Os Papas anteriores ao Concílio Vaticano II nunca consideraram o diálogo um fim em si mesmo, mas um meio subordinado à missão de trazer todas as almas à única Igreja de Cristo. Pio IX, na encíclica Quanto Conficiamur Moerore (10 de agosto de 1863), afirma que “devemos sustentar firmemente que fora da Igreja Apostólica Romana ninguém pode alcançar a salvação; ela é a única arca da salvação”, e acrescenta que o diálogo com os separados deve servir “para que voltem à única arca”. Leão XIII, em Satis Cognitum (29 de junho de 1896), ordena “chamar os dissidentes de volta à Cátedra de Pedro, onde está a raiz da unidade”. Pio XI, em Mortalium Animos (6 de janeiro de 1928), sentencia que “a união dos cristãos só pode ser promovida pelo retorno dos dissidentes à única verdadeira Igreja de Cristo, da qual outrora se afastaram”. Pio XII, pela Instrução do Santo Ofício (20 de dezembro de 1949), permite reuniões com não-católicos “só se a verdade católica for exposta integralmente”. Em todos esses documentos, o diálogo é instrumento missionário; seu fim último é a conversão. Esta clareza doutrinária não surge de uma intransigência meramente humana, mas do princípio fundamental de que a Igreja, como corpo místico de Cristo, possui a autoridade divina e a plenitude dos meios de salvação, não podendo, portanto, colocar a verdade revelada em pé de igualdade com o erro em uma busca comum (Amerio, 2011, §35.1).
🔄II. O Diálogo Pós-Vaticano II: Fim em Si Mesmo
O Concílio Vaticano II altera a linguagem e, consequentemente, a práxis. Unitatis Redintegratio (21 de novembro de 1964), n. 11, declara que “o diálogo em si mesmo favorece a unidade”. A expressão “em si mesmo” rompe com a tradição: o diálogo deixa de ser meio para tornar-se finalidade. Este desvio semântico reflete uma nova filosofia do diálogo, na qual o ato de dialogar adquire um valor intrínseco, independente de seu fim último, que é a proclamação da verdade. O processo de intercâmbio é elevado à categoria de bem, obscurecendo o fato de que a Igreja não entra em diálogo para buscar uma verdade que já possui, mas para comunicá-la (Amerio, 2011, §16.2). Paulo VI, em Evangelii Nuntiandi (8 de dezembro de 1975), n. 79, ainda reconhece que “o diálogo é um método de evangelização”, mas logo acrescenta que se deve “respeitar a liberdade religiosa em tudo”, frase que, na prática, elimina a urgência da conversão. João Paulo II, em Redemptoris Missio (7 de dezembro de 1990), n. 55, garante que “o diálogo não substitui a missão”, porém organiza o Encontro de Assis (27 de outubro de 1986), onde budistas, xintoístas e animistas rezam em salas separadas sem qualquer pregação explícita de conversão. Bento XVI, em Assis III (27 de outubro de 2011), tenta corrigir: “Não rezamos juntos, mas estamos juntos para rezar”; o meio-termo, contudo, mantém a ambiguidade. Francisco, no Documento de Abu Dhabi (4 de fevereiro de 2019), afirma que “o pluralismo e a diversidade de religiões são vontade de Deus no mundo” – frase inédita na Tradição. O Sínodo sobre a Sinodalidade (2021-2024) eleva a “escuta mútua” a princípio estrutural, transformando a Igreja de mestra em discípula do mundo e promovendo um "discussionismo" que suspende o juízo sobre a verdade (Amerio, 2011, §16.1), omitindo nos documentos finais qualquer menção ao “retorno à Igreja Católica”.
🔀III. Comparação Textual: Da Clareza à Ambiguidade
Pré-Vaticano II: “Retorno à única Igreja” (Mortalium Animos).
Pós-Vaticano II: “Caminho conjunto para a unidade” (Unitatis Redintegratio).
Pré-Vaticano II: “Conversão dos separados” (Satis Cognitum).
Pós-Vaticano II: “Enriquecimento mútuo” (Ecclesia in Medio Oriente, 19).
Pré-Vaticano II: “Fora da Igreja não há salvação” (Syllabus, 1864).
Pós-Vaticano II: “Elementos de salvação fora” (Lumen Gentium, 8).
Pré-Vaticano II: “Diálogo com verdade integral” (Santo Ofício, 1949).
Pós-Vaticano II: “Diálogo em paridade” (Ut Unum Sint, 29).
Pré-Vaticano II: “Condenação de erros e heresias” (Pascendi Dominici Gregis).
Pós-Vaticano II: “Busca por ‘sementes do Verbo’ em outras religiões” (Ad Gentes, 11).
A linguagem anterior era hierárquica, missionária, inequívoca; a posterior é horizontal, diplomática, ambígua. Esta variação linguística não é acidental, mas manifesta uma perda deliberada da antítese essencial entre a Igreja e o mundo, buscando pontos de convergência onde antes se afirmava a necessidade de conversão (Amerio, 2011, §1.5).
⚔️IV. São Francisco de Assis: Modelo de Evangelização, Não de Sinodalidade
Em 1219, São Francisco cruza as linhas inimigas durante a Quinta Cruzada e propõe ao sultão Al-Malik al-Kamil a prova do fogo: “Se eu passar ileso, tu te converterás a Cristo”. Não há oração conjunta, não há “caminhar juntos”; há pregação explícita da fé católica (Legenda Maior, cap. 9; Crônica de Tomás de Celano). A atitude do Santo revela uma certeza absoluta na verdade que anuncia, em contraste direto com a suspensão de juízo que caracteriza o diálogo moderno. Usar São Francisco para justificar a sinodalidade atual é deturpação histórica.
📉V. Conclusão: Ruptura Prática, Não Apenas Linguística
A Tradição de dois mil anos sempre subordinou o diálogo à conversão. O pós-Vaticano II inverte a hierarquia: o diálogo torna-se fim, a conversão opcional. A “Igreja sinodal” não quer mais converter; quer “caminhar junto”. Essa inversão não é mero acidente de linguagem; é ruptura prática que dilui a urgência missionária e abre a porta ao indiferentismo. Na essência, assiste-se à transformação da substância da missão sob o pretexto de uma mudança de modalidade, um erro clássico dos inovadores que tratam os princípios fundamentais como se fossem meras formas históricas passíveis de alteração (Amerio, 2011, §42.3). Quem desejar fidelidade à Tradição deve rejeitar a ambiguidade e retomar o mandato de Cristo: “Ide, pois, e fazei discípulos todos os povos” (Mt 28,19).
📚Referências
Amerio, R. Iota Unum: estudo sobre as transformações na Igreja no século XX. (Versão corrigida, Setembro 2011).