materiais que dividem, em vez de bens espirituais que unem (Garrigou-Lagrange, 1989, v. 1, p. 141). Uma filosofia que não ordena o homem a Deus, seu Fim Último, inevitavelmente o deixará cativo de seu egoísmo. Ao contrário, uma filosofia realista e teocêntrica, como a tomista, ao mostrar a hierarquia dos bens, educa a vontade para que ela se conforme à vontade divina. O fruto último da sã filosofia, portanto, não é apenas uma sociedade mais justa, mas almas que, tendo seus intelectos e vontades purificados, caminham na via da perfeição, cuja meta é a união íntima com Deus, prelúdio da vida eterna.

📚Referências

GARRIGOU-LAGRANGE, R. The Three Ages of the Interior Life. 2 vols. Rockford: TAN Books, 1989.

quarta-feira, 10 de setembro de 2025

A Filiação Divina em Xeque: Uma Análise da Fraternidade Universal Pós-Conciliar

O texto submetido para análise é uma crítica a uma mensagem de Papa Leão XIV, que celebra um encontro inter-religioso e promove uma "cultura de harmonia" fundamentada na ideia de que todos os seres humanos são "filhos de Deus e, portanto, irmãos e irmãs". O autor do texto refuta veementemente esta premissa, argumentando que a filiação divina não é uma condição natural, mas um dom sobrenatural concedido através da fé e da adoção em Cristo. Ele sustenta que todos os homens são criaturas, mas apenas aqueles que acolhem Cristo se tornam filhos de Deus. O autor identifica a origem teológica desta "confusão entre o natural e o sobrenatural" nos documentos do Concílio Vaticano II, especificamente na ambiguidade da declaração de Gaudium et Spes 22, que afirma que "pela Sua Encarnação, o Filho de Deus uniu-se de certo modo a cada homem". A crítica central é que esta visão conciliar esvazia a necessidade da evangelização e da Igreja, promovendo uma fraternidade universal naturalista em detrimento da filiação sobrenatural.

A promoção de uma fraternidade universal, baseada numa dignidade humana comum supostamente revelada e confirmada pela Encarnação de Cristo, tornou-se um pilar do discurso eclesial contemporâneo. No entanto, esta ênfase suscita questões teológicas cruciais sobre a distinção entre a ordem natural da criação e a ordem sobrenatural da redenção. Uma análise aprofundada, à luz de uma hermenêutica crítica do Concílio Vaticano II, revela que esta noção de fraternidade pode representar um desvio antropológico que redefine a própria natureza da salvação e a missão da Igreja no mundo.

🧬A Distinção Fundamental: Criatura versus Filho por Adoção
A doutrina católica perene estabelece uma distinção clara e insuperável entre ser criatura de Deus e ser filho de Deus. Todos os homens, sem exceção, são criaturas, feitos "à imagem e semelhança de Deus" (Gn 1, 26). Esta condição confere uma dignidade natural intrínseca a cada pessoa. Contudo, a filiação divina é de uma ordem completamente diferente: é um dom sobrenatural, uma participação na filiação única e eterna do Verbo. Como ensina o Prólogo do Evangelho de São João, é àqueles que O receberam que Cristo "deu o poder de se tornarem filhos de Deus" (Jo 1, 12).

Esta filiação não é, portanto, um direito de nascença da natureza humana, mas o fruto da graça redentora. Trata-se de uma adoção que nos insere no Corpo Místico de Cristo, tornando-nos filhos no Filho. Confundir o plano da criação com o da redenção, afirmando que todos os homens são "filhos de Deus" por natureza, é dissolver o caráter gratuito e sobrenatural da graça e, consequentemente, a necessidade da fé e do Batismo para a salvação.

📖O Novo Humanismo Conciliar e a Reinterpretação da Encarnação
A fonte desta ambiguidade moderna pode ser rastreada até uma nova antropologia promovida durante o Concílio Vaticano II, cujo epicentro se encontra na constituição pastoral Gaudium et Spes. A afirmação de que "pela Sua Encarnação, o Filho de Deus uniu-se de certo modo a cada homem" (Gaudium et Spes, 22) tornou-se a pedra angular de um novo humanismo (Calderón, 2010, p. 19). Embora esta frase possa admitir uma interpretação ortodoxa — no sentido de que a Encarnação tornou a salvação objetivamente possível para todos —, ela foi instrumentalizada para fundamentar uma nova teologia.

Nesta nova perspectiva, a Encarnação não é primariamente o ato pelo qual Deus assume uma natureza humana para redimir os que crêem, mas o evento que revela a cada homem a sua própria dignidade e valor intrínseco. Cristo torna-se o revelador do homem para o próprio homem. A consequência é uma inversão radical: o foco desloca-se da necessidade de o homem se converter a Cristo para a ideia de que Cristo, ao encarnar, já confirmou e elevou a condição de todo homem. Assim, a "união de certo modo" passa de uma possibilidade de salvação a um fato consumado que confere a todos uma espécie de divinização imanente (Calderón, 2010, p. 122-124).

🕊️Da Missão Evangelizadora ao Diálogo pela Harmonia Humana
Esta mudança antropológica acarreta uma redefinição profunda da missão da Igreja. Se a dignidade e uma certa união com Cristo já são um dado adquirido para toda a humanidade, o imperativo missionário de "ir e fazer discípulos de todas as nações, batizando-os" (Mt 28, 19) perde a sua urgência soteriológica. A missão da Igreja deixa de ser primariamente a de chamar os homens das trevas do pecado e da incredulidade para a luz admirável da filiação divina em Cristo.

Em seu lugar, surge um novo paradigma: o diálogo inter-religioso e a colaboração com todos os homens de "boa vontade" para a construção de um mundo mais justo e fraterno. A Igreja passa a se ver como "sacramento ou sinal da união íntima com Deus e da unidade de todo o gênero humano" (Lumen Gentium, 1). O objetivo principal torna-se a promoção de uma "cultura de harmonia", onde os valores comuns a todas as religiões e filosofias são exaltados. A evangelização, neste contexto, é frequentemente rebaixada à categoria de "proselitismo" indesejado, e a verdade única de Cristo é ofuscada em favor de uma unidade que se fundamenta na fraternidade natural e não na fé comum (Calderón, 2010, p. 75).

🏛️Conclusão: A Religião do Homem e a Nova Fraternidade
A insistência numa fraternidade universal que pressupõe uma filiação divina natural para todos os homens representa a expressão pastoral daquilo que pode ser definido como a "religião do homem" (Calderón, 2010, p. 128). Trata-se de um humanismo que, embora se revista de linguagem cristã, subordina o sobrenatural ao natural e a verdade revelada à consciência humana. Nesta visão, a importância de Jesus Cristo reside menos em ser o único Salvador cuja graça é necessária para a filiação, e mais em ser o modelo do "homem perfeito" que revela a grandeza da própria humanidade. A fraternidade celebrada não é a comunhão dos santos, unidos pela mesma fé e graça no Corpo de Cristo, mas uma solidariedade terrena que encontra em si mesma o seu próprio fim e justificação.

📜Referências
Calderón, Álvaro. Prometeo: La Religión del Hombre. Ensayo de una hermenéutica del Concilio Vaticano II, 2010.

sábado, 6 de setembro de 2025

A Batalha das Duas Cidades na Perseguição Cristã Contemporânea

O artigo "Faith under Fire", de Greg Maresca, aborda a crescente perseguição aos cristãos, com foco particular nos católicos, nos Estados Unidos e no mundo. O autor inicia citando um massacre recente em uma igreja em Minneapolis e estatísticas de ataques a igrejas nos EUA em 2023, incluindo vandalismo, incêndios criminosos e agressões. Globalmente, menciona a perseguição legal no Egito e na Índia, bem como a violência genocida na Nigéria e os ataques do ISIS em Moçambique. Maresca contrasta a violência física no exterior com a "erosão gradual" da liberdade religiosa na América, que ocorre por meio de mudanças legais, culturais e institucionais. Ele atribui essa hostilidade à "Esquerda Radical", cuja agenda, segundo ele, é um "veneno para a liberdade", hostil à verdade e uma ameaça aos direitos dados por Deus, visando minar os "fundamentos bíblicos" da nação. O texto conclui que a América está em uma "batalha espiritual pela alma da nação" e conclama os cristãos a se engajarem ativamente na defesa da fé, da família e da liberdade, afirmando que o silêncio equivale à cumplicidade.

O panorama de hostilidade e violência contra a fé cristã, detalhado com dados alarmantes (Maresca, 2024), não deve ser interpretado como um fenômeno político isolado ou recente. Pelo contrário, representa a manifestação visível e aguda de uma guerra espiritual e histórica que atravessa os séculos: o conflito entre as duas cidades, a Cidade de Deus e a Cidade do Homem (Meinvielle, 1970, p. 11). A perseguição, seja ela física e brutal ou cultural e subversiva, é uma consequência lógica do avanço de uma tradição antagônica à ordem católica, que hoje se manifesta sob a forma de ideologias secularistas e revolucionárias.

📜A Natureza do Inimigo: A Tradição Gnóstico-Cabalística

O que é descrito como a "Esquerda Radical" (Maresca, 2024) é, em sua essência, o veículo contemporâneo de uma corrente de pensamento muito mais antiga e profunda: a tradição gnóstico-cabalística. Esta tradição, em sua forma pervertida, constitui uma inversão fundamental da ordem revelada. Enquanto a tradição católica se baseia em um Deus pessoal e transcendente que cria o mundo ex nihilo, a tradição gnóstica propõe um "deus" impessoal e imanente, uma espécie de Ein-Sof ou "Nada" que evolui e se realiza no próprio mundo e no homem (Meinvielle, 1970, p. 75, 235).

Esta visão de mundo nega a distinção ontológica entre Criador e criatura, entre o sagrado e o profano, entre a natureza e a graça. Consequentemente, o objetivo não é a salvação da alma por meio da graça de Cristo, mas a "autossalvação" do homem através do conhecimento (gnose) de sua própria divindade imanente (Meinvielle, 1970, p. 141, 240). A hostilidade à verdade e aos "fundamentos bíblicos" mencionada no artigo original é, portanto, uma necessidade metafísica para esta tradição, pois a ordem católica, com seu Deus transcendente e sua moral objetiva, é o principal obstáculo à divinização do homem e à construção de uma cidade puramente terrena.

🏛️O Mecanismo da Subversão: Secularização como Projeto Gnóstico

A "erosão gradual" da liberdade religiosa na América, através de mudanças legais e culturais (Maresca, 2024), é a tática principal desta tradição em tempos modernos. Este processo, conhecido como secularização, não é um desenvolvimento neutro, mas um projeto ativo de "redivinização" do mundo e do homem (Voegelin, 2024 apud Meinvielle, 1970, p. 281). O objetivo é criar uma sociedade de dimensão única, onde o sagrado é absorvido pelo profano, a Igreja pelo mundo, e a graça pela natureza.

Neste contexto, a pressão para que hospitais católicos ofereçam abortos ou a remoção de símbolos religiosos de espaços públicos não são meras disputas políticas. São movimentos estratégicos para apagar a presença da ordem transcendente da vida pública, estabelecendo o homem e suas construções (o Estado, a cultura de massas, a revolução) como a única realidade normativa. Trata-se da construção de uma "cristandade laica" ou, mais precisamente, de uma "Anticristandade", onde a Igreja é tolerada apenas na medida em que se torna serva dos objetivos do mundo secularizado (Meinvielle, 1970, p. 388-390).

👁️Os Agentes Históricos da Revolução Anticristã

Esta tradição gnóstico-cabalística não é uma abstração, mas uma força histórica com agentes concretos. Sua origem, em sua forma pervertida, pode ser rastreada até a corrupção da revelação original por influências pagãs e esotéricas, culminando na Cábala judaica pós-cristã, que se tornou um instrumento de oposição à Igreja (Meinvielle, 1970, p. 110, 165). Ao longo da história, esta corrente se manifestou através de diversas heresias (gnosticismo, maniqueísmo, catarismo) e sociedades secretas, como os Templários em sua fase decadente e, mais tarde, a Maçonaria, que se tornou o grande veículo para a destruição da civilização cristã (Meinvielle, 1970, p. 29, 109).

