A Destruição da Tradição Cristã, Capítulo 8: O problema da obediência, de Rama P. Coomaraswamy


⚖️ A Armadilha da Falsa Obediência: Quando Resistir se Torna um Dever Sagrado

Neste capítulo fundamental, Rama Coomaraswamy desmonta a arma mais eficaz utilizada pelos inovadores para impor a revolução conciliar aos fiéis: o conceito distorcido de obediência. Iniciando com a advertência profética do Arcebispo Lefebvre de que "Satanás conseguiu fazer com que aqueles cujo dever é defender e propagar a Igreja condenem aqueles que defendem a Fé Católica" (p. 120), o autor estabelece que a crise atual não é um conflito entre rebeldes e a autoridade legítima, mas entre a fidelidade a Deus e a submissão a uma hierarquia que traiu sua missão. A obediência, longe de ser absoluta ou cega, é apresentada como uma virtude moral subordinada às virtudes teologais da Fé, Esperança e Caridade.

A verdadeira natureza da obediência católica é esclarecida através de definições teológicas precisas. Tanquerey ensina que é "evidente que não é nem obrigatório nem permitido obedecer a um superior que daria uma ordem manifestamente oposta às leis divinas ou eclesiásticas" (p. 120). O princípio petrino de que "importa obedecer a Deus antes que aos homens" (Atos 5:29) é a pedra angular da resistência católica. Coomaraswamy recorda que nem mesmo São Pedro foi seguido cegamente quando errou, sendo repreendido por São Paulo na questão da circuncisão, provando que a primazia não isenta o ocupante do cargo de correção quando este se desvia da verdade (p. 121).

Diante do conflito entre o ensino perene da Igreja e as novidades do Vaticano II, o autor recorre à regra de ouro de São Vicente de Lérins: quando uma nova doutrina contamina a Igreja, o católico deve "aderir à antiguidade", preferindo a Fé universal de sempre à novidade introduzida por um homem ou grupo, pois a inovação "pertence não à religião, mas à tentação" (p. 121). A obediência cega é denunciada como estranha ao Magistério. Santo Tomás de Aquino ensina que "não em todas as coisas os prelados devem ser obedecidos", mas apenas naquelas que não se opõem ao comando de um Poder superior, isto é, Deus (p. 122). A obediência sem discernimento é "oca", e o serviço irracional não é aceitável a Deus.

Para ilustrar que a desobediência a um Papa pode ser um dever sagrado, Coomaraswamy apresenta exemplos históricos contundentes. Cita o caso do Papa São Marcelino, que ofereceu incenso aos ídolos sob pressão, e do Papa Pascoal II, que cedeu aos imperadores na questão das investiduras, sendo repreendido por santos bispos que ameaçaram retirar-lhe a obediência se não reparasse seu erro (p. 125). O exemplo mais eloquente é o do Bispo Robert Grosseteste, que recusou uma ordem papal injusta para nomear um sobrinho do Pontífice, declarando: "Por amor à união com a Santa Sé... eu desedebeço, eu contradigo, eu me rebelo". O autor destaca que, ao recusar participar da destruição da Igreja por meio de "provisões" iníquas, Grosseteste não estava em rebelião, mas em perfeita fidelidade a Cristo (p. 126).

O capítulo mergulha então nas profundezas da conspiração anticristã, expondo como a obediência foi instrumentalizada pelos inimigos da Igreja. O autor cita a "Instrução Permanente da Alta Venda" (documento maçônico apreendido pela Igreja), que detalha o plano diabólico de não destruir a Igreja de fora, mas de pervertê-la de dentro, aguardando um Papa que servisse aos propósitos da seita. O objetivo era fazer com que o clero marchasse sob a bandeira maçônica acreditando marchar sob a bandeira das chaves de Pedro. A profecia maçônica de que "as reformas terão que ser trazidas em nome da obediência" (p. 128) cumpre-se assustadoramente no pós-concílio, onde a revolução litúrgica e doutrinal foi imposta sob o pretexto de submissão à autoridade.

A situação presente é analisada sob essa luz sinistra. Os católicos enfrentam um dilema terrível: obedecer aos "Papas" pós-conciliares significa apostatar da Fé Católica tal como existiu desde Cristo; resistir a eles parece, aos olhos dos ignorantes, uma quebra da unidade. Contudo, o autor reitera que a obediência é uma virtude moral, enquanto a Fé é teologal. "Obedecer a um comando que vai contra a Fé é obviamente errado" (p. 115, ref. cruzada). Se os ocupantes atuais da Sé de Pedro ordenam o que é contrário à Tradição, à Liturgia sagrada e à Doutrina de sempre, eles perdem o direito de serem obedecidos.

O texto conclui reafirmando que a verdadeira fidelidade não é ao homem que ocupa o cargo, mas ao Cristo que ele deve representar. Cita Guilherme de Ockham para justificar o afastamento da obediência a um "falso Papa" em favor da verdade reconhecida: "Afastei-me da obediência ao falso Papa... em prejuízo da fé ortodoxa... pois prefiro a Sagrada Escritura a um homem iletrado na ciência sagrada" (p. 129). Para o católico tradicional, a escolha é clara: é impossível obedecer às autoridades conciliares sem desobedecer a Deus e trair a Fé de sempre. A resistência, portanto, não é rebeldia, mas a única forma autêntica de obediência a Jesus Cristo e à Sua Igreja Imortal.

Referência: COOMARASWAMY, Rama P. The Destruction of the Christian Tradition. Updated and Revised. Bloomington: World Wisdom, 2006. Capítulo 8: The Problem of Obedience, p. 120-131.