Immanuel Kant, quando resolve meter o bedelho na religião e na oração, vem com uma daquelas propostas de purificação radical típicas dele: o sujeito torna a religião uma coisa absolutamente impossível sem ter a hombridade de negá-la abertamente. Em vez de rejeitar a fé de frente, o que Kant faz? Ele esvazia a religião de todo o seu conteúdo vital, reduzindo o negócio a um mero exercício moral interiorzinho. Como eu já observei inúmeras vezes, Kant purifica tanto a coisa que a religião simplesmente se torna impraticável. Ele tem a pachorra de admitir que você pode rezar com o espírito correto - um esforçozinho moral de autoeducação para cumprir a vontade divina - mesmo sem ter certeza de que Deus existe. Ora, essa posição revela uma impossibilidade psicológica e lógica profunda, uma verdadeira esquizofrenia.
A mensagem na garrafa e a impossibilidade da obediência
Vejam a insanidade: Kant sugere que é perfeitamente possível você se dirigir com toda a sinceridade a um ser cuja existência você não confirma empiricamente. Eu comparo isso a você escrever uma cartinha, botar numa garrafa e jogar no oceano, sem ter a menor ideia se alguém vai receber a bendita mensagem. Como é que você pode agir em consequência e obedecer a um ser cuja existência e autoridade você mesmo põe em dúvida? Negar a existência de Deus é, na prática, negar a autoridade Dele; duvidar dessa existência torna a obediência um negócio puramente condicional, do tipo vou obedecer supondo que Ele exista. Ora, se Deus não existe, os mandamentos não vêm Dele - o nada não produz nada, porcaria nenhuma. Exigir obediência sincera a ordens que vêm de uma origem incerta é uma impossibilidade psicológica absoluta.
Essa exigência estapafúrdia ecoa exatamente aquele experimento cartesiano da dúvida radical que eu descrevi e desmontei no meu livro Visões de Descartes. Kant pede um negócio impossível, algo totalmente alienígena e distante da experiência real humana. Nenhum ser humano de carne e osso viveu ou jamais viverá uma experiência dessas. Ao posar de crítico das atitudes ditas impuras ou impulsivas na religião, o que Kant faz é propor uma atitude que é ainda mais impossível. As premissas mudas dele, aquilo que ele não declara expressamente, simplesmente não coincidem com a experiência humana real. É por isso que todo esse edifício filosófico pomposo desmorona e se revela falso quando você o contrasta com a realidade dos fatos.
O dualismo cartesiano e a oração autêntica
Bem no cerne dessa trapalhada toda está o velho dualismo cartesiano que Kant engoliu sem mastigar: a ideia de que a alma e Deus são duas substâncias separadas, autossubsistentes, que só se relacionam de maneira puramente externa por meio dessa tal moralidade. Veja bem, se você tem uma alma substantiva e independente, você já está negando, em certo sentido, a necessidade absoluta de Deus. Se a alma existe por si mesma e se basta, então Deus não apita nada na sua vida. A oração, nesse esquema doentio, se torna uma atividade inócua, sem o menor sentido: vira um monólogo moral neurótico dirigido a um interlocutor incerto.
A tradição religiosa verdadeira, por outro lado, faz exatamente o oposto: ela insiste na necessidade absoluta e inegociável da prece. Como dizia o apóstolo, orai sem cessar. Se você pega livros fundamentais como O Peregrino Russo, você vê ali a busca desesperada e real pela oração perpétua, aquela que se realiza no silêncio interior do sujeito. E mesmo quando usa palavras, a oração autêntica não é você fazendo discursinho para si mesmo; é você falando consigo na esperança de encontrar, lá no fundo da sua própria alma, o próprio Deus - exatamente como sugeriu Antonio Machado. Na oração real, você não fica prometendo obediência a ordens incertas; você pede a graça, pede fé, pede amor e as virtudes que a sua própria alma, por natureza, não tem como produzir. A fé é uma graça sobrenatural, minha gente, não é uma mera disposiçãozinha natural do intelecto.
É justamente aqui que entra aquele princípio milenar fundamental:
lex orandi, lex credendi
A lei da oração determina a lei da crença. Na prática da coisa, é o hábito de orar que vai moldar o conteúdo da sua fé, muito mais do que o inverso teórico. Mudanças litúrgicas muito sutis têm o poder de alterar a doutrina inteira. Nós vimos isso acontecer na controvérsia do por muitos versus por todos logo depois do Concílio Vaticano II, ou mesmo na Reforma inglesa do tal Cranmer, que foi modificando a liturgia de forma gradual, quietinho, sem confrontar os dogmas abertamente, apenas para transformar a crença do povo de uma forma totalmente disfarçada.
A autoconsciência humana e a falência da moralidade autônoma
O que o Kant faz é reduzir a religião inteira a uma moralidade autônoma. Para ele, a prece não revela absolutamente nada de novo sobre Deus; serve apenas para o sujeito ficar se autopersuadindo a seguir uma vontade que ele já conhece teoricamente. Ao contrário dessa bobagem, a tradição vê na oração o meio pelo qual nós conhecemos Deus através de suas ações e manifestações. É como Moisés lá no Sinai gritando para que Deus se mostrasse a ele. Nós conhecemos a Deus exatamente do mesmo jeito que conhecemos qualquer outra pessoa humana: por meio de suas manifestações parciais no tempo e no espaço, e não tentando capturar a essência divina isolada num laboratório mental. São os milagres, a presença real Dele no mundo e, acima de tudo, a ação do Espírito Santo que revelam essa realidade objetiva.
A própria autoconsciência humana - a percepção do seu eu - é um dom divino direto, infundido na gente pelo sopro de Deus. É isso que nos distingue da vida animal que foi dada aos outros bichos. Preste atenção: sem a ação do Espírito Santo, não existe verdadeira autoconsciência, não existe arrependimento real, não existe unidade biográfica na vida do sujeito e muito menos senso de realidade, o sensus communis. A prece é o que intensifica essa consciência, permitindo que você participe da origem divina dela. Você não sai de si mesmo para olhar Deus como se Ele fosse um objeto de estudo; você busca intensificar a sua participação lá no núcleo da sua autoconsciência, onde, como muito bem disse Paul Claudel, Deus é aquele que em mim é mais eu do que eu mesmo. É exatamente isso que restaura a nossa identidade cognitiva, que é a base fundamental da identidade moral e do único arrependimento autêntico possível.
No fim das contas, esse dualismo kantiano miserável - que opõe um eu substantivo a um Deus substantivo, conectando os dois apenas por um punhado de mandamentos morais exteriores - torna a religião um negócio enervante, falso e totalmente insustentável. O cara exige de você uma obediência sem dar a certeza da origem da ordem, forçando a internalização de preceitos que não têm a menor ancoragem num Deus vivo e real. O resultado prático dessa loucura toda é uma moralidade autônoma arrogante que acaba suplantando e destruindo a própria religião.