As ideologias modernas, desde o idealismo alemão até o comunismo e o progresismo contemporâneo, são as herdeiras diretas deste projeto. Elas representam a transposição para o plano filosófico, político e social da mesma teogonia gnóstica: um "deus" que se faz na história, um homem que se diviniza através da revolução, e uma cidade terrena que substitui o Reino dos Céus. A luta, portanto, não é apenas contra uma ideologia política, mas contra uma contra-igreja organizada que busca o governo mundial (Meinvielle, 1970, p. 286).

🔥A Batalha Final: A Escolha Entre Duas Cidades

A análise dos fatos apresentados (Maresca, 2024) confirma que estamos, de fato, em meio a uma batalha espiritual decisiva. No entanto, o conflito é mais profundo do que uma simples luta por "valores americanos". É a manifestação contemporânea da luta escatológica entre a Cidade de Deus, representada pela Igreja Católica fiel, e a Cidade do Homem, animada pela tradição gnóstico-cabalística. A escolha não é entre direita e esquerda, mas entre a submissão ao Deus transcendente de Cristo e a autolatria do homem divinizado.

Neste cenário, a apatia e o silêncio são, de fato, formas de cumplicidade. A defesa da fé, da família e da liberdade exige mais do que uma ação política no dia da eleição; exige a compreensão da natureza teológica e histórica do inimigo e a adesão integral à única tradição que oferece a verdadeira salvação: a tradição católica. O fundamento que está rachando não é apenas o de uma nação, mas o da própria Cristandade, e a resposta deve estar à altura do desafio.

📚Referências

MARESCA, Greg. Faith under fire. The Remnant, 2024. Disponível em: https://remnantnewspaper.com/web/index.php/headline-news-around-the-world/item/7909-faith-under-fire
MEINVIELLE, Julio. De la Cábala al progresismo. Salta: Editora Calchaquí, 1970.

domingo, 31 de agosto de 2025

A Sombra do Pelagianismo: A Tentação Perene do Naturalismo Prático

O Pelagianismo, associado ao monge britânico Pelágio, constitui uma das primeiras grandes controvérsias doutrinárias da Igreja antiga após a era patrística inicial. Surgido no início do século V, sobretudo em Roma e no Norte da África, o movimento ofereceu uma interpretação da condição humana e da salvação que reduzia o papel da graça divina e exaltava a liberdade natural do homem (Brown, 1967). O confronto que se seguiu, especialmente com Santo Agostinho de Hipona, foi decisivo para a formulação da doutrina católica sobre o pecado original e a necessidade da graça. Essa heresia não é apenas um fato histórico, mas a formalização de uma tendência que ressurge constantemente sob o nome de naturalismo prático: a tentativa de organizar a vida intelectual e moral sem Deus, ou ao menos, sem a necessidade radical de Sua graça interior (Garrigou-Lagrange, 1989, v. 1, p. 275-277).

📜Doutrina Pelagiana

Segundo Pelágio, o pecado de Adão não teve como consequência uma corrupção ontológica da natureza humana, mas apenas um mau exemplo transmitido à posteridade. O homem, portanto, nasceria moralmente neutro e plenamente capaz de cumprir os mandamentos divinos mediante sua livre vontade (Rees, 1988).

Nesse quadro, a graça não seria um auxílio interior que cura e eleva a alma, mas apenas um conjunto de recursos externos: consistiria na lei mosaica, no Evangelho e no exemplo de Cristo (Kelly, 1978). Assim, a salvação dependeria, em última instância, do esforço humano. Ao negar a necessidade da graça interior, o Pelagianismo efetivamente nega a existência de um organismo espiritual infundido na alma — composto pela graça santificante, virtudes e dons do Espírito Santo —, reduzindo a vida cristã a um mero exercício de moralidade natural (Garrigou-Lagrange, 1989, v. 1, p. 48-51).

🙏A Resposta de Santo Agostinho

Contra tal concepção, Agostinho sustentou que o pecado original feriu profundamente a natureza humana, tornando-a incapaz de voltar-se para Deus por suas próprias forças. Essa ferida não é superficial; é uma desordem quádrupla que afeta toda a natureza humana: a ignorância no intelecto, a malícia na vontade, a fraqueza no apetite irascível e a concupiscência no apetite concupiscível (Garrigou-Lagrange, 1989, v. 1, p. 287-289). Para ele, sem a graça preveniente e sustentadora — uma graça que é ao mesmo tempo sanans (curativa) e elevans (elevante) —, o homem não pode sequer iniciar o caminho da salvação (Agostinho, c. 415). Sua célebre oração — Da quod iubes et iube quod vis (“Dá o que ordenas e ordena o que quiseres”) — resume a convicção de que a obediência só é possível graças ao dom divino.

Esse contraste entre Pelágio e Agostinho não era meramente teórico, mas tinha implicações pastorais e eclesiais: enquanto Pelágio acentuava o moralismo rigorista, Agostinho via na graça o fundamento da verdadeira liberdade cristã (Bonner, 1963) e o princípio de uma vida nova, essencialmente sobrenatural, que é a participação na própria vida íntima de Deus (Garrigou-Lagrange, 1989, v. 1, p. 48).

⚖️Condenação e Consequências

O Pelagianismo foi condenado sucessivamente pelos sínodos africanos de Cartago e Milevo (416), pelo Papa Inocêncio I e, de forma mais ampla, pelo Concílio de Cartago (418). Mais tarde, o Concílio de Éfeso (431) reiterou a condenação, declarando herética a negação do pecado original e da necessidade do batismo infantil (Denzinger, 2012).

Entretanto, a controvérsia gerou desenvolvimentos posteriores, como o semipelagianismo no sul da Gália, que tentou conciliar mérito humano e graça divina. Essa corrente foi condenada no Concílio de Orange (529), o qual reafirmou a prioridade absoluta da graça na ordem da salvação, declarando a necessidade da graça até mesmo para o initium fidei, o primeiro desejo de crer (Prosper de Aquitânia, c. 430).

⏳Repercussões Históricas

A controvérsia pelagiana marcou de forma decisiva a teologia ocidental. De um lado, reforçou a posição de Agostinho como teólogo da graça, cuja influência se estenderia à escolástica medieval e às Reformas do século XVI. De outro, o Pelagianismo permaneceu como paradigma de heresia antropocêntrica, frequentemente reatualizado em movimentos moralistas ou em correntes que minimizam a gravidade do pecado original (Rist, 1994). Esse espírito pelagiano ressurge sempre que a mortificação radical do “homem velho” é substituída por uma mera regulação das paixões, e a necessidade da oração interior é obscurecida por um ativismo que confia excessivamente nas forças naturais (Garrigou-Lagrange, 1989, v. 1, p. 275).

Assim, a disputa iniciada em torno de 410 não apenas definiu parâmetros dogmáticos, mas também delineou os contornos da reflexão cristã sobre liberdade, pecado e graça em toda a tradição latina.

✨Conclusão

O Pelagianismo (c. 410) deve ser compreendido não apenas como uma heresia antiga, mas como um desafio perene: a tentação de reduzir a salvação à força da vontade humana, obscurecendo a necessidade radical da graça de Cristo. A resposta agostiniana, confirmada pelo magistério, continua a ser um ponto de referência essencial para a teologia católica contemporânea, lembrando à alma que a vida cristã não é um mero aperfeiçoamento moral, mas a recepção e o desenvolvimento de uma vida divina, um organismo espiritual completo que nos torna verdadeiramente filhos de Deus (Garrigou-Lagrange, 1989, v. 1, p. 29).

📚Referências

AGOSTINHO. De natura et gratia. C. 415.
BONNER, G. St. Augustine of Hippo: Life and Controversies. Philadelphia: Westminster, 1963.
BROWN, P. Augustine of Hippo: A Biography. Berkeley: University of California Press, 1967.
DENZINGER, H. Enchiridion Symbolorum. 43. ed. Freiburg: Herder, 2012.
GARRIGOU-LAGRANGE, R. The Three Ages of the Interior Life. 2 vols. Rockford: TAN Books, 1989.
KELLY, J. N. D. Early Christian Doctrines. London: A & C Black, 1978.
PROSPER DE AQUITÂNIA. Epistula ad Rufinum. C. 430.
REES, B. R. Pelagius: A Reluctant Heretic. Woodbridge: Boydell Press, 1988.
RIST, J. Augustine: Ancient Thought Baptized. Cambridge: Cambridge University Press, 1994.

domingo, 10 de agosto de 2025

A Peste do Naturalismo: a Corrosão da Fé e sua Síntese Herética

Um resumo dos últimos séculos revela uma infiltração progressiva e perniciosa de um erro funesto no seio da Igreja: o naturalismo. Entendido como a tendência de explicar a fé, a moral e a própria vida da Igreja a partir de princípios meramente humanos, despojando-os de sua origem e fim sobrenaturais, este erro não é uma novidade isolada, mas a raiz de um mal muito mais profundo. Tendo germinado no racionalismo e no moralismo de séculos passados, ele encontrou sua expressão mais completa e perigosa num sistema que corrói a fé por dentro, conhecido como modernismo, que nada mais é do que o naturalismo aplicado de forma coerente a todos os aspectos da doutrina católica.

🌱 A Falsa Raiz: o Sentimento e a Razão Humilhada

O fundamento de todo este desvio naturalista assenta numa filosofia corrompida, que opera através de dois princípios destrutivos. O primeiro é o agnosticismo, que aprisiona a razão humana ao mundo dos fenômenos, declarando-a incapaz de se elevar a Deus e conhecer com certeza a sua existência por meio das coisas criadas. Com isso, a teologia natural, os milagres e toda a revelação externa são rejeitados como matéria imprópria para a ciência e a história, sendo relegados a um domínio puramente subjetivo (Pio X, 1907).

Uma vez fechada a porta da razão, abre-se uma outra, enganadora: a da imanência vital. Se a religião não pode vir de fora, deve necessariamente brotar de dentro do homem. Sua origem é atribuída a uma necessidade do divino, um movimento cego do coração que emerge do subconsciente e que se manifesta como um sentimento religioso. Esta experiência interior e puramente natural é, para esta doutrina, a única fonte e a própria essência da fé e da revelação (Pio X, 1907). Assim, a ordem sobrenatural é negada em sua origem, sendo reduzida a um produto espontâneo da natureza humana.

💥 A Destruição da Ordem Sobrenatural

Uma vez estabelecido este fundamento naturalista, as consequências para a fé católica são devastadoras e inevitáveis, desdobrando-se com uma lógica implacável. Se a fé é um sentimento, então:

O dogma já não é uma verdade imutável revelada por Deus, mas um mero símbolo, uma fórmula humana criada para expressar aquele sentimento numa dada época. Como o sentimento evolui, o dogma também deve evoluir e adaptar-se, perdendo todo o seu caráter de verdade absoluta (Pio X, 1907).

As Sagradas Escrituras deixam de ser a Palavra de Deus inspirada para se tornarem uma coleção de experiências religiosas extraordinárias, cujo valor é puramente humano e simbólico.

Nosso Senhor Jesus Cristo é despojado de sua divindade. Pelo princípio do agnosticismo, a história só pode vê-lo como homem. A fé, por sua vez, o “transfigura”, mas essa divindade é um produto do sentimento dos primeiros crentes, e não uma realidade objetiva. Ele é rebaixado à craveira de um puro e simples homem, ainda que de natureza excepcional (Pio X, 1907).

A Igreja e os Sacramentos não são mais instituições divinas, mas criações da “consciência coletiva” dos fiéis para organizar e propagar o sentimento religioso. A autoridade, por conseguinte, não emana de Cristo, mas da comunidade, devendo sujeitar-se a formas democráticas.

Com efeito, não se trata de um erro entre outros, mas da “síntese de todas as heresias”, pois ao naturalizar a fé, destrói-se não apenas o catolicismo, mas a própria noção de qualquer religião revelada, abrindo caminho para o panteísmo ou para o ateísmo completo (Pio X, 1907).

