📜 O Concílio Vaticano II: a grande apostasia e a subversão da Fé Católica
Neste capítulo central, Rama Coomaraswamy disseca o evento que constitui a gênese da crise atual: o Concílio Vaticano II. Longe de ser um "novo Pentecostes", o autor demonstra, com base nos próprios documentos conciliares e no testemunho dos protagonistas, que o Concílio foi uma revolução calculada, um "Concílio Ladrão" que rompeu com a Tradição bimilenar da Igreja para abraçar os erros do mundo moderno. A análise revela como o modernismo, condenado por São Pio X, triunfou através da ambiguidade, da astúcia política e da traição da hierarquia, transformando a Igreja Católica em uma nova entidade: a Igreja Conciliar, humanista e ecumênica.
⚔️ A natureza revolucionária do Concílio
O autor inicia definindo o que é um verdadeiro Concílio Ecumênico: uma assembleia para formular decisões sobre a Fé ou disciplina, delimitando a doutrina católica dos erros contemporâneos. O Vaticano II, contudo, diferiu radicalmente de todos os seus 20 predecessores. Foi o primeiro a convidar "observadores" não-católicos para participar; o primeiro a se declarar "pastoral" em vez de dogmático; e, tragicamente, o primeiro a não condenar nenhum erro. Mais grave ainda, foi o primeiro Concílio a romper com o ensinamento tradicional do Magistério. O autor cita o Cardeal Suenens, que descreveu o Vaticano II como "a Revolução Francesa na Igreja", e Yves Congar, que o comparou à "Revolução de Outubro" na Rússia (p. 184). Não se tratou de uma reforma, mas de uma insurreição.
⚠️ A obrigatoriedade do erro: o dilema da autoridade
Uma confusão mortal paira sobre a autoridade do Concílio. Embora declarado "pastoral", os "Papas" pós-conciliares insistiram em sua obrigatoriedade. Paulo VI afirmou que o Concílio possui o valor do "supremo magistério ordinário" e que seus decretos devem ser aceitos "dócil e sinceramente" (p. 185). João Paulo II declarou que a obediência ao Concílio é "obediência ao Espírito Santo" (p. 186). Coomaraswamy denuncia a armadilha: se o Concílio é obrigatório e contém erros (como demonstra o capítulo), então a autoridade que o impõe é ilegítima, ou Cristo mentiu à Sua Igreja. A tentativa de conservadores de interpretar o Concílio "à luz da Tradição" é refutada pelo próprio Paulo VI, que exigiu o rompimento com a "ligação habitual" ao que se designava como tradição imutável. O autor conclui que o Vaticano II é, na prática, considerado vinculante e infalível pela nova Igreja, tornando a adesão a ele um ato de apostasia para o verdadeiro católico, pois a verdade não pode contradizer a verdade.
🌊 A subversão planejada: o Reno deságua no Tibre
O capítulo detalha o "golpe de estado" perpetrado pelos liberais logo no início do Concílio. Os esquemas preparatórios, elaborados pela Cúria e de teor ortodoxo, foram rejeitados em uma manobra orquestrada pela "Aliança Europeia" (bispos do Reno), liderada por cardeais como Liénart e Frings. O controle das comissões foi tomado por modernistas e seus periti (peritos), como Hans Küng, Karl Rahner e Schillebeeckx. Coomaraswamy narra como João XXIII interveio pessoalmente para salvar os liberais quando estes não obtinham a maioria necessária, violando as regras do próprio Concílio (p. 190). O que a imprensa chamou de "revolta espontânea" foi, na verdade, uma conspiração bem planejada para introduzir o modernismo no seio da Igreja.
🎭 A arma da ambiguidade
A principal tática dos inovadores para aprovar suas heresias sem alertar a resistência conservadora foi o uso calculado da ambiguidade. Textos foram redigidos de forma a permitir tanto uma interpretação ortodoxa quanto uma modernista. Cardinal Heenan admitiu que as comissões podiam "desgastar a oposição e produzir uma fórmula patente de ambas as interpretações" (p. 192). Estas "bombas-relógio", como as chama Michael Davies, foram inseridas nos documentos para serem detonadas posteriormente. O autor cita o teólogo protestante Oscar Cullmann, que elogiou os textos por serem "textos de compromisso" que "não fecham nenhuma porta" (p. 192). Essa desonestidade intelectual permitiu que o erro fosse disseminado sob a capa da ortodoxia.
