O Fundamento Sobrenatural da Caridade
O amor verdadeiro não é produto do romantismo, tampouco um mero sentimento passageiro ou uma simples afinidade psíquica. Na sua acepção ontológica mais profunda, é o ato pelo qual o bem do outro se torna de tal modo imperativo que suplanta o valor da própria vida temporal. Conforme se depreende do ensinamento evangélico e da perene tradição teológica, amar consiste em estar disposto a depor a própria vida pela pessoa amada. No entanto, o cerne dessa disposição não reside na aniquilação de quem se sacrifica, mas no benefício incomensurável que o amado recebe: a vida que não se extingue. A precisão filosófica de Santo Tomás de Aquino formula o que está implícito nessa máxima divina ao demonstrar que o amor é, por definição, o desejo da eternidade do ser amado. Anseia-se que o outro perdure para sempre, subtraído ao aniquilamento. Para conservá-lo na existência eterna, aceita-se a perda desta vida transitória, a fim de que ele alcance a vida imortal. Retirado esse elemento escatológico, o amor torna-se radicalmente incompreensível. Tentar concebê-lo sem qualquer referência à eternidade constitui um absurdo análogo a postular um efeito desprovido da causa que lhe dá o ser.
Esta verdade austera dissolve imediatamente a falsa e vulgar dicotomia entre egoísmo e altruísmo, tão disseminada na mentalidade moderna e, infelizmente, em grande parte da homilética contemporânea. Tais conceitos não possuem estatuto de categorias filosóficas autênticas; são expedientes retóricos esvaziados de substância. Nas ações humanas, o benefício próprio e o alheio entrelaçam-se de modo indiscernível. A prática do bem verdadeiro confere, no mesmo instante, um bem a quem o pratica. O Sacrifício do Calvário não foi altruísta na acepção rasteira do termo; com aquele ato de obediência perfeitíssima, o Verbo Encarnado obteve um bem infinitamente superior para Si, para a humanidade redimida e para a ordem universal. A redução da moralidade ao binômio egoísmo-altruísmo denota uma profunda ignorância sobre a natureza do bem e do mal. A autêntica clivagem moral não se estabelece pela direção puramente psicológica do interesse, mas pela ordenação objetiva (ou desordenação) da vontade em relação ao Fim Último.
É sob esta luz que a tradição aristotélico-tomista eleva a definição do amor à sua máxima clareza. Na Ética a Nicômaco, Aristóteles estabelece que a amizade autêntica reside em querer o bem do outro enquanto outro, o que se denomina benevolência, distinguindo-se assim do amor de concupiscência, pelo qual se deseja um bem como meio de satisfação própria. Na Suma Teológica, o Doutor Angélico assume essa distinção e a transpõe para a ordem da graça, demonstrando que a caridade é uma verdadeira amizade entre Deus e o homem, alicerçada na comunicação da bem-aventurança sobrenatural. Por conseguinte, amar verdadeiramente uma criatura dotada de intelecto não é apenas desejar a sua preservação física, mas sobretudo ansiar que ela atinja o seu fim último. Sendo esse fim a bem-aventurança perfeita, que consiste na visão e posse intelectiva da Essência Divina, a sequência lógica impõe-se com rigor férreo: amar implica querer o bem do amado, o que exige querer que ele atinja o seu fim verdadeiro, o qual não é outro senão a própria visão beatífica.
Deus deve ser amado por Si mesmo, e não como mero instrumento para a obtenção de consolo celestial. O amor devido ao Criador supera o amor que o homem deve a si próprio, visto que Deus é o Bem Comum universal do qual emana toda a felicidade participada. O amor ao próximo, portanto, fundamenta-se precisamente no fato de que ele participa, ou está em potência de participar, desse mesmo Bem. Ama-se a criatura por causa de Deus e em ordenação a Ele. A caridade, iniciada de modo imperfeito no estado de via, alcança a sua consumação na pátria celeste, na união total com o Criador. É assim que o desejo de eternidade do ser amado adquire a sua plenitude teológica: deseja-se a eternidade do outro para que este possa fruir eternamente o Bem incriado. A disposição para o sacrifício supremo visa resgatar não as misérias do amado, mas salvaguardar o bem que a graça santificante operou ou pode operar naquela alma. O bem não possui subsistência autônoma na criatura; é a própria presença de Deus nela.
A Ilusão da Imortalidade Terrestre
Sem a premissa inegociável da imortalidade da alma humana, todo o edifício da moral e do intelecto entra em colapso. O desejo da eternidade do amado é a condição sine qua non da possibilidade do amor autêntico. A erosão do senso do eterno constitui a raiz funesta de praticamente todos os erros e aberrações filosóficas da modernidade. O homem contemporâneo, imerso no naturalismo, passou a agir como se fosse imortal na vida terrena. A existência temporal afigura-se-lhe tão abarcante que acaba forjando sucedâneos grotescos para a verdadeira imortalidade: a utopia do paraíso terrestre, o delírio da imortalidade física, a continuidade histórica indefinida ou a edificação de um reino político perfeito. Tais construções são quimeras de espíritos não iluminados pela graça e divorciados da sã razão. Sem a vida eterna, a própria filosofia degenera de uma busca rigorosa pela verdade em mero entretenimento intelectual, um passatempo vão para diletantes ociosos. A imortalidade é premissa metodológica da verdadeira sabedoria. Quando Sócrates afirmou que caminhava para um lugar melhor enquanto seus algozes permaneceriam na ignorância, demonstrava já no plano da razão natural que a serenidade diante do fim terreno só encontra justificação se a morte não for o aniquilamento absoluto.