🧠 As Causas Morais e Intelectuais da Apostasia

Este sistema não viceja no vácuo, mas é nutrido por profundas desordens morais e intelectuais. A causa primária é a soberba, que leva o homem a confiar presunçosamente em si mesmo, a ponto de se constituir como medida e regra de tudo, desprezando toda autoridade e tradição. É o orgulho que o leva a crer que possui um saber superior, rejeitando a sabedoria dos séculos e abraçando toda sorte de novidades, por mais absurdas que sejam (Pio X, 1907).

A esta soberba alia-se uma funesta ignorância, especialmente da filosofia escolástica. Ao desprezar este método seguro de raciocínio, os fautores do erro carecem dos instrumentos necessários para discernir a confusão das ideias e refutar os sofismas da filosofia moderna, sendo por ela iludidos. Da aliança entre esta falsa filosofia e uma fé já enfraquecida nasce este sistema de erros que ameaça a Igreja (Pio X, 1907).

🔬 O Diagnóstico Definitivo: o Modernismo como Naturalismo Teológico

A análise histórica que traça o avanço do naturalismo — do campo político ao teológico — está correta em seu diagnóstico final. O sistema modernista é, de fato, a manifestação mais completa e coerente do naturalismo no campo da fé. Não se trata de doutrinas vagas e desconexas, mas de “um corpo uno e compacto de doutrinas em que, admitida uma, todas as demais também o deverão ser” (Pio X, 1907).

A sua perversidade reside no fato de que os seus promotores não são inimigos declarados, mas se ocultam “no próprio seio da Igreja”, fingindo amor por ela enquanto trabalham para “solapar pelos alicerces, se dado lhes fosse, o mesmo reino de Jesus Cristo” (Pio X, 1907). O combate a esta peste, portanto, exige não apenas a condenação do erro, mas a aplicação de remédios enérgicos: a restauração da sã filosofia, a vigilância sobre o ensino e a firmeza da autoridade para extirpar este mal que ameaça o depósito da fé.

📚 Referências

Pio X, Papa. Carta Encíclica Pascendi Dominici Gregis sobre as doutrinas modernistas. Vaticano, 1907.

sábado, 9 de agosto de 2025

A Batalha pela Ordem Divina: Desmascarando a Revolta Contra Cristo Rei

A sociedade moderna, cada vez mais imersa em confusão e desordem, testemunha uma crescente negação das verdades fundamentais que sustentam a civilização cristã. A rejeição da Santíssima Trindade, da Encarnação do Verbo e dos Sacramentos da Igreja não é um mero debate teológico abstrato, mas sim a manifestação visível de uma revolta organizada contra o plano divino para a humanidade. Esta negação sistemática é o pilar do Naturalismo, a força motriz que busca erradicar a vida sobrenatural e destronar Cristo como Rei de todas as nações.

O Naturalismo, em sua essência, nega a realidade da vida divina da graça e nossa queda pelo pecado original. Ele rejeita a necessidade de redenção e sustenta que toda a vida social deve ser organizada com base nessa negação (Fahey, 1953). Este é o programa de Satanás, que visa impedir que os Estados e as nações reconheçam a Igreja Católica como o único caminho estabelecido por Deus para o retorno ordenado a Ele. A estratégia é clara: primeiro, colocar todas as religiões no mesmo nível, especialmente a religião judaica, e depois, minar as doutrinas que fundamentam a fé cristã.

📜 A Rejeição da Santíssima Trindade e da Encarnação

Negar a Trindade é rejeitar a própria natureza de Deus como revelada por Cristo. É reduzir Deus a uma unidade estritamente humana e racionalista, despojando-o do mistério e da profundidade de Seu Ser como Pai, Filho e Espírito Santo. A negação da Encarnação do Verbo, por sua vez, é o golpe central contra o próprio Cristianismo. Rejeitar que Deus se fez homem em Jesus Cristo é "dissolver Jesus", o que São João identifica como a marca do Anticristo (Fahey, 1953).

Essas negações não são coincidências. Elas se alinham perfeitamente com a ambição do Naturalismo Judaico, que, desde a rejeição oficial de Cristo diante de Pilatos, busca um messias terreno e uma ordem mundial naturalista. Ao rejeitar o Messias Sobrenatural, a nação judaica se comprometeu com um programa oposto: a imposição de sua forma nacional sobre o mundo, sob a égide de um messias natural. Como tal, a doutrina da Trindade e da Encarnação é um obstáculo direto a essa ambição, pois estabelece Jesus Cristo, o Verbo Encarnado, como o único e verdadeiro Rei de toda a humanidade, superando qualquer identidade nacional ou racial (Fahey, 1953, p. 48).

A persistência dessa rejeição é codificada no Talmud, que exalta o orgulho de raça e a ideia de dominação universal, considerando os não-judeus como inferiores e desprovidos de direitos. Essa formação talmúdica cria uma barreira quase intransponível para a aceitação da verdade sobrenatural, alimentando uma hostilidade contínua contra Cristo e Sua Igreja (Fahey, 1953, p. 86).

🛡️ O Ataque aos Sacramentos e à Ordem Social Cristã

Negar os sacramentos da Igreja é atacar os canais visíveis da graça divina, os meios pelos quais a vida sobrenatural é comunicada e sustentada nas almas. É uma tentativa de tornar a religião uma questão puramente privada e subjetiva, sem ritos ou instituições que vinculem o homem a Deus de forma concreta. Este ataque faz parte da estratégia de desmantelar a ordem social cristã, que se baseia na realidade da vida da graça.

O matrimônio cristão, por exemplo, como um sacramento indissolúvel, simboliza a união de Cristo com Sua Igreja. A legalização do divórcio, promovida por forças naturalistas, é um ataque direto a este símbolo e à família cristã, a célula fundamental da sociedade (Fahey, 1953). Da mesma forma, a educação secularizada, que ignora a formação das crianças como membros de Cristo, prepara o terreno para uma sociedade que não reconhece a autoridade de Deus.

Essas negações são os frutos da Revolução Francesa e da sua "Declaração dos Direitos do Homem", um documento concebido em lojas maçônicas que, na prática, foi uma declaração de guerra contra a filiação a Cristo (Fahey, 1953, p. 34). A Maçonaria, como força auxiliar organizada, trabalha incansavelmente para difundir o Naturalismo e corroer a fé, promovendo uma falsa fraternidade que exclui Cristo.

⛪ A Defesa do Reinado de Cristo

A única resposta para essa revolta organizada é a proclamação integral e corajosa do Reinado de Cristo. A sociedade deve ser reestruturada com base no reconhecimento de que a Igreja Católica é a guardiã da lei moral e que a filiação a Cristo, através da vida da graça, é a maior dignidade do homem. A paz e a ordem só serão restauradas quando os Estados, as famílias e as instituições econômicas se submeterem ao plano divino, em vez de cederem aos projetos naturalistas.

A luta atual não é meramente política ou social, mas fundamentalmente espiritual. É a batalha entre o programa de Cristo, o Rei, e os planos de Satanás, executados por suas forças visíveis: o Naturalismo Judaico e a Maçonaria. A indiferença ou a fraqueza dos católicos diante dessa ofensiva é o que dá força aos adversários. Portanto, é dever de todo fiel "lutar com bravura e continuamente sob a bandeira de Cristo, seu Rei" (Pio XI, Quas Primas, citado em Fahey, 1953, p. 77).

📖 Referências

Fahey, D. (1953). The kingship of Christ and the conversion of the Jewish nation. Regina Publications.

quarta-feira, 2 de julho de 2025

O Milagre da Partilha e a Multiplicação da Heresia, segundo Leão XIV

Em uma notícia datada de 30 de junho de 2025, relata-se que Leão XIV, em uma mensagem oficial à 44ª sessão da Conferência da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, promoveu uma reinterpretação do milagre da Multiplicação dos Pães e dos Peixes. Segundo o texto, o prelado afirma que “o verdadeiro milagre realizado por Cristo foi mostrar que a chave para superar a fome reside na partilha e não na acumulação avidamente”.

A notícia destaca a sutileza da linguagem, como o uso de aspas na palavra “multiplicação”, e contextualiza a declaração como uma continuação direta das teses já defendidas pelo seu predecessor imediato, “Francisco” (Jorge Mario Bergoglio), que em 2013 teria afirmado que o milagre consistiu “numa partilha, não numa multiplicação”. O artigo contrapõe essa visão modernista com a exegese tradicional de Santos Doutores como Santo Agostinho de Hipona e de comentadores clássicos como Cornelius à Lapide e George Leo Haydock, que unanimemente defendem a realidade de uma multiplicação sobrenatural do alimento. Por fim, o autor da notícia conclui que tal reinterpretação serve a um propósito maior: reduzir o Catolicismo a um mero humanitarismo naturalista, esvaziando a fé de seu conteúdo sobrenatural para adequá-la a uma agenda de “fraternidade humana” anticatólica.

A tese apresentada por Leão XIV não constitui um evento isolado ou uma mera imprecisão exegética, mas sim a aplicação consistente de um princípio modernista fundamental: a sistemática naturalização do sobrenatural. Este método consiste em esvaziar os atos divinos de seu conteúdo miraculoso e reduzi-los a meras lições de moralidade ou a fenômenos psicológicos e sociais. O milagre, portanto, deixa de ser uma intervenção direta de Deus na ordem criada para se tornar um símbolo de uma ação puramente humana – neste caso, a “partilha”.

Este exato procedimento foi o motor por trás da reforma litúrgica pós-conciliar. Um exame minucioso das orações revisadas do Missal de Paulo VI demonstra como referências a milagres, tanto os da vida de Nosso Senhor quanto os da vida dos Santos, foram sistematicamente removidas ou ofuscadas. Em um estudo aprofundado, nota-se que mesmo o milagre da ressurreição de Lázaro foi expurgado das orações, e alusões à aparição de Nossa Senhora em Lourdes ou aos milagres dos Santos foram metodicamente suprimidas, sob o pretexto de que tais relatos não se adequavam à “mentalidade do homem contemporâneo” (CEKADA, 2010, p. 305-306). O que se observa na mensagem à FAO é, portanto, a mesma lógica destrutiva aplicada não mais veladamente nas comissões de reforma, mas abertamente a partir do mais alto posto da hierarquia modernista.

A consequência teológica imediata é a inversão da ordem da fé. A doutrina católica sempre foi teocêntrica: o homem reconhece a ação de Deus e a ela responde com fé e adoração. Na nova teologia, a perspectiva torna-se antropocêntrica: a ação do homem (partilhar) é elevada à categoria de “verdadeiro milagre”, enquanto a ação de Deus (multiplicar) é rebaixada a uma metáfora ou, na melhor das hipóteses, a um evento secundário. Esta inversão espelha perfeitamente a teologia da “assembleia” que fundamenta a Missa Nova, onde o foco se desloca do Sacrifício oferecido a Deus para a comunidade que se reúne e celebra a si mesma.

Ademais, a reinterpretação ignora e contradiz deliberadamente a Patrística, da qual alega extrair sua legitimidade. O autor da notícia cita acertadamente Santo Agostinho, que no seu Tratado sobre o Evangelho de João não deixa margem para dúvidas: “Pois, de onde Ele multiplica a produção dos campos de alguns grãos, da mesma fonte Ele multiplicou em Suas mãos os cinco pães. O poder, de fato, estava nas mãos de Cristo”. O Santo Doutor, cujo nome o prelado supostamente ostenta como “filho”, é aqui tratado com o mesmo desdém com que os reformadores litúrgicos trataram a tradição: como uma fonte a ser citada apenas quando conveniente e ignorada quando contraditória. Isso revela não um “retorno às fontes”, mas uma manipulação espúria da Tradição para justificar uma ruptura com ela.

