📜 A agenda da Mater Populi Fidelis: Um Eco Jansenista no Vaticano


A semana passada marcou um evento que, à primeira vista, poderia ser interpretado como um ato de esclarecimento doutrinal. O Dicastério para a Doutrina da Fé publicou a Nota Mater Populi Fidelis, rejeitando explicitamente os títulos marianos de Corredentora e Medianeira de todas as Graças para a Virgem Maria. No entanto, uma análise mais atenta revela que o documento não busca aprofundar a compreensão da Tradição católica sobre Nossa Senhora, mas sim avançar uma agenda específica. A carta de acompanhamento é cristalina: a emissão da Nota decorre de "um esforço ecumênico particular". Aqui reside o cerne da questão: quem, afinal, se preocupa tanto em não "elevar demais" Maria a ponto de obscurecer Cristo? Não são os católicos fiéis, que jamais confundem a Mãe com o Filho. São, isso sim, os protestantes – e, mais proximamente, os jansenistas, esses "primos de primeiro grau do calvinismo", como os definiu o teólogo Carreyre no Dictionnaire de Théologie Catholique (8/1 [1924], col. 319).

🎭 O Verniz da Piedade e a Essência Minimalista

Mater Populi Fidelis ostenta um verniz de piedade mariana, com referências respeitosas à Virgem como "Mãe do Povo Fiel". Mas esse verniz serve apenas de distração. Por baixo dele, o documento arranca as entranhas de mistérios marianos centrais, promovendo uma reverência medida, minimalista e calculada – exatamente o que os jansenistas sempre defenderam para evitar qualquer "excesso" que pudesse sugerir uma elevação indevida de Maria.

O texto da Nota é explícito: "Tais noções elevam Maria tão altamente que a própria centralidade de Cristo pode desaparecer ou, pelo menos, tornar-se condicionada". Essa frase ecoa o pavor jansenista de que qualquer participação ativa de Nossa Senhora na Redenção possa ofuscar a unicidade de Cristo. Os jansenistas, influenciados por uma visão rigorista e quase calvinista da graça, insistiam em que só Cristo é o Redentor único, rejeitando expressões como "Maria co-redimiu o mundo" como piedade exagerada ou erro doutrinal. Eles minimizavam o papel de Maria no Calvário, reduzindo-a a uma figura passiva, para não "condicionar" a soberania absoluta de Deus.

🔨 Santo Afonso de Ligório: O Martelo dos Jansenistas

Foi precisamente contra essa heresia que Santo Afonso Maria de Ligório, cognominado o "Martelo dos jansenistas", dedicou grande parte de sua obra. Em As Glórias de Maria, ele defende com vigor a cooperação única de Nossa Senhora na obra da Redenção, sem jamais comprometer a centralidade de Cristo. Para Santo Afonso, Maria é Corredentora porque, por vontade divina, uniu-se livremente ao sacrifício do Filho; é Medianeira porque distribui as graças merecidas por Cristo. Essas doutrinas não são inovações piedosas, mas florescem da Tradição patrística e magisterial, desde São Bernardo até Leão XIII.

Os jansenistas, porém, viam nisso um perigo. Sua teologia, marcada por um pessimismo antropológico e uma graça irresistível, não tolerava mediações secundárias. Qualquer ênfase na intercessão mariana era suspeita de pelagianismo disfarçado. E eis que Mater Populi Fidelis revive essa mentalidade: ao priorizar o "esforço ecumênico", sacrifica verdades católicas no altar do diálogo com os que rejeitam Maria desde o século XVI.

⚖️ Ecumenismo às Custas da Verdade?

O ecumenismo é louvável quando busca a unidade na verdade. Mas quando se torna pretexto para diluir doutrinas, transforma-se em sincretismo disfarçado. Quem ganha com a negação dos títulos marianos? Certamente não os católicos, que veem em Maria a Mãe dada por Cristo na Cruz (Jo 19,26-27). Ganham os protestantes, para quem qualquer mediação além de Cristo é idolatria; e ganham os resquícios jansenistas, que sempre preferiram uma Mariologia fria e distante.

A Tradição católica não teme "elevar" Maria: ela a exalta porque Deus a exaltou primeiro (Lc 1,48). Negar sua corredenção é ignorar que, no plano divino, a Nova Eva coopera com o Novo Adão. É reduzir o mistério da Encarnação a um evento isolado, sem a participação consentida da Virgem ("Fiat mihi secundum verbum tuum").

🛑 Conclusão: Uma Agenda que Não é Católica

Mater Populi Fidelis não é um documento de aprofundamento doutrinal; é um produto de agenda ecumênica que carrega as marcas inconfundíveis do jansenismo: minimalismo mariano, medo de "excesso" piedoso e uma cristologia que, paradoxalmente, empobrece o mistério ao excluir a Mãe. Santo Afonso nos alertou: o jansenismo não morreu; ele apenas muda de forma. Hoje, ele se disfarça de prudência magisterial.

Que os fiéis, iluminados pela Tradição e pelos santos, continuem a proclamar Maria como Corredentora e Medianeira – não por confusão, mas por fidelidade ao Evangelho e à Igreja. Pois, como ensina o Doutor Mariano, "De Maria numquam satis": dela nunca se dirá o suficiente.