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segunda-feira, 22 de junho de 2026

A contra-igreja: a advertência de Fulton Sheen sobre o "macaco da igreja"

Se há algo que o arcebispo Fulton J. Sheen compreendia muito bem sobre a nossa curiosa natureza humana, era a facilidade com que nos deixamos enganar pelas aparências. Entre as suas observações mais afiadas, lá pelos idos de 1948, em seu livro Communism and the conscience of the West, está a ideia do que ele chamou de "macaco da igreja". Veja bem, a grande ameaça que ele via no horizonte não era um bando de sujeitos batendo na porta com tochas e forcados para acabar com o cristianismo. A armadilha era muito mais sutil: uma imitação deformada da coisa toda.

A lógica por trás disso é velha conhecida de quem presta atenção nas artimanhas do mundo espiritual. O diabo, afinal de contas, não tem o dom da criatividade; ele apenas copia e distorce o que já está feito. Assim como um macaco repete os nossos gestos sem ter a menor ideia do que se passa na sua cabeça, essa tal contra-igreja manteria toda a pompa, as estruturas e o linguajar piedoso, mas deixaria escapar pelo ralo o que realmente importa: Deus, a graça divina, a cruz e aquela velha história de salvação eterna.

O Anticristo de Sheen não é um vilão de feições terríveis que proíbe as pessoas de rezar. Pelo contrário, ele é um sujeito muito educado, capaz de seduzir qualquer um com a sua bela estampa de bondade. Ele oferece um negócio que soa irresistível para muita gente: uma religião feita sob medida para o homem moderno, que entrega todo o conforto espiritual sem jamais cobrar a pesada fatura da conversão.

Uma igreja de aparência, mas sem substância

O grande truque dessa igreja de mentira é justamente o seu talento para a encenação. Ela preserva os símbolos, o palavreado de domingo, as reuniões comunitárias e aqueles discursos bonitos sobre amor e fraternidade. O problema é que, nos bastidores, a engrenagem roda ao contrário.

Enquanto a igreja de verdade aponta o dedo para o céu e tenta puxar o sujeito para perto do Criador, a sua versão falsificada coloca o próprio homem no palco principal. As formas continuam lá, mas o recheio é outro. A liturgia vira apenas uma bela festa da comunidade. A velha e boa doutrina acaba reduzida a um punhado de opiniões humanas. E a fé? Bem, a fé passa a ser apenas aquele sentimento confortável de fazer parte de um clube.

Sheen não via problema nenhum em ter uma comunidade unida ou em ajudar o próximo - essas coisas são parte legítima do pacote cristão. A tragédia se instala quando a bússola quebra e as prioridades se invertem: os meios puramente humanos assumem a cadeira da presidência, e o objetivo sobrenatural é cordialmente convidado a se retirar.

A religião sem cruz

Se você quiser descobrir onde essa fraude se esconde, procure pela cruz. Na falsa religião, ela costuma sumir do mapa.

O cristianismo autêntico, que nunca foi um negócio para os fracos de espírito, não promete apenas uma vida mansa, sucesso ou sorrisos pelo bairro. Ele insiste em falar de realidades espinhosas: o pecado, a precisão de um arrependimento genuíno, a redenção e a vida após a morte. A cruz está lá para lembrar que o sujeito precisa ser consertado por dentro, e não apenas receber tapinhas nas costas.

A contra-igreja, por outro lado, monta uma barraquinha de espiritualidade sem penitência, sem sacrifício e livre de qualquer briga com os próprios defeitos. É um evangelho muito agradável de se escutar, onde o homem ganha todo o consolo que pedir, contanto que ninguém lhe exija mudar de vida.

Fala-se de paz o tempo todo, mas apaga-se da memória a estrada poeirenta e dolorosa que Cristo caminhou para garanti-la. Fala-se de amor, mas um amor divorciado da verdade. E, claro, fala-se maravilhas sobre a misericórdia, desde que se varra para debaixo do tapete qualquer menção inconveniente sobre o pecado e o julgamento.

Fraternidade sem a presença de Deus Pai

Outra curiosidade que o arcebispo notou foi essa mania moderna de tentar ser irmão de todo mundo, mas fingir que não existe um Pai na casa.

A receita cristã original diz que somos todos irmãos porque viemos do mesmo Criador e fomos chamados para o mesmo resgate. A versão falsificada acha a ideia de fraternidade fantástica, mas corta a raiz divina da árvore.

Com isso, a humanidade passa a olhar para o próprio umbigo e acha que é o fim da linha. Assuntos como justiça, igualdade e paz perdem aquele lastro moral firmado no céu e viram apenas metas de um plano de governo terreno.

