O presente artigo constitui um exame das ideias expostas por Bertrand de Jouvenel em sua obra magna, Du Pouvoir: Histoire naturelle de sa croissance (edição de 1972, abarcando do limiar da obra até o livro quarto, capítulo X). O texto original, concebido no exílio durante o flagelo da Segunda Guerra Mundial, apresenta uma anatomia sociológica e histórica da monstruosidade do Estado moderno. A obra de Jouvenel transcende a mera ciência política para revelar-se como uma constatação cabal e trágica da apostasia das nações. Ao rejeitar o jugo suave de Cristo e a tutela limitadora da Santa Igreja, a modernidade não alcançou a prometida liberdade, mas engendrou um Leviatã impiedoso, culminando na conscrição total, na guerra de extermínio e na dissolução das hierarquias naturais que outrora protegiam a dignidade humana.
⚔️ O despertar do Minotauro e a tragédia da guerra total
A tese inaugural de Jouvenel destrói o mito basilar do iluminismo e das democracias liberais: a ilusão de que a queda das monarquias tradicionais limitou o poder. Pelo contrário, o autor constata, sob o espetáculo dantesco da Segunda Guerra Mundial, que a modernidade produziu a guerra mais atroz da história do Ocidente, onde a "população inteira foi requisitada para fornecer os mais eficazes instrumentos de morte" (p. 21). Este fenômeno de arregimentação total da vida civil seria absolutamente impensável sob a cristandade medieval ou mesmo sob as monarquias clássicas.
O progresso da guerra é indissociável do progresso do poder. Na ordem tradicional, o rei feudal dispunha apenas dos contingentes de seus vassalos por quarenta dias e não possuía o direito de tributar. "A guerra então é muito pequena: porque o poder é pequeno" (p. 25). Contudo, a subversão democrática e revolucionária libertou o Estado de suas amarras. A conscrição militar universal e o imposto permanente, antes vistos como tiranias intoleráveis sob um monarca cristão, tornaram-se exigências inquestionáveis quando disfarçadas sob o véu da "vontade geral". Como bem cita o autor apoiando-se em Taine, a conscrição e o sufrágio universal são irmãos gêmeos que operam como "condutores ou reguladores cegos e formidáveis da história futura", prometendo massacres e retrocesso "para os instintos egoístas e brutais" (p. 30). O Estado democrático não é senão a incubadora do totalitarismo, permitindo ao Minotauro assumir "a amplitude de que um despotismo e uma guerra sem precedentes na Europa nos deram a medida" (p. 37).
👑 A metafísica do poder e a subversão do direito divino
Ao investigar o mistério da obediência civil, Jouvenel adentra as teorias da soberania, revelando a perversão moderna da sã doutrina. O autor desmistifica a falácia de que a teoria do direito divino foi a causa do absolutismo. Na verdade, durante a Idade Média, o conceito de que o poder vem de Deus operava exatamente para contê-lo. "O rei sagrado da Idade Média nos apresenta o poder menos livre, menos arbitrário que possamos imaginar" (p. 62). Ele estava submetido à lei divina e à lei do costume (lex terrae). A Santa Igreja, na pessoa de seus pontífices e bispos, exercia o controle moral sobre o monarca, admoestando-o de que ele era "o protetor e não o proprietário de seu povo" (p. 63).
A gênese do absolutismo, de forma paradoxal, mas historicamente comprovada por Jouvenel, provém da teoria da soberania popular, primeiramente instrumentalizada por legistas heréticos como Marsílio de Pádua para libertar o imperador da tutela papal. A revolução protestante foi o golpe de misericórdia. Com Lutero, rompe-se a censura secular da Igreja, e os príncipes reformados apropriam-se do direito soberano livre de fiscalização espiritual (p. 64-65). Sem a Igreja para impor a lei de Deus, o terreno estava preparado para teóricos como Hobbes, Spinoza e Rousseau postularem uma alienação total dos direitos individuais nas mãos de um soberano impessoal.
Rousseau, com seu Contrato social, eleva o princípio da soberania a um imperium sem limites. Ao invés de Hobbes que entrega este poder a um monarca, Rousseau o entrega à "vontade geral", criando uma tirania coletiva onde "o súdito lesado deve se considerar como o próprio autor do ato injusto" (p. 70). É a divinização secular do Estado, onde o controle parlamentar falha miseravelmente, pois a representação tende a usurpar a soberania para si. Como Rousseau mesmo previu com horror sobre a representação feudal, "o povo inglês pensa ser livre: engana-se muito; só o é durante a eleição dos membros do parlamento; assim que são eleitos, é escravo, não é nada" (p. 81). A soberania popular revela-se, assim, muito mais arbitrária e letal que a realeza submissa a Deus.
👥 A falácia organicista e a absorção do indivíduo
O século XIX tentou substituir a causa eficiente do poder (sua origem) pela causa final (seu propósito), baseando-se em filosofias perigosas originadas do idealismo e do positivismo. A Revolução Francesa criou a hipóstase da "nação", um ser autônomo e deificado. Hegel forneceu-lhe a base metafísica, na qual o Estado é a realização máxima da sociedade e a moralidade superior exige a submissão das partes ao todo. Esse panteísmo político dota uma "classe consciente" (a burocracia prussiana, o partido fascista ou a vanguarda marxista) do pretenso direito de guiar os inconscientes (p. 96-97).