Uma única alma racional possui maior durabilidade do que toda a sucessão de impérios da história humana, pois a história e o tempo cessarão, mas a alma subsistirá. A decantada continuidade histórica, tão exaltada pelas ideologias modernas, é uma fraude intelectual. A morte ceifa o homem por inteiro quanto à sua presença material temporal; não restam fragmentos ontológicos do indivíduo no fluir dos séculos. A mera recordação preservada por terceiros não é o homem real, mas uma pálida imagem retida na memória caduca. Apenas sob a perspectiva do infinito, na Cidade de Deus descrita por Santo Agostinho, a crônica das ações humanas adquire algum sentido de continuidade. A cidade dos homens desmorona a cada instante, sustentando-se precariamente apenas porque se encontra providencialmente inserida no desígnio da Cidade de Deus. A realidade da ordem temporal é estritamente contingente; toda a glória humana é glória emprestada. A eternidade é o alicerce indispensável sem o qual o temporal sequer poderia existir, pois o próprio movimento exige um substrato imutável.
A apreensão empírica da pessoa amada fornece apenas fragmentos captados pelos sentidos, unificados pelo intelecto para forjar a constatação de uma continuidade substancial. Acreditar firmemente no mundo objetivo pressupõe um ato de assentimento intelectual muitas vezes mais laborioso do que o ato de crer em Deus. O cosmos material não impõe a sua existência com a necessidade ontológica própria do Infinito; as criaturas contingentes poderiam simplesmente não existir e, rigorosamente, o mundo tangível consome-se na passagem ininterrupta do tempo. Os grandes vultos da antiguidade subsistem no tempo apenas nos registros bibliográficos, mas a sua substância já não habita a ordem material. Essa ordem, desprovida de ser em si mesma, só encontra sustentação no ato criador e conservador de Deus, que opera desde a eternidade.
Neste contexto, o homem não necessita lutar pela conquista da imortalidade ontológica, pois já foi criado como uma substância espiritual imperecível. O que se encontra verdadeiramente em disputa é o caráter dessa imortalidade: a bem-aventurança eterna ou a danação perpétua. O amor autêntico atua como a chave que orienta esse destino. A excelência da caridade reside na prontidão para o sacrifício, com ênfase absoluta na imortalidade gloriosa que se suplica para o outro. Ao contemplar o amado, a inteligência católica deve recordar-se incessantemente do Novíssimo da morte. A solicitação contínua pela salvação do próximo (e a própria) é um dever inelutável, pois desejar a vida eterna para outrem exige, por necessidade intrínseca, que ambas as almas se unam na mesma fruição da Essência Divina.
O Colapso do Sentido na Igreja Pós-Conciliar
A modernidade, em sua rebelião sistemática contra a ordem estabelecida por Deus, rejeitou a primazia da salvação da alma. Optou deliberadamente pelas imortalidades terrestres: a falácia da perpetuação física, o paraíso socialista imanente e o louvor vão deste século. Trata-se de proposições metafisicamente impossíveis. A matéria está submetida às categorias de espaço, tempo, corrupção e quantidade. A pluralidade e a sucessão temporal ditam que o advento de um ente material implica o perecimento do que o precedeu. O que é corpóreo é, por necessidade natural, finito e mortal. Postular uma imortalidade puramente física constitui uma contradição nos próprios termos, uma impossibilidade intrínseca e metafísica, cuja defesa atesta a falência da inteligência humana não iluminada pela sã doutrina. A propalada continuidade histórica, por sua vez, de nada serve aos que já desceram à sepultura, existindo meramente como constructo na mente dos cronistas.
A mentalidade revolucionária configura-se, assim, como a expressão máxima dessa busca pueril e cega pela glória intramundana. De modo trágico, o paradigma que tomou de assalto as estruturas da Igreja no período pós-conciliar enveredou por uma via análoga. Ao operar uma guinada antropocêntrica, o eixo da pregação foi severamente deslocado da urgente necessidade de salvação eterna para o ativismo horizontal e a edificação de um mundo socialmente justo. A escatologia cedeu lugar à história secular; o foco no sobrenatural foi substituído pelo naturalismo rasteiro, e o apelo imperativo à conversão foi eclipsado por discursos vagos sobre a dignidade humana. Concomitantemente, assistiu-se à progressiva anulação do senso prático da eternidade.
Este obscurecimento dogmático refletiu-se em todas as esferas. O silêncio sepulcral sobre a doutrina do Inferno, a atenuação do juízo particular e das consequências eternas do pecado, bem como a adoção de ritos litúrgicos voltados para a assembleia em detrimento do Sacrifício Propiciatório, operaram uma amputação efetiva do horizonte escatológico nas almas. Quando a teologia e a pastoral passam a enfatizar quase com exclusividade um reino presente na história humana, buscando transformar as estruturas sociais antes de salvar as almas da danação, efetua-se uma inversão satânica: prefere-se a cidade dos homens à Cidade de Deus. O corolário inevitável dessa apostasia silenciosa é o mesmo colapso de sentido que arruinou a civilização ocidental. Desvinculado do Fim Último ordenado a Deus, o amor degrada-se em filantropia sentimental, a filosofia em jogo de palavras, a política em tirania utópica e a própria religião em um humanitarismo maçônico revestido de verniz piedoso.
A pureza da Fé Católica jamais compactuou com o naturalismo. A doutrina perene sustenta que o amor verdadeiro exige a eternidade do amado para que este possua a Deus sem fim. Destituída dessa finalidade sobrenatural e hierárquica, qualquer obra humana carece de mérito meritório e dissolve-se no nada. É unicamente na submissão à verdade objetiva e imutável revelada por Cristo e guardada por Sua Igreja que subsiste o fundamento real para o amor, para a retidão intelectual, para o sentido da vida humana e para a salvação eterna das almas.
Baseado em palestra de Olavo de Carvalho.