Sacerdote erudito e ilustre professor de teologia na Universidade de Cracóvia, São João Câncio (falecido em 1473) foi a encarnação do Evangelho em sua pureza mais radical e ativa. Ele não permitiu que as abstrações do mundo acadêmico asfixiassem o ardor de seu coração; pelo contrário, fez da sabedoria um degrau para o esvaziamento de si mesmo por amor a Deus. Conta a história que este sacerdote se despojava rotineiramente dos próprios sapatos e de seu manto para cobrir os mendigos que padeciam nos invernos rigorosos da Polônia e que, ao ser assaltado na estrada, correu atrás dos bandidos clamando para lhes entregar as moedas de prata que havia esquecido cosidas na túnica, um gesto tão sobrenatural que converteu os salteadores no mesmo instante. Seus restos mortais repousam gloriosamente na venerável Igreja Colegiada de Santa Ana, de onde sua vida continua a gritar aos séculos que a erudição sem sacrifício é como o metal que soa no vazio.
Olhai ao vosso redor, e vede com que espantosa facilidade a religião do Calvário tenta ser substituída por um espetáculo mundano! Há hoje uma perigosa ilusão que caminha entre nós, vestindo os trajes da piedade, mas arrancando-lhe toda a substância. Homens se reúnem, entoam melodias agradáveis, pronunciam eloquentes discursos de solidariedade, mas, na penumbra oculta dessas assembleias, a bússola aponta para o inferno. Nesta falsificação do verdadeiro culto, a Cruz é descartada, a sã doutrina é dissolvida até se tornar um mero conjunto de opiniões populares, e o assombro sobrenatural degenera no conforto inócuo de um clube social de sentimentos. A eternidade é cordialmente convidada a retirar-se para que as facilidades, os meios meramente humanos e o bem-estar do corpo ocupem o trono sagrado. Fugi, almas redimidas pelo Sangue de Cristo, fugi deste engodo! Que é uma assembleia onde o homem se idolatra sob a máscara de louvar a Deus? É um sepulcro engalanado de vaidade! Contra esta miséria espiritual levanta-se hoje, como uma muralha invencível, a monumental figura de São João Câncio. A grande vocação deste confessor (suscitada no seio da Igreja para aniquilar a soberba acadêmica e destruir o perigo mortal de uma crença desligada do sacrifício) revela a face autêntica do cristianismo. A Epístola de São Tiago retumba em nossos ouvidos como a trombeta do juízo: a fé sem obras está morta! São João Câncio não combateu este veneno teológico com meros silogismos formados em gabinetes confortáveis; ele esmagou o erro entregando o próprio pão aos famintos e a própria túnica aos despidos. A liturgia verdadeira, meus irmãos, não é uma festa de afagos terrenos, mas um culto que transborda do altar para imolar o egoísmo nas ruas da vida. O Evangelho de São Lucas nos ordena a ter os rins cingidos e as lâmpadas acesas. E o que é o azeite desta lâmpada divina? O glorioso Santo Agostinho nos ilumina: o óleo invisível que mantém o fogo a arder na escuridão do mundo é a autêntica caridade. Se o amor que se sacrifica morre, a chama se extingue, a oração vira pó, e a alma mergulha nas trevas frias de sua própria presunção. São João Câncio foi este servo de rins cingidos que encheu sua lâmpada com o azeite da misericórdia heroica. Quando a alma repudia os mimos mundanos e abraça a lei do verdadeiro amor, o inimaginável acontece: ao retornar na escuridão da noite, o próprio Rei dos Reis cinge os Seus rins e vem servir os Seus servos fiéis no banquete celestial. Elevai os olhos da terra! Abandonai as encenações vazias e inflamai as vossas lâmpadas, para que o Filho do Homem não encontre em vós uma máscara de barro, mas uma luz ardente e digna da glória eterna.