Finalmente, ao naturalizar a Multiplicação dos Pães, ataca-se frontalmente a sua mais importante significação tipológica: a prefiguração da Sagrada Eucaristia. Como o próprio Nosso Senhor ensina no capítulo 6 de São João, o milagre do pão multiplicado que sacia a fome terrena é um sinal que aponta para o verdadeiro Pão do Céu, que é a Sua Carne para a vida do mundo. Se a multiplicação física nunca ocorreu, mas foi apenas um “símbolo da partilha”, então a própria Eucaristia corre o risco de ser vista não mais como a Presença Real e substancial de Cristo, mas como um mero símbolo da comunhão e partilha fraterna entre os homens. A destruição do tipo leva, inevitavelmente, à destruição da compreensão do antítipo.

Em suma, a declaração de Leão XIV é um exemplo paradigmático da forma mentis modernista. Sob o pretexto de caridade e preocupação social, avança-se na demolição de um dogma fundamental da fé, substituindo o poder infinito de Deus pela limitada virtude do homem.

Referências

CEKADA, Anthony. Obra de Mãos Humanas: Uma crítica teológica à Missa de Paulo VI. 2. ed. Cincinatti: Philothea Press, 2010.

terça-feira, 6 de maio de 2025

Pachamama no Vaticano: A Profanação Modernista do Papado e a Crise da Fé Católica

O Sínodo da Amazônia, realizado em outubro de 2019 no Vaticano, trouxe à tona debates acalorados dentro da Igreja Católica, especialmente em torno da presença de imagens associadas à Pachamama, uma figura venerada em culturas indígenas sul-americanas como símbolo da terra e da fertilidade. A inclusão dessas imagens em eventos litúrgicos e cerimoniais gerou reações polarizadas, com críticos tradicionalistas, como o Reverendo Padre Anthony Cekada, autor do artigo “A Profissão de Heresia Modernista do Papa Pachamama” (Controvérsia Católica, 2019), denunciando o que consideram uma profanação e uma manifestação de heresia modernista. Este artigo analisa a controvérsia da Pachamama sob a perspectiva do artigo de Cekada, complementando suas ideias com reflexões teológicas e contextuais, e explorando as implicações para a doutrina católica e a crise eclesial contemporânea.

O Sínodo da Amazônia foi convocado pelo Papa Francisco para discutir questões pastorais, ecológicas e culturais relacionadas à região amazônica, incluindo a evangelização dos povos indígenas. Durante o evento, imagens de madeira representando uma mulher grávida, identificadas por alguns como Pachamama, foram usadas em uma cerimônia nos Jardins Vaticanos, com a presença do Papa. Essas imagens também apareceram em procissões, missas e foram exibidas na igreja de Santa Maria in Traspontina, em Roma. Uma oferenda à Pachamama foi colocada sobre o túmulo de São Pedro, um ato que Cekada (2019) interpreta como uma grave violação da sacralidade do local.

Cekada cita o Salmo 95, “Todos os deuses dos pagãos são demônios”, para sustentar que a introdução da Pachamama constitui idolatria. Ele argumenta que a presença dessas imagens em espaços litúrgicos é não apenas uma ofensa à fé católica, mas também um reflexo de uma agenda modernista que busca integrar práticas pagãs na Igreja, em detrimento dos dogmas tradicionais. A controvérsia se intensificou quando católicos indignados jogaram as imagens no rio Tibre, um ato que o Papa Francisco lamentou, pedindo desculpas e confirmando que as imagens eram de fato representações de Pachamama (Cekada, 2019).

O cerne da crítica de Cekada é que a aceitação da Pachamama no contexto do Sínodo reflete uma heresia modernista, especificamente a ideia de evolução do dogma, que ele atribui ao Concílio Vaticano II (1962-1965). Segundo o autor, o Vaticano II abriu as portas para a noção de que religiões não cristãs, incluindo práticas pagãs, podem ser “meios de salvação” guiados pelo Espírito Santo. Essa perspectiva, para Cekada, é incompatível com a doutrina católica tradicional, que enfatiza a exclusividade da Igreja como caminho para a salvação.

O autor aponta para um artigo do VaticanNews, publicado após o Sínodo, intitulado “O desenvolvimento da doutrina é um povo que caminha unido”, como uma tentativa de justificar a inclusão da Pachamama sob o pretexto de uma doutrina em evolução. Para Cekada, essa visão sugere que os dogmas católicos podem ser adaptados às sensibilidades culturais modernas, como as práticas indígenas, o que ele considera uma traição à imutabilidade da fé. Ele classifica essa abordagem como uma “meta-heresia modernista”, que compromete a infalibilidade do magistério e a autoridade da Igreja.

C`Papa Francisco foi diretamente associado aos eventos envolvendo a Pachamama, participando da cerimônia inicial nos Jardins Vaticanos, abençoando uma imagem e permitindo sua inclusão em celebrações litúrgicas. Cekada (2019) interpreta essas ações como uma sanção oficial à idolatria, especialmente porque o Papa não condenou explicitamente o uso das imagens como pagãs. Após o incidente do rio Tibre, o Papa pediu desculpas, referindo-se às imagens como “Pachamama” e expressando pesar pela ofensa causada aos indígenas, mas sem desautorizar sua presença litúrgica.

Para Cekada, essas ações são parte de uma estratégia deliberada para minar os dogmas católicos, promovendo uma “unidade” centrada no conceito de “povo de Deus” em detrimento da doutrina tradicional. Ele argumenta que o Papa Francisco, ao integrar elementos culturais indígenas, como a Pachamama, na liturgia, está implementando uma visão pós-conciliar que relativiza a exclusividade da fé católica.

A controvérsia da Pachamama, segundo Cekada, é um sintoma de uma crise mais ampla iniciada pelo Concílio Vaticano II. Ele defende a posição sedevacantista, alegando que os papas pós-conciliares, incluindo Francisco, não são legítimos devido à sua adesão a heresias modernistas. A inclusão da Pachamama é vista como uma profanação, mas o autor considera ainda mais grave a tentativa de institucionalizar a evolução do dogma como parte do magistério, o que compromete a infalibilidade da Igreja.

Teologicamente, a introdução da Pachamama levanta questões sobre a inculturação – a adaptação da liturgia às culturas locais – e seus limites. Enquanto defensores do Sínodo, como o Papa Francisco, argumentam que as imagens podem ser interpretadas como símbolos culturais ou representações da Virgem Maria, críticos como Cekada rejeitam essa leitura, insistindo que a Pachamama é inerentemente pagã e incompatível com o monoteísmo cristão.

Eclesiológica, a controvérsia expõe divisões profundas na Igreja entre tradicionalistas, que defendem a imutabilidade da doutrina, e progressistas, que advogam por uma Igreja mais inclusiva e adaptável. A reação ao caso da Pachamama, incluindo atos de protesto como o lançamento das imagens no Tibre, reflete a crescente polarização entre esses grupos.

Embora o artigo de Cekada apresente uma crítica contundente, ele adota uma perspectiva sedevacantista que não representa a visão majoritária dos católicos. A abordagem do autor é marcadamente unilateral, ignorando interpretações alternativas que veem a Pachamama como uma expressão cultural legítima, sem intenções idólatras. Por exemplo, o documento final do Sínodo enfatiza a importância de respeitar as tradições indígenas sem comprometer a fé cristã, uma nuance que Cekada desconsidera.

Além disso, a controvérsia da Pachamama destaca a tensão entre universalidade e particularidade na Igreja. O desafio de evangelizar culturas diversas exige equilíbrio entre a preservação da doutrina e a abertura a expressões culturais locais. A reação à Pachamama sugere que esse equilíbrio ainda não foi plenamente alcançado, especialmente em um contexto globalizado onde ações no Vaticano têm repercussão imediata.

A controvérsia da Pachamama no Sínodo da Amazônia, conforme analisada por Cekada, é um marco na crise eclesial contemporânea, expondo tensões entre tradição e modernidade na Igreja Católica. Para o autor, a inclusão da Pachamama é uma manifestação de heresia modernista, enraizada no Concílio Vaticano II, que ameaça a imutabilidade da fé. Suas críticas, embora incisivas, refletem uma visão sedevacantista que rejeita a legitimidade do papado pós-conciliar, limitando o diálogo com perspectivas mais moderadas.

O caso da Pachamama não é apenas sobre imagens de madeira, mas sobre questões fundamentais: a natureza do dogma, os limites da inculturação e a autoridade do magistério. Para os católicos, a controvérsia é um convite à reflexão sobre como a Igreja pode permanecer fiel à sua missão universal enquanto abraça a diversidade cultural. A resolução dessas tensões exigirá diálogo, humildade e um retorno aos princípios fundantes da fé.

Referências

Cekada, A. (2019). A Profissão de Heresia Modernista do Papa Pachamama. Controvérsia Católica. Disponível em: https://controversiacatolica.wordpress.com/2019/11/04/a-profissao-de-heresia-modernista-do-papa-pachamama/
VaticanNews. (2019). O desenvolvimento da doutrina é um povo que caminha unido. 
Sínodo para a Amazônia. (2019). Documento Final. Cidade do Vaticano: Libreria Editrice Vaticana.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2025

Francisco endossa doutrina inter-religiosa de guru hindu afirmando: religiões juntas para uma melhor humanidade

Em uma conferência inter-religiosa realizada no Vaticano nos dias 29 e 30 de novembro de 2024, organizado pelo Sree Narayana Dharma Sangham Trust, Francisco fez um discurso no qual afirmou que todas as religiões ensinam a verdade fundamental de que, como filhos de um único Deus, devemos amar e honrar uns aos outros, respeitar as diversidades e diferenças em um espírito de fraternidade e inclusão, e cuidar uns dos outros e da Terra, nossa casa comum. Mais uma vez, Francisco se alinha mais com o naturalismo maçônico do que com o catolicismo romano tradicional. 

É óbvio que todas as religiões ensinam essas verdades fundamentais. Por exemplo, nem todas as tradições religiosas reconhecem a existência de um Deus Criador ou a ideia de que os seres humanos são Seus filhos. O jainismo, uma antiga religião pagã, não ensina a existência de um Deus pessoal ou criador, e muito menos a filiação divina. Da mesma forma, o respeito irrestrito às diversidades e diferenças não é um traço universalmente encontrado em todas as tradições religiosas, como demonstram as práticas e ensinamentos históricos do Islã, entre outros exemplos.

Enquanto o atual pontífice promove uma visão naturalista e universalista, buscando unir a humanidade em torno de princípios comuns, essa abordagem contrasta com a visão mais tradicional do catolicismo. O Papa Pio XII, em sua encíclica inaugural de 1939, apresentou uma perspectiva diferente sobre a unidade da raça humana, fundamentada em princípios teológicos específicos que destacam a centralidade da fé católica como alicerce para a verdadeira harmonia entre os povos.

Fonte:  novusordowatch

segunda-feira, 18 de novembro de 2024

Encíclica HUMANUM GENUS de Leão XIII - Maçonaria, Naturalismo, Separação Igreja-Estado


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CARTA ENCÍCLICA

HUMANUM GENUS

DO SUMO PONTÍFICE PAPA LEÃO XIII

A TODOS OS NOSSOS VENERÁVEIS IRMÃOS, OS PATRIARCAS, PRIMAZES, ARCEBISPOS E BISPOS DO ORBE CATÓLICO, EM GRAÇA E COMUNHÃO COM A SÉ APOSTÓLICA

SOBRE A MAÇONARIA

1. O Gênero Humano, após sua miserável queda de Deus, o Criador e Doador dos dons celestes, "pela inveja do demônio," separou-se em duas partes diferentes e opostas, das quais uma resolutamente luta pela verdade e virtude, e a outra por aquelas coisas que são contrárias à virtude e à verdade. Uma é o reino de Deus na terra, especificamente, a verdadeira Igreja de Jesus Cristo; e aqueles que desejam em seus corações estar unidos a ela, de modo a receber a salvação, devem necessariamente servir a Deus e Seu único Filho com toda a sua mente e com um desejo completo. A outra é o reino de Satanás, em cuja possessão e controle estão todos e quaisquer que sigam o exemplo fatal de seu líder e de nossos primeiros pais, aqueles que se recusam a obedecer à lei divina e eterna, e que têm muitos objetivos próprios em desprezo a Deus, e também muitos objetivos contra Deus.

