No alvorecer sangrento do quarto século, sob a fúria da perseguição do imperador Diocleciano, a cidade de Bolonha foi regada com o sangue puríssimo de dois homens que o mundo julgava desiguais, mas que a graça tornou irmãos inseparáveis: Agrícola, um nobre e compassivo patrão cristão, e Vital, seu fiel escravo. Precedendo seu senhor no combate, Vital foi submetido a tormentos indescritíveis, tendo seu corpo rasgado por torturas contínuas, concebidas não apenas para matá-lo, mas para aterrorizar Agrícola que a tudo assistia; contudo, o escravo entregou sua alma a Deus sem soltar um único gemido, triunfando sobre a tirania terrena. Longe de recuar diante do espetáculo do servo, Agrícola sentiu-se inflamado de santa inveja e confessou a Cristo com redobrado vigor, sendo então pregado a uma cruz, imitando seu Divino Mestre até o último suspiro. Seus corpos, lançados entre sepulturas pagãs e esquecidos pelo mundo, foram gloriosamente descobertos em 393 por Santo Ambrósio, que, em prantos de devoção, trasladou as sagradas relíquias, reacendendo o fervor da verdadeira fé e cujo local de repouso primitivo ainda é honrado na Igreja de São Vital e Agrícola na Arena.
Olhai, meus irmãos, para o esplendor destes dois homens, e pergunto-vos: o que fez com que o senhor romano e o seu escravo se abraçassem diante do carrasco? Foi a certeza inabalável de que a alma vale mais do que o mundo inteiro. Nosso Senhor nos adverte no Evangelho de hoje: "Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se vier a perder a sua alma?" A grande mentira de nosso tempo é exatamente a mesma idolatria antiga que estes mártires esmagaram com seu sangue, embora hoje ela vista trajes mais polidos. Há uma religiosidade de fachada que se alastra, uma encenação habilidosa onde o homem é colocado no centro do palco, enquanto o Deus vivo é banido para as sombras. Preservam-se os cânticos de domingo, as reuniões calorosas, as belas palavras sobre fraternidade terrena, mas o motor oculto dessa máquina opera uma trágica inversão. Fogem do sacrifício como de uma peste; recusam a cruz; transformam a doutrina austera e salvífica em um aglomerado de opiniões passageiras, moldadas para não ofender os caprichos modernos. A fé degenera no mero conforto de pertencer a um grupo social agradável. Mas a verdadeira Igreja de Cristo aponta o dedo para o alto! Ela arranca o homem da poeira das vaidades e o puxa para as realidades eternas. O altar não é uma mesa para celebrarmos a nós mesmos, mas o rochedo sagrado onde o sacrifício redentor se renova. Como clama o Apóstolo na Epístola de hoje, os santos foram feitos espetáculo público de tribulações, aceitando o despojo de seus bens, porque sabiam possuir uma riqueza permanente. Santo Ambrósio, aquele grande Doutor de Milão, ao desenterrar os ossos de Vital e Agrícola, não encontrou promotores de facilidades mundanas, mas testemunhas ferozes contra a heresia de que a vida terrena é o fim último do homem. Despertai, almas adormecidas no conforto moderno! A liturgia que hoje celebramos é a irrupção do céu na terra, o culto puríssimo prestado a Deus, e não uma assembléia para o afago do nosso ego. Se não abraçarmos a cruz de Cristo, se não perdermos a nossa vida neste mundo ilusório e manchado pelo pecado, seremos como atores de um teatro vazio: aplaudidos na terra por um breve instante, mas eternamente desconhecidos e rejeitados diante dos Anjos no tribunal de Deus.