A “Carta do além”. O inferno não está vazio


Setembro de 1937.

A "Carta do além" transcrita abaixo refere-se à condenação eterna de uma jovem. O original desta carta foi encontrado entre os papéis de uma Freira falecida, que tinha sido amiga da jovem condenada. Nela, a Freira relata os eventos na vida de sua companheira como se fossem fatos conhecidos e verificados, bem como sua condenação eterna comunicada num sonho. A Cúria Diocesana de Trier (Alemanha) autorizou sua publicação como uma leitura altamente instrutiva.

A "Carta do além" apareceu pela primeira vez num livro de revelações e profecias, juntamente com outras narrações. Foi o Reverendo Padre Bernardino Krempel C.P., doutor em teologia, quem a publicou separadamente e lhe deu maior autoridade ao se comprometer a mostrar, nas notas, sua absoluta consistência com a doutrina católica. Entre os manuscritos deixados em seu convento por uma Freira, que no mundo se chamava Clara, foi encontrado o seguinte testemunho.

✍️ Relato de Clara:

Eu tinha uma amiga, Anita. Isto é, éramos bastante próximas porque éramos vizinhas e colegas no mesmo escritório M. Mais tarde, Anita casou-se e nunca mais a vi. Desde o momento em que nos conhecemos, havia, no fundo, mais cortesia do que amizade real. Por causa disso, senti muito pouco a sua ausência quando, após o casamento, ela foi morar no elegante bairro das vilas, longe do meu. Durante as minhas férias no Lago de Garda (Itália), em setembro de 1937, recebi uma carta da minha mãe na qual ela dizia: “Anita N morreu num acidente de carro. Ela foi enterrada ontem em Wald Friedhof”. A notícia chocou-me. Eu sabia que a minha amiga não tinha sido o que se chamaria de religiosa. Teria ela estado preparada para comparecer diante de Deus? Em que estado a sua morte súbita a teria encontrado? No dia seguinte ouvi Missa, recebi a Santa Comunhão com Anita nas minhas intenções, na pensão das irmãs, onde eu estava hospedada. Rezei fervorosamente pelo seu descanso eterno e ofereci a minha Santa Comunhão por essa mesma intenção.

Durante todo o dia experimentei uma certa inquietação, que foi aumentando à noite. Dormi de forma agitada. Acordei de repente, ouvindo algo como um solavanco na porta do meu quarto. Acendi a luz. O relógio marcava doze e dez. Não havia nada. Nem barulhos. Apenas o som das ondas do Lago de Garda batendo monotonamente no muro do jardim da pensão. Não havia vento. Tive a sensação de que, ao acordar, ouviria, além da batida na porta, o barulho de uma brisa ou do vento, semelhante ao que o meu gerente de escritório produzia quando, de mau humor, atirava uma carta que o tinha aborrecido para a minha mesa no escritório. Pensei por um momento se deveria levantar-me. Não! Tudo isto é apenas a minha imaginação, disse a mim mesma, perturbada pela notícia da morte. Virei-me na cama; rezei alguns Pai Nossos pelas Almas Santas e adormeci novamente.

Sonhei então que me levantava de manhã, às 6 horas, e ia para a Capela. Quando abri a porta do meu quarto, encontrei várias folhas de papel. Pegá-las, reconhecer a letra de Anita e gritar demorou apenas um segundo. Tremendo, segurei-as nas minhas mãos. Tenho de confessar que fiquei tão aterrorizada que não conseguia rezar. Mal conseguia respirar. A melhor coisa era sair dali, ir para fora. Preparei-me rapidamente, coloquei a carta na minha bolsa e saí imediatamente. Subi a estrada sinuosa entre as oliveiras, os loureiros e as fazendas da vila. O amanhecer estava radiante. Nos dias anteriores, eu parava a cada cem passos ou mais, maravilhada com a vista do lago e da Ilha de Garda. O azul suave da água refrescava-me; como uma criança que olha com admiração para o avô, eu olhava com admiração para o Monte Baldo cor de cinza, erguendo-se na margem oposta do lago a uma altitude de 2.200 metros. Naquele dia eu não tinha olhos para tudo aquilo. Depois de caminhar por um quarto de hora, deixei-me cair mecanicamente num banco que estava situado entre dois ciprestes, onde na noite anterior eu tinha gostado de ler “A Criada Teresa”. Pela primeira vez pude ver nos ciprestes o símbolo da morte, algo em que não tinha pensado antes. Peguei a carta. Não tinha assinatura. Sem a menor dúvida, foi escrita por Anita. O grande 's' não faltava, nem o 't' francês ao qual ela se tinha habituado no escritório, para irritar o Sr. G. Não era o seu estilo. Pelo menos, não era assim que ela costumava falar. O habitual nela era a conversa agradável, o riso, sublinhado pelos seus olhos azuis e o seu nariz simpático... Só quando falávamos sobre assuntos religiosos é que ela se tornava mordaz e adotava o tom áspero da carta. Eu mesma sinto-me engolfada pela sua cadência agitada. Aqui está a carta do além de Anita N, palavra por palavra, exatamente como a li no meu sonho.

