O Realismo de Stanislavs Ladusāns: a filosofia pluridimensional frente ao modernismo e o pós-concílio vaticano II


A teologia e a filosofia católica do século XX foram profundamente marcadas pelo embate contra o modernismo, movimento condenado pelo Papa Pio X como a "síntese de todas as heresias". Nesse cenário, a figura do padre jesuíta e filósofo letão-brasileiro Stanislavs Ladusāns (1912-1993) emerge como um baluarte da ortodoxia tomista. Muitos teólogos, de fato, foram influenciados pelo modernismo condenado por Pio X na encíclica Pascendi Dominici Gregis (1907) e no decreto Lamentabili Sane (1907), bem como pelo Juramento Antimodernista (1910). Este último exigia rejeitar erros como o agnosticismo, o imanentismo vital, o evolucionismo dogmático e o relativismo histórico na interpretação da Revelação. Pio X via o modernismo como uma ameaça interna à Igreja que subordinava a fé à razão moderna, promovendo subjetivismo e adaptação excessiva ao mundo secular.

🎓 A formação e o contexto eclesial de Ladusāns

Stanislavs Ladusāns, ordenado na Letônia e radicado no Brasil após a Segunda Guerra Mundial (chegando em 1947), formou-se no rigoroso realismo tomista. Ele certamente tinha plena consciência dessa luta antimodernista, pois o Juramento Antimodernista era obrigatório para clérigos, professores de filosofia e teologia até 1967, quando foi revogado por Paulo VI. Ao integrar-se aos círculos católicos conservadores no Brasil, Ladusāns fundou instituições fundamentais para a preservação do pensamento clássico, como a Sociedade Brasileira dos Filósofos Católicos (1970), a revista Presença Filosófica (1974) e o CONPEFIL (Conjunto de Pesquisa Filosófica, fundado em 1970 na PUC-Rio). Estas iniciativas promoviam o neotomismo não apenas como uma escola de pensamento, mas como um antídoto intelectual ao modernismo e ao progressismo teológico que ganhavam força na América Latina (LADUSĀNS, 1974).

Seu trabalho filosófico, enraizado em São Tomás de Aquino e metodologicamente enriquecido pela fenomenologia (sem cair em subjetivismo), rejeitava explicitamente os "subjetivismos unidimensionais" como o relativismo, o ceticismo e o agnosticismo - erros centrais diagnosticados pelo modernismo.

🧠 Consciência da luta antimodernista e a gnosiologia

Ladusāns operava no contexto pós-modernista da Igreja, onde o tomismo, promovido por Leão XIII na encíclica Aeterni Patris (1879), era reforçado por Pio X como barreira intelectual. A sua proposta de uma "gnosiologia pluridimensional" - desenvolvida em sua obra magna Gnosiologia Pluridimensional (1992) - enfatizava uma epistemologia realista, aberta ao transcendente e à Verdade Suprema. Essa abordagem contrastava radicalmente com o agnosticismo modernista, que limita a razão ao fenômeno sensível e nega a capacidade natural da mente humana de ascender ao conhecimento de Deus através das coisas visíveis (LADUSĀNS, 1992).

Ele defendia que o conhecimento deve ser racional e simultaneamente aberto à Revelação, rejeitando tanto o fideísmo (fé sem razão) quanto o racionalismo (razão fechada à fé). Ao fazer isso, Ladusāns ecoava a crítica de Pio X ao modernismo como uma forma de agnosticismo eclesial. No Brasil, sua influência estendeu-se a intelectuais conservadores; destaca-se Olavo de Carvalho, que trabalhou como pesquisador no CONPEFIL no início da década de 1980 (nos anos 90 Ladusāns já preparava seu retorno à Europa). Carvalho via no padre letão um mentor na análise da "crise da modernidade", identificando a perda da fé e a ascensão do Estado laico como temas alinhados à visão de Pio X sobre as raízes das heresias modernas.

🛡️ O combate ao modernismo via realismo cristão

Ladusāns combateu o modernismo de forma sistemática, ainda que muitas vezes indireta, através de sua filosofia humanista pluridimensional. Ele buscava restaurar o "realismo cristão" contra distorções como o gnosticismo utópico, o progressismo político e o marxismo cultural, muito presentes no ambiente universitário brasileiro das décadas de 1970 e 1980.

