✝️São Antão, o Grande (c. 251-356), nascido em Coma, no Egito, é reverenciado como o patriarca do monaquismo cristão e uma das figuras mais influentes da história da Igreja. Oriundo de uma família cristã abastada, teve sua vida transformada radicalmente ao ouvir, durante a Liturgia, as palavras de Cristo: "Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres". Obedecendo prontamente, retirou-se para o deserto, inaugurando a vida eremítica de forma organizada e tornando-se o protótipo do anacoreta. Sua jornada no deserto foi marcada por uma rigorosa ascese, jejuns prolongados e um intenso combate espiritual contra as tentações demoníacas, que frequentemente o assaltavam com visões aterrorizantes ou sedutoras, as quais ele vencia pela oração e pela humildade. Sua santidade e sabedoria atraíram inúmeros discípulos, transformando o deserto em uma "cidade" de monges que buscavam sua direção espiritual. Amigo pessoal de Santo Atanásio, que escreveu sua célebre biografia, Antão também foi um baluarte na defesa da fé ortodoxa contra a heresia ariana, chegando a sair de sua clausura para confortar os cristãos perseguidos em Alexandria. Faleceu em 356, aos 105 anos, deixando um legado que moldou a espiritualidade cristã para sempre.
🎶Introito (Sl 36, 30-31; Sl 36, 1)
Os justi meditábitur sapiéntiam, et lingua ejus loquétur judícium: lex Dei ejus in corde ipsíus. Ps. Noli æmulári in malignántibus; neque zeláveris faciéntes iniquitatem.
A boca do justo fala a sabedoria e a sua língua profere a equidade. A lei de seu Deus está em seu coração. Sl. Não tenhas ciúmes dos maus, nem tenhas inveja dos que praticam a iniquidade.
📜Epístola (Eclo 45, 1-6)
Ele foi amado de Deus e dos homens; sua memória é abençoada. O Senhor o igualou aos Santos na glória, engrandeceu-o para temor dos seus inimigos e por suas palavras fez cessar as pragas. Glorificou-o diante dos reis; deu-lhe seus preceitos diante de seu povo e mostrou-lhe sua glória. Por sua fidelidade e mansidão o santificou e o escolheu dentre todos os homens. Deus lhe fez ouvir a sua voz, e fê-lo entrar na nuvem. E deu-lhe, face a face, os seus preceitos e a lei da vida e da doutrina.
📖Evangelho (Lc 12, 35-40)
Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: Estejam cingidos os vossos rins, e em vossas mãos lâmpadas acesas. E sede semelhantes a homens que esperam o seu senhor quando volta das bodas, para que, quando vier e bater à porta, logo a possam abrir. Bem-aventurados aqueles servos, que o Senhor, ao voltar, achar vigilantes. Em verdade vos digo: ele se cingirá e os fará sentar à mesa, e, passando por entre eles, os servirá. E se vier na segunda vigília, ou se vier na terceira e assim os encontrar, bem-aventurados esses servos! Atendei porém a isto: se o pai de família soubesse a hora em que viria o ladrão, com certeza haveria de vigiar e, sem dúvida, não deixaria invadir a sua casa. Assim, estai também vós preparados, porque à hora em que não cuidais, virá o Filho do homem.
🌩️A Nuvem do Deserto e a Face de Deus
🕊️A liturgia de hoje traça um paralelo sublime entre a figura de Moisés e a de Santo Antão, aplicando ao abade do deserto os louvores do grande legislador de Israel: "Ele foi amado de Deus... e fê-lo entrar na nuvem" (Eclo 45). Assim como Moisés subiu ao Sinai para falar com Deus face a face, Antão adentrou a "nuvem" do deserto egípcio, não para fugir da realidade, mas para encontrar a Realidade Suprema. Santo Agostinho, nas Confissões (Livro VIII), relata o impacto sísmico que a vida de Antão teve sobre sua própria conversão: ao saber que homens simples, sem cultura secular, "tomavam o céu de assalto" através da ascese e da oração, enquanto ele, com toda a sua erudição, permanecia escravo das paixões, sentiu-se compelido a mudar de vida. O Evangelho completa esta imagem com a ordem de ter os "rins cingidos" e as "lâmpadas acesas". Santo Ambrósio explica que cingir os rins é conter a luxúria e as paixões desordenadas, condição indispensável para a vigilância espiritual. Antão viveu essa vigilância perpétua, transformando o deserto num campo de batalha onde a vitória é a caridade perfeita. O Catecismo da Igreja Católica (n. 921) recorda que a vida eremítica manifesta o aspecto interior do mistério da Igreja, que é a intimidade pessoal com Cristo. A "lei da vida e da doutrina" que a Epístola menciona não foi aprendida por Antão nos livros, mas na contemplação do Verbo, provando que a verdadeira teologia nasce de joelhos e que, para quem ama a Deus, o silêncio do deserto grita mais alto que os ruídos do mundo.
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