O homem, com toda a sua modéstia habitual, resolve arregaçar as mangas e construir o paraíso aqui mesmo na terra, esquecendo-se convenientemente daquilo que a fé sempre tentou lhe pôr na cabeça: o reino definitivo não é uma obra da nossa engenharia política, mas um presente que vem de cima.

O humanitarismo como substituto da santidade

Sheen também tinha o olho vivo para o risco de uma moralidade muito focada na sociedade e totalmente desligada da reforma íntima de cada um.

É perfeitamente possível que uma civilização não fale de outra coisa além de solidariedade, inclusão e justiça, e ainda assim faça vista grossa para a pergunta que não quer calar: quem é que vai dar um jeito no coração humano?

Para a velha tradição cristã, a dor de cabeça do mundo não é causada apenas pelas estruturas injustas que montamos, mas pelo pecado bem alojado dentro do peito de cada pessoa. Sem que o sujeito tome jeito na própria vida, qualquer grande projeto social não passa de um castelo construído na areia.

E é aí que a contra-igreja faz a sua oferta irrecusável. Ela entrega tudo o que o homem mais quer: um sentido para acordar de manhã, a chance de participar de algo e um crachá de pertencimento, mas isento da chata obrigação de renunciar às próprias vontades. É um pacote que inclui missão coletiva sem pedir santidade, muito ativismo sem um pingo de oração, e um belo compromisso social sem sinal de vida espiritual.

A velha tentação do reino deste mundo

Se você reparar bem, como fez Sheen, isso nada mais é do que uma reprise daquela velha tentação de Cristo no deserto. É a mesmíssima oferta dos reinos deste mundo em troca de uma adoração, digamos, voltada para o lado errado.

O sujeito de hoje, esgotado de se sentir sozinho e vazio, está doido para arrumar uma grande causa, uma turma e um propósito de vida. O perigo mora justamente na tentação de fechar negócio com uma promessa de redenção puramente fabricada por mãos humanas.

A fraude de mestre da contra-igreja se resume a isso: ter toda a pinta de cristã, mas sem deixar que o próprio Cristo atrapalhe o andamento dos negócios.

Ela é esperta demais para jogar fora o vocabulário religioso; ela prefere apenas dar um novo significado às palavras. Ela não precisa rejeitar os símbolos, basta mudar o que eles representam na cabeça das pessoas. Em vez de declarar guerra à espiritualidade, ela gentilmente tira Deus da prateleira de cima e coloca no lugar uns ideais humanos bastante nobres.

A resposta de Sheen: fidelidade à igreja verdadeira

Apesar do cenário pitoresco, o alerta do arcebispo não era um convite para ninguém se esconder debaixo da cama tremendo de medo, mas um pedido de vigilância. Para ele, a verdadeira igreja não é um barquinho que tem de navegar ao sabor de qualquer vento cultural que sopre, mas uma realidade que tem a árdua tarefa de transformar o mundo pela lealdade ao evangelho.

Contra essa moeda falsa da fé, Sheen apontava para o que sempre foi o feijão com arroz do cristianismo: oração, eucaristia, doutrina, uma dose de penitência e união sincera com Cristo.

A linha que separa a igreja genuína da sua cópia malfeita não está nas roupas de domingo, mas na pergunta mais simples de todas: quem é o dono da casa?

Na igreja de Cristo, Deus é o fim da linha, e o homem só acha a sua verdadeira dignidade quando tem o bom senso de olhar para Ele. Já na contra-igreja, corremos o risco de montar uma religião onde tudo soa grandioso, mas onde Deus, por um lapso de conveniência, já não é mais adorado.

Essa, meus amigos, era a verdadeira briga espiritual dos nossos tempos na visão do velho arcebispo: o duelo não é entre a religião e a falta dela, mas entre a fé autêntica e a sua imitação muito bem-comportada.

domingo, 22 de setembro de 2024

Apocalipse e o Anticristo - Bispo Fulton Sheen

“Nós estamos vivendo nos dias do Apocalipse – os últimos dias da nossa era… as duas grandes forças do Corpo Místico de Cristo e do Corpo Místico do Anticristo estão começando a desenhar as linhas de batalha para o embate final.

