Na história das ideias, por vezes os diagnósticos mais lúcidos sobre um processo revolucionário não vêm de seus apologistas, mas de seus detratores. Em 1939, em meio à propaganda franquista, o escritor Francisco Ferrari Billoch publicou a obra Entre maçons e marxistas: Confissões de um Rosa-Cruz. Neste livro, ele delineou o que apresentou como um plano secreto da maçonaria para a subversão da civilização ocidental, sintetizado em seis pontos fundamentais, inspirados na estrela cabalística.
Independentemente da veracidade factual de tal "conspiração", o documento de Billoch transcende sua intenção propagandística e revela-se um roteiro espantosamente premonitório. Os seis pontos descrevem, com precisão cirúrgica, os vetores de uma mesma força histórica que se desdobrou ao longo do século XX e atingiu sua hegemonia no XXI: a inversão da ordem espiritual tradicional e sua substituição por uma religião civil materialista (Carvalho, 1998). A seguir, analisaremos esses pontos, não como um plano deliberado, mas como a descrição da lógica interna de uma mentalidade revolucionária que opera como um vírus cultural.
Os seis pontos, segundo Billoch (1939), são:
RELIGIÃO: “Desacreditar até destruir a fé cristã pela filosofia, o misticismo ou a ciência empírica.”
MORAL: “Corromper a moralidade das raças ocidentais infiltrando a seiva da moralidade oriental; enfraquecer os laços do matrimônio; destruir a vida de família e abolir o direito sucessório e até os nomes de família.”
ESTÉTICO: “Culto ao feio e extravagante em arte, literatura, música e teatro. Modernismo, orientalismo cruzado e degeneração.”
SOCIAL: “Abolição da aristocracia e criação da plutocracia; a riqueza, única distinção social; acender a luta de classes, chegando ao proletariado pela vulgaridade, a corrupção e a inveja, de onde nasce o ódio ao patrão.”
INDUSTRIAL E ECONÔMICO: “Industrialmente, vulgarização do lixo de produtos, centralização, ‘cartel’ e ‘trust’, que levam à abolição da propriedade privada e ao socialismo de Estado.”
POLÍTICO: “Matar o patriotismo e o orgulho de raça, e, em nome do progresso e da evolução, estabelecer o internacionalismo, como ideal da fraternidade humana.”
Vamos analisá-los com um olhar filosófico e histórico.
✡️ Religião: A Gnose Imanentista
O crescimento exponencial do secularismo no Ocidente, com um aumento expressivo dos "sem religião", e a proliferação de espiritualidades ecléticas "new age" são apenas a superfície do fenômeno. O ataque à fé cristã não visa simplesmente à sua substituição pelo ateísmo, mas ao esvaziamento de seu conteúdo transcendente para preenchê-lo com uma gnose imanentista. A "filosofia" mencionada é o materialismo; o "misticismo" é a gnose disfarçada de espiritualidade alternativa; e a "ciência empírica" é o cientificismo, que transforma uma ferramenta de conhecimento em um dogma que nega qualquer realidade supra-sensível. O objetivo final não é a ausência de religião, mas a instauração de uma nova religião disfarçada, onde a humanidade se salva a si mesma através do conhecimento técnico e do poder político, instaurando o paraíso na Terra (Carvalho, 1998).
💍 Moral: A Dissolução dos Vínculos Orgânicos
Observa-se hoje a corrosão de normas tradicionais, refletida em altas taxas de divórcio, no aumento de famílias monoparentais e na celebração de conceitos como o poliamor e a fluidez de gênero. Contudo, isso vai além do mero "individualismo". Trata-se da dissolução sistemática dos vínculos orgânicos — família, comunidade, pátria — que servem como anteparo entre o indivíduo e o poder centralizado do Estado. A destruição da família não é um subproduto de dinâmicas sociais, mas uma pré-condição para a atomização do indivíduo, tornando-o completamente dependente e moldável pelo poder político e ideológico. O enfraquecimento do matrimônio e a abolição simbólica da herança familiar visam apagar a continuidade histórica e a transmissão de valores que escapam ao controle estatal.
🎨 Estética: A Inversão Metafísica
A arte contemporânea celebra o disruptivo e o extravagante, do dadaísmo ao trap, questionando cânones de beleza. Este fenômeno, porém, transcende a mera evolução de gostos. Trata-se de uma inversão metafísica. A arte clássica buscava o belo como um reflexo de uma ordem transcendente e harmoniosa. O "culto ao feio", por sua vez, é a expressão estética de uma cosmovisão que nega essa ordem, celebrando o caos, a fragmentação e a deformidade como a verdadeira natureza da realidade. A arte torna-se, então, uma ferramenta de dessacralização do mundo, um ataque à própria possibilidade de harmonia e sentido. O que era "extravagante" em 1939 não se tornou apenas mainstream; tornou-se o cânone oficial de uma cultura que perdeu sua âncora no transcendente.
👑 Social: Da Aristocracia à Plutocracia
Vivemos na era de oligarcas da tecnologia que eclipsam a nobreza tradicional, enquanto o populismo alimenta o ódio de classes nas redes sociais. A chave aqui é a natureza dessa transição. A abolição da aristocracia (baseada em honra e dever) não visava à igualdade, mas à sua substituição por uma elite cujo único critério de valor é o poder material: a plutocracia. Desprovida de qualquer senso de dever transcendente (noblesse oblige), esta nova elite utiliza a "luta de classes" como uma ferramenta de engenharia social. Ao atiçar sentimentos baixos como a inveja e o ressentimento, ela canaliza a frustração das massas para destruir os remanescentes da ordem antiga, consolidando seu próprio poder absoluto sob o pretexto de justiça social (Carvalho, 1998).
🏭 Industrial e Econômico: A Servidão Centralizada
Multinacionais como Amazon e os monopólios de tecnologia (GAFA) centralizam a economia global com produtos "fast" e obsolescência programada. Essa centralização econômica é o substrato material para a centralização do poder político. A abolição da propriedade privada, seja de forma explícita no socialismo, seja de forma implícita através do controle regulatório no capitalismo de vigilância, visa a um mesmo fim: a eliminação da autonomia individual. O indivíduo sem propriedade é um indivíduo sem poder, totalmente sujeito à vontade do planejador central. A "vulgarização do lixo de produtos" distrai as massas e destrói os padrões de qualidade que caracterizavam uma economia baseada na propriedade e na herança.
🌍 Político: O Império Universal
O globalismo, promovido por entidades como a UE e a ONU, defende uma "fraternidade" transnacional, embora enfrente reações nacionalistas. Este é o ápice do projeto gnóstico: a criação de um governo mundial, um Império universal que anule as soberanias nacionais. O patriotismo e as identidades culturais são os últimos grandes obstáculos a um poder global centralizado. Os slogans de "progresso" e "fraternidade humana" funcionam como a justificativa moral para desmantelar as nações, vistas como resquícios "primitivos". O internacionalismo, neste contexto, não é a cooperação entre povos, mas a dissolução de suas identidades numa massa homogênea, administrada por uma elite burocrática que não responde a ninguém senão a si mesma. É a ressurreição do ideal imperial sob uma nova roupagem (Carvalho, 1998).
📚 Referências
Billoch, Francisco Ferrari. Entre maçons e marxistas: Confissões de um Rosa-Cruz. 1939.
Carvalho, O. O Jardim das Aflições: De Epicuro à Ressurreição de César. 2. ed. rev. Rio de Janeiro: Topbooks, 1998.