DIANTE da crise que há décadas aflige a Igreja Católica, é com profunda gratidão que acolho o convite para redigir uma resenha ao ensaio “A Bíblia como Deus manda. As Sagradas Escrituras traduzidas ou traídas?”. Uma pergunta que não é mera provocação acadêmica, mas um grito de alerta contra o assalto insidioso que ameaça a integridade da Palavra de Deus, confiada à Igreja para a salvação das almas.
O autor, o Investigatore Biblico, em colaboração com Saverio Gaeta, empreendeu uma investigação rigorosa e corajosa, desmascarando as distorções introduzidas nas traduções oficiais da Sagrada Escritura aprovadas pela Conferência Episcopal Italiana, em particular as de 1974 e de 2008. Essas versões, influenciadas por um conceito distorcido de ecumenismo e por uma teologia de matriz protestante que cala ou adultera a Verdade católica, constituem a prova de um plano deliberado para obscurecer a divindade de Cristo, diminuir o pecado original, despersonalizar o demônio e reduzir o papel salvífico da Beatíssima Virgem Maria. Como denunciei em múltiplas intervenções, este é o fruto envenenado do Concílio Vaticano II, que adotou o espírito do mundo, permitindo que a fumaça de Satanás penetrasse no Templo de Deus. E é esta, bem vistas as coisas, a essência mesma do Modernismo, a heresia que aplica à exegese bíblica o método histórico-crítico, filho do Iluminismo e do Racionalismo moderno.
Tal abordagem contradiz o Magistério Católico em vários aspectos fundamentais. Em primeiro lugar, nega a divina Revelação transmitida através da Sagrada Escritura e da Tradição, substituindo-a por uma fé que deriva de uma experiência subjetiva interior, o que mina a autoridade objetiva do Magistério eclesiástico. Em segundo lugar, trata os dogmas como interpretações humanas mutáveis no tempo, em vez de verdades imutáveis descendentes de Deus, contrastando com o ensino da Igreja sobre a inspiração divina e a inerrância da Bíblia. Por fim, incorpora elementos de agnosticismo, relativismo e imanentismo, que reduzem o sobrenatural a fenômenos históricos ou psicológicos, configurando-se como uma “síntese de todas as heresias”, conforme a condenação expressa por São Pio X na encíclica *Pascendi Dominici Gregis* (1907) e no decreto *Lamentabili* (1907).
É significativo notar que Vladimir Soloviev, em seu “O conto do Anticristo”, apresenta o homem da perdição como um exegeta experto, um erudito que utiliza a interpretação da Sagrada Escritura de modo deliberadamente ambivalente para promover suas ideias enganosas. Nisso, os neo-modernistas da igreja sinodal não inventaram nada de novo.
Não esqueçamos que os elementos distintivos do Anticristo são o cisma, a heresia e a negação da Encarnação e, com ela, a negação da Santa Igreja Católica Apostólica Romana, Corpo Místico de Jesus Cristo. Negando o Verbo Encarnado, ele nega também a obra redentora do divino Messias e a Sua suprema e universal Regalidade, na tentativa infernal de usurpar-Lhe aquela Soberania que Nosso Senhor restaurará no fim dos tempos com o Seu triunfo total sobre Satanás. Ao fazer isso, o inimigo do gênero humano procura legitimar o reino tirânico que instaurará na terra, apresentando-se como falso messias e pretendendo ser adorado no lugar de Deus. E este é o propósito principal da Maçonaria, daquela Sinagoga de Satanás (Ap 2,9 e 3,9) que hoje em dia reivindica publicamente ser a principal promotora da vinda do Anticristo: segundo o messianismo sionista, triste presságio disso será a edificação do Terceiro Templo em Jerusalém.
Não podemos ignorar que as manipulações dos textos bíblicos por parte da Conferência Episcopal Italiana não são casuais. Elas fazem parte de um plano mais amplo, orquestrado por aquela *deep church* que, em aliança com poderes seculares do *deep state* e, mais em geral, com o pensamento relativista, busca transformar a Fé em um vago humanismo, desprovido da sua força sobrenatural e sobretudo centrado no homem que se faz deus em oposição ao Deus Encarnado.
As traduções modernas, com sua linguagem horizontal e “inclusiva”, mutilam o texto sagrado para se adaptar à sensibilidade contemporânea, eliminando versículos incômodos e alterando significados teológicos fundamentais. É uma traição que ecoa a antiga serpente, a qual distorce a Palavra para conduzir o homem à ruína. Manipular o texto sagrado significa manipular o seu divino Autor, considerando meramente humana a Palavra de Deus; excluindo-O da obra da Revelação e, pior, fazendo blasfemamente d’Ele, Verbo eterno do Pai, o autor da mentira, quando é precisamente Satanás quem é homicida e mentiroso desde o princípio (Jo 8,44), o odioso implacável da Verdade, que é atributo coessencial de Deus.
Esta obra, fundamentada em evidências textuais e comparações com os textos originais em hebraico e grego, bem como com as versões tradicionais como a Vulgata de São Jerônimo, oferece aos fiéis um instrumento essencial para discernir a verdade da sua contrafação. Ela denuncia não apenas as influências protestantes pós-reforma, mas também as consequências do motu proprio *Magnum principium* de Bergoglio, que reduziu o controle da Autoridade religiosa sobre as traduções, favorecendo interpretações sujeitas a derivações culturais e pastorais.
Numa época em que a neo-língua orwelliana visa tornar impossível a própria afirmação do Verdadeiro, este livro chama à fidelidade absoluta à Tradição apostólica da Igreja Católica, única guardiã da Revelação. Não é por acaso que a igreja conciliar-sinodal se distingue da verdadeira Igreja de Cristo pela sua deliberada vontade de evitar a clareza própria ao léxico teológico e à língua latina: é sobre o equívoco, o plausível, o aparente que se joga a partida fraudulenta do inimigo. E quase o ouvimos dizer, parafraseando as palavras de Nosso Senhor: “Que o vosso falar seja ‘Quase, talvez, cerca de, de certo modo’, porque a clareza da linguagem vem de Deus”.
Exorto bispos, sacerdotes e leigos a meditar estas páginas com espírito sobrenatural e vigilante. Somente retornando à pureza da Escritura, livre de contaminações modernistas, poderemos resistir à apostasia galopante e preparar o triunfo do Coração Imaculado de Maria, como prometido em Fátima. Que o Senhor ilumine quantos, como o Autor, têm a coragem de defender a Verdade imutável contra as potestades das trevas.
+ Carlo Maria Viganò, Arcebispo
10 de março de 2026