Introito - Mihi autem nimis honoráti sunt amíci tui, Deus: nimis confortátus est principátus eórum. Ps. Dómine, probásti me, et cognovísti me: tu cognovísti sessiónem meam, et resurrectiónem meam.Tenho em grande estima os vossos amigos, ó Deus; muito se fortaleceu o seu poder. Sl. Senhor, Vós me provais e me conheceis; Vós sabeis a minha morte e a minha ressurreição.
Tiago, filho de Zebedeu, cognominado o Maior, pescador nas águas do Mar da Galileia, foi um dos primeiros a abandonar as redes terrenas e o barco paterno ao ouvir a voz imperiosa do Verbo Encarnado, unindo-se, junto com seu irmão João, à escola do Divino Mestre. Escolhido para testemunhar os mais sublimes e terríveis mistérios da vida de Cristo, seus olhos mortais contemplaram o fulgor da luz incriada no alto do Tabor e, mais tarde, assistiram à densa agonia de suor e sangue nas sombras do Getsêmani. Inflamado pelo fogo abrasador de Pentecostes, percorreu a Judeia e, segundo a veneranda tradição ibérica, levou a tocha do Evangelho até os confins da Espanha, dissipando as espessas trevas da idolatria que ali imperava. Consumou sua carreira gloriosa e abriu as portas do Céu ao tornar-se o primeiro apóstolo a tingir a terra com seu próprio sangue, sendo decapitado em Jerusalém por ordem do iníquo Herodes Agripa I, no ano 42 da era cristã. Suas relíquias sagradas, que até hoje exalam o bom odor de Cristo e curam as feridas da alma, repousam na majestosa Catedral de Santiago de Compostela, um farol perene de fé para onde convergem multidões de peregrinos de toda a Cristandade.
Contemplai, ó amados, o tremendo mistério que hoje repousa sobre a pedra do altar! A mãe dos filhos de Zebedeu aproxima-se do Cordeiro suplicando coroas brilhantes e tronos de glória temporal, mas o Senhor, com o olhar transpassando o véu da eternidade, oferece-lhes o cálice amargo. "Podeis vós beber o cálice que Eu hei de beber?" Eis a pergunta flamejante que atravessa os séculos e fere, como espada de dois gumes, os ouvidos de nossa época adoecida! Os tempos em que respiramos, embriagados pelo ópio das comodidades, pelos favores mundanos e por uma profunda aversão à cruz, tremem diante desta interrogação divina. Quão deplorável e pavoroso é constatar que, mesmo dentro dos átrios sagrados, multiplicam-se as vozes daqueles que tentam adoçar as exigências rudes do Calvário; homens que, para mendigar os aplausos da praça pública, costuram vestes de complacência, mutilando a severidade da sã doutrina com novidades sedutoras e palavras aveludadas que não ofendem a carne, mas assassinam o espírito. Buscam a amizade do mundo em vez da aprovação do Justo Juiz! Mas São Tiago, o filho do trovão, levanta-se hoje no meio da Igreja como um gigante, para despedaçar a letal ilusão do messianismo político e terreno que cegava e arrastava à ruína a sua própria geração. Ele, que outrora almejava a primazia humana, foi devorado pelo zelo divino, ensinando-nos, como adverte Santo Agostinho, que a ambição da alma só é santa quando purificada, quando renuncia aos louros que murcham para abraçar o patíbulo redentor. Vede com que tintas vivas São Paulo, na Epístola de hoje, pinta o retrato dos verdadeiros ministros de Deus: são postos como os últimos, dados em espetáculo aos Anjos e aos homens, esbofeteados, errantes, o cisco e a escória do universo! Acaso é esta a imagem de um cristianismo aguado, adaptado aos salões profanos? De modo algum! Santo Ambrósio nos recorda que a força inabalável da Esposa de Cristo germina precisamente desta fraqueza aparente, onde a dor se torna a sementeira da imortalidade. A liturgia que hoje celebramos com temor e tremor não é um teatro para acariciar os sentidos, mas a renovação incruenta e vivificante daquele mesmíssimo sacrifício em que o cálice do sangue divino transborda para purificar nossas iniquidades. Afastai-vos, pois, dos falsos mestres que vos prometem a ressurreição sem os cravos da Sexta-feira Santa. Imitemos São Tiago, cuja jornada heroica, como canta São Bernardo, é a figura exata da nossa peregrinação nesta terra de exílio: corramos com destemor para sorver o cálice das provações, abandonando as trevas do pecado, com a certeza inabalável de que as aflições do tempo presente jamais se poderão comparar à torrente de delícias que nos aguarda nos resplendores da glória eterna.
Epístola (I Cor 4, 9-15) - Irmãos: Parece-me que Deus nos trata, a nós, Apóstolos, como últimos dos homens, como destinados à morte, pois somos dados em espetáculo ao mundo, aos Anjos e aos homens. Nós somos estultos por amor do Cristo e vós sois sábios no Cristo; somos fracos e vós sois fortes; sois estimados, e nós, desprezados. Até esta hora padecemos fome e sede; estamos nus, somos esbofeteados e não temos morada fixa. Fatigamo-nos a trabalhar com as nossas mãos; somos amaldiçoados e abençoamos; somos perseguidos e o suportamos; caluniados e rezamos. Temos sido tratados como o cisco do mundo, a escória de todos, até agora. Não escrevo estas coisas para vos envergonhar, mas admoesto-vos como a filhos muito amados. Porque ainda que tenhais dez mil mestres em Jesus Cristo, contudo não tendes muitos pais, porque fui eu quem, pelo Evangelho, vos gerou no Cristo Jesus.
Evangelho (Mt 20, 20-23) - Naquele tempo, aproximou-se de Jesus a mãe dos filhos de Zebedeu com seus filhos, adorando-O para dirigir-Lhe um pedido. Ele disse-lhe: Que desejais? Ela respondeu-Lhe: Dizei que estes meus dois filhos se sentem em vosso Reino, um à vossa direita e o outro à vossa esquerda. Replicou-lhe Jesus: Não sabeis o que pedis. Podeis vós beber o cálice que eu hei de beber? Eles disseram: Podemos. Em verdade, disse Jesus, bebereis o meu cálice. Mas não pertence a mim o conceder que vos senteis à minha direita ou à minha esquerda; isso será concedido àqueles a quem meu Pai o preparou.