✉️ A carta

Clara, não reze por mim, estou condenada. Se lhe dou este aviso - além do mais, vou falar-lhe longamente sobre isto - não pense que o estou a fazer por amizade. Nós, que estamos aqui, já não amamos ninguém. Faço-o porque sou forçada. Faz parte do trabalho “daquele poder que quer sempre o mal e realiza o bem”. Na realidade, eu gostaria de vê-la aqui, onde estou agora para sempre. Não se surpreenda com as minhas intenções. Aqui, todos nós pensamos assim. A nossa vontade está petrificada no mal, isto é, no que você considera ser “mal”. Mesmo quando posso fazer algo “bom” (como estou a fazer agora, abrindo os seus olhos para o inferno), não o estou a fazer com intenção reta. Lembra-se? Foi há quatro anos quando nos conhecemos, em M. Você tinha 23 anos e já trabalhava no escritório há seis meses, quando eu entrei. Várias vezes você tirou-me de problemas. Frequentemente você dava-me bons conselhos, o que para mim, como iniciante, era muito útil. Mas, o que é “bom”? Eu perguntava-me, naquela época, sobre a sua “caridade”. Ridículo... A sua ajuda era pura ostentação, algo que suspeitei desde então. Aqui não reconhecemos qualquer bem em ninguém. Mas, já que me conheceu na minha juventude, agora é hora de preencher algumas lacunas.

De acordo com os planos dos meus pais, eu nunca deveria ter existido. Devido a um descuido, a desgraça da minha conceção tornou-se realidade. As minhas irmãs tinham 14 e 16 anos quando vim ao mundo. Quem me dera nunca ter nascido! Quem me dera poder agora aniquilar-me, fugir dos tormentos! Não haveria prazer comparável ao de acabar com a minha existência, tal como um vestido é reduzido a cinzas, sem deixar vestígios. Mas é necessário que eu exista. É necessário que eu seja o que fiz de mim mesma: o fracasso total do propósito da minha existência. Quando os meus pais, que eram então solteiros, se mudaram do campo para a cidade, perderam o contacto com a Igreja. Foi melhor assim. Mantiveram relações com pessoas desligadas da religião. Conheceram-se num baile e foram “forçados” a casar seis meses depois. Na cerimónia de casamento, receberam apenas algumas gotas de água benta, suficientes para atrair a Mãe à Missa dominical algumas vezes por ano. Ela nunca me ensinou realmente a rezar. Todos os seus esforços iam para as tarefas domésticas diárias, embora a nossa situação não fosse má.

Palavras como oração, Missa, água benta, Igreja, só consigo escrevê-las com repugnância interior, com uma repulsa incomparável. Odeio profundamente aqueles que vão à igreja e, em geral, todos os homens e todas as coisas. Tudo é tormento. Todo o conhecimento recebido na morte, cada memória da vida e o que sabemos, torna-se uma chama incandescente. E todas essas memórias nos mostram as oportunidades em que desprezámos uma graça. Isso atormenta-me tanto! Não comemos, não dormimos, não caminhamos sobre os pés. Espiritualmente acorrentados, nós réprobos contemplamos as nossas vidas fracassadas em desespero, uivando e rangendo os dentes, atormentados e cheios de ódio. Entende? Aqui bebemos ódio como água. Odiamo-nos uns aos outros. Mais do que tudo, odiamos a Deus. Quero que entenda isso. Os bem-aventurados no Céu têm de amar a Deus, porque O veem sem véu na Sua beleza deslumbrante. Isso torna-os indescritivelmente felizes. Nós sabemos disso, e esse conhecimento enfurece-nos. Os homens na terra, que conhecem Deus pela Criação e Revelação, podem amá-Lo. Mas não são obrigados a fazê-lo. O crente - digo-lhe isto com fúria - que medita, contemplando Cristo com os braços abertos na cruz, acabará por amá-Lo. Mas a alma da qual Deus se aproxima, fulminante, como justo vingador porque um dia Ele foi rejeitado, que é o que aconteceu connosco, essa alma só pode odiá-Lo, como nós O odiamos. Ela odeia-O com todo o ímpeto da sua má vontade. Ela odeia-O eternamente por causa da resolução deliberada de se separar de Deus com a qual terminou a sua vida terrena. Não podemos mudar esta vontade perversa, nem jamais quereríamos mudá-la. Entende agora por que o inferno é por toda a eternidade? Porque a nossa obstinação nunca derrete, nunca acaba. E contra a minha vontade tenho de acrescentar que Deus é misericordioso, até connosco. Digo “contra a minha vontade” porque, mesmo que diga estas coisas voluntariamente, não me é permitido mentir, que é o que eu gostaria de fazer. Deixo muita informação no papel contra os meus desejos. Também tenho de sufocar a avalanche de palavras sujas que gostaria de vomitar. Deus foi misericordioso connosco porque não nos permitiu derramar sobre a terra o mal que teríamos querido fazer. Se Ele o tivesse permitido, teríamos aumentado muito mais a nossa culpa e punição. Ele fez-nos morrer prematuramente, como fez comigo, ou fez intervir circunstâncias atenuantes. Deus é misericordioso, porque não nos obriga a ir para mais perto d'Ele do que estamos, neste remoto lugar infernal. Isso diminui o tormento. Cada passo mais perto de Deus causaria-me maior aflição do que o que você sentiria ao dar mais um passo para mais perto de uma fogueira.