Em obras como Humanismo Pluridimensional (1974), ele promoveu uma cognição integral, rejeitando:

O relativismo dogmático, que vê os dogmas como produtos evolutivos da consciência histórica;

O imanentismo, que reduz a fé a um sentimento interno sem base racional objetiva.

Sua abordagem fenomenológico-tomista servia como "subsídio ótimo" para afirmar verdades eternas, opostas ao evolucionismo histórico do modernismo. Historicamente, a atuação de Ladusāns no Rio de Janeiro e sua tentativa de expansão ou proteção do CONPEFIL (por vezes transferindo focos de atividade entre Rio e São Paulo entre 1981-1983) demonstram um esforço para blindar a pesquisa filosófica católica das influências da Teologia da Libertação, fortemente apoiada por figuras eclesiais proeminentes em São Paulo, como o Cardeal Paulo Evaristo Arns. Ladusāns alinhava-se, assim, às resistências conservadoras contra interpretações marxistas do Evangelho, reafirmando que a pessoa humana é um ser espiritual ordenado ao Bem Supremo, e não apenas um agente de transformação sociopolítica.

⛪ A questão do Concílio Vaticano II

Uma questão pertinente é a relação de Ladusāns com o Concílio Vaticano II (1962-1965). Não há evidências textuais de que Ladusāns tenha criticado publicamente o Concílio ou suas inovações pastorais e disciplinares. Diferente de movimentos tradicionalistas rupturistas, Ladusāns manteve-se na plena comunhão eclesial e na obediência à Companhia de Jesus.

Sua postura pode ser caracterizada pela hermenêutica da continuidade:

Abertura metodológica: embora documentos conciliares como a Optatam Totius recomendassem a abertura a outras correntes filosóficas além do tomismo, Ladusāns interpretou isso não como um abandono de São Tomás, mas como uma oportunidade de diálogo. Ele utilizou a fenomenologia moderna para atualizar e fortalecer o realismo tomista, demonstrando que a tradição poderia responder às angústias do homem moderno sem capitular aos seus erros.

Ausência de crítica direta: em obras como Rumores da Filosofia Atual no Brasil (1976), ele dialoga com o pensamento contemporâneo sem atacar o Magistério conciliar. Seu foco era combater o erro filosófico (materialismo, subjetivismo), e não a autoridade eclesiástica.

Fidelidade ao Magistério: Ladusāns operou sob o pontificado de João Paulo II, apoiando a linha de "restauração" conservadora que buscava corrigir os abusos pós-conciliares sem rejeitar o Concílio em si.

Portanto, não há indícios de que Ladusāns tenha caído no modernismo. Pelo contrário, sua obra é consistentemente ortodoxa. Ele rejeitava explicitamente o subjetivismo e o relativismo. Sua integração da fenomenologia ao tomismo foi orgânica - um enriquecimento realista para sistematizar o conhecimento cristão, e não uma adaptação modernista aos "espíritos da época".

🏁 Conclusão

Como jesuíta leal, Ladusāns dissolveu o CONPEFIL em 1991/1992 e retornou à Letônia, recém-independente da União Soviética, para ensinar no Seminário Teológico Católico de Riga, mantendo fidelidade à tradição até sua morte. Seus discípulos e admiradores o reconhecem como um baluarte contra a "degeneração moderna". Em suma, Stanislavs Ladusāns não só possuía plena consciência da luta antimodernista iniciada por Pio X, como contribuiu ativamente para ela através de uma filosofia robusta, evitando tanto os erros do modernismo quanto a ruptura cismática com a Igreja pós-conciliar.

📚 Referências bibliográficas

LADUSĀNS, S. Humanismo Pluridimensional. São Paulo: Loyola, 1974.

LADUSĀNS, S. Rumores de Filosofia Atual no Brasil: em Auto-Retratos. São Paulo: Loyola, 1976.

LADUSĀNS, S. Gnosiologia Pluridimensional: Fenomenologia do Conhecimento. Rio de Janeiro: Presença, 1992.