O Falso Profeta terá uma religião sem a cruz. Uma religião sem um mundo vindouro. Uma religião para destruir as religiões. Haverá uma falsa igreja. A Igreja de Cristo [a Igreja Católica] será uma delas. E o falso profeta vai criar uma outra. A falsa igreja é mundana, ecumênica e global. Vai ser uma federação de igrejas. E as religiões irão formar um tipo de associação global. Um Parlamento Mundial das Igrejas. Será esvaziada de todo conteúdo divino e será o corpo místico do Anticristo. O corpo místico hoje na Terra terá o seu Judas Iscariotes e será o falso profeta. Satanás o recrutará dentre os nossos bispos.

O Anticristo não será chamado assim porque não teria seguidores. Ele não usará roupas vermelhas, nem vomitará enxofre ou usará um tridente ou uma cauda como Mefistófeles em Fausto. Tais coisas mascararam e ajudaram o diabo a convencer os homens de que ele não existe. Quanto mais não o reconhecem, mas poderoso ele se torna. Deus se definiu como ‘Eu sou quem eu sou’ e o diabo como ‘Eu sou quem eu não sou’.

Em nenhuma passagem das Escrituras, encontramos defesa para a descrição popular do diabo como um palhaço vestido de vermelho. Pelo contrário, ele é descrito como um anjo caído do céu, como ‘o príncipe deste mundo’, cujo legado é nos convencer que não existe outro mundo.

Sua lógica é simples: se não há o céu, também não há inferno; se não há inferno, então não há pecado; se não há pecado, então não há juiz, e se não há nenhum julgamento, então o mal é o bem e o bem é o mal.

Mas, acima de todas essas descrições, Nosso Senhor nos diz que ele será tão parecido com Ele mesmo que seria capaz de enganar até os escolhidos e certamente nenhum diabo descrito pelas imagens humanas seria capaz de enganar até os escolhidos. Então, como ele vai vir nesta nova era para ganhar seguidores para a sua religião?

A crença da Rússia pré-comunista é que ele virá disfarçado como um grande humanista; vai falar de paz, prosperidade e abundância, não como meios para levar-nos a Deus, mas como fins em si mesmo … A terceira tentação com que satanás pediu a Cristo para adorá-lo em troca de todos os reinos do mundo irá tornar-se a tentação de se ter uma nova religião sem a cruz e sem liturgia, sem um mundo futuro, uma religião para destruir uma religião, ou uma política que é uma religião – que também dá a César até mesmo as coisas que são de Deus.

No meio de todo o seu amor aparente pela humanidade e do seu discurso simplista de liberdade e de igualdade, ele ocultará um grande segredo que não será revelado a ninguém: ele não acredita em Deus porque a sua religião será uma fraternidade sem paternidade de Deus e ele vai querer enganar até os escolhidos. Ele vai estabelecer no mundo uma contra-igreja como falsa cópia da Santa Igreja, porque ele, o diabo, é o macaqueador de Deus. Ela terá todos os aspectos e as características da Igreja, mas em sentido inverso e esvaziada do seu conteúdo divino. Terá um corpo místico de Anticristo que exteriormente vai imitar o corpo místico de Cristo… mas o século XX vai se juntar a esta contra-igreja com a alegação de que ela será infalível quando sua cabeça visível falar ex cathedra de Moscou sobre temas como economia e política e como pastor-chefe do comunismo mundial.” 

Fulton Sheen. “Communism and the Conscience of the West” tradução Pe. Cléber Eduardo dos Santos Dias. Fonte: http://www.rainhamaria.com.br/Pagina/22235/Arcebispo-Fulton-Sheen-sobre-o-Apocalipse-e-o-Anticristo

Sobre o autor

Fulton John Sheen, nascido Peter John Sheen (1895 – 1979), foi ordenado sacerdote em 1919 e rapidamente se destacou como teólogo e pregador, tornando-se um dos primeiros televangelistas conhecidos por seu trabalho na televisão e no rádio.

Sheen serviu como auxiliar da Arquidiocese de Nova York de 1951 a 1966 e depois como bispo da Diocese de Rochester até sua renúncia em 1969. Após sua renúncia, ele foi nomeado arcebispo da sé titular de Newport, País de Gales. Embora tenha sido uma figura proeminente na Igreja Católica e tenha recebido muitos reconhecimentos, incluindo dois prêmios Emmy por suas contribuições à televisão religiosa, ele nunca recebeu a promoção ao cardinalato.

A causa para a canonização de Fulton J. Sheen foi oficialmente aberta em 2002, e ele foi declarado “Venerável” em 2012 pelo Papa Bento XVI após ser reconhecido por viver uma vida de “virtudes heroicas”. Em julho de 2019, um milagre atribuído à sua intercessão foi aprovado pelo Papa Francisco, abrindo caminho para sua beatificação.