Introito - Dilexísti justítiam, et odísti iniquitátem: proptérea unxit te Deus, Deus tuus, oleo lætítiæ præ consórtibus tuis. (Ps. 44, 2) Eructávit cor meum verbum bonum: dico ego ópera mea Regi. Glória Patri...Amastes a justiça e odiastes a iniquidade; por isso Deus, o vosso Deus, vos ungiu com o óleo da alegria, de preferência às vossas companheiras. (Sl 44, 2) Do meu coração brotou uma boa palavra: consagro ao Rei as minhas obras. Glória ao Pai...
Santa Marta, irmã de Maria Madalena e de Lázaro, é a figura imortal da hospitalidade sagrada, aquela que teve o inefável privilégio de acolher o próprio Deus encarnado em sua casa, em Betânia. O Evangelho a eternizou por sua dedicação incansável ao serviço do Salvador e, mais tarde, pela fé inabalável que arrancou de Cristo a promessa da ressurreição antes mesmo de Lázaro ser chamado do túmulo. A tradição multissecular da Igreja nos ensina que, após a Ascensão do Senhor e as primeiras perseguições em Jerusalém, Marta, junto de seus irmãos e outros discípulos, foi lançada pelos judeus em uma embarcação sem velas ou remos, entregue à fúria do mar. Conduzida pela mão invisível da Providência, a barca aportou miraculosamente na Gália, atual França. Ali, nas terras da Provença, Marta dedicou-se à evangelização de um povo pagão, vivendo em profunda austeridade e oração. Diz ainda a piedosa lenda que ela subjugou a temível criatura conhecida como Tarasca, armada apenas com o sinal da Cruz e água benta, demonstrando o triunfo da graça sobre as forças das trevas. Seus restos mortais repousam até hoje na Collégiale Sainte-Marthe, em Tarascon, onde gerações de fiéis acorrem para venerar aquela que serviu o Rei dos reis com as próprias mãos.
Olhai ao vosso redor, ó almas resgatadas por alto preço, e vede o que se passa em nossos dias! O mundo moderno, embriagado pelo frenesi de suas próprias invenções, detesta o sacrifício e escarnece da doutrina perene, preferindo o conforto dos aplausos efêmeros à austeridade da Cruz redentora. Quantos não tentam transformar o Corpo Místico de Cristo em uma mera agência de benfeitorias terrenas, alterando sutilmente a fé para não desagradar aos homens, esquecendo-se de que a amizade com o mundo é inimizade contra o Altíssimo? Eis o veneno silencioso de uma falsa caridade humana, que busca esvaziar o sacrifício do altar e apagar o brilho da eternidade. Contra esse perigo avassalador ergue-se a luminosa missão de Santa Marta. Ela nos alerta contra a grande ilusão do naturalismo, a funesta inclinação que reduz a vida cristã a um ativismo ansioso e vazio de graça. No Evangelho de hoje, o Senhor não condena o suor sagrado do serviço de Marta, pois, como nos recorda São Gregório Magno, a vida ativa é a soleira indispensável que purifica o coração para os esplendores da contemplação; Ele condena, sim, a inquietação, a dispersão febril que nos faz perder de vista a "única coisa necessária". O Apóstolo, na Epístola, troveja contra o orgulho humano: "aquele que se gloria, glorie-se no Senhor". Não somos aprovados porque a sociedade nos louva, mas porque Deus nos recomenda. Se adaptamos nossos ritos sagrados para agradar às praças, se trocamos as verdades celestes por opiniões adaptáveis, como poderemos ser apresentados a Cristo como "virgem pura"? O altar não é o mundo; a luz não tem parte com as trevas. Que as mãos de vossa alma trabalhem incessantemente, lavando os pés dos pobres e adornando a casa de Deus, mas que os vossos olhos estejam sempre fixos, como os de Maria, nos lábios do Mestre. Fugi das facilidades que entorpecem o espírito, desprezai a sedução que sufoca a oração na poeira das atividades modernas e aprendei de Santa Marta que todo o nosso labor terreno só ganha valor de eternidade quando oferecido a Deus com um coração pacificado pelo amor, buscando unicamente agradar Àquele que nos julgará no último dia.
Epístola (II Cor 10, 17-18; 11, 1-2) - Irmãos: Aquele que se gloria, glorie-se no Senhor. Porque não é o que se recomenda a si mesmo que é aprovado, mas, sim, aquele que Deus recomenda. Ah! se quisésseis suportar um pouco de loucura de minha parte; mas suportai-me ainda. Porque estou zeloso de vós com zelo de Deus. Com efeito, eu vos desposei com um Esposo único, para vos consagrar ao Cristo como virgem pura.
Evangelho (Lc 10, 38-42) - Naquele tempo, entrou Jesus em uma aldeia, e uma mulher, chamada Marta, O recebeu em sua casa. Tinha esta uma irmã, chamada Maria, a qual, sentando-se aos pés do Senhor, ouvia a sua palavra. Marta, porém, se afadigava na contínua lida da casa; e, chegando-se perto, disse: Senhor, não Vos importais que minha irmã me deixe só com o serviço da casa? Mandai, pois, que ela me ajude. E o Senhor, respondendo, disse-lhe: Marta, Marta, cuidadosa e inquieta andas com muitas coisas; entretanto uma só coisa é necessária. Maria escolheu a melhor parte, que não lhe será tirada.