Desagradei-lhe um dia ao dizer-lhe, durante um passeio, o que o meu pai disse alguns dias antes da minha Comunhão: “Aproveita o teu vestido novo, Anita; o resto não passa de uma farsa”. Quase me senti envergonhada com o seu desagrado. Agora rio-me disso. A única coisa razoável em toda aquela comédia era que as crianças podiam receber a comunhão aos doze anos. Naquela época, eu já estava bastante tomada pelos prazeres do mundo. Sem quaisquer escrúpulos, deixei as coisas religiosas de lado. Não levei a Santa Comunhão a sério. O novo costume de permitir que as crianças recebam a sua primeira Comunhão aos sete anos de idade enfurece-nos. Usamos todos os meios para gozar com isto, fazendo crer que para receber a comunhão deve haver compreensão. É necessário que as crianças tenham cometido alguns pecados mortais. A Hóstia branca será menos prejudicial então, do que se for recebida enquanto a fé, a esperança e o amor, os frutos do batismo - cuspo em tudo isto - ainda estiverem vivos no coração da criança. Lembra-se de eu pensar assim quando estava na terra?

Volto ao meu pai. Ele discutia muito com a Mãe. Raramente lhe contei porque tinha vergonha. Que coisa ridícula é a vergonha! Aqui, tudo é igual. Os meus pais já não dormiam no mesmo quarto. Eu dormia com a Mãe, o Pai dormia no quarto ao lado onde podia entrar a qualquer hora da noite. Ele bebia muito e gastava o nosso dinheiro. As minhas irmãs trabalhavam; diziam que precisavam do seu próprio dinheiro. A Mãe começou a trabalhar. Durante o último ano da sua vida, o Pai bateu-lhe muitas vezes quando ela não lhe queria dar dinheiro. Comigo, ele foi sempre muito gentil. Um dia contei-lhe sobre um capricho que a escandalizou. E o que não a escandalizou sobre mim? Quando devolvi duas vezes um par de sapatos novos, porque a forma dos saltos não era moderna o suficiente. Na noite em que o Pai morreu, como resultado de um derrame, aconteceu algo que nunca lhe contei, por medo de uma interpretação desagradável. Hoje, no entanto, deve saber. É um facto memorável: pela primeira vez, o espírito que me atormenta aproximou-se de mim. Eu estava a dormir no quarto da Mãe. A respiração regular dela significava que estava num sono profundo. Então ouvi alguém dizer o meu nome. Uma voz desconhecida murmurou: “O que acontecerá se o teu pai morrer?” Eu já não amava o Pai, desde que ele tinha começado a maltratar a minha mãe. Na realidade, eu não amava absolutamente ninguém: só era grata a algumas pessoas que eram gentis comigo. O amor sem a esperança de retribuição neste mundo só se encontra em almas que vivem no estado de graça. Este não era o meu caso. “Ele certamente não morrerá”, respondi ao orador misterioso. Após uma breve pausa, ouvi a mesma pergunta. “Ele não morrerá!”, respondi bruscamente. Pela terceira vez perguntaram-me: “O que acontecerá se o teu pai morrer?” Nesse momento trouxe à mente a maneira como o meu pai chegava frequentemente a casa, meio bêbado, gritando, abusando da minha mãe, envergonhando-nos em frente aos vizinhos. Respondi então furiosamente: “Bem, é isso que ele merece. Deixa-o morrer!” Depois tudo ficou em silêncio. Na manhã seguinte, quando a Mãe foi arrumar o quarto do Pai, encontrou a porta trancada. Ao meio-dia abriram-na à força. O Pai, parcialmente vestido, estava morto em cima da cama. Ao ir buscar cerveja à cave deve ter sofrido uma crise fatal. Ele estava doente há um bom tempo. (Teria Deus deixado depender da vontade da sua filha, com quem o homem tinha sido gentil, para que ele obtivesse mais tempo e a oportunidade de se converter?)

