Este texto é um resumo das ideias apresentadas no artigo "On Mary as Mediatrix of All Graces" do Padre Reginald Garrigou-Lagrange, O.P., extraído de sua obra monumental "The Three Ages of the Interior Life". A análise que se segue busca preservar a profundidade e o tom crítico do original, ressaltando a perspectiva teológica tradicionalista católica sobre o papel indispensável da Santíssima Virgem na vida interior.
⚠️ O Erro Crítico de Negligenciar a Mediação Mariana
O autor inicia sua exposição apontando para um erro fundamental e perigoso na vida espiritual, análogo ao de tentar alcançar a união com Deus sem a mediação de Cristo: o erro de querer ir a Nosso Senhor sem passar primeiro por Maria. Esta falha, segundo ele, não é exclusiva dos protestantes, mas também afeta católicos que não compreendem a necessidade de recorrer a Maria para alcançar a intimidade com o Salvador. De forma contundente, o texto critica uma certa corrente de pensamento, citando o Beato Grignion de Montfort, que fala de “doutores que conhecem a Mãe de Deus apenas de maneira especulativa, seca, estéril e indiferente”. Estes temem que a devoção à Virgem seja um "abuso" e que, ao honrar excessivamente a Mãe, se ofenda o Filho. Tal mentalidade, longe de ser um zelo pela honra de Cristo, é vista pelo autor como uma falta de humildade, uma recusa em aceitar os mediadores que Deus, em Sua sabedoria, nos deu por causa de nossa fragilidade. A tese central é que uma verdadeira e profunda devoção a Maria não é um obstáculo, mas, ao contrário, uma via que facilita enormemente a intimidade com Nosso Senhor na oração.
📖 O Significado da Mediação Universal
Para fundamentar sua argumentação, o texto recorre à doutrina de São Tomás de Aquino sobre o que significa ser um mediador. O Doutor Angélico afirma que o ofício de um mediador é unir extremos. Cristo é, por excelência, o “único e perfeito Mediador de Deus e dos homens”, pois, através de Sua morte, reconciliou a humanidade com Deus. No entanto, São Tomás esclarece que nada impede que outros sejam chamados mediadores de forma secundária e subordinada, na medida em que “cooperam para unir os homens a Deus, dispositiva ou ministerialmente”. Assim como os profetas e sacerdotes do Antigo Testamento, os sacerdotes do Novo Testamento são mediadores ministeriais. Neste contexto, a mediação de Maria é apresentada como algo de ordem superior. Citando Santo Alberto Magno, o texto afirma que Maria não foi escolhida como uma mera "ministra", mas para ser associada de maneira "muito especial e íntima na obra da redenção da raça humana". Sua própria condição de Mãe de Deus a designa para esta função. Ela está infinitamente abaixo de Deus por ser uma criatura, mas imensuravelmente acima de todos os homens pela graça de sua Maternidade Divina, que, nas palavras de Cajetano, “a faz atingir as próprias fronteiras da Divindade”, e pela plenitude de graça que recebeu desde sua Imaculada Conceição. Portanto, seu título de Medianeira Universal não é apenas honorífico, mas descreve uma função que ela de fato exerceu e continua a exercer, consagrada pela Tradição e pela liturgia da Igreja.
✝️ Mediação Ascendente: A Cooperação de Maria no Sacrifício da Cruz
A primeira dimensão da mediação de Maria é a "ascendente", ou seja, sua cooperação na oferta do sacrifício redentor a Deus. Esta cooperação não se limitou ao Calvário, mas abrangeu toda a sua vida. Começou com seu fiat livre na Anunciação, um consentimento que, segundo São Tomás, Deus esperou como se fosse a voz de toda a humanidade. Ao dar seu "sim", ela nos deu o Sacerdote e a Vítima do sacrifício. Continuou com a oferta de seu Filho no Templo, onde, iluminada pela profecia de Simeão, começou a sofrer profundamente com Ele ao ouvir que uma espada transpassaria sua alma. O ápice desta cooperação ocorreu ao pé da Cruz. Ali, de pé, ela se uniu ao sacrifício de seu Filho de uma forma inexprimível, tanto por via de satisfação (reparação) quanto por via de mérito. O Papa Bento XV é citado para afirmar que, no Calvário, “ela renunciou aos seus direitos de mãe sobre seu Filho para a salvação de todos os homens”. Ela aceitou e ofereceu o martírio de Cristo por nós. Sua caridade, sendo incomparavelmente superior à de todos os santos, permitiu-lhe sentir a profundidade dos tormentos de Cristo e sofrer pelo pecado em um grau único. O texto diferencia teologicamente a satisfação de Cristo e a de Maria. Cristo satisfez por nós em estrita justiça (de condigno), pois seus atos humanos possuíam um valor infinito derivado de sua Pessoa Divina. Maria, em união com Ele, satisfez por nós não com base na justiça, mas “nos direitos da amizade ou caridade infinita que a unia a Deus” (de congruo). Da mesma forma, tudo o que Cristo mereceu para nós em estrita justiça, Maria o mereceu por mérito de conveniência (de congruo). Esta doutrina, sancionada pelo Papa Pio X, é fundamentada na tradição que a chama de "Nova Eva", a mãe espiritual de todos os homens. A prova escriturística final é a palavra de Cristo na Cruz: “Mulher, eis o teu filho”. Naquele momento, São João representava toda a humanidade, e Maria foi constituída como a verdadeira mãe espiritual de todos os homens, tornando-se, como afirma a Tradição, a Corredentora, pois com Cristo, por Ele e n'Ele, ela resgatou a raça humana.
🕊️ Mediação Descendente: Maria Obtém e Distribui Todas as Graças
A segunda dimensão de sua mediação é a "descendente": a distribuição de todas as graças que fluem da Redenção. Sendo a mãe espiritual de todos os homens, ela intercede incessantemente por seus filhos. O Papa Leão XIII afirma que, “segundo a vontade de Deus, nada nos é concedido senão por meio de Maria”, e que, assim como ninguém pode ir ao Pai senão pelo Filho, “geralmente ninguém pode se aproximar de Cristo senão por Maria”. A própria oração da Igreja (lex orandi, lex credendi) confirma esta verdade. A Ladainha de Loreto a invoca como "Saúde dos enfermos, refúgio dos pecadores, auxílio dos cristãos", atribuindo-lhe a distribuição de graças de todas as espécies. Mais incisivamente, a oração da Ave Maria, com seu pedido "rogai por nós, pecadores, agora e na hora de nossa morte", demonstra a fé da Igreja em sua intercessão pela graça mais particular e necessária: a graça do momento presente. As Escrituras também mostram Maria como distribuidora de graças: através dela, Jesus santificou o Precursor na Visitação; por sua intercessão, Ele realizou seu primeiro milagre em Caná; através dela, Ele fortaleceu a fé de João no Calvário; e com ela em oração, o Espírito Santo desceu sobre os Apóstolos em Pentecostes. Após sua Assunção, esta função se intensifica. No Céu, ela conhece todas as nossas necessidades espirituais e, como mãe onipotente suplicante junto ao coração de seu Filho, obtém todas as graças que recebemos. Ela é, portanto, descrita como o "aqueduto das graças" e, no Corpo Místico, como o "pescoço virginal" que une a Cabeça (Cristo) aos seus membros. A conclusão prática é clara: para uma vida interior fecunda, a oração deve começar com uma conversa filial e confiante com Maria, para que ela nos conduza à intimidade de seu Filho, que é o único caminho para a união com Deus.