2. Este reino dividido Sto. Agostinho penetrantemente discerniu e descreveu ao modo de duas cidades, contrárias em suas leis porque lutando por objetivos contrários; e com sutil brevidade ele expressou a causa eficiente de cada uma nessas palavras: "Dois amores formaram duas cidades: o amor de si mesmo, atingindo até o desprezo de Deus, uma cidade terrena; e o amor de Deus, atingindo até o desprezo de si mesmo, uma cidade celestial."[1] Em cada período do tempo uma tem estado em conflito com a outra, com uma variedade e multiplicidade de armas e de batalhas, embora nem sempre com igual ardor e assalto. Nesta época, entretanto, os partisans (guerrilheiros) do mal parecem estar se reunindo, e estar combatendo com veemência unida, liderados ou auxiliados por aquela sociedade fortemente organizada e difundida chamada os Maçons. Não mais fazendo qualquer segredo de seus propósitos, eles estão agora abruptamente levantando-se contra o próprio Deus. Eles estão planejando a destruição da santa Igreja publicamente e abertamente, e isso com o propósito estabelecido de despojar completamente as nações da Cristandade, se isso fosse possível, das bênçãos obtidas para nós através de Jesus Cristo nosso Salvador. Lamentando estes males, Nós somos constrangidos pela caridade que urge Nosso coração a clamar freqüentemente a Deus: "Ó Deus, eis que Teus inimigos se agitam; e os que Te odeiam levantaram as suas cabeças. Eles tramam um plano contra Teu povo, e conspiram contra Teus santos. Eles disseram: 'vinde, destruamo-nos, de modo que eles não sejam uma nação'."[2]

3. Em uma crise tão urgente, quando tão feroz e tão forte assalto é feito sobre o nome Cristão, é Nosso ofício apontar o perigo, marcar quem são os adversários, e no máximo de Nosso poder fazer uma barreira contra seus planos e procedimentos, para que não pereçam aqueles cuja salvação está confiada a Nós, e para que o reino de Jesus Cristo confiado a Nosso encargo possa não só permanecer de pé e inteiro, mas possa ser alargado por um crescimento cada vez maior através do mundo.

4. Os Pontífices Romanos nossos predecessores, em sua incessante vigilância pela segurança do povo Cristão, foram rápidos em detectar a presença e o propósito desse inimigo capital tão logo ele saltou para a luz ao invés de esconder-se como uma tenebrosa conspiração; e, além disso, eles aproveitaram e tomaram providências, pois a eles isso competia, e não permitiram a si mesmos serem tomados pelos estratagemas e armadilhas armadas para enganá-los.

5. A primeira advertência do perigo foi dada por Clemente XII no ano de 1738 [3], e sua constituição foi confirmada e renovada por Bento XIV [4]. Pio VII seguiu o mesmo caminho [5]; e Leão XII, por sua constituição apostólica, Quo Graviora [6], juntou os atos e decretos dos Pontífices anteriores sobre o assunto, e os ratificou e confirmou para sempre. No mesmo sentido pronunciou-se Pio VIII [7], Gregório XVI [8], e, muitas vezes, Pio IX [9].

6. Tão logo a constituição e o espírito da seita maçônica foram claramente descobertos por manifestos sinais de suas ações, pela investigação de suas causas, pela publicação de suas leis, e de seus ritos e comentários, com a freqüente adição do testemunho pessoal daqueles que estiveram no segredo, esta sé apostólica denunciou a seita dos Maçons, e publicamente declarou sua constituição, como contrária à lei e ao direito, perniciosa tanto à Cristandade como ao Estado; e proibiu qualquer um de entrar na sociedade, sob as penas que a Igreja costuma infligir sobre as pessoas excepcionalmente culpadas. Os sectários, indignados por isto, pensando em eludir ou diminuir a força destes decretos, parcialmente por desprezo, e parcialmente por calúnia, acusaram os soberanos Pontífices que os passaram ou de exceder os limites da moderação em seus decretos ou de decretar o que não era justo. Este foi o modo pelo qual eles esforçaram-se para eludir a autoridade e o peso das constituições apostólicas de Clemente XII e Bento XIV, e também de Pio VII e Pio IX [10]. Entretanto, na própria sociedade, encontraram-se homens que relutantemente concordaram que os Pontífices Romanos tinham agido dentro de seu direito, de acordo com a doutrina e disciplina Católicas. Os Pontífices receberam a mesma concordância, em termos fortes, de muitos príncipes e chefes de governo, que tomaram como um dever ou delatar a sociedade maçônica à sé apostólica, ou por seu próprio acordo por leis específicas declará-la perniciosa, como, por exemplo, na Holanda, Áustria, Suíça, Espanha, Bavária, Savóia, e outras partes da Itália.

7. Mas, o que é da maior importância, o curso dos eventos demonstrou a prudência dos Nossos predecessores. Pois a sua providente e paternal solicitude não conseguiu sempre e em todo lugar o resultado desejado; e isto, ou por causa do fingimento e astúcia de alguns que eram agentes ativos na maldade, ou então da irrefletida leviandade do resto que deveria, em seu próprio interesse, ter dado ao assunto sua diligente atenção. Em conseqüência, a seita dos Maçons cresceu com uma velocidade inconcebível no curso de um século e meio, até que se tornou capaz, através de fraude ou audácia, de obter tal acesso em cada nível do Estado de modo a parecer quase a sua força governante. Este veloz e formidável avanço trouxe sobre a Igreja, sobre o poder dos príncipes, sobre o bem estar público, precisamente aquele grave dano que Nossos predecessores tinham previsto muito antes. Tal condição foi atingida que de agora de diante haverá grave razão para temer, não realmente pela Igreja ― porque sua fundação é firme demais para ser derrubada pelos esforços dos homens ― mas por aqueles Estados em que prevalece o poder, ou da seita da qual estamos falando ou de outras seitas não diferentes que curvam-se a ela como discípulas e subordinadas.

8. Por estas razões Nós, tão logo chegamos ao timão da Igreja, claramente vimos e sentimos ser Nosso dever usar Nossa autoridade em sua máxima extensão contra um mal tão vasto. Nós já por muitas vezes, conforme as ocasiões surgiram, atacamos alguns pontos principais dos ensinamentos que demonstraram de uma maneira especial a perversa influência das opiniões Maçônicas. Assim, em nossa carta encíclica, Quod Apostolici Muneris, Nós Nos esforçamos por refutar as monstruosas doutrinas dos socialistas e comunistas; depois, em outra começando com Arcanum, Nós penosamente defendemos e explicamos a verdadeira e genuína idéia da vida doméstica, da qual o matrimônio é o ponto de partida e a origem; e novamente, naquela que começa com "Diuturnum"[11], Nós descrevemos a idéia de governo político conforme os princípios da sabedoria Cristã, que é maravilhosa em harmonia, por um lado, com a ordem natural das coisas, e, por outro lado, com o bem-estar tanto dos príncipes soberanos quanto das nações. É agora Nossa intenção, seguindo o exemplo de Nossos predecessores, tratar diretamente a própria sociedade maçônica, todo o seu ensinamento, seus objetivos, e a sua maneira de pensar e agir, de modo a trazer mais e mais à luz seu poder para o mal, e fazer o que Nós pudermos para deter o contágio desta peste fatal.

9. Há vários corpos organizados os quais, embora diferindo em nome, em cerimonial, em forma e origem, são contudo tão unidos por comunhão de propósito e pela similaridade de suas principais opiniões, de modo a formar de fato uma só coisa com a seita dos Maçons, a qual é um tipo de centro ao qual todos eles se dirigem, e do qual todos eles retornam. Agora, estes não mais mostram um desejo de permanecer escondidos; pois eles realizam seus encontros à luz do dia e à vista do povo, e publicam seus próprios jornais; e contudo, quando completamente compreendidos, descobre-se que eles ainda retêm a natureza e os hábitos de sociedades secretas. Há muitas coisas como mistérios que é regra fixa esconder com extremo cuidado, não somente de estranhos, mas de muitos e muitos membros, também; tais como seus desígnios secretos e últimos, os nomes de seus maiores líderes, e certos segredos e encontros privados, assim como suas decisões, e os caminhos e meios de executá-las. Este é, sem dúvida, o objetivo das múltiplas diferenças entre os membros quanto a direito, cargo e privilégio, das distinções recebidas de ordens e graus, e da severa disciplina que é mantida.

Os candidatos são geralmente ordenados a prometer ― e mais, com um especial juramento, a jurar ― que eles não irão nunca, a nenhuma pessoa, em qualquer tempo ou de qualquer modo, dar a conhecer os membros, as senhas, ou os assuntos discutidos. Assim, com uma aparência externa fraudulenta, e com um estilo de fingimento que é sempre o mesmo, os Maçons, como os Maniqueístas de antigamente, esforçam-se, tanto quanto possível, para encobrir a si mesmos, e para não admitir testemunhas exceto seus próprios membros. Como uma maneira conveniente de disfarce, eles assumem o caráter de homens de letras e acadêmicos associados com o objetivo de aprender. Eles falam de seu zelo por um maior refinamento cultural, e de seu amor pelos pobres; e eles declaram que seu único desejo é a melhoria da condição das massas, e o compartilhamento com o maior número possível de pessoas de todos os benefícios da vida civil. Mesmo que estes propósitos fossem visados verdadeiramente, eles não são de modo algum o todo de seu objetivo. Ainda mais, para ser alistado, é necessário que os candidatos prometam e assumam ser daí em diante estritamente obedientes aos seus líderes e mestres com a mais completa submissão e fidelidade, e estar de prontidão para cumprir suas ordens à mais leve expressão de seu desejo; ou, se desobedientes, submeter-se aos mais penosos castigos e à própria morte. De fato, se algum é julgado ter traído as obras da seita ou ter resistido às ordens dadas, a punição é infligida neles não infreqüentemente, e com tanta audácia e destreza que o assassino muito freqüentemente escapa à detecção e punição de seu crime.

10. Mas fingir e desejar permanecer escondido; atar homens como escravos com as mais fortes correntes, e sem dar qualquer razão suficiente; usar homens escravizados aos desejos de outro para qualquer ato arbitrário; armar as mãos direitas de homens para o massacre após assegurar a impunidade pelo crime ― tudo isso é uma enormidade diante qual a natureza recua. Por este motivo, a razão e a própria verdade tornam claro que a sociedade da qual nós estamos falando está em antagonismo com a justiça e a retidão natural. E isto se torna ainda mais claro, uma vez que outros argumentos, também, e muito evidentes, provam que ela é essencialmente oposta à virtude natural. Pois, não importando quão grande possa ser a inteligência do homem em disfarçar e a sua experiência em mentir, é impossível evitar os efeitos de qualquer causa de mostrarem, de algum modo, a natureza intrínseca da causa da qual eles vêm. "Uma boa árvore não pode produzir mau fruto, nem uma árvore ruim produzir bom fruto."[12] Agora, a seita maçônica produz frutos que são perniciosos e do mais amargo sabor. Pois, daquilo que Nós acima mostramos da maneira mais clara, aquele que é o seu propósito último força-a a se tornar visível ― especificamente, a completa derrubada de toda a ordem religiosa e política do mundo que o ensinamento Cristão produziu, e a substituição por um novo estado de coisas de acordo com as suas idéias, das quais as fundações e leis devem ser obtidas do mero naturalismo.

11. O que Nós dissemos, e estamos para dizer, deve ser entendido com respeito à seita dos Maçons tomada genericamente, e tanto quanto ela compreende as associações aparentadas a ela e confederadas com ela, mas não dos seus membros individuais. Pode haver pessoas entre eles, e não poucos que, embora não livres da culpa de terem se enleado em tais associações, ainda assim não são eles mesmos parceiros em seus atos criminosos nem conscientes do objetivo último que eles estão se esforçando por alcançar. Do mesmo modo, algumas das sociedades afiliadas, talvez, de modo algum aprovem as conclusões extremas que eles iriam, se consistentes, abraçar como conseqüências necessárias de seus princípios comuns, se a sua própria maldade não os enchesse de horror. Alguns deles, novamente, são levados pelas circunstâncias dos tempos e lugares ou a visar coisas menores do que os outros normalmente tentam ou do que eles mesmos desejariam tentar. Eles não devem, entretanto, por esta razão, ser considerados como estranhos à federação maçônica; porque a federação maçônica deve ser julgada não tanto pelas coisas que ela tem feito, ou concluído, quanto pela soma de suas opiniões pronunciadas.