Marta K e você levaram-me a entrar na Associação de Jovens. Nunca lhe escondi que considerava as instruções das duas diretoras, as Senhoritas X, demasiado “paroquiais”. Os jogos eram bastante agradáveis. Como sabe, em pouco tempo passei a ter um papel de liderança lá. Era disso que eu gostava. Também gostava das excursões. Até me deixei confessar e receber a Comunhão algumas vezes. Para lhe dizer a verdade, eu não tinha nada para confessar. Pensamentos e palavras não significavam nada para mim. E eu não era madura o suficiente para quaisquer outros atos mais ofensivos. Um dia você advertiu-me: “Anna, se não rezares mais estarás perdida.” Na realidade eu rezava muito pouco, e o pouco que fazia, fazia com desagrado, de má vontade. Sem dúvida você tinha razão. Aqueles que ardem no inferno ou não rezaram, ou rezaram pouco. A oração é o primeiro passo para chegar a Deus. É o passo decisivo. Especialmente a oração àquela que é a Mãe de Cristo cujo nome nem sequer podemos pronunciar. A devoção a Ela arranca inúmeras almas ao diabo, almas cujos pecados as teriam infalivelmente atirado para as suas mãos.

Continuo com fúria, porque sou forçada a fazê-lo, embora não suporte mais isto, de tanta fúria. Rezar é a coisa mais fácil que se pode fazer na terra. E precisamente porque é tão fácil, Deus faz a nossa salvação depender disso. Pouco a pouco, Deus dá luz àqueles que perseveram na oração, e fortalece-os de tal forma que até o pecador mais endurecido pode recuperar, mesmo que esteja afundado na lama até ao pescoço. Durante os últimos anos da minha vida não rezei mais nada, privando-me das graças, sem as quais ninguém se pode salvar. Aqui não recebemos qualquer tipo de graça e mesmo se recebêssemos alguma, rejeitá-la-íamos com desprezo. Todas as vacilações da existência terrena acabam nesta outra vida. Na terra, o homem pode ir do estado de pecado para o estado de graça. Da graça, pode cair no pecado. Muitas vezes caí por fraqueza; poucas vezes por maldade. Com a morte, cada um entra num estado final, fixo e inalterável. À medida que se avança na idade, as mudanças tornam-se mais difíceis. É verdade que se tem tempo até à morte para se unir a Deus ou virar-Lhe as costas. No entanto, como se arrastado pela corrente, antes do trânsito final, com os últimos vestígios da sua vontade enfraquecidos, o homem comporta-se de acordo com os hábitos de toda a sua vida. O hábito, bom ou mau, torna-se uma segunda natureza. É isto que o arrasta para baixo no momento supremo. E assim aconteceu comigo. Vivi anos inteiros separada de Deus. Como consequência, no último apelo da graça, decidi contra Deus. A fatalidade não foi ter pecado frequentemente, mas sim que eu não quis levantar-me mais. Você convidava-me frequentemente para assistir a sermões ou para ler livros piedosos. As minhas desculpas habituais eram que não tinha tempo. Queria eu talvez aumentar as minhas dúvidas interiores?

Finalmente, tenho de dar testemunho do seguinte: quando cheguei a este ponto crítico, pouco antes de deixar a Associação de Jovens, teria sido muito difícil para mim mudar de rumo. Sentia-me insegura e miserável. Mas uma parede de tijolos estava a ser erguida em frente à minha conversão. Você não suspeitava o quão sério era. Acreditava que a solução era tão simples que um dia me disse: “Tens de fazer uma boa confissão, Anita, e tudo voltará ao normal”. Percebi que assim seria. Mas o mundo, o diabo e a carne, mantinham-me firmemente presa nas suas garras. Nunca acreditei na influência do diabo. Agora dou testemunho de que o diabo age poderosamente sobre as pessoas que estão na situação em que eu me encontrava naquela altura. Só muita oração, minha e a oração dos outros, juntamente com sacrifícios e sofrimentos, poderiam ter-me resgatado. E mesmo com isso, pouco a pouco. Embora haja poucas pessoas possuídas no corpo, inúmeras são aquelas que estão possuídas internamente pelo diabo. O diabo não pode tirar o livre arbítrio daqueles que se entregam à sua influência. Mas como punição pela sua quase completa apostasia, Deus permite que o “maligno” faça ninho neles. Eu também odeio o diabo. No entanto, gosto dele, porque ele tenta arruinar-vos a todos: ele e os seus asseclas, os anjos que caíram com ele no início dos tempos. Há milhões deles, vagando pela terra, inumeráveis, como enxames de moscas; vocês não os veem. Não cabe a nós réprobos tentar: essa é a responsabilidade dos espíritos caídos. Cada vez que arrastam uma nova alma para as profundezas do inferno, os seus tormentos aumentam ainda mais. Mas, o ódio é capaz de tudo!

