30 nov
I domingo do advento


🕯️Este domingo (vídeo) marca o início solene do Ano Litúrgico e a abertura do sagrado tempo do Advento, um período de expectativa vigilante e preparação penitencial. A Igreja, em sua sabedoria maternal, não apenas recorda a primeira vinda humilde do Verbo Encarnado em Belém, mas, através dos textos litúrgicos deste dia, direciona o olhar dos fiéis para a Sua segunda e gloriosa vinda como Juiz no fim dos tempos. É um momento crucial de "despertar do sono", abandonando a letargia espiritual e as obras das trevas para se revestir das armas da luz e da própria pessoa de Cristo. A liturgia combina o temor salutar do Juízo Final com a esperança inabalável na Redenção que se aproxima, convidando a alma a purificar-se através da cooperação com a graça divina, para que, tornando-se terra abençoada, possa receber o Salvador e produzir frutos de vida eterna.

📜Epístola (Rm 13, 11-14)
Irmãos, sabeis que já é hora de despertarmos do sono, pois a salvação está agora mais perto de nós do que quando abraçamos a fé. A noite vai avançada e o dia do Cristo aproxima-se. Renunciemos, portanto, às obras das trevas e revistamo-nos das armas da luz. Caminhemos honestamente como quem anda em plena luz; não em excesso de comida ou de bebida, não em dissoluções e impurezas, nem em contendas e emulações. Pelo contrário, revesti-vos do Senhor Jesus Cristo.

✠Evangelho (Lc 21, 25-33)
Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: Haverá sinais no sol, na lua e nas estrelas; e na terra consternação dos povos por causa da confusão do bramido do mar e das ondas, mirrando-se os homens de susto, na expectativa do que sobrevirá a todo o orbe, porque os poderes dos céus se abalarão. Então ver-se-á o Filho do homem vindo sobre uma nuvem com grande poder e Majestade. Quando estas coisas começarem a acontecer, olhai para cima e erguei vossas cabeças, porque se aproxima a vossa redenção. E contou-lhes depois uma parábola: Vede a figueira e as demais árvores; quando começam a dar fruto sabeis que o verão está perto. Assim também, quando virdes que se realizam estas coisas, sabei que perto está o Reino de Deus. Em verdade vos digo que não passará esta geração, sem que isto aconteça. Passará o céu e a terra, porém as minhas palavras não passarão.

🤔Reflexões

🌅O Advento inicia-se com uma escatologia impactante, onde a Igreja nos coloca diante do fim supremo das coisas para que compreendamos o verdadeiro valor do início e do tempo presente. Santo Agostinho nos recorda com gravidade que "Deus prometeu o perdão a quem se arrepende, mas não prometeu o amanhã a quem adia", instando-nos a não postergar a conversão diante da incerteza da hora do Juízo (Santo Agostinho, Enarrationes in Psalmos). A visão profética das potências do céu abaladas não deve gerar o pavor desesperado dos pagãos, mas a esperança confiante dos filhos de Deus. Enquanto o mundo treme diante do colapso das estruturas temporais e das falsas seguranças, o cristão é chamado a "erguer a cabeça". Este gesto litúrgico e espiritual simboliza que a destruição do cenário deste mundo é, na verdade, o prelúdio necessário para a manifestação plena do Reino de Deus e a consumação da nossa esperança.

🛡️A exortação paulina para "revestir-se das armas da luz" harmoniza-se perfeitamente com a advertência evangélica sobre a vigilância. São Tomás de Aquino ensina que a vigilância é estritamente necessária porque a negligência espiritual e o apego excessivo às coisas sensíveis nos tornam vulneráveis aos ataques do inimigo e ao torpor da consciência (São Tomás de Aquino, Summa Theologiae). O "sono" mencionado pelo Apóstolo é a letargia da alma imersa no materialismo, esquecida de sua origem divina e de seu destino eterno. Revestir-se de Cristo significa, portanto, assumir a Sua virtude e a Sua graça santificante como uma segunda natureza, transformando o comportamento ético não apenas em um cumprimento de regras, mas em uma expressão ontológica da nova vida recebida no Batismo. A noite do pecado avança e tenta seduzir, mas o dia da eternidade já projeta seus raios sobre a alma que vigia e ora.

🌿A parábola da figueira nos ensina a leitura teológica da história e a virtude da prudência sobrenatural. Assim como a natureza obedece a ciclos que prenunciam a vida e o verão, os eventos históricos, mesmo os mais catastróficos aos olhos humanos, estão sob a providência divina que conduz tudo à recapitulação em Cristo. O Catecismo da Igreja Católica recorda-nos que, no Advento, atualizamos a espera do Messias, participando da longa preparação da primeira vinda e renovando o ardente desejo da segunda (Catecismo da Igreja Católica). Não somos chamados a especular ansiosamente sobre datas, mas a viver em um estado de prontidão amorosa, onde a temperança e a castidade não são meras restrições morais, mas a preparação nupcial para o encontro definitivo com o Esposo. O cristão, ao ver o mundo passar, não se desespera, mas se alegra na fé, pois sabe que a Palavra de Cristo não passará e que a verdadeira Vida está prestes a desabrochar.