12. Agora, a doutrina fundamental dos naturalistas, que eles tornam suficientemente conhecida em seu próprio nome, é que a natureza humana e a razão humana deveriam em todas as coisas ser senhora e guia. Eles ligam muito pouco para os deveres para com Deus, ou os pervertem por opiniões errôneas e vagas. Pois eles negam que qualquer coisa tenha sido ensinada por Deus; eles não permitem qualquer dogma de religião ou verdade que não possa ser entendida pela inteligência humana, nem qualquer mestre que deva ser acreditado por causa de sua autoridade. E desde que é o dever especial e exclusivo da Igreja Católica estabelecer completamente em palavras as verdades divinamente recebidas, ensinar, além de outros auxílios divinos à salvação, a autoridade de seu ofício, e defender a mesma com perfeita pureza, é contra a Igreja que o ódio e o ataque dos inimigos é principalmente dirigido.

13. Nos assuntos a respeito de religião que se veja como a seita dos Maçons age, especialmente aonde ela é mais livre para agir sem barreiras, e então que qualquer um julgue se realmente ela não deseja executar a política dos naturalistas. Por um longo e perseverante labor, eles esforçam-se para alcançar este resultado ― especificamente, que o ofício de ensinar e a autoridade da Igreja tornem-se sem valor no Estado civil; e por esta mesma razão eles declaram ao povo e argumentam que a Igreja e o Estado devem ser completamente desunidos. Por este meio eles rejeitam das leis e da nação a saudável influência da religião Católica; e eles conseqüentemente imaginam que os Estados devem ser constituídos sem qualquer consideração pelas leis e preceitos da Igreja.

14. Nem eles pensam ser suficiente desconsiderar a Igreja ― a melhor das guias ― mas eles também a ferem por sua hostilidade. Realmente, para eles está dentro da lei atacar com impunidade as próprias fundações da religião Católica, em palavra, em escritos e em ensinamentos; e até os direitos da Igreja não são poupados, e os ofícios com os quais ela é divinamente investida não estão seguros. A mínima liberdade possível para administrar os assuntos é deixada à Igreja; e isto é feito por leis aparentemente não muito hostis, mas na realidade armadas e ajustadas para dificultar a liberdade de ação. Ainda mais, Nós vemos leis excepcionais e opressivas impostas sobre o clero, a fim de que eles possam ser continuamente diminuídos em número e meios necessários. Nós também vemos os remanescentes das possessões da Igreja restringidos pelas mais estritas condições, a sujeitados ao poder e ao desejo arbitrário dos administradores do Estado, e as ordens religiosas reviradas e espalhadas.

15. Mas contra a sé apostólica e o Pontífice Romano a contenda destes inimigos tem sido por um longo tempo dirigida. O Pontífice foi primeiro, por razões sem substância, atirado para fora da proteção de sua liberdade e de seu direito, o principado civil; logo, ele foi injustamente forçado em uma condição que era insuportável por causa das dificuldades levantadas de todos os lados; e agora o tempo chegou em que os partisans (guerrilheiros) da seita abertamente declaram, o que em segredo entre eles mesmos eles têm por um longo tempo planejado, que o poder sagrado dos Pontífices deve ser abolido, e que o próprio papado, fundado por direito divino, deve ser totalmente destruído. Se outras provas fossem desejadas, este fato seria suficientemente revelado pelo testemunho de homens informados, dos quais alguns em outros tempos, e outros recentemente, declararam ser verdadeiro a respeito dos Maçons que eles desejam especialmente atacar violentamente a igreja com irreconciliável hostilidade, e que eles nunca descansarão até que eles tenham destruído o que quer que os supremos Pontífices tenham estabelecido como religião.

16. Se aqueles que são admitidos como membros não são ordenados a abjurar por quaisquer palavras as doutrinas Católicas, esta omissão, muito longe de ser adversa aos desígnios dos Maçons é mais útil para os seus propósitos. Primeiro, deste modo eles facilmente enganam os ingênuos e os incautos, e podem induzir um número muito maior a se tornarem membros. Novamente, como todos que se oferecem são recebidos qualquer que possa ser sua forma de religião, eles deste modo ensinam o grande erro desta época ― que uma consideração por religião deveria ser tida como assunto indiferente, e que todas as religiões são semelhantes. Este modo de raciocinar é calculado para trazer a ruína de todas as formas de religião, e especialmente da religião Católica, que, como é a única que é verdadeira, não pode, sem grande injustiça, ser considerada como meramente igual às outras religiões.

17. Mas os naturalistas vão muito mais longe; pois, tendo, nas mais altas coisas, entrado em um curso completamente errôneo, eles são levados impetuosamente a extremos, ou por causa da fraqueza da natureza humana, ou porque Deus inflige sobre eles a justa punição do seu orgulho. Assim acontece que eles não mais consideram como certas e permanentes aquelas coisas que são totalmente entendidas pela luz natural da razão, tais como certamente são ― a existência de Deus, a natureza imaterial da alma humana, e sua imortalidade. A seita dos Maçons, por uma similar trilha de erro, é exposta a estes mesmos perigos; pois, embora de um modo geral eles possam professar a existência de Deus, eles mesmos são testemunhas que eles não mantêm todos esta verdade com total concordância da mente e com uma firme convicção. Nem eles escondem que esta questão sobre Deus é a maior fonte e causa de discórdias entre eles; de fato, é certo que uma discussão considerável sobre este mesmo assunto existiu entre eles muito recentemente. Mas, realmente, a seita permite grande liberdade aos seus membros juramentados por voto, de modo que para cada lado é dado o direito de defender a sua própria opinião, ou de que há um Deus, ou de que não há nenhum; e aqueles que obstinadamente argumentam que não há nenhum Deus são tão facilmente iniciados como aqueles que argumentam que Deus existe, embora, como os panteístas, eles tenham falsas noções acerca dEle: tudo que não é nada mais do que retirar a realidade, retendo algumas absurdas representações da natureza divina.

18. Quando esta maior e fundamental verdade foi derrubada ou enfraquecida, segue que aquelas verdades, também, que são conhecidas pelo ensinamento da natureza devem começar a cair ― especificamente, que todas as coisas foram feitas pelo livre desejo de Deus o Criador; que o mundo é governado pela Providência; que as almas não morrem; que a esta vida dos homens sobre a terra sucederá outra em uma vida eterna.

19. Quando estas verdades foram eliminadas, as quais são os princípios da natureza e importantes para o conhecimento e para o uso prático, é fácil de ver o que irá ser da moralidade pública e privada. Nós não dizemos nada daquelas virtudes mais celestiais, as quais ninguém pode exercer ou mesmo adquirir sem um especial dom e graça de Deus; das quais necessariamente nenhum traço pode ser encontrado naqueles que rejeitam como desconhecida a redenção da humanidade, a graça de Deus, os sacramentos, e a felicidade a ser obtida no céu. Nós falamos agora dos deveres que têm a sua origem na retidão natural. Que Deus é o Criador do mundo e seu providente Governador; que a lei eterna exige que a ordem natural seja mantida, e proíbe que ela seja perturbada; que o fim último do homem é um destino muito acima das coisas humanas e além desta parada sobre a terra: estas são as fontes e estes são os princípios de toda justiça e moralidade.

Se eles forem removidos, como os naturalistas e Maçons desejam, imediatamente não haverá nenhum conhecimento quanto ao que constitui justiça e injustiça, ou sobre qual princípio a moralidade é fundada. E, em verdade, o ensinamento de moralidade que exclusivamente encontra o favor da seita dos Maçons, e em que eles argumentam que os jovens deveriam ser instruídos, é o que eles chamam "civil", e "independente", e "livre", especificamente, aquele que não contém qualquer crença religiosa. Mas, quão insuficiente tal ensinamento é, quanto deixa a desejar em firmeza, e quão facilmente movido por cada impulso da paixão, é suficientemente provado por seus tristes frutos, que já começaram a aparecer. Pois, aonde quer que, removendo a educação Cristã, este ensinamento começou a reinar mais completamente, aí a bondade e integridade da moral começou rapidamente a perecer, monstruosas e vergonhosas opiniões têm crescido, e a audácia dos atos malignos tem se elevado a um alto grau. Tudo isso é comumente lamentado e deplorado; e não poucos daqueles que de modo algum desejam fazê-lo são compelidos pela abundância de provas a dar não infreqüentemente o mesmo testemunho.

20. Ainda mais, a natureza humana foi manchada pelo pecado original, e é portanto mais disposta ao vício do que à virtude. Pois uma vida virtuosa é absolutamente necessária para restringir os movimentos desordenados da alma, e para fazer as paixões obedientes à razão. Neste conflito as coisas humanas devem freqüentemente ser desprezadas, e os maiores trabalhos e durezas devem ser executados, de modo que a razão possa sempre manter o seu domínio. Mas os naturalistas e Maçons, não tendo fé naquelas coisas que nós aprendemos pela revelação de Deus, negam que nossos primeiros pais tenham pecado, e conseqüentemente pensam que o livre desejo não é de modo algum enfraquecido e inclinado ao mal [13]. Pelo contrário, exagerando bastante o poder e a excelência da natureza, e colocando somente ali o princípio e regra da justiça, eles não podem nem mesmo imaginar que haja qualquer necessidade de uma constante luta e uma perfeita firmeza para dominar a violência e governo de nossas paixões.

Por isso nós vemos que homens são publicamente tentados pelos muitos encantamentos do prazer; que há jornais e panfletos sem moderação nem vergonha; que peças de teatro são notáveis pela licenciosidade; que desenhos para obras de arte são de uma maneira desavergonhada buscados nas leis de um assim chamado realismo; que os planos de uma vida fácil e delicada são cuidadosamente elaborados; que todas as seduções do prazer são diligentemente buscadas pelas quais a virtude possa ser ninada até adormecer. Depravadamente, também, mas ao mesmo tempo de um modo bastante consistente, fazem aqueles atos que eliminam a expectativa das alegrias do céu, e trazem para baixo toda a felicidade para o nível da mortalidade, e, de fato, a afundam na terra. Do que Nós dissemos o seguinte fato, estarrecedor não tanto por si mesmo quanto em sua aberta expressão, pode servir como confirmação. Pois, uma vez que geralmente ninguém está acostumado a obedecer homens hábeis e inteligentes tão submissamente como aqueles cuja alma está enfraquecida e quebrada pelo domínio das paixões, tem havido na seita dos Maçons alguns que têm simplesmente determinado e proposto que, engenhosamente e de propósito estabelecido, a multidão deveria ser saciada com uma licença sem limite para o vício, pois, quando isso tivesse sido feito, ela iria facilmente cair sob o seu poder e autoridade para quaisquer atos de audácia.

21. Quanto ao que se refere à vida doméstica nos ensinamentos dos naturalistas é quase tudo contido nas seguintes declarações: que o casamento pertence ao gênero dos contratos humanos, que pode ser legalmente revogado pelo desejo daqueles que o fizeram, que os governadores civis do Estado têm poder sobre o laço matrimonial; que na educação dos jovens nada deve ser ensinado em matéria de religião como opinião certa e fixada; e cada um deve ser deixado livre para seguir, quando chegar à idade, qualquer que ele preferir. Os Maçons concordam completamente com estas coisas; e não somente concordam, mas têm longamente esforçado-se para transformá-las em lei e instituição. Pois em muitos países, e aqueles nominalmente Católicos, é estabelecido que nenhum casamento deve ser considerado legal a não ser aqueles contraídos pelo rito civil; em outros lugares a lei permite o divórcio; e em outros todos os esforços são feitos para torná-lo legal tão logo quanto possível. Portanto, o tempo está rapidamente se aproximando em que os casamentos vão ser tornados em outro tipo de contrato ― ou seja em uniões mutáveis e incertas que um capricho pode unir, e que do mesmo modo quando se modificar pode desunir.