Embora eu estivesse a caminhar por um caminho tortuoso, Deus procurou-me. Eu estava a preparar o caminho para a graça, com atos de caridade natural que fiz muitas vezes devido à inclinação do meu temperamento. Às vezes, Deus atraía-me para uma igreja. E lá sentia uma certa nostalgia. Quando estava a cuidar da minha mãe doente, apesar do meu trabalho no escritório durante o dia, fazendo um verdadeiro sacrifício, as atrações de Deus agiram poderosamente. Uma vez entrei na Capela do hospital onde você me levou durante o intervalo ao meio-dia. Fiquei tão impressionada, que estive a apenas um passo da conversão. Eu estava a chorar. Mas imediatamente os prazeres do mundo apareceram, derramados como uma torrente em cima da graça. Os espinhos estrangularam o trigo. Com a explicação de que a religião é sentimentalismo, como sempre diziam no escritório, rejeitei esta graça também, como todas as outras. Noutra ocasião, você chamou-me a atenção para o facto de que, em vez de uma genuflexão até ao chão, eu apenas fazia um aceno muito leve com a cabeça. Você pensou que eu estava a fazer isso por preguiça, sem suspeitar que, nessa altura, eu já tinha deixado de acreditar na presença de Cristo no Sacramento. Agora acredito, embora apenas materialmente, tal como se acredita numa tempestade, cujos efeitos e sinais podem ser vistos.

Entretanto, eu tinha criado a minha própria religião. Gostava da opinião geral no escritório, de que após a morte a alma voltaria a este mundo noutro ser, reencarnando sucessivamente, sem nunca chegar a um fim. Com isto, o angustiante problema do além estava resolvido. Senti que já não me incomodava. Por que não me lembrou da parábola do homem rico, Epulão, e do homem pobre, Lázaro, na qual o narrador, Cristo, enviou um para o inferno após a morte e o outro para o Céu? Mas o que teria conseguido? Não muito mais do que conseguiu com todos os seus outros discursos santos. Pouco a pouco eu estava a fazer um deus: com atributos suficientes para ser chamado assim. Longe o suficiente de mim, para que não me pudesse forçar a ter qualquer tipo de ligações com ele. Suficientemente nebuloso, para poder transformá-lo à vontade. Assim, sem mudar de religião, podia imaginá-lo como o deus panteísta do mundo ou pensar nele, poeticamente, como um deus solitário. Este “deus” não tinha céu para me recompensar, nem inferno para me assustar. Deixei-o em paz. E era nisso que consistia a minha adoração. É fácil acreditar no que nos agrada. Com o passar dos anos, fiquei mais persuadida sobre a minha religião. Podia viver bem lá sem qualquer incómodo. Apenas uma coisa poderia ter quebrado a minha autossuficiência: uma dor profunda e prolongada. Mas esse sofrimento não veio. Entende agora o significado de “Deus castiga aqueles a quem ama?”

Um domingo em julho, a Associação de Jovens organizou um passeio em A. Gostava dos passeios, mas não das discussões insípidas e outras piedades. Outra imagem, muito diferente da de Nossa Senhora das Graças de A., já tinha tomado o seu lugar no altar do meu coração. Era o distinto Max do armazém ao lado. Já tínhamos desfrutado de conversa agradável, várias vezes. Precisamente naquele domingo, ele convidou-me para dar um passeio. A outra rapariga, com quem ele costumava sair, estava doente no hospital. Ele percebeu que eu estava a olhar muito para ele. Mas eu ainda não pensava em casar. A sua situação económica era muito boa, mas ele também era demasiado amigável com todas as outras jovens. Naquela altura eu queria um homem que me pertencesse exclusivamente, como a única mulher. Mantive sempre uma certa educação natural. Durante este passeio, Max cobriu-me de gentilezas. As nossas conversas, claro, não eram sobre a vida de santos como as suas. No dia seguinte, no escritório, você repreendeu-me por não ter ido ao passeio da Associação. Quando lhe contei como gostei do domingo, a sua primeira pergunta foi: “Ouviste Missa?” Tola! Como poderíamos ter ido à Missa se saímos às 6 da manhã? Lembro-me que, muito irritada, lhe disse: “O bom Deus não é tão mesquinho como os padres são”. Agora devo confessar que Deus, apesar da Sua infinita bondade, considera tudo muito mais seriamente do que todos os Padres juntos.

