São Francisco de Sales, nascido em 21 de agosto de 1567 no castelo de Sales, Sabóia, e falecido em 28 de dezembro de 1622 em Lyon, foi um insigne Bispo de Genebra e Doutor da Igreja que, em tempos de turbulência religiosa marcada pela reforma protestante, destacou-se como um baluarte da fé católica através da mansidão e da caridade pastoral. Co-fundador da Ordem da Visitação de Santa Maria juntamente com Santa Joana de Chantal, ele revolucionou a espiritualidade cristã ao ensinar, em sua obra-prima Introdução à Vida Devota, que a santidade é um chamado universal, possível de ser vivenciada plenamente no mundo, seja na corte, no quartel ou no lar, e não apenas nos claustros. Sua defesa incansável da religião contra o calvinismo, realizada não com a espada, mas com a pena e a pregação amorosa, converteu milhares de almas de volta à Igreja, valendo-lhe o título de padroeiro dos jornalistas e escritores católicos, sendo sua doutrina caracterizada por uma profunda compreensão do amor de Deus que tudo atrai com doçura.
📖 Introito (Eclo 15, 5 | Sl 91, 2)
In medio Ecclesiae aperuit os ejus: et implevit eum Dominus spiritu sapientiae, et intellectus: stolam gloriae induit eum. Ps. Bonum est confiteri Domino: et psallere nomini tuo, Altissime.
No meio da Igreja, o Senhor o fez falar; encheu-o do Espírito de sabedoria e inteligência, e revestiu-o com uma túnica de glória. Sl. É bom louvar ao Senhor e cantar salmos a vosso Nome, ó Altíssimo. ℣. Glória ao Pai.
✉️ Epístola (II Tim 4, 1-8)
Caríssime: Testificor coram Deo et Christo Jesu qui judicaturus est vivos ac mortuos et adventum ipsius et regnum ejus: prædica verbum insta oportune importune argue obsecra increpa in omni patientia et doctrina. Erit enim tempus cum sanam doctrinam non sustinebunt sed ad sua desideria coacervabunt sibi magistros prurientes auribus, et a veritate quidem auditum avertent ad fabulas autem convertentur. Tu vero vigila in omnibus labora opus fac evangelistæ ministerium tuum imple. Ego enim jam delibor et tempus meæ resolutionis instat. Bonum certamen certavi cursum consummavi fidem servavi. In réliquo reposita est mihi justitiæ corona quam reddet mihi Dominus in illa die justus judex non solum autem mihi sed et his qui diligunt adventum ejus.
Caríssimo: Conjuro-te diante de Deus e de Jesus Cristo, que há de julgar os vivos e os mortos, por sua vinda e por seu Reino: prega a palavra, insiste, quer agrade, quer desagrade, repreende, suplica, admoesta com toda a paciência e doutrina. Porque virá tempo em que os homens não suportarão a sã doutrina, mas multiplicarão para si mestres conforme os seus desejos, levados pela curiosidade de ouvir. E afastarão os ouvidos da verdade para os abrirem às fábulas. Tu, porém, vigia, trabalha em todas as coisas, faze obra de um Evangelista, desempenha o teu ministério. Sê sóbrio. Quanto a mim, já estou para ser sacrificado, e o tempo de minha morte se avizinha. Combati o bom combate; terminei a minha carreira: guardei a fé. Resta-me esperar a coroa da justiça que me está reservada, a qual o Senhor, justo Juiz, me dará nesse dia. E não só a mim, como também àqueles que desejam a sua vinda.
✠ Evangelho (Mt 5, 13-19)
In illo témpore: Dixit Jesus discípulis suis: Vos estis sal terræ quod si sal evanuerit in quo salietur ad nihilum valet ultra nisi ut mittatur foras et conculcetur ab hominibus. Vos estis lux mundi non potest civitas abscondi supra montem posita. Neque accendunt lucernam et ponunt eam sub modio sed super candelabrum ut luceat omnibus qui in domo sunt. Sic luceat lux vestra coram hominibus ut videant vestra bona opera et glorificent Patrem vestrum qui in cælis est. Nolíte putare quoniam veni solvere legem aut prophetas non veni solvere sed adimplere. Amen quippe dico vobis donec transeat cælum et terra jota unum aut unus apex non præteribit a lege donec omnia fiant. Qui ergo solverit unum de mandatis istis minimis et docuerit sic homines minimus vocabitur in regno cælorum qui autem fecerit et docuerit hic magnus vocabitur in regno cælorum.
Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: Vós sois o sal da terra. Se o sal perder a sua força, como há de receber nova força? Para nada mais presta senão para ser lançado fora e pisado pelos homens. Vós sois a luz do mundo. Uma cidade situada sobre um monte não pode ser escondida. E ninguém acende uma luz para pô-la debaixo do alqueire, mas sim no candeeiro, para alumiar a todos os que estão em casa. Assim brilhe a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem o vosso Pai que está no céu. Não julgueis que vim destruir a lei ou os profetas; não vim destruir, e sim cumprir. Porque, em verdade vos digo: enquanto não passar o céu e a terra, nem uma letra, nem um pontinho desaparecerá da lei, até que tudo seja realizado. Aquele, pois, que transgredir um destes mandamentos, por pequeno que seja, e ensinar assim aos homens, será chamado mínimo no Reino dos céus; mas o que os guardar e os ensinar, esse será chamado grande no Reino dos céus.
📝 A doutrina da doçura e o combate pela verdade
A liturgia deste dia nos apresenta, na figura de São Francisco de Sales, a síntese perfeita entre o zelo apostólico exigido por São Paulo e a luminosidade das boas obras requisitada por Nosso Senhor no Evangelho, revelando que a verdadeira sabedoria cristã não reside na imposição árida da lei, mas na doçura da caridade que preserva a verdade incorruptível. No Evangelho, Cristo adverte que se o sal perder o sabor, para nada mais serve; Santo Agostinho comenta que este sal representa a sabedoria apostólica que deve combater a corrupção do mundo, pois "aquele que, pelo temor da perseguição ou pelo desejo de agradar aos homens, suaviza a verdade do Evangelho, perde o seu sabor e já não serve para temperar a terra, mas para ser pisado pelo desprezo dos vícios" (Sto. Agostinho, De Sermone Domini in Monte). São Francisco de Sales encarnou este "sal" ao enfrentar a heresia calvinista não com a amargura da contenda, mas com a "sã doutrina" mencionada na Epístola a Timóteo, administrada com tal paciência e mansidão que reconquistou a região de Chablais para a Igreja. Ele compreendeu que a "luz do mundo" não pode ficar escondida sob o alqueire da timidez ou da falsa prudência; pelo contrário, como ensina São Tomás de Aquino, "a perfeição da caridade não consiste apenas em amar a Deus, mas em iluminar o próximo com a verdade que salva" (S. Tomás de Aquino, Summa Theologiae, II-II, q. 184). Ao cumprir o mandato de Paulo de "pregar a palavra, insistir oportuna e importunamente", Francisco não destruiu a lei, mas deu-lhe cumprimento (Mt 5, 17), mostrando que a devoção não é inimiga dos deveres de estado, mas a sua perfeição. A encíclica Rerum Omnium Perturbationem, do Papa Pio XI, recorda que este Doutor da Igreja ensinou que a santidade é acessível a todos, fazendo com que a "cidade situada sobre o monte" - a Igreja visível e seus santos - resplandeça diante dos homens para que, vendo as obras da graça operando na fragilidade humana, glorifiquem o Pai celeste. Assim, a vida de São Francisco de Sales é um testemunho de que combater o "bom combate" e "guardar a fé" exige a coragem de ser sal que arde para purificar e luz que se consome para iluminar, sempre revestido da túnica de glória da sabedoria divina.