Introito - Salus autem justórum a Dómino: et protéctor eórum est in témpore tribulatiónis. Ps. Noli æmulári in malignántibus: neque zeláveris faciéntes iniquitátem.A salvação dos justos vem do Senhor, e Ele é seu protetor no tempo da tribulação. Sl. Não te indignes por causa dos malfeitores, nem tenhas inveja dos que praticam a iniquidade.
A liturgia deste dia une em um só abraço de glória duas testemunhas invictas do sangue de Cristo, cujas vidas, outrora separadas pela distância e pela vocação, fundiram-se para sempre no altar do sacrifício perfeito. São Hipólito, ilustre sacerdote romano dotado de vasto saber, após dolorosa separação temporal do seio da Igreja, encontrou no duro exílio das minas da Sardenha a luz da reconciliação, lavando qualquer mancha de discórdia no batismo de seu próprio martírio no ano de 235. A seu lado, brilha a coroa de São Cassiano, abnegado mestre-escola na cidade de Ímola, que se recusou terminantemente a sacrificar aos ídolos mudos do paganismo. Entregue à fúria cega de seus próprios alunos pagãos, este educador de almas padeceu um tormento singular e atroz, sendo impiedosamente trespassado pelos estiletes de ferro que antes lhes serviam para traçar as letras, transformando os instrumentos do saber terreno em penas com as quais assinou o seu nome no Livro da Vida. Seus exemplos luminosos nos chamam a desprezar a glória vã e a abraçar a única verdade que salva. As relíquias de São Hipólito atraíram por séculos a piedade dos fiéis às Catacumbas de Santo Hipólito em Roma, recordando-nos de que a fidelidade a Nosso Senhor é mais forte que o exílio, mais profunda que a sabedoria humana e infinitamente mais gloriosa que a própria morte.
Meus amados irmãos, prestai redobrada atenção ao brado que hoje ressoa do altar e ecoa nas abóbadas dos nossos templos! O Divino Mestre nos adverte com uma gravidade que faz tremer os alicerces da alma: "Acautelai-vos do fermento dos fariseus, que é a hipocrisia". O que é este fermento senão a corrupção oculta, aquela falsidade sorrateira que, ostentando máscaras de aparente piedade, corrói a integridade da fé por dentro? Em Hipólito e Cassiano, contemplamos varões de estirpe celestial que se ergueram como muralhas contra a fúria e o engodo de seu tempo. A sua grande missão não consistiu apenas em suportar o ferro dos verdugos, mas em travar um combate mortal contra a imensa mentira do paganismo, que seduzia as almas exigindo uma adoração conveniente, superficial e política. Hoje, porém, não vemos um perigo ainda mais pérfido pairando sobre as nossas cabeças? Um espírito nefasto respira, qual fumaça embriagadora, buscando anestesiar as consciências e sussurrando, nas sombras e à luz do dia, que a Cruz é um fardo demasiado pesado, que a religião deve afagar os sentidos, adaptar-se aos caprichos do século e mendigar o aplauso das multidões em vez de render-se ao Soberano Juiz. Tentam, com astúcias venenosas e alterações graduais, esvaziar a força do sacrifício, trocando a rocha da doutrina inalterável por concessões que apenas afundam o homem no lodo. Mas Santo Agostinho nos desperta deste torpor letal, advertindo-nos que Nosso Senhor ordenou temer Aquele que pode lançar no inferno não para a nossa ruína, mas para que, movidos por um santo pavor das chamas eternas, evitemos a perdição que a amizade com o mundo fatalmente produz! Do que adianta preservar os bens materiais ou a reputação neste mundo efêmero, se a alma for condenada às trevas exteriores? São Paulo, na Epístola, exalta a grandeza daqueles que aceitaram com alegria o roubo de suas posses e suportaram humilhações públicas por amor ao Nome Santo. Para nós, como nos alerta a voz retumbante de São João Crisóstomo, a coroa não será depositada nas mãos de quem apenas inicia a corrida com entusiasmo volúvel, mas coroará aquele que a consuma com invencível paciência. Não basta, portanto, uma devoção de fachada, uma confissão murmurada que se apressa em fazer as pazes com os inimigos de Deus. Como nos ensina de forma contundente Santo Ambrósio, a verdadeira confissão exige o testemunho visceral das nossas obras e a coerência inquebrantável da nossa conduta! Renunciemos, pois, às facilidades venenosas de um cristianismo despido de cruz; rejeitemos com asco a hipocrisia que sorri para o mundo enquanto atraiçoa a Majestade Divina. Que o sangue abrasador de Hipólito e as feridas gloriosas de Cassiano purifiquem os nossos corações tíbios, para que, confessando a fé com destemor inabalável diante dos homens mortais, sejamos por Cristo reconhecidos e exaltados perante a corte resplandecente dos anjos de Deus.
Epístola (Hb 10, 32-38) - Lembrai-vos, irmãos, dos primeiros dias, nos quais, depois de iluminados, suportastes um grande combate de sofrimentos: ora expostos publicamente a injúrias e tribulações, ora tornando-vos companheiros dos que assim eram tratados. Com efeito, compadecestes-vos dos presos, e aceitastes com alegria o roubo dos vossos bens, sabendo que tendes uma possessão melhor e permanente. Não lanceis fora, pois, a vossa confiança, que tem uma grande recompensa. Com efeito, a paciência vos é necessária, para que, fazendo a vontade de Deus, alcanceis a promessa. Pois ainda um pouco, bem pouco tempo, e aquele que há de vir virá e não tardará. Mas o meu justo viverá pela fé.
Evangelho (Lc 12, 1-8) - Naquele tempo, Jesus disse aos seus discípulos: Acautelai-vos do fermento dos fariseus, que é a hipocrisia. Pois nada há encoberto que não venha a ser revelado, e nada oculto que não venha a ser conhecido. Porque o que dissestes nas trevas, será dito à luz; e o que falastes ao ouvido nos quartos, será proclamado sobre os telhados. Digo-vos, meus amigos: não temais os que matam o corpo e, depois disso, nada mais podem fazer. Mostrar-vos-ei a quem deveis temer: temei aquele que, depois de matar, tem poder de lançar no inferno. Sim, eu vos digo: a esse temei. Não se vendem cinco passarinhos por dois asses? E nenhum deles está esquecido diante de Deus. Até os cabelos da vossa cabeça estão todos contados. Não temais, pois: valeis mais do que muitos passarinhos. Digo-vos ainda: todo aquele que me confessar diante dos homens, também o Filho do Homem o confessará diante dos Anjos de Deus.