Após este primeiro passeio com Max, só fui mais uma vez à Associação durante as celebrações de Natal. Algumas coisas atraíam-me. Mas internamente, já me tinha separado de todos vocês. Os bailes, o cinema e os passeios continuaram. Às vezes lutávamos juntos, mas eu sabia como segurá-lo. Odiava muito a minha rival, que, saindo do hospital, ficou furiosa. Na verdade, isso foi uma vantagem para mim. A calma distinta que exibi produziu uma grande impressão em Max, que se inclinou definitivamente para mim. Encontrei uma maneira de a menosprezar. Expressei-me calmamente: externamente com realidades objetivas, mas internamente vomitando fel. Esses sentimentos e atitudes levam rapidamente ao inferno. São diabólicos, no sentido estrito da palavra. Por que lhe estou a contar tudo isto? Para lhe explicar que foi assim que me afastei definitivamente de Deus. Na realidade, Max e eu não chegávamos frequentemente aos extremos da familiaridade. Percebi que me desvalorizaria aos olhos dele se lhe desse total liberdade antes do tempo. É por isso que fui capaz de me controlar. Na verdade, estava sempre preparada para o que considerava ser a minha vantagem. Tinha de conquistar Max. Para isso, nenhum preço era demasiado alto. Gradualmente passámos a amar-nos, porque ambos tínhamos qualidades muito boas que apreciávamos mutuamente. Eu era desenrascada, eficiente e de caráter agradável. Segurei Max firmemente e consegui, pelo menos durante os últimos meses antes do nosso casamento, ser a única que o possuía. Foi nisso que consistiu a minha apostasia: em fazer um deus de uma criatura. Em nada mais a apostasia se realiza mais plenamente do que no amor de uma pessoa do sexo oposto, quando esse amor se afoga no material. Esse é o seu encanto, o seu ferrão e o seu veneno. A “adoração” que eu tinha por Max tornou-se a minha religião.

Naquela época, no escritório, eu atacava virulentamente os padres, os fiéis, as indulgências, o Rosário e as outras estupidezes. Você tentava com uma certa inteligência defender tudo o que eu atacava, embora talvez sem suspeitar que na realidade o problema não estava nessas coisas. O que eu procurava era um ponto de apoio. Ainda precisava de um para justificar racionalmente a minha apostasia. Eu estava a rebelar-me contra Deus. Você não percebeu. Pensou que eu ainda era católica. Por outro lado, eu queria ser chamada assim; até pagava a contribuição para o culto. Porque um pequeno “seguro” não faz mal nenhum. É possível que as suas respostas às vezes acertassem no alvo. Mas não me alcançavam, porque eu não concordava consigo. Porque o nosso relacionamento era baseado na falsidade, a nossa separação, devido ao meu casamento, causou-me pouca dor. Antes de casar, confessei-me e recebi a Comunhão mais uma vez. Foi uma formalidade. O meu marido pensava a mesma coisa. Se era uma formalidade, por que não cumpri-la? Você diz que tal Comunhão é “indigna”. Bem, depois dessa Comunhão “indigna”, alcancei uma certa calma na minha consciência. Essa Comunhão foi a última.

