Vamos nos sentar e conversar um pouco sobre essa tal de nouvelle théologie - o movimento que reuniu cavalheiros como Henri de Lubac, Yves Congar, Jean Daniélou e Hans Urs von Balthasar. Eles gostariam que você acreditasse que a coisa toda não surgiu do nada, mas que eles apenas tiraram a poeira dos Padres da Igreja para nos entregar uma teologia mais fresca e vivaz. No entanto, se você cavar um pouco abaixo da superfície, não encontrará Santo Agostinho; o que você descobre é que as raízes profundas dessa árvore estão fincadas no solo envenenado da modernidade filosófica. E, sentado bem ali na cabeceira da mesa da família, está Immanuel Kant, o filósofo prussiano que fez mais do que qualquer outro ser humano para trancar a teologia dentro do armário apertado da subjetividade.
A grande ruptura do cavalheiro prussiano
Com sua Crítica da Razão Pura, Kant desferiu um golpe mortal na metafísica tradicional. Ele educadamente informou ao mundo que a razão humana simplesmente não tem a capacidade de conhecer realidades transcendentais, como Deus, a alma ou a substância. Em vez disso, ele instaurou o subjetivismo moderno. Em seu sistema bem arrumado, Deus deixou de ser um objeto de conhecimento seguro para se tornar apenas um postulado prático, uma ideia útil para manter a moralidade funcionando. Bem ali, senhoras e senhores, marcou-se o nascimento da teologia moderna.
E é exatamente esse truque de mestre subjetivista que, mesmo disfarçado com roupas mais finas, desce sorrateiramente até a nouvelle théologie do nosso século.
Os intermediários e o veneno disfarçado
Agora, uma ideia ruim raramente viaja sozinha; ela precisa de bons vendedores. Entre Kant e os teólogos modernos, alguns intermediários bastante atarefados montaram suas barracas. Peguemos Maurice Blondel, por exemplo. Com sua filosofia da ação e da imanência, ele pavimentou o caminho e tentou passar a perna em Kant, mas acabou apenas patinando na mesma lama. A sua noção de que a verdade religiosa precisa brotar da experiência interior do homem demonstra como ele sofreu influência kantiana.
Depois, temos Joseph Maréchal e a sua curiosa invenção, o chamado tomismo transcendental. Em vez de atirar o criticismo kantiano pela janela, que era o seu lugar de direito, Maréchal e seus amigos tentaram mesclá-lo usando o nome de São Tomás. Foi um truque de salão muito inteligente, e serviu como a chave mestra que abriu as portas católicas para o subjetivismo moderno.
As conexões com os quatro grandes nomes
Vamos dar uma olhada nos quatro personagens principais desse pequeno drama. Hans Urs von Balthasar é, sem sombra de dúvida, o mais kantiano do grupo, muito embora fizesse um grande espetáculo ao criticá-lo. A sua teologia da beleza tenta dar uma resposta ao subjetivismo de Kant, mas o bom homem ainda está jogando no tabuleiro que o filósofo montou: mantendo a subjetividade central e olhando com desconfiança para a metafísica clássica. Balthasar passava os dias dialogando com os fantasmas de Kant, Hegel e Heidegger.
Em seguida, temos Henri de Lubac. Em seu livro Surnaturel, ele pegou um machado e foi para cima da boa e velha distinção tomista entre natureza e graça. Ele tentou vender a ideia de um desejo natural do sobrenatural. Pode até soar como algo piedoso para ouvidos desatentos, mas carrega toda a bagagem da imanentização moderna. Ao dissolver a gratuidade da graça divina, Lubac diluiu a gratuidade da graça, gerando uma nova compreensão teológica.
Quanto a Jean Daniélou e Yves Congar, eles podiam parecer um pouco mais moderados, mas estavam remando no mesmo barco. Congar, que adotou relativismo histórico em suas ideias sobre a Igreja, e Daniélou, que operava com uma mentalidade que pura e simplesmente rejeitava o rigor escolástico. E essa aversão pela verdade estrita e objetiva? Eles herdaram direto de seu avô intelectual na Prússia.
A árvore genealógica de um desastre
Se você olhar para tudo isso com os olhos bem abertos, perceberá que não estamos falando de uma mera peculiaridade acadêmica periférica. Kant é o ancestral espiritual de toda essa nouvelle théologie. Ele plantou a semente que mais tarde cresceria como uma erva daninha, trazendo a primazia da subjetividade sobre os fatos objetivos, a desconfiança na razão especulativa e o encolhimento da fé a uma mera experiência moral.
É por isso que, apesar de todo o barulho intelectual que Balthasar e seus amigos faziam contra Kant, eles continuaram presos na exata gaiola que ele construiu. O movimento deles nunca foi um retorno autêntico aos primeiros Padres. Foi apenas uma missão tola para tentar casar a velha religião com a modernidade kantiana - um casamento fadado ao tribunal de divórcio, como o colapso generalizado dos anos pós-conciliares demonstrou de forma tão prestativa.
Veja bem, enquanto a teologia escolástica apropriada parte da realidade dura e objetiva e da rocha sólida da Revelação, essa nova raça, infectada pelo vírus kantiano, prefere começar com os sentimentos religiosos do homem moderno. O resultado é exatamente o que se esperaria: uma teologia nebulosa, terrivelmente faladora, aberta a todos os ventos do mundo e, por consequência, inteiramente inútil quando se trata de resistir aos erros dos nossos dias.
Immanuel Kant não é apenas mais um filósofo na estante. Ele é a cerca que divide a teologia católica em "antes" e "depois". E você pode apostar o seu último centavo que a nouvelle théologie estacionou definitivamente do lado do "depois".