Com a maior unanimidade a seita dos Maçons também esforça-se para tomar a si mesma a educação da juventude. Eles pensam que eles podem facilmente moldar às suas opiniões aquela idade macia e maleável, e torcê-la no que quer que eles desejem; e que nada pode ser mais adequado do que isto para permitir a eles levar a juventude do Estado a seguir seu próprio plano. Portanto, na educação e instrução de crianças eles não permitem qualquer participação, quer no ensinamento ou na disciplina, aos ministros da Igreja; e em muitos lugares eles têm procurado obter que a educação dos jovens esteja exclusivamente nas mãos de leigos, e que nada que trate dos mais importantes e mais sagrados deveres dos homens para com Deus deva ser introduzido na instrução sobre moral.

22. E ainda há as suas doutrinas sobre política, em que os naturalistas decretam que todos os homens têm o mesmo direito, e são em todos os aspectos da mesma e igual condição; que cada um é naturalmente livre; que nenhum tem o direito de comandar a outrem; que é um ato de violência requerer que homens obedeçam qualquer autoridade outra que aquela que é obtida deles mesmos. De acordo com isto, portanto, todas as coisas pertencem ao povo livre; o poder é exercido pela ordem ou permissão do povo, de modo que, quando o desejo do povo muda, os governantes podem ser legalmente depostos e a fonte de todos os direitos e deveres civis está ou na multidão ou na autoridade governante quando esta é constituída de acordo com as últimas doutrinas. É sustentado também que o Estado deve ser sem Deus; que nas várias formas de religião não há razão pela qual uma devesse ter precedência sobre outra; e que todas elas devem ocupar o mesmo lugar.

23. Que estas doutrinas são igualmente aceitáveis aos Maçons, e que eles desejariam constituir Estados de acordo com este exemplo e modelo, é excessivamente bem conhecido para requerer prova. Por algum tempo eles tem abertamente esforçado-se para tornar isto realidade com toda a sua força e recursos; e deste modo eles preparam o caminho para não poucos homens audaciosos que estão se apressando a fazer até as piores coisas, em seu esforço para obter igualdade e comunhão de todos os bens pela destruição de todas as distinções de título e propriedade.

24. O que, portanto, a seita dos Maçons é, e que trilha ela persegue, aparece suficientemente do sumário que Nós resumidamente demos. Seus dogmas principais estão tão grandemente e manifestamente apartados da razão que nada pode ser mais perverso. Desejar destruir a religião e a Igreja que o próprio Deus estabeleceu, e cuja perpetuidade Ele assegura por Sua proteção, e trazer após um lapso de dezoito séculos as maneiras e costumes dos pagãos, é notável insensatez e audaciosa impiedade. Nem é menos horrível nem mais tolerável que eles repudiem os benefícios que Jesus Cristo tão misericordiosamente obteve, não somente para os indivíduos, mas também para as famílias e a sociedade civil, benefícios os quais, mesmo de acordo com o julgamento e testemunho de inimigos da Cristandade, são muito grandes. Nesta empreitada insana e pervertida nós quase podemos ver o ódio implacável e o espírito de vingança com o qual o próprio Satanás está inflamado contra Jesus Cristo. Do mesmo modo o estudado esforço dos Maçons para destruir as principais fundações da justiça e honestidade, e para cooperar com aqueles que desejarem, como se fossem meros animais, fazer o que eles quiserem, tende somente para a ignominiosa e desgraçada ruína do gênero humano.

O mal, também, é agravado pelos perigos que ameaçam a sociedade doméstica e civil. Como Nós demonstramos, no matrimônio, de acordo com a crença de quase todas nações, há algo sagrado e religioso; e a lei de Deus determinou que os matrimônios não devam ser dissolvidos. Se eles forem desprovidos do seu caráter sagrado, e feitos dissolúveis, problemas e confusão na família serão o resultado, a esposa sendo despojada de sua dignidade e as crianças deixadas sem proteção quanto aos seus interesses e bem-estar. Não ter nos assuntos públicos qualquer cuidado pela religião, e nos arranjos e administração dos assuntos civis não ter maior consideração para com Deus do que se Ele não existisse, é uma imprudência desconhecida dos próprios pagãos; pois em seus corações e almas a noção de uma divindade e a necessidade de uma religião pública estavam tão firmemente estabelecidas que eles teriam pensado ser mais fácil ter uma cidade sem fundamentos do que uma cidade sem Deus. A sociedade humana, para a qual nós verdadeiramente por natureza somos formados, foi constituída por Deus, o Autor da natureza; e dEle, como de seu princípio e fonte, fluem em toda a sua força e permanência os incontáveis benefícios com os quais a sociedade abunda. Como todos e cada um de nós somos admoestados pela própria voz da natureza para cultuar a Deus em piedade e santidade, como o Doador da vida e de tudo que é bom nela, do mesmo modo e pela mesma razão, nações e Estados estão obrigados a cultuá-lO; e portanto é claro que aqueles que querem absolver a sociedade de todos os deveres religiosos agem não só injustamente mas também com ignorância e insensatez.

25. Como os homens são pela vontade de Deus nascidos para a união civil e sociedade, e como o poder de governar é um elo de união tão necessário à sociedade que, se ele é retirado, a sociedade necessariamente e imediatamente se desfaz, segue que dEle que é o Autor da sociedade veio também a autoridade de governar; assim quem quer que governe, é ministro de Deus. Portanto, como o fim e a natureza da sociedade humana requerem, é correto obedecer às justas ordens da autoridade legal, como é correto obedecer a Deus que governa todas as coisas; e é extremamente falso que o povo tenha como um poder jogar de lado sua obediência quando quer que lhe agrade.

26. De maneira semelhante, ninguém duvida que todos os homens são iguais uns aos outros, tanto quanto se refere à sua origem e natureza comuns, ou o fim último que cada um deve atingir, ou os direitos e deveres que são daí derivados. Mas, como as habilidades de todos não são iguais, como um difere do outro nos poderes da mente e do corpo, e como há realmente muitas dessemelhanças de maneiras, disposição, e caráter, é extremamente repugnante à razão esforçar-se por confinar todos dentro da mesma medida, e estender completa igualdade às instituições da vida civil. Assim como uma perfeita condição do corpo resulta da conjunção e composição de seus vários membros, os quais, embora diferindo em forma e propósito, fazem, por sua união e distribuição de cada um em seu próprio lugar, uma combinação bela para ser mantida, firme em força, e necessária para o uso; desse modo, na comunidade, há uma quase infinita dessemelhança de homens, como partes do todo. Se eles devem ser todos iguais, e cada um deve seguir seu próprio desejo, o Estado vai aparecer extremamente deformado; mas se, com uma distinção de graus de dignidade, de ocupações e empregos, todos habilmente cooperarem para o bem comum, eles irão apresentar a imagem de um Estado bem constituído e conformado à natureza.

27. Agora, dos perturbantes erros que Nós temos descrito os maiores perigos para os Estados devem ser temidos. Pois, sendo retirados o temor a Deus e a reverência pelas leis divinas, sendo desprezada a autoridade dos governantes, a sedição permitida e aprovada, e as paixões populares exacerbadas até o desprezo pela lei, sem qualquer freio a não ser o castigo, uma mudança e derrubada de todas as coisas necessariamente seguirá. Sim, esta mudança e derrubada é deliberadamente planejada e colocada em curso por várias associações de comunistas e socialistas; e aos seus propósitos a seita dos Maçons não é hostil, mas favorece grandemente seus desígnios, e tem em comum com eles suas principais opiniões. E se estes homens não se esforçam imediatamente e em todo lugar para levar à frente seus pontos de vista extremos, isso não deve ser atribuído ao seu ensinamento e sua vontade, mas à virtude daquela divina religião que não pode ser destruída; e também porque a parte mais sólida dos homens, recusando-se a ser escravizada às sociedades secretas, vigorosamente resiste às suas insanas tentativas.

28. Se todos os homens julgassem a árvore pelo seu fruto, e reconhecessem a semente e origem dos males que nos pressionam, e dos perigos que estão nos ameaçando! Nós temos que lidar com um inimigo enganoso e habilidoso, que, gratificando os ouvidos do povo e dos príncipes, os tem enleado por falas macias e por adulação. Entrando nas boas graças dos governantes sob a alegação de amizade, os Maçons têm se esforçado para fazê-los seus aliados e poderosos auxiliadores para a destruição do nome Cristão; e para que eles possam mais fortemente pressioná-los, eles têm, com determinada calúnia, acusado a Igreja de maliciosamente contender com os governantes em assuntos que afetam a sua autoridade e soberano poder. Tendo, por estes artifícios, assegurado a sua própria segurança e audácia, eles começaram a exercer grande peso no governo dos Estados: mas entretanto estão preparados para sacudir as fundações de impérios, para perturbar os governantes do Estado, para acusá-los, e para expulsá-los, tão freqüentemente quanto eles aparentam governar de modo diferente do que eles próprios poderiam ter desejado. De modo semelhante, eles têm por falsos elogios iludido o povo. Proclamando com uma alta voz a liberdade e prosperidade pública, e dizendo que era por causa da Igreja e dos soberanos que a multidão não era retirada de sua injusta servidão e pobreza, eles se impuseram sobre o povo, e, excitando-os por uma sede por novidades, eles os pressionaram a assaltar tanto a Igreja quanto o poder civil. Entretanto, a expectativa de benefícios que era esperada é muito maior do que a realidade; realmente, as pessoas comuns, mais oprimidas do que elas eram antes, estão privadas em sua miséria daquele consolo que, se as coisas tivessem sido arranjadas de um modo Cristão, eles teriam tido com facilidade e em abundância. Mas, quem quer que lute contra a ordem que a Divina Providência constituiu paga usualmente a penalidade por seu orgulho, e encontra-se com a aflição e a miséria quando eles insensatamente esperavam encontrar todas as coisas prósperas e conforme os seus próprios desejos.

29. A Igreja, se ela dirige os homens a prestar obediência principalmente a acima de tudo a Deus o soberano Senhor, é erradamente e falsamente considerada ou invejosa do poder civil ou de se arrogar algo dos direitos dos soberanos. Pelo contrário, ela ensina que o que é retamente devido ao poder civil deve ser prestado a ele com convicção e consciência de dever. Ensinando que do próprio Deus vem o direito de governar, ela adiciona uma grande dignidade à autoridade civil, e ainda ajuda a obter a obediência e boa intenção dos cidadãos. Amiga da paz e sustentáculo da concórdia, ela abraça a todos com amor maternal, e, intencionando apenas auxiliar o homem mortal, ela ensina que à justiça deve ser ajuntada a clemência, eqüidade à autoridade, e moderação à legislação; que o direito de ninguém pode ser violado; que a ordem e a tranqüilidade pública devem ser mantidas e que a pobreza daqueles que estão em necessidade deve, tanto quanto possível, ser aliviada pela caridade pública e privada. "Mas por esta razão," para usar as palavras de Sto. Agostinho, "os homens pensam, ou gostariam de acreditar, que o ensinamento Cristão não é adequado para o bem do Estado; pois eles desejam que o Estado seja fundado não em sólida virtude, mas na impunidade do vício."[14] Sabendo destas coisas, os príncipes e o povo agiriam com sabedoria política[15], e de acordo com as necessidades da segurança geral, se, ao invés de juntar-se aos Maçons para destruir a Igreja, eles se juntassem à Igreja para repelir os seus ataques.