A nossa vida de casados prosseguiu, em geral, em harmonia. Em quase todos os pontos éramos da mesma opinião. E também nisto: não queríamos ser sobrecarregados com filhos. Bem, na realidade, o meu marido queria ter apenas um, naturalmente. Finalmente, consegui fazer com que ele desistisse desse desejo. O que eu mais gostava eram os vestidos, a mobília luxuosa, as reuniões mundanas, as viagens de carro e outras distrações. Um ano de prazer passou entre o meu casamento e a minha morte súbita. Todos os domingos saíamos para um passeio de carro ou visitávamos os parentes do meu marido. Eu tinha vergonha da minha mãe. Esses parentes eram proeminentes na vida social, tal como nós. Mas interiormente, no entanto, nunca fui feliz. Havia algo indeterminado que me roía. O meu desejo era que, na hora da morte - que estava sem dúvida muito longe - tudo acabasse. Aconteceu exatamente como eu tinha ouvido em criança, durante uma palestra: Deus recompensa neste mundo cada boa obra que é feita. Se Ele não a recompensa na próxima vida, fá-lo na terra. Inesperadamente, recebi uma herança da tia Lote. O meu marido teve a sorte de ver o seu rendimento aumentado significativamente. E assim pude montar confortavelmente uma nova casa. A minha religião estava a morrer, como um brilho crepuscular num firmamento distante. Os bares da cidade, os hotéis e os restaurantes por onde passávamos nas nossas viagens, não nos aproximavam de Deus. Todos os que os frequentavam viviam como nós: de fora para dentro, não de dentro para fora. Se durante as nossas viagens de férias visitássemos uma catedral famosa, tentaríamos distrair-nos com o valor artístico das belas obras-primas. Os sentimentos religiosos que irradiavam - especialmente as igrejas medievais - eu neutralizava-os, criticando o irmão leigo que nos guiava; criticava a sua negligência na higiene, criticava o comércio pelos monges piedosos que faziam e vendiam licor, criticava o eterno tocar dos sinos chamando as pessoas para os ofícios sagrados, dizendo que o seu único propósito era ganhar dinheiro...

E assim foi como consegui desviar a graça, cada vez que ela me chamava. Descarregava especialmente o meu mau humor diante de algumas pinturas da Idade Média representando o Inferno em livros, cemitérios e outros lugares. Lá o diabo estava a assar almas num fogo vermelho e amarelo, enquanto os seus companheiros com caudas longas, lhe traziam mais vítimas. Clara, o inferno pode ser desenhado, mas nunca exagerado! Eu sempre costumava gozar com o fogo do inferno. Lembra-se de uma conversa durante a qual coloquei um fósforo aceso debaixo do seu nariz, perguntando-lhe: “Cheira assim?” Você apagou a chama imediatamente. Aqui, ninguém pode fazer isso. Digo-lhe outra coisa: o fogo de que a Bíblia fala não é o tormento da consciência. Fogo é fogo! Deve ser interpretado à letra quando Ele disse: “Afastai-vos de mim, malditos de meu Pai, ide para o fogo eterno”. À letra! E como pode um espírito ser tocado pelo fogo material? Perguntará você. Como pode a sua alma sofrer, na terra, se puser o dedo numa chama? A sua alma em si não queima, mas ao mesmo tempo o indivíduo todo sofre a dor. Da mesma forma, nós que estamos aqui somos prisioneiros espirituais do fogo do nosso ser e das nossas faculdades. A nossa alma carece da agilidade que lhe seria natural; não podemos pensar nem amar o que desejaríamos.

Não se surpreenda com as minhas palavras. É um mistério contrário às leis da natureza material: o fogo do inferno queima sem consumir. O nosso maior tormento está em saber que nunca veremos a Deus. Como pode isto atormentar-nos tanto, se na terra éramos indiferentes a isso? Enquanto a faca está na mesa, não lhe causa impressão. Vê a lâmina, mas não a sente. Mas se a faca entrar na sua carne, gritará de dor. Agora, sentimos a perda de Deus. Antes apenas pensávamos nisso. Todas as almas não sofrem o mesmo. Quanto maior a maldade, maior a frivolidade e a teimosia, tanto mais a perda de Deus pesará sobre os condenados, tanto mais serão sufocados pela criatura da qual fizeram abuso. Os católicos que se condenam sofrem mais do que os de outras religiões, porque, em geral, receberam e desperdiçaram mais luzes e maiores graças. Aqueles que tiveram maior conhecimento sofrem mais amargamente do que aqueles que tiveram menos. Aquele que pecou por maldade sofre mais do que aquele que caiu por fraqueza. Mas ninguém sofre mais do que merece. Oh, se isto não fosse verdade, eu teria uma razão para odiar.

Um dia você disse-me: ninguém vai para o inferno sem o saber. Isso teria sido revelado a um Santo. Eu ria-me disso enquanto me refugiava neste pensamento: “se for esse o caso, terei sempre tempo suficiente para recuar”. Essa revelação está exatamente correta. Antes da minha morte súbita, é verdade que eu não conhecia o inferno como ele é. Nenhum ser humano sabe isso. Mas eu estava plenamente ciente de algo: “Se morreres, disse a mim mesma, entrarás na eternidade como uma seta, diretamente contra Deus; terás de suportar as consequências”. Como lhe disse, não voltei atrás. Perseverei na mesma direção, arrastada pelo hábito, como acontece aos homens quanto mais velhos ficam.