Juntando-se a isso, as teorias organicistas de Auguste Comte e Herbert Spencer (empréstimos indébitos da biologia darwiniana) passaram a conceber a sociedade não mais como uma comunidade de famílias perante Deus, mas como um corpo fisiológico onde o Estado é o sistema nervoso regulador. Jouvenel demonstra que essa visão foi adotada para justificar o "crescimento indefinido das funções e do aparelho de governo" (p. 110), transformando os seres humanos em meras células descartáveis e esmagando o valor eterno da pessoa humana em nome da solidariedade social forçada de teóricos como Durkheim, que afirmava blasfemamente que, sob o nome de Deus, adoramos apenas a sociedade (p. 111).
🗡️ As origens do poder: magia, espada e corrupção
Em busca das origens factuais do mando, Jouvenel rejeita a presunção iluminista do homem natural livre e bondoso. Nas sociedades primitivas, marcadas pelo terror dos maus espíritos, o poder original era de natureza mágica, gerido por uma gerontocracia ritualista que mantinha a estrita observância do costume através do medo para aplacar a ira divina (p. 130-136). Essa gerontocracia, sufocante e conservadora, cedeu lugar ao guerreiro. A guerra forçou a transformação das hierarquias: a força física e o heroísmo substituíram o puro misticismo, dando origem aos patriarcados, às aristocracias e à primeira riqueza gerada pelo despojo e pela escravidão (p. 149-152).
A figura do rei nasce, historicamente, de uma simbiose entre o líder militar (dux) e o intercessor religioso (rex). Mas o essencial é compreender que o poder carrega consigo, indelevelmente, a reverência supersticiosa de sua origem ancestral, o que explica a passividade quase patológica com que os povos modernos aceitam a opressão estatal. A idolatria aos governantes de hoje é um resquício irracional do medo tribal diante dos detentores de forças ocultas (p. 140-141).
🐉 A dialética do comando e o egoísmo do Leviatã
O núcleo da tese de Jouvenel destrói a concepção ingênua e liberal de que o Estado é um mero "instrumento" passivo a serviço do bem comum. O poder, tomado em estado puro, é um fim em si mesmo, gerado não por um consentimento racional das massas, mas pelo instinto egoísta da dominação (p. 173). As grandes nações não nasceram de "vontades coletivas", mas foram forjadas pela força coatora de hordas conquistadoras e bandos militarizados - os embriões do Estado moderno.
A máquina estatal foi erigida visando à tributação e à submissão das gentes. Todavia, como adverte o autor, o poder passa do "parasitismo à simbiose" (p. 183). Para garantir sua duração, ele finge (e por vezes acredita) atuar por amor ao povo. Distribui justiça, estradas e ordem para legitimar seu assalto constante à liberdade natural. Há uma natureza dualística inerradicável no poder: por um lado, presta serviços inegáveis; por outro, é movido por um egoísmo expansionista insaciável. Quanto mais "socialista" o Estado se pretende para justificar sua intrusão, mais seu núcleo egoísta cresce. "Nenhum poder se mantém quando perdeu sua virtude mágica" (p. 141), mas nenhum sobrevive sem alimentar incessantemente sua própria majestade, multiplicando impostos e burocratas. O filósofo ideólogo que sonha com repúblicas utópicas é, portanto, o maior aliado do tirano, pois "fornece ao poder a mais eficaz justificativa de seu crescimento" (p. 228).
🌪️ O Estado como revolução permanente contra a ordem natural
Talvez a constatação mais sombria e tradicionalista da obra seja o papel do Estado como o perpétuo agressor da ordem social. Jouvenel demonstra cabalmente que o poder político vê em toda e qualquer autoridade orgânica - seja o pai de família, o senhor feudal, a Igreja ou a liderança patronal - um entrave odioso à sua própria expansão (p. 260-261).
Para concentrar em si todas as energias, obediências e tributos, o Estado atua como uma força subversiva e revolucionária contra a hierarquia tradicional. Historicamente, ele se alia sorrateiramente à "plebe" e aos descontentes para desarticular os corpos intermediários. Ao nivelar as classes e esmagar a aristocracia ou o patriarcado, o Estado vende a ilusão da libertação democrática, quando, na realidade, está apenas eliminando a concorrência pelo domínio sobre os homens. O Estado é essencialmente nivelador "porque é Estado" (p. 261).
O rei em conflito com as gentes, a monarquia minando o feudalismo para cobrar ajudas financeiras (p. 272), e a república engolindo a família patriarcal e a autoridade capitalista/patronal - tudo faz parte do mesmo avanço esmagador. Como resultado lógico, chega-se ao limite final: a "atomização social", onde não restam laços particulares de dependência e caridade entre os homens, mas apenas indivíduos isolados e indefesos sob o jugo do único suserano remanescente, a "onipotência estatal" (p. 280-281). Quando o Estado, exaurido e transbordante, finalmente desmorona, é esquartejado por uma nova estatocracia (a sua própria burocracia), que inaugura um novo feudalismo, até que a roda infernal da sede de poder gire novamente.
📌 Conclusão
A análise exposta em Du Pouvoir, quando destilada até suas últimas consequências históricas e filosóficas, ecoa um clamor desesperado frente à falência da modernidade antropocêntrica. Bertrand de Jouvenel não nos deixa margem para a doce ilusão rousseauniana. Fica evidenciado que a substituição do direito divino - e, por conseguinte, da sujeição moral do Estado à Igreja e à ordem natural instituída pelo Criador - pela demoníaca vontade geral gerou não o paraíso terreno, mas o Minotauro voraz. A burocratização, o alistamento em massa, a guerra total e o nivelamento revolucionário da família e da aristocracia provam que, ao renegar a sabedoria e as restrições da ordem orgânica cristã, a sociedade mergulhou na tirania mais absoluta e inescrupulosa já registrada nos anais da civilização.
📚 Referências
JOUVENEL, Bertrand de. Du Pouvoir: Histoire naturelle de sa croissance. Nova ed. Paris: Hachette, 1972.