🗓️S. Apolônia, nascida no século III em Alexandria, no Egito, e martirizada no ano de 249 durante a feroz perseguição aos cristãos sob o imperador Décio, é uma figura emblemática da coragem inquebrantável e da pureza da fé, cuja memória foi preservada com distinção na História Eclesiástica de Eusébio de Cesareia através de uma carta de São Dionísio de Alexandria. Este relato histórico descreve como uma turba pagã capturou esta virgem consagrada, já em idade avançada, submetendo-a a torturas cruéis, incluindo o arrancamento violento de todos os seus dentes e a quebra de sua mandíbula, numa tentativa de forçá-la a proferir blasfêmias contra Cristo; contudo, diante da fogueira preparada para queimá-la viva caso não apostatasse, Apolônia pediu um momento de liberdade e, impelida por uma inspiração particular do Espírito Santo - pois a Igreja não aprova o suicídio, mas venera a entrega total sob o comando divino -, lançou-se voluntariamente às chamas, consumando seu sacrifício antes que os algozes pudessem tocá-la novamente. Sua bravura extraordinária, preferindo a morte física à morte da alma, fez dela a padroeira invocada contra as dores de dente e as doenças dentárias, permanecendo através dos séculos como um modelo de que a verdadeira prudência cristã consiste em sacrificar o corpo perecível para salvaguardar o tesouro eterno da graça.
🕯️ Introito (Sl 118, 46-47; 1)
Loquébar de testimóniis tuis in conspéctu regum, et non confundébar: et meditábar in mandátis tuis, quæ diléxi nimis. Ps. Beáti immaculáti in via: qui ámbulant in lege Dómini.
Eu falava de vossos preceitos diante dos reis, e não me confundia; e meditava em vossos mandamentos, que muito amo. Ps. Bem-aventurados os que se mantêm sem mácula no caminho; os que andam na lei do Senhor.
📜 Epístola (Eclo 51, 1-8 e 12)
Confitébor tibi, Dómine, Rex, et collaudábo te Deum, Salvatórem meum. Confitébor nómini tuo: quóniam adjútor et protéctor factus es mihi, et liberásti corpus meum a perditióne, a láqueo línguæ iníquæ et a lábiis operántium mendácium, et in conspéctu astántium factus es mihi adjutor. Et liberasti me secúndum multitúdinem misericórdiæ nóminis tui a rugiéntibus, præparátis ad escam, de mánibus quæréntium ánimam meam, et de portis tribulatiónum, quæ circumdedérunt me: a pressúra flammæ, quæ circúmdedit me, et in médio ignis non sum æstuáta: de altitúdine ventris inferi, et a lingua coinquináta, et a verbo mendácii, a rege iníquo, et a lingua injústa: laudábit usque ad mortem ánima mea Dóminum: quóniam éruis sustinéntes te, et líberas eos de mánibus géntium, Dómine, Deus noster.
Glorificar-Vos-ei, ó Senhor, meu Rei, e louvar-Vos-ei, ó Deus, Salvador meu. Celebrarei o vosso Nome porque Vos fizestes meu auxílio e meu protetor, e livrastes o meu corpo da perdição, do laço da língua iníqua e dos lábios dos mentirosos. Diante dos meus adversários Vos declarastes o meu defensor. Livrastes-me, segundo a vossa grande misericórdia, dos que rugiam preparados para me devorar; das mãos dos que procuravam tirar-me a vida; do poder das tribulações que me cercavam, da violência da chama que me envolvia, e, no meio do fogo, não senti calor; das profundezas do inferno e da língua impura, da palavra de mentira, de um rei iníquo e da língua injusta. Minha alma louvará o Senhor até a morte, porque Vós livrais dos perigos aqueles que em Vós esperam, e os salvais das mãos dos gentios, ó Senhor, nosso Deus.
📖 Evangelho (Mt 25, 1-13)
In illo témpore: Dixit Jesus discípulis suis parábolam hanc: Simile erit regnum cœlórum decem virgínibus: quæ, accipiéntes lámpades suas, exiérunt óbviam sponso et sponsæ. Quinque autem ex eis erant fátuæ, et quinque prudéntes: sed quinque fátuæ, accéptis lampádibus, non sumpsérunt óleum secum: prudéntes vero accepérunt óleum in vasis suis cum lampádibus. Horam autem faciénte sponso, dormitavérunt omnes et dormiérunt. Média autem nocte clamor factus est: Ecce, sponsus venit, exíte óbviam ei. Tunc surrexérunt omnes vírgines illae, et ornavérunt lámpades suas. Fátuