📖 Introito (Eclo 45, 30 | Sl 131, 1)
Statuit ei Dominus testamentum pacis, et principem fecit eum: ut sit illi sacerdotii dignitas in aeternum. Ps. Memento Domine, David: et omnis mansuetudinus ejus.
O Senhor fez com ele uma aliança de paz, constituindo-o príncipe a fim de que a dignidade sacerdotal lhe pertencesse para sempre. Sl. Lembrai-Vos, Senhor, de Davi e de toda a sua mansidão. ℣. Glória ao Pai.
✉️ Epístola (Tiago 1, 12-18)
Caríssimi: Beátus vir, qui suffert tentatiónem: quóniam, cum probátus fúerit, accípiet corónam vitæ, quam repromísit Deus diligéntibus se. Nemo, cum tentátur, dicat, quóniam a Deo tentátur: Deus enim intentátor malórum est: ipse autem néminem tentat. Unusquísque vero tentátur a concupiscéntia sua abstráctus et illéctus. Deinde Concupiscéntia cum concéperit, parit peccátum: peccátum vero cum consummátum fúerit, génerat mortem. Nolíte itaque erráre, fratres mei dilectíssimi. Omne datum óptimum et omne donum perféctum desúrsum est, descéndens a Patre lúminum, apud quem non est transmutátio nec vicissitúdinis obumbrátio. Voluntárie enim génuit nos verbo veritátis, ut simus inítium aliquod creatúræ ejus.
Caríssimos: Bem-aventurado o homem que suporta a tentação, porque, uma vez provado, receberá a coroa da vida, que Deus prometeu aos que O amam. Ninguém, quando tentado, diga que é tentado por Deus, pois Deus não é tentador de males, e Ele próprio a ninguém tenta. Cada um, porém, é tentado pela sua própria concupiscência, que o atrai e o seduz. Depois, a concupiscência, uma vez concebida, dá à luz o pecado; e o pecado, quando consumado, gera a morte. Portanto, não vos enganeis, meus irmãos caríssimos. Todo dom precioso e toda dádiva perfeita vêm do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não há mudança nem sombra de variação. Pois, por sua vontade, Ele nos gerou pela palavra da verdade, para que sejamos como que as primícias da sua criação.
✠ Evangelho (Lc 14, 26-33)
In illo témpore: Dixit Jesus turbis: Si quis venit ad me, et non odit patrem suum, et matrem, et uxórem, et fílios, et fratres, et soróres, adhuc autem et ánimam suam, non potest meus esse discípulus. Et qui non bájulat crucem suam, et venit post me, non potest meus esse discípulus. Quis enim ex vobis volens turrim ædificáre, non prius sedens cómputat sumptus, qui necessárii sunt, si hábeat ad perficiéndum; ne, posteáquam posúerit fundaméntum, et non potúerit perfícere, omnes, qui vident, incípiant illúdere ei, dicéntes: Quia hic homo cœpit ædificáre, et non pótuit consummáre? Aut quis rex iturus commíttere bellum advérsus álium regem, non sedens prius cógitat, si possit cum decem mílibus occúrrere ei, qui cum vigínti mílibus venit ad se? Alióquin, adhuc illo longe agénte, legatiónem mittens, rogat ea, quæ pacis sunt. Sic ergo omnis ex vobis, qui non renúntiat ómnibus, quæ póssidet, non potest meus esse discípulus.
Naquele tempo, disse Jesus à multidão: Se alguém vem a mim e não odeia seu pai e a mãe, a mulher e os filhos, os irmãos e as irmãs e até a sua própria vida, não pode ser meu discípulo. Quem não carrega a sua cruz, seguindo-me, não pode ser meu discípulo. Pois qual de vós, querendo edificar uma torre, não se senta primeiro a calcular os gastos, para ver se tem com que a acabar? Para que não suceda que, depois de postos os alicerces e de não a poder concluir, todos os que o virem não comecem a zombar dele, dizendo: Este homem começou a edificar e não pôde terminar. Ou qual é o rei que, estando para entrar em guerra contra outro rei, não se senta primeiro a considerar se com dez mil homens poderá ir ao encontro do que traz contra ele vinte mil? No caso contrário enviará uma embaixada, enquanto o outro ainda está longe, e pedir-lhe-á convênios de paz. Assim, pois, qualquer de vós que não renuncie a tudo o que possui não pode ser meu discípulo.
🏰 A edificação da torre espiritual e o martírio
A liturgia de hoje nos apresenta uma conexão profunda entre a longevidade provada pelo sofrimento e a verdadeira consumação da vida cristã, personificada em São Simeão. O Evangelho impõe uma condição radical para o discipulado: o "ódio" aos laços carnais quando estes se opõem ao amor divino, e a necessidade de carregar a Cruz. São Simeão, sendo primo do Senhor, poderia ter se vangloriado de sua parentela humana, mas, como ensina Santo Agostinho, a dignidade espiritual supera a carne, pois "mais bem-aventurada foi Maria por ter acolhido a fé de Cristo do que por ter concebido a carne de Cristo" (Santo Agostinho, De Sancta Virginitate). Simeão compreendeu que para edificar a "torre" da santidade - mencionada na parábola evangélica - é necessário calcular os custos, ou seja, prever a renúncia total. Ele não apenas lançou os fundamentos, mas perseverou por cento e vinte anos na construção deste edifício espiritual, suportando a "tentação" e a prova mencionadas na Epístola de São Tiago, seu predecessor. A torre só se completa quando a obra resiste ao teste final; para Simeão, este teste foi o martírio na cruz, espelhando perfeitamente o fim de sua vida terrena com a do Salvador. São Gregório Magno nos adverte que "muitos começam a boa obra, mas poucos a terminam; ora, a recompensa não é para quem começa, mas para quem persevera até o fim" (São Gregório Magno, Homiliae in Evangelia). Assim, a renúncia exigida por Cristo não é um desprezo impiedoso pela criação, mas uma ordenação hierárquica do amor onde Deus ocupa o cume; ao renunciar a tudo, inclusive à própria vida na ancianidade, Simeão tornou-se uma verdadeira "primícia da criação", demonstrando que a aliança de paz celebrada no Introito não é a ausência de guerra externa, mas a vitória interior da alma que, tendo calculado o preço da eternidade, pagou-o alegremente com o próprio sangue.