A obra Anti-Catholicism and Nineteenth-Century Fiction (Cambridge University Press, 2004), de Susan M. Griffin, oferece uma análise pioneira sobre o papel onipresente, porém pouco estudado, dos temas anticatólicos na literatura britânica e americana desde a década de 1830 até a virada do século XX. Griffin argumenta que a retórica anticatólica na ficção serviu como uma ferramenta versátil para a crítica cultural, permitindo que autores protestantes definissem identidades nacionais, de gênero e normativas em oposição a um "Outro" construído: o Catolicismo Romano. Utilizando um arquivo transatlântico de obras canônicas e textos esquecidos ou menores, o livro traça a evolução dos tropos anticatólicos, desde ataques religiosos polêmicos até explorações psicológicas mais seculares. Este artigo sintetiza os principais argumentos, a estrutura dos capítulos e as contribuições de Griffin, destacando sua significância para os estudos literários, culturais e religiosos. Por meio de exames detalhados de ansiedades de gênero, discursos nacionalistas e ideologias imperiais, Griffin revela como a ficção destilou o sentimento anticatólico em "verdades" que reforçaram a hegemonia protestante.
🏛️ Introdução: O Anticatólicismo como Fundamento Cultural
No século XIX, o anticatolicismo não era apenas um preconceito religioso, mas um elemento estruturante da identidade cultural anglo-americana. À medida que ondas de imigração católica, particularmente da Irlanda devido à Grande Fome, desafiavam o domínio protestante na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos, a literatura tornou-se um campo de batalha para a articulação de normas nacionais e morais. Susan M. Griffin, professora da Universidade de Louisville especializada em literatura do século XIX, desvenda essa dinâmica em sua monografia Anti-Catholicism and Nineteenth-Century Fiction. Publicado como parte da série Cambridge Studies in American Literature and Culture, o livro abrange 284 páginas e baseia-se em uma extensa bibliografia de fontes primárias e secundárias.
A tese central de Griffin postula que a ficção anticatólica forneceu aos vitorianos um conjunto de tropos políticos, culturais e literários através dos quais eles se definiram como protestantes - e, portanto, "normativos" ou o padrão racional da sociedade. Ela estende o trabalho de historiadores como Linda Colley (em Britons) e Benedict Anderson (em Imagined Communities) ao enfatizar a natureza transatlântica desse fenômeno, onde o anticatolicismo ajudou a forjar "comunidades imaginadas" em meio a ameaças de diversidade, secularização e expansão imperial. O gênero desempenha um papel fundamental em sua análise: medos sobre a feminilidade protestante vulnerável e a masculinidade castrada ou efeminada recorrem como motivos, refletindo ansiedades mais amplas sobre família, obediência e autoridade.
O livro está estruturado cronológica e tematicamente, começando com polêmicas de meados do século e culminando em romances canônicos do final do século, onde elementos anticatólicos são sublimados em profundidade psicológica. Griffin examina uma gama diversificada de autores, incluindo Harriet Beecher Stowe, Charles Kingsley, Henry James, Charlotte Brontë e figuras menos conhecidas como Rebecca Reed e Frances Trollope. Ao escavar esse "corpo negligenciado" de ficção, Griffin demonstra como o discurso anticatólico evoluiu do nativismo explícito para uma crítica cultural sutil, persistindo mesmo quando o anticatolicismo teológico manifesto diminuía.
🔍 Síntese e Análise dos Capítulos
A análise de Griffin é organizada em seis capítulos principais, cercados por uma introdução e uma seção final intitulada "Relicários". Cada capítulo foca em tropos específicos, contextos históricos e exemplos literários, ilustrando a flexibilidade da retórica anticatólica.
🏃♀️ Capítulo 1: Revelações Terríveis: O Conto da Freira Fugitiva
Este capítulo de abertura aprofunda-se em um dos tropos anticatólicos mais duradouros: a narrativa da freira fugitiva, que se originou nos Estados Unidos durante a década de 1830 em meio a medos nativistas. Griffin traça sua genealogia desde Six Months in a Convent (1835), de Rebecca Reed, até obras posteriores como Maria Monk’s Daughter (1874), de Lizzie Harper. Vale notar que essas obras dialogam diretamente com o famoso e controverso Awful Disclosures of Maria Monk (1836), um best-seller que alegava expor horrores conventuais. Tais contos retratavam conventos como prisões de escravidão sexual e espiritual, servindo como histórias de advertência sobre os perigos do catolicismo para a feminilidade protestante.
