🕯️ O revisionismo de Novak e o mito secular
A historiografia contemporânea tende frequentemente a interpretar a Fundação Americana através de uma lente estritamente secularista, enfatizando a influência de John Locke e do Iluminismo racionalista, enquanto marginaliza a religiosidade dos Pais Fundadores, reduzindo-a a um deísmo cerimonial e distante. Em On Two Wings (2002), o filósofo e teólogo católico Michael Novak desafia essa narrativa hegemônica.
Novak propõe uma metáfora central: a águia americana necessita de duas asas para voar. Uma asa representa o bom senso (common sense) e a razão prática do Iluminismo (especificamente o Iluminismo Escocês); a outra asa representa a fé humilde, enraizada nas Escrituras judaico-cristãs. A tese de Novak é que, sem uma dessas asas, a compreensão do experimento americano torna-se instável e historicamente imprecisa. Para o autor, a modernidade tentou "cortar uma das asas", resultando em uma visão distorcida da liberdade política (NOVAK, 2002).
🕍 A metafísica hebraica e a concepção de história
Um dos pontos mais originais e profundos da obra de Novak é a identificação do que ele denomina "metafísica hebraica" (Hebrew Metaphysic) como substrato intelectual dos fundadores. Diferente da concepção cíclica de tempo presente na filosofia grega clássica, a visão hebraica introduz a noção de progresso linear e narrativa histórica, onde as ações humanas possuem significado moral sob o julgamento da Providência.
Novak argumenta que, embora muitos fundadores fossem cristãos (anglicanos, presbiterianos, congregacionalistas), a linguagem política que utilizavam era predominantemente veterotestamentária. A narrativa do Êxodo - a libertação da tirania e a aliança com Deus - serviu como o arquétipo primordial para a Revolução Americana.
"A linguagem de Canaã era a língua franca da fundação americana. [...] Eles não se viam apenas como filósofos construindo uma república racional, mas como atores em um drama bíblico." (Análise interpretativa baseada em NOVAK, 2002, p. 19-22).
Para Novak, ignorar essa metafísica é não compreender por que a liberdade americana difere da liberdade da Revolução Francesa. Enquanto a vertente francesa tendia ao ateísmo militante e à perfectibilidade humana através da razão (uma forma de idolatria da razão), a vertente americana, informada pela Bíblia, mantinha uma consciência aguda da falibilidade humana e da soberania divina.
⚖️ Antropologia do pecado e o senso comum
Aprofundando a intersecção entre as "duas asas", Novak demonstra como a fé influenciou a arquitetura prática do Estado. A antropologia dos fundadores não era otimista no sentido rousseauniano; era realista e bíblica. A crença no pecado original - ou, na linguagem secular, na tendência inata do homem ao egoísmo e à corrupção - exigia um sistema de governo que não dependesse da virtude angelical de seus líderes.
Aqui entra a colaboração com o "Common Sense" do Iluminismo Escocês (influenciado por pensadores como Thomas Reid e Francis Hutcheson). A razão prática ditava que o poder deveria ser dividido para ser controlado. Nesta dinâmica, a "Fé Humilde" atua reconhecendo que nenhum homem é Deus, portanto, nenhum homem deve ter poder absoluto; a liberdade é um dom divino, mas deve ser exercida com responsabilidade moral. Simultaneamente, o "Senso Comum" reconhece que, empiricamente, os homens abusam do poder. Logo, a engenharia institucional (pesos e contrapesos) torna-se necessária para conter os vícios humanos e preservar a liberdade ordenada.
Novak (2002) destaca que a religião não era vista pelos fundadores como uma ferramenta de opressão (como no anticlericalismo europeu), mas como o baluarte indispensável da moralidade pública necessária para a autogovernança. Citando o Farewell Address de George Washington, Novak reforça que "razão e experiência nos proíbem de esperar que a moralidade nacional possa prevalecer em exclusão do princípio religioso".
🕊️ A providência intervencionista vs. o deísmo do relojoeiro
Uma contribuição crucial do aprofundamento de Novak é a refutação da categorização simplista dos fundadores como "deístas". O Deísmo clássico pressupõe um "Deus Relojoeiro" que cria o universo e o abandona às suas próprias leis mecânicas.
Novak demonstra, através de uma exaustiva análise documental de cartas, discursos e diários de figuras como Washington, Jefferson, Adams e Madison, que eles acreditavam fervorosamente na Providência. Eles oravam pedindo intervenção, acreditavam que Deus agia na história (especialmente nas batalhas da Revolução) e que as nações eram julgadas por seus atos morais.
"Para os fundadores, Deus não era uma abstração distante, mas o Juiz Supremo do mundo e o patrono da liberdade humana. A liberdade não era a ausência de restrições, mas a liberdade para cumprir o dever diante de Deus." (Síntese da argumentação de NOVAK, 2002, cap. 2).
Essa "Fé Humilde" não era necessariamente dogmática ou sectária, mas era teísta e ativa. Ela fornecia a base para a dignidade humana: os direitos são inalienáveis precisamente porque são concedidos pelo Criador, e não pelo Estado. Se a fonte dos direitos fosse apenas o consenso social (razão pura), eles poderiam ser revogados por um novo consenso. Ao ancorá-los no Transcendente, os fundadores criaram uma barreira metafísica contra a tirania.
⛪ Conclusão
Em On Two Wings, Michael Novak não propõe uma teocracia, nem nega a importância crucial da razão iluminista na formação dos EUA. Seu aprofundamento reside na demonstração de que a razão, por si só, era considerada insuficiente pelos fundadores para sustentar uma república livre.
A obra conclui que a vitalidade do experimento americano depende da manutenção da tensão saudável entre essas duas asas. A tentativa contemporânea de impor um secularismo radical, removendo a "asa da fé" do discurso público, não é um avanço em direção à neutralidade, mas uma mutilação da própria lógica que gerou os direitos humanos e a liberdade política nos Estados Unidos. Novak nos lembra que a fé humilde oferece o horizonte moral, enquanto o senso comum oferece o mapa prático; sem ambos, o voo da águia torna-se errático e perigoso.
📚 Referências bibliográficas
NOVAK, Michael. On Two Wings: Humble Faith and Common Sense at the American Founding. San Francisco: Encounter Books, 2002.
MADISON, James. The Federalist No. 51. In: HAMILTON, Alexander; MADISON, James; JAY, John. The Federalist Papers. New York: Mentor, 1961 [1788].
WASHINGTON, George. Farewell Address. 1796. Disponível em: The Avalon Project, Yale Law School. Acesso em: jan. 2025.