A Destruição da Tradição Cristã, quarto capítulo: O Que Exatamente Significa a Palavra 'Tradição? de Rama Coomaraswamy


No quarto capítulo Rama Coomaraswamy estabelece a definição ortodoxa de "Tradição", desconstruindo as inovações semânticas dos modernistas. O autor demonstra que a Tradição não é um "museu de costumes mortos" nem uma "evolução dialética", como pretendem os teólogos da nova religião, mas sim a transmissão imaculada e imutável da Revelação Divina. O autor sustenta que a Igreja pós-conciliar, ao romper com a Tradição, rompeu com o próprio Cristo.

📜 A Natureza Imutável da Tradição Divina

O capítulo inicia-se com a definição etimológica e teológica: Tradição significa simplesmente "aquilo que é transmitido". O autor enfatiza o dogma fundamental de que "a Revelação cristã foi completada com a morte do último Apóstolo" (p. 62). Dessa forma, não existe "revelação contínua" ou "em evolução", uma heresia cara aos modernistas do Vaticano II. A verdade tradicional foi confiada à Igreja como um depósito que ela guardaria e transmitiria cuidadosamente como recebeu, sem adicionar ou retirar nada (p. 62).

Coomaraswamy cita o Concílio de Trento (Sessão IV) para invalidar qualquer pretensão de novidade: a verdade salvífica está contida "nos livros escritos e nas tradições não escritas que, recebidas pelos Apóstolos da boca do próprio Cristo, ou ditadas pelo Espírito Santo, chegaram até nós transmitidas como que de mão em mão" (p. 63). Assim, a Igreja de Sempre lança anátema sobre quem conscientemente desprezar estas tradições. Consequentemente, a ideia de que a Igreja pode "criar" novas verdades ou "adaptar" a fé aos tempos modernos é caracterizada como uma apostasia frontal.

⚖️ A Distinção entre Tradição Divina e Eclesiástica

O autor faz a distinção teológica necessária entre a Tradição Divina (imutável, vinda de Cristo e dos Apóstolos) e a Tradição Eclesiástica (preceitos e costumes estabelecidos pela Igreja ao longo dos séculos). Contudo, Coomaraswamy adverte contra o desprezo liberal pelas tradições eclesiásticas. Embora modificáveis em teoria pela autoridade suprema, elas merecem a "maior veneração", e mudá-las levianamente é um ato de impiedade. Nesse sentido, ele cita São Pedro Damião, que afirma ser ilícito alterar os costumes estabelecidos da Igreja, exortando a não remover os marcos antigos colocados pelos Pais (p. 66).

O autor observa que a Igreja Conciliar, em sua fúria revolucionária, não soube distinguir entre o divino e o humano, lançando ambos na fogueira da "modernidade". Ele ressalta ainda que não há um único Padre da Igreja, santo ou Doutor, nem um único Papa anterior à era presente, que tenha desprezado ou tentado mudar as Tradições Eclesiásticas (p. 67). A ruptura, portanto, é total.

🕯️ A Liturgia como Órgão da Tradição

Um ponto crucial abordado é que a Tradição não é apenas doutrina abstrata, mas vida concreta manifestada, sobretudo, na Liturgia. A Missa Tradicional (Tridentina) é descrita como "o órgão mais importante do Magistério Ordinário da Igreja" (citando Pio XI, p. 68). A liturgia contém partes de origem divina, apostólica e eclesiástica, fundidas organicamente ao longo dos séculos.

Por esse motivo, o ataque à Missa Tradicional é um ataque direto à Tradição e ao próprio Espírito Santo que a formou. Coomaraswamy denuncia que a nova igreja substituiu os ritos sagrados por "criações humanas" modeladas segundo parâmetros heterodoxos. Ele cita Dom Guéranger, explicando que a liturgia apostólica encontra-se fora da Escritura e pertence ao domínio da Tradição (p. 69). Ao fabricar uma nova liturgia (Novus Ordo), a igreja conciliar cortou suas raízes apostólicas.

🛡️ A Guerra da Nova Igreja contra a Tradição

O autor expõe a hipocrisia da hierarquia pós-conciliar. Enquanto o Magistério anterior agia como "órgão oficial da Tradição", o novo magistério atua como órgão da Revolução. O autor cita a encíclica Pascendi de São Pio X para descrever a tática modernista de "usar toda a sua engenhosidade em um esforço para enfraquecer a força e falsificar o caráter da Tradição" (p. 71).

A prova cabal da traição é apresentada nas palavras do próprio Paulo VI. Enquanto os Papas anteriores juravam conservar a tradição, Paulo VI declarou ser necessário acolher com humildade o que é inovador, rompendo com o apego às tradições imutáveis da Igreja (p. 67). Coomaraswamy comenta com acidez: "Judas não poderia ter dito melhor".

⚔️ Conclusão: A Resistência como Dever de Fé

O capítulo conclui que a "Nova Igreja" representa uma ruptura apocalíptica, pois abandonou a "árvore" da Tradição para plantar uma erva daninha humanista. Se a Igreja pós-conciliar ensina falsamente e substitui os costumes sagrados por novidades profanas, ela segue os passos de Lutero e Cranmer, não os de Cristo.

Para o católico fiel, a única opção é a resistência. O autor evoca São Vicente de Lerins: diante de uma nova doutrina que contamina a Igreja, deve-se "aderir à antiguidade" (p. 72). A Tradição é a "Regra de Fé". Coomaraswamy encerra com um ultimato: separar a Igreja de suas tradições é romper sua unidade. Afirmar que somos algo diferente de católicos tradicionais é afirmar que não somos católicos de forma alguma (p. 73). A Igreja Conciliar, ao odiar a Tradição, revela-se como uma madrasta cruel, e os fiéis têm o dever de questionar, seguindo o critério de São João Crisóstomo: "É Tradição? Se for, não pergunte mais nada"; se não for, deve ser rejeitado.

📚 Referência Bibliográfica:

COOMARASWAMY, Rama P. The Destruction of the Christian Tradition: Updated and Revised. Bloomington: World Wisdom, 2006.