Griffin interpreta essas narrativas como uma variante da história da "mulher caída" (fallen woman), mas invertida: a fuga da freira alerta para os perigos sedutores do catolicismo em vez de uma queda moral tradicional. Ligadas a eventos históricos como o incêndio do Convento Ursulino em Charlestown (1834) e a ascensão do Partido Know-Nothing (movimento político nativista americano), essas ficções abordaram ansiedades nacionais sobre imigração e diversidade religiosa. Medos de gênero são centrais - mulheres protestantes são retratadas como vulneráveis à armadilha católica, simbolizando ameaças mais amplas à família e à nação protestante. Griffin destaca como esses contos reforçaram ideologias nativistas, posicionando o protestantismo como o guardião da pureza e autonomia femininas.
👨🏫 Capítulo 2: O Pai Morto e a Regra da Religião: O Movimento de Oxford
Mudando para a Grã-Bretanha, o Capítulo 2 examina as respostas anticatólicas ao Movimento de Oxford (também conhecido como Tractarianismo), que buscava reviver elementos católicos dentro do Anglicanismo. Griffin analisa romances como Hawkstone (1845), de William Sewell, e Father Eustace (1847), de Frances Trollope, onde o catolicismo é retratado como uma ameaça à masculinidade vitoriana.
O tropo do "pai morto" representa a perda da autoridade patriarcal sob a influência católica, com padres jesuítas retratados como figuras manipuladoras que minam a resolução masculina protestante. Griffin conecta isso a medos culturais de efeminação e obediência cega, exacerbados pela "Agressão Papal" de 1850, quando a hierarquia católica foi restaurada na Inglaterra pelo Papa Pio IX. Através de lentes psicanalíticas, ela explora como essas ficções criticaram a ênfase do Movimento de Oxford no ritual e no celibato, enquadrando-o como uma regressão ao "papismo" que colocava em perigo a identidade nacional britânica e o vigor masculino.
🇺🇸 Capítulo 3: O Pai Estrangeiro e os Filhos dos Pais: Romances Nativistas da Década de 1850
Retornando ao contexto americano, este capítulo aplica uma estrutura psicanalítica aos romances nativistas da década de 1850, focando nas relações entre "pais estrangeiros" autoritários (padres católicos) e filhos obedientes. Griffin argumenta que essas obras, frequentemente ligadas ao movimento Know-Nothing, usaram o anticatolicismo para afirmar a linhagem patriarcal e a pureza nacional.
Exemplos incluem textos menos conhecidos que retratam a influência católica as perturbadora dos "filhos dos pais" (sons of the sires) - uma referência aos pais fundadores protestantes dos EUA. O padre estrangeiro simboliza uma alteridade invasiva, ameaçando o republicanismo americano. Griffin liga isso às ondas de imigração e às tensões seccionais que levaram à Guerra Civil, mostrando como a ficção construiu o catolicismo como antitético aos valores democráticos. A dinâmica de gênero persiste, com a obediência dos filhos espelhando medos de castração e perda de independência.
👑 Capítulo 4: Mariolatria, Maternidade Imperial e Masculinidade
O Capítulo 4 amplia o escopo para contextos imperiais, examinando a "Mariolatria" (veneração de Maria) como um tropo que critica a feminilidade católica e suas implicações para a masculinidade britânica. Griffin critica o uso de imagens orientalistas pelo império, como o culto "Thug" indiano, para traçar paralelos com a "idolatria" católica.
Obras de autores como Charles Kingsley (conhecido por seu "Cristianismo Muscular") são analisadas, onde a maternidade católica é retratada como excessiva e imperialista, contrastando com a contenção protestante. Este capítulo destaca ansiedades imperiais de gênero: a "Mariolatria" católica ameaça feminilizar os homens britânicos, minando a autoridade colonial. Griffin conecta isso aos debates vitorianos sobre papéis de gênero, mostrando como a ficção anticatólica reforçou normas patriarcais e imperiais ao transformar figuras maternas católicas em "o Outro".