A minha morte ocorreu assim: Há uma semana - falo de acordo com a maneira como vocês contam o tempo, porque se eu fosse calcular pela minha dor, poderia estar a arder no inferno há dez anos - o meu marido e eu saímos noutra excursão de domingo que foi a última para mim. Era um dia radiantemente ensolarado. Sentia-me muito bem, como em raras ocasiões. No entanto, um pressentimento sinistro rastejava sobre mim. Inesperadamente, na viagem para casa, o meu marido e eu fomos cegados pelos faróis de um carro que vinha em sentido contrário a alta velocidade. Max perdeu o controlo do veículo. Jesus! Escapou dos meus lábios, não como uma oração, mas como um grito. Senti uma dor esmagadora: comparada com o meu tormento agora, era uma ninharia. Depois perdi a consciência. Que estranho! Naquela mesma manhã, sem explicação, este pensamento veio à minha mente. “Por uma vez, podias ir à Missa”. Foi como um apelo. Um “não!” claro e decisivo pôs fim a essa ideia. “Tenho de acabar com essas coisas de vez”. Isto é, assumi todas as consequências. Agora suporto-as. Você sabe o que aconteceu após a minha morte. A situação do meu marido, da minha mãe, o que ocorreu com o meu corpo, o meu enterro. Sei pela intuição natural que temos; todos nós que estamos aqui. Do resto do que acontece no mundo temos um conhecimento confuso. Sabemos o que se refere a nós. Portanto, vejo o lugar onde você vive.

Acordei de repente no momento da minha morte. Encontrei-me envolta numa luz ofuscante. Era o mesmo lugar onde o meu corpo tinha caído. Aconteceu exatamente como no teatro, quando apagam as luzes na sala, a cortina sobe e uma cena tragicamente iluminada aparece. A cena da minha vida. Como num espelho, a minha alma mostrou-se. Vi as graças desprezadas e pisadas, desde a minha juventude até ao último “não” diante de Deus. Senti-me como uma assassina a ser levada a tribunal para ver a vítima sem vida. Arrepender-me? Nunca! Vergonha? Nunca! No entanto, eu não podia permanecer sob o olhar de Deus a quem rejeitei. Tinha apenas uma saída: fugir. Assim, tal como Caim fugiu do cadáver de Abel, assim a minha alma procurou fugir para longe daquela visão de horror.

Este foi o julgamento particular. O juiz invisível falou: “Afasta-te de mim”.

Imediatamente a minha alma, como uma sombra de enxofre amarelo, caiu de cabeça no tormento eterno.

🌅 Epílogo de Clara

Assim terminou a carta de Anita sobre o Inferno. As últimas palavras eram quase ilegíveis porque as letras estavam muito torcidas. Quando terminei de ler a última linha, a carta transformou-se em cinzas. O que eu estava a ouvir? No meio dos termos duros das palavras que imaginei ter lido, o doce toque de um sino soou. Acordei imediatamente. Eu estava a dormir. Estava na cama no meu quarto. A luz da manhã entrava pela janela. O toque das Ave Marias vinha da Igreja paroquial. Teria sido tudo um sonho? Nunca tinha sentido tal consolação do Angelus como senti depois desse sonho. Rezei as orações lentamente. Então entendi: A Santíssima Mãe de Nosso Senhor quer defender-te. Venera Maria filialmente, se não quiseres ter o destino de que ela te falou - embora num sonho - uma alma que nunca verá a Deus. Tremendo ainda pela visão noturna, levantei-me, vesti-me rapidamente e corri para a Capela da casa. O meu coração batia forte. Os hóspedes que estavam mais próximos olhavam para mim com preocupação. Talvez pensassem que eu estava agitada por ter descido as escadas a correr. Uma senhora gentil de Budapeste, uma alma sacrificada, pequena como uma criança, míope, embora fervorosa no serviço de Deus e de grande penetração espiritual, disse-me naquela noite no jardim: “Menina, Nosso Senhor não quer ser servido em agitação”. Mas ela podia ver que outra coisa me tinha agitado e ainda me preocupava. Ela acrescentou gentilmente: “Nada te perturbe - conheces o conselho de Santa Teresa - Nada te espante. Tudo passa. Quem a Deus tem nada lhe falta. Só Deus basta”. Enquanto ela sussurrava isto sem assumir uma atitude magistral, parecia estar a ler a minha alma. “Só Deus basta”. Sim, Ele tem de ser suficiente para mim neste mundo ou no próximo. Quero possuí-Lo lá um dia, quaisquer que sejam os sacrifícios que tenha de fazer aqui para vencer. Não quero cair no inferno.