🕊️ O "animus" do Concílio: uma nova religião
Mais do que erros isolados, o Vaticano II introduziu um novo espírito (animus) que é ofensivo aos ouvidos piedosos. O autor divide a análise das doutrinas conciliares em quatro novas orientações que constituem uma ruptura total com a Fé Católica. Primeiro, o Evolucionismo e o Progresso: A Igreja tradicional, imutável e perfeita, foi substituída por uma entidade "dinâmica" e "evolutiva". A constituição Gaudium et Spes declara que "o gênero humano passou de uma concepção estática da realidade para uma mais dinâmica e evolutiva" (p. 194). Coomaraswamy denuncia que, ao aceitar o mito do progresso e da evolução, a Igreja se rendeu ao mundo moderno, abandonando a verdade eterna por uma verdade fluida e histórica.
Em segundo lugar, a Nova Eclesiologia (Subsistit in): A identidade da Igreja foi atacada. A doutrina de que a Igreja de Cristo é a Igreja Católica foi substituída pela fórmula de que a Igreja de Cristo subsiste na Igreja Católica (p. 210). Isso implica que a verdadeira Igreja existe também fora da estrutura católica, validando seitas heréticas como parte da "Igreja de Cristo". O Concílio afirma que os protestantes estão em "certa comunhão" com a Igreja e que o Espírito Santo não se recusa a usar suas comunidades como "meios de salvação" (p. 207), uma heresia frontal contra o dogma Extra Ecclesiam Nulla Salus.
Terceiro, o Culto do Homem: O teocentrismo foi substituído pelo antropocentrismo. O Concílio declara que "crentes e não crentes concordam que todas as coisas na terra devem ser ordenadas ao homem como seu centro e cume" (p. 196). O homem é exaltado por sua "dignidade" inata, independentemente de estar em estado de graça ou pecado. Paulo VI proclamou: "Nós também, nós mais do que ninguém, temos o culto do homem" (p. 150). Essa deificação do homem é a base para a nova doutrina da Liberdade Religiosa. Por fim, o Falso Ecumenismo e a Unidade da Humanidade: O objetivo da Igreja deixou de ser a salvação das almas individuais e passou a ser a "unidade do gênero humano". O Concílio promove a "unidade" não pela conversão à verdade católica, mas pelo "diálogo em pé de igualdade" (p. 208). O termo "Povo de Deus" foi expandido para incluir não apenas católicos, mas hereges e até mesmo pagãos e ateus, sugerindo uma salvação universalista (p. 206).
💣 Erros específicos e "bombas-relógio"
O autor lista e refuta erros específicos contidos nos documentos. Sobre a Liberdade Religiosa (Dignitatis Humanae), o Concílio ensina que o homem tem o direito, fundado em sua natureza, à liberdade religiosa, inclusive para propagar o erro publicamente. Isso contradiz o ensinamento constante de papas como Pio IX e Gregório XVI, que chamaram tal liberdade de "loucura". Coomaraswamy sentencia: "O erro não pode ter direitos; apenas a verdade tem direitos" (p. 215). Ao conceder direitos ao erro, o Vaticano II nega os direitos de Cristo Rei. Quanto ao Casamento e Família, o Concílio inverteu os fins do matrimônio, colocando o fim unitivo (amor mútuo) em pé de igualdade ou até acima do fim primário (procriação), abrindo as portas para a contracepção e a dissolução da família (p. 222). Finalmente, sobre a "Igreja no Mundo Moderno" (Gaudium et Spes), o documento é permeado por um otimismo pelagiano e uma aceitação acrítica do mundo, ignorando o pecado original e a necessidade de redenção. O Protestantismo, o Modernismo e até o Marxismo (pela recusa em condenar o comunismo) encontraram eco nos textos conciliares.
⛪ Conclusão: uma igreja diferente
O capítulo encerra com a conclusão inelutável de que o Vaticano II criou uma nova religião. Ao abandonar a exclusividade da verdade, ao dialogar com o erro e ao exaltar o homem, a Igreja Conciliar perdeu sua razão de ser sobrenatural. Ela se tornou, nas palavras do autor, "serva do mundo", buscando construir uma utopia terrestre em vez do Reino dos Céus. "Uma Igreja que acredita na dignidade inata do homem... que acredita que todo homem deve julgar por si mesmo... que acredita que a verdade evolui... não pode reivindicar ser a mestra da humanidade" (p. 216). O Vaticano II não foi um concílio de reforma, mas de destruição. Para o católico fiel, a única resposta possível a este "Concílio Ladrão" é a rejeição total de suas novidades e a adesão intransigente à Tradição de Sempre.
Referência: COOMARASWAMY, Rama P. The Destruction of the Christian Tradition. Updated and Revised. Bloomington: World Wisdom, 2006. Capítulo 11: Vatican II, p. 184-229.