⚖️ Capítulo 5: Sob Qual Senhor? Ritualismo, Casamento e a Lei
Focando na controvérsia Ritualista na Igreja Anglicana durante as décadas de 1860 e 1870, o Capítulo 5 explora como a ficção anticatólica entrelaçou religião, casamento e autoridade legal. O Ritualismo, visto como tendências "romanizantes", é retratado em romances como subversivo à lei de casamento e família protestante.
Griffin discute obras como Villette, de Charlotte Brontë (embora de forma mais oblíqua do que as polêmicas anteriores), onde rituais católicos desafiam a autonomia protestante. A questão "Sob qual senhor?" encapsula conflitos entre a autoridade divina (católica) e a secular/civil (protestante), particularmente na obediência conjugal. Este capítulo sublinha as dimensões legais do anticatolicismo, ligando-o às reformas vitorianas nas leis de casamento e divórcio, e revela medos persistentes da infiltração católica nas esferas domésticas privadas.
🖋️ Capítulo 6: Túnicas Negras, Véus Brancos e Conclusões Previsíveis: Disraeli, Howells e James
No capítulo final, Griffin volta-se para autores canônicos do final do século XIX - Benjamin Disraeli, William Dean Howells e Henry James - para mostrar a secularização dos tropos anticatólicos. Em The American (1877), de James, por exemplo, elementos católicos adicionam profundidade psicológica em vez de força polêmica.
"Túnicas negras" (padres) e "véus brancos" (freiras) tornam-se símbolos de uma "Alteridade" romântica, reciclados para complexidade literária e estética. Griffin argumenta que, no final do século, o anticatolicismo havia se dispersado em discursos culturais mais amplos, correlacionando-se com o declínio do preconceito aberto, mas persistindo em formas seculares. Essa evolução reflete a mudança das identidades protestantes em meio à modernização e ao surgimento do modernismo literário.
🏺 Relicários: Reflexões Conclusivas
A seção conclusiva, "Relicários", serve como um repositório metafórico de artefatos anticatólicos, resumindo como esses tropos persistiram como relíquias culturais. Griffin reitera o foco transatlântico do livro e clama por mais estudos sobre o legado do anticatolicismo na formação da modernidade.
🗣️ Recepção Crítica e Significância
As resenhas da obra de Griffin elogiam sua pesquisa meticulosa e abordagem transatlântica inovadora. Daniel Wong, em artigo para a Nineteenth-Century Gender Studies (2005), elogia seu escopo abrangente e insights de gênero, mas nota uma oportunidade perdida de explorar profundidades teológicas para além do historicismo. Outros críticos, como os da Victorian Studies e do Victorians Institute Journal, destacam suas contribuições para a compreensão da religião e do nacionalismo vitorianos, descrevendo a obra como "perspicaz" e "argumentada de forma convincente".
A monografia de Griffin é essencial para estudiosos da literatura vitoriana, estudos americanos e história religiosa. Ela ilumina como a ficção não apenas refletiu, mas moldou ativamente o sentimento anticatólico, oferecendo insights sobre a política de identidade contemporânea. Ao recuperar textos esquecidos, enriquece nossa compreensão de como os protestantes construíram a normalidade contra um contraste católico.
🏁 Conclusão
Anti-Catholicism and Nineteenth-Century Fiction revela magistralmente o trabalho ideológico da literatura na era vitoriana. A análise de Griffin demonstra a adaptabilidade dos tropos anticatólicos através de gêneros, nações e gêneros sexuais, mostrando, em última análise, seu papel na sustentação da dominação protestante. Este resumo abrangente sublinha a relevância duradoura do livro, convidando a uma maior exploração interdisciplinar da marca da religião na ficção moderna e como a construção do "eu" nacional depende frequentemente da demonização de um "outro" religioso.
📚 Referências Bibliográficas
ANDERSON, Benedict. Imagined Communities: Reflections on the Origin and Spread of Nationalism. Verso, 1983.
COLLEY, Linda. Britons: Forging the Nation 1707-1837. Yale University Press, 1992.
GRIFFIN, Susan M. Anti-Catholicism and Nineteenth-Century Fiction. Cambridge University Press, 2004.
WONG, Daniel. "Review of Anti-Catholicism and Nineteenth-Century Fiction". Nineteenth-Century Gender Studies, vol. 1, no. 1, 2005.