30. O que quer que o futuro possa ser, neste grave e difundido mal é Nosso dever, veneráveis irmãos, esforçar-nos por encontrar um remédio. E porque Nós sabemos que a Nossa melhor e mais firme esperança de um remédio está no poder daquela divina religião que os Maçons odeiam em proporção ao seu medo dela, Nós pensamos ser de capital importância chamar esse grande poder salvífico em Nosso auxílio contra o inimigo comum. Portanto, tudo que os Pontífices Romanos Nossos predecessores decretaram com o propósito de opor-se aos projetos e esforços da seita maçônica, e tudo que eles tenham legislado quanto à entrada ou saída de homens de sociedades deste tipo, Nós ratificamos e confirmamos completamente pela nossa autoridade apostólica: e confiando grandemente na boa intenção dos Cristãos, Nós rogamos e imploramos a cada um, pela sua salvação eterna, para ser o mais conscienciosamente cuidadoso para não divergir o mínimo que seja daquilo que a sé apostólica tem ordenado neste assunto.

31. Nós rogamos e imploramos a vós, veneráveis irmãos, a juntar os vossos esforços com os Nossos, e esforçadamente lutar pela extirpação desta praga maligna, que está se esgueirando através das veias do corpo da política. Vós deveis defender a glória de Deus e a salvação do vosso próximo; e com o objetivo de vosso combate à vossa frente, nem coragem nem força irão faltar. Será por vossa prudência que julgareis por quais modos vós podeis melhor sobrepujar as dificuldades e obstáculos com os quais vos encontrardes. Mas, como pertence à autoridade de Nosso ofício que Nós mesmos apontemos algumas maneiras apropriadas de procedimento, Nós desejamos que o vosso primeiro ato seja arrancar a máscara da Maçonaria, e deixar que ela seja vista como realmente é; e por sermões e cartas pastorais instruir o povo quanto aos artifícios usado pelas sociedades deste tipo para seduzir os homens e persuadi-los a entrar em suas fileiras, e quanto à perversidade de suas ações e à maldade de seus atos. Como Nossos predecessores por muitas vezes repetiram, que nenhum homem pense que ele possa por qualquer razão que seja ajuntar-se à seita maçônica, se ele dá valor ao seu nome Católico e à sua salvação eterna como ele deveria valorizá-los. Que nenhum seja enganado por uma pretensão de honestidade. Pode parecer a alguns que os Maçons não exigem nada que seja abertamente contrário à religião e à moral; mas, como todo princípio e objetivo da seita está naquilo que é vicioso e criminoso, ajuntar-se com estes homens ou em algum modo ajudá-los não pode ser legítimo.

32. Além disso, por assíduos ensinamentos e exortações, a multidão precisa ser levada a aprender diligentemente os preceitos da religião; para este propósito Nós encarecidamente recomendamos que por oportunos escritos e sermões lhes sejam ensinados os elementos daquelas sagradas verdades nas quais a filosofia Cristã está contida. O resultado disto será que as mentes dos homens serão fortalecidas pela instrução, e serão protegidas contra muitas formas de erro e induções à depravação, especialmente na presente liberdade de escrita sem limites e insaciável desejo de aprender.

33. Grande, realmente, é a obra; mas nela o clero irá compartilhar os vossos trabalhos, se, através de vosso cuidado, eles estiverem à altura disto através do aprendizado e de uma vida bem orientada. Este bom e grande trabalho requer o auxílio também da indústria daqueles entre os leigos em que um amor pela religião e pela pátria existe ao lado da instrução e retidão de vida. Unindo os esforços do clero e dos leigos, batalhai, veneráveis irmãos, para fazer os homens conhecer e amar completamente a Igreja; pois, quanto maior o seu conhecimento e amor pela Igreja, mais eles se desviarão das sociedades clandestinas.

34. Por este motivo, não sem causa Nós usamos esta ocasião para declarar novamente o que nós declaramos em outro lugar, ou seja, que a Ordem Terceira de São Francisco, cuja disciplina Nós algum tempo atrás prudentemente mitigamos[16], deveria ser refletidamente promovida e sustentada; pois todo o objetivo desta Ordem, como constituída por seu fundador, é convidar os homens a uma imitação de Jesus Cristo, a um amor à Igreja, e à observância de todas as virtudes Cristãs; e portanto ela deveria ser de grande influência em suprimir o contágio das sociedades pervertidas. Que, portanto, esta santa irmandade possa ser fortalecida por um crescimento diário. Entre os muitos benefícios a serem esperados disso estará o grande benefício de voltar as mentes dos homens à liberdade, fraternidade e igualdade de direito; não tais como os Maçons absurdamente imaginam, mas tais como Jesus Cristo obteve para o gênero humano e aos quais São Francisco aspirou: a liberdade, Nós queremos dizer, de filhos de Deus, através da qual nós podemos ser livres da escravidão a Satanás ou a nossas paixões, ambos os mais perversos mestres; a fraternidade cuja origem está em Deus, o Criador comum e Pai de todos; a igualdade a qual, fundada na justiça e caridade, não remove todas as distinções entre os homens, mas, das variedades da vida, dos deveres, e das ocupações, forma aquela união e aquela harmonia que naturalmente tende ao benefício e dignidade da sociedade.

35. Em terceiro lugar, há um assunto sabiamente instituído por nossos ancestrais, mas no decorrer do tempo deixado de lado, que pode agora ser usado como um padrão e forma de algo semelhante. Nós queremos dizer as associações ou organizações de trabalhadores, para proteger, sob a direção da religião, os seus interesses temporais e a sua moralidade. Se nossos ancestrais, por longa prática e experiência, sentiram o benefício destas associações, nossa época talvez irá senti-lo ainda mais por causa da oportunidade que eles darão de esmagar o poder das seitas. Aqueles que sustentam a si mesmos pelo trabalho de suas mãos, além de serem, pela sua própria condição, mais dignos acima de todos os outros de caridade e consolação, são também especialmente expostos às tentações de homens cujos caminhos estão na fraude e no engano. Portanto, eles devem ser ajudados com a maior bondade possível, a ser convidados a juntar-se a associações que são boas, para que eles não sejam arrastados para outras que são malignas. Por esta razão, Nós grandemente desejamos, pela salvação das pessoas, que, sob os auspícios e patrocínio dos bispos, e em oportunidades convenientes, estas associações possam ser restauradas de uma maneira generalizada. Para Nossa grande alegria, irmandades deste tipo e também associações de mestres já foram estabelecidas em muitos lugares, tendo, cada classe delas, por seu objetivo ajudar os honestos trabalhadores, a proteger e guardar suas crianças e família, e a promover neles a piedade, o conhecimento Cristão, e uma vida moral. E neste assunto Nós não podemos nos omitir de mencionar aquela sociedade exemplar, denominada de acordo com o seu fundador, São Vicente, que tem merecido tanto das classes mais baixas. Seus atos e seus alvos são bem conhecidos. Todo o seu objetivo é dar alívio ao pobre e miserável. Isto ela faz com singular prudência e modéstia; e quanto menos ela deseja ser notada, mais ela se adequa ao exercício da caridade Cristã, e para o alívio dos sofredores.

36. Em quarto lugar, de modo a mais facilmente atingir o que Nós desejamos, à vossa fidelidade e vigilância Nós recomendamos de um modo especial os jovens, como sendo a esperança da sociedade humana. Devotai a maior parte do vosso cuidado à instrução deles; e não pensai que qualquer precaução possa ser grande o suficiente para mantê-los afastados de mestres e escolas aonde o hálito pestilento das seitas deva ser temido. Sob a vossa direção, deixem os pais, instrutores religiosos, e padres tendo a cura de almas, usar cada oportunidade, em seu ensinamento Cristão, para advertir suas crianças e pupilos da natureza infame destas sociedades, para que eles possam aprender em bom tempo a terem cuidado com os variados e fraudulentos artifícios pelos quais seus promotores costumam laçar as pessoas. E aqueles que instruem os jovens em conhecimento religioso agirão sabiamente se eles induzirem todos eles a se resolverem e se comprometerem a nunca ligar-se a qualquer sociedade sem o conhecimento de seus pais, ou o conselho de seu padre ou diretor.

37. Nós bem sabemos, entretanto, que os nossos esforços unidos não serão de modo algum suficientes para arrancar estas sementes perniciosas do campo do Senhor, a menos que o Celestial Mestre da vinha misericordiosamente nos ajude em nossos esforços. Nós precisamos, portanto, com grande e ansioso cuidado, implorar a Ele a ajuda que a grandeza do perigo e da necessidade requer. A seita da Maçonaria mostra-se insolente e orgulhosa de seu sucesso, e parece que ela não colocará limites à sua pertinácia. Seus seguidores, ajuntados por perversos acordos e por conselhos secretos, ajudam-se uns aos outros, e excitam-se uns aos outros a uma audácia nas coisas malignas. Um ataque tão veemente exige uma igual defesa ― especificamente, que todos os homens de bem formem a mais abrangente associação possível de ação e de oração. Nós imploramos a eles, portanto, com corações unidos, a permanecer unidos e firmes contra as forças das seitas que avançam; e em aflição e súplica estender suas mãos a Deus, orando que o nome Cristão possa florescer e prosperar, que a Igreja possa desfrutar da sua necessária liberdade, que aqueles que se extraviaram possam retornar a uma mente reta, que o erro difundido possa dar lugar à verdade, e o vício à virtude. Tomemos como nossa auxiliadora e intercessora a Virgem Maria, Mãe de Deus, para que ela, que desde o momento de sua concepção derrotou Satanás possa mostrar seu poder sobre estas seitas malignas, nas quais revive o contumaz espírito do demônio, juntamente com sua perfídia insubmissa e enganosa. Imploremos a Miguel, o príncipe dos anjos celestes, que lançou fora o infernal inimigo; e José, o esposo da santíssima Virgem, e patrono celeste da Igreja Católica; e os grandes Apóstolos, Pedro e Paulo, os pais e campeões vitoriosos da fé Cristã. Por seu patrocínio, e pela perseverança na união de oração, Nós esperamos que Deus irá misericordiosamente e oportunamente socorrer o gênero humano, que é rodeado por tantos perigos.

38. Como garantia dos dons celestes e de Nossa benevolência, Nós amorosamente concedemos no Senhor a vós, veneráveis irmãos, e ao clero e todo o povo confiado ao vosso vigilante cuidado, Nossa bênção apostólica.

Dado em Roma, junto de S. Pedro, no vigésimo dia de abril de 1884, o sexto ano de Nosso pontificado.

LEÃO PP. XIII

Notas:

[1] De civ. Dei, 14, 28 (PL 41, 436).

[2] Sl 82,2-4.

[3] Const. In Eminenti, 24 de abril de 1738.

[4] Const. Providas, 18 de maio de 1751.

[5] Const. Ecclesiam a Jesu Christo, 13 de setembro de 1821.

[6] Const. dada a 13 de março de 1825.

[7] Enc. Traditi, 21 de maio de 1829.

[8] Enc. Mirari, 15 de agosto de 1832.

[9] Enc. Qui Pluribus, 9 de novembro de 1846; pronunciamento Multiplices inter, 25 de setembro de 1865. etc.

[10] Clemente Xll (1730-40); Bento XIV (1740-58), Pio VII (1800-23); Pio IX (1846-78). [11] Ver números 79, 81, 84.

[12] Mt 7,18.

[13] Trid., sess. VI, De justif, c. 1. Texto do Concílio de Trento: "tametsi in eis (sc. Judaeis) liberum arbitrium minime extinctum esset, viribus licet attenuatum et inclinatum."

[14] Ver Arcanum, no. 81.

[15] Epístola 137, ad Volusianum, c. v, n. 20 (PL 33, 525).

[16] (17 de setembro de 1882), na qual o Papa Leão XIII tinha recentemente glorificado S. Francisco de Assis por ocasião do sétimo centenário de seu nascimento. Nesta encíclica, o Papa apresentou a Ordem Terceira de S. Francisco como uma resposta Cristã aos problemas sociais da época. A constituição Misericors Dei filius (23 de junho de 1883) expressamente relembrou que a negligência com a qual as virtudes Cristãs são tidas é a causa principal dos males que ameaçam as sociedades. Confirmando a regra da Ordem Terceira e adaptando-a às necessidades dos tempos modernos, o Papa Leão XIII intencionava trazer de volta o maior número possível de almas à prática destas virtudes.

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