A obra "A Crise do Mundo Moderno" (cuja primeira edição data de 1941, com reedições célebres pela Agir a partir de 1945 e mais recentemente pela Ecclesiae) constitui uma das produções intelectuais mais maduras e ambiciosas do Padre Leonel Franca, S.J. Escrito no calor do conflito da Segunda Guerra Mundial - o autor testemunha o "espetáculo trágico de cidades que se desmoronam e do sangue que jorra em golfadas" -, o texto transcende a análise conjuntural. Funciona como notas introdutórias a uma filosofia da cultura e uma teologia da história, sem pretender esgotar o tema, mas estabelecendo as bases do que seria a resposta católica ao colapso do ocidente liberal e ao surgimento dos totalitarismos.
🥀 Diagnóstico: a crise de alma e a ruptura da unidade
O autor diagnostica a crise do mundo moderno não apenas como um fenômeno político ou econômico, mas como uma crise profunda de alma e de instituições, causada por rupturas históricas e filosóficas que fragmentaram a unidade da civilização cristã medieval. Franca argumenta que a desordem externa é reflexo de uma desordem interna do homem moderno. Nesse contexto, ele identifica duas rupturas originais graves, que atuam como causas eficientes da decadência ocidental.
A primeira delas é a Reforma Protestante, centrada na figura de Lutero. Esta ruptura introduziu o subjetivismo religioso, negando a autoridade do Magistério e da Tradição. Ao fragmentar o cristianismo e transferir o critério da verdade para a interpretação individual (o livre exame), a Reforma rompeu a unidade espiritual da Europa. Concomitantemente, aponta o Racionalismo Cartesiano (iniciado por Descartes) como a segunda grande fratura. Esta ruptura filosófica, ao separar o pensamento do ser (o cogito fechado em si mesmo), levou ao idealismo kantiano e hegeliano. Para Franca, essa linhagem filosófica desemboca necessariamente no imanentismo e, por extensão, nas ideologias revolucionárias modernas (liberalismo, comunismo, totalitarismos, etc.), onde o Estado ou a Razão ocupam o lugar de Deus.
Essas rupturas geram um desequilíbrio na personalidade humana (individual), na sociabilidade e na ordem social, resultando em uma civilização que perde a transcendência, o sentido da Verdade revelada e o humanismo cristão autêntico. O homem moderno, segundo Franca, tornou-se um "desenraizado", órfão de uma metafísica que lhe dê sentido.
🏛️ A estrutura da civilização e o papel da cultura
O livro contrapõe ao cenário de crise o caminho cristão católico como suficiente e necessário para restaurar a ordem: reconciliar elementos fragmentados (humanismo, filosofia, ciência, trabalho, dinâmica social) sob a visão católica da natureza e dos destinos do homem. A estrutura da obra reflete uma preocupação em definir os termos antes de aplicar os remédios. Sobre a ideia de civilização, Franca explora a origem do termo e seus componentes. Ele distingue elementos naturais (o solo, a geografia e a raça - entendida aqui não em sentido biológico determinista, mas como herança histórica e temperamento de um povo) e elementos culturais (ciência, arte, técnicas, direito, Estado, povo/pátria/nação). A civilização é vista como o corpo social organizado, enquanto a cultura seria a alma que anima esse corpo.
No que tange ao binômio Humanismo e Cultura, o autor estabelece a relação intrínseca entre ambos; o humanismo atua como princípio especificador da civilização. Aqui, Franca combate a noção de cultura como mero acúmulo de conhecimentos enciclopédicos, defendendo-a como o aperfeiçoamento das faculdades superiores do homem em direção à Verdade e ao Bem.
🩺 Anatomia detalhada da crise
O diagnóstico de Leonel Franca se aprofunda na distinção entre sintomas e causas raízes. Os sintomas visíveis manifestam-se no colapso institucional (guerras mundiais, totalitarismos nazifascistas e soviéticos), na violência global e na fragmentação social. Já a crise de almas revela-se pela perda de transcendência, subjetivismo exacerbado, redução do homem a matéria ou razão pura, e uma aspiração frustrada ao infinito que, não encontrando Deus, se volta para ídolos temporais.
Quanto às raízes históricas e filosóficas, reitera que a Reforma é vista como a origem do subjetivismo religioso, com o protestantismo atuando como "legionários" da descristianização ao secularizar a fé e submetê-la ao poder temporal dos príncipes. Na filosofia, a linha Descartes/Kant/Hegel consolida o idealismo que alimenta as ideologias modernas. Franca é particularmente incisivo ao notar que o marxismo, embora materialista, é herdeiro da dialética hegeliana, sequestrando o tema nobre do "trabalho" para fins de luta de classes. Soma-se a isso o Cientificismo e o Secularismo, promovendo a separação indevida entre ciência experimental e filosofia. O utilitarismo técnico degrada a unidade do mundo, transformando meios (técnica/economia) em fins absolutos.
A profundidade da crise é, portanto, metafísica: uma visão errada da vida e do mundo guia todas as atividades humanas. O esquecimento do "Ser" e a absolutização do "Devir" ou do "Eu" constituem o erro fundamental.
✝️ A restauração pelo humanismo integral
As soluções propostas pela perspectiva católica tradicional e neoescolástica de Franca envolvem, primordialmente, restaurar o humanismo cristão. Este deve atuar como princípio especificador que integra elementos naturais e culturais sob a luz da Revelação e da filosofia tomista (a philosophia perennis). Diferente do humanismo laico ou antropocêntrico, que coloca o homem como medida de todas as coisas e acaba por destruí-lo, o humanismo teocêntrico reconhece a dignidade humana enraizada na filiação divina.
Destaca-se a força reconciliadora do catolicismo, pois o Cristianismo católico é apresentado como a única força capaz de reconciliar opostos que a modernidade separou: unidade vs. diversidade, transcendência vs. imanência, pessoa vs. sociedade, autoridade vs. liberdade. Para tal, é necessária uma Ação Intelectual e Apologética com ênfase na meditação da Verdade, na defesa contra erros (polêmicas contra protestantismo e modernismo), e na formação de uma civilização construtiva oposta à descristianização. Franca exorta a elite intelectual brasileira a não se contentar com a mediocridade, mas buscar a universalidade do pensamento católico.
Uma citação chave do prefácio resume este programa: "Queiramos ou não, consciente ou inconscientemente, é uma visão filosófica da vida e uma metafísica do mundo que norteia a nossa atividade. Todos os problemas [...] pedem soluções humanas inspiradas num conceito da natureza e dos destinos do homem" (Franca, 1941).
📜 Considerações finais sobre o estilo e legado
A obra é marcada pela integração de ciência experimental com filosofia espiritual ("além da física", como os gregos), rejeitando tanto o materialismo crasso quanto o espiritualismo desencarnado. A crítica ao protestantismo como raiz de erros modernos conecta-se com obras anteriores do autor, como "A Igreja, a Reforma e a Civilização", formando um corpus coerente de análise histórica.
Há uma valorização da qualidade filosófica sobre a quantidade: O Brasil pode ter grandes pensadores pela profundidade, não pelo número. O tom é apologético e contemplativo, escrito como defesa da Verdade católica em meio ao caos da guerra. É uma obra de síntese, considerada por críticos uma "Summa" do pensamento francano, confrontando a visão cristã com a modernidade e antecipando debates sobre a dignidade da pessoa humana que seriam centrais no pós-guerra.
Referências Bibliográficas
FRANCA, Leonel. A Crise do Mundo Moderno. Rio de Janeiro: Adorno, 1941.
FRANCA, Leonel. A Igreja, a Reforma e a Civilização. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1923.
FRANCA, Leonel. Noções de História da Filosofia. Rio de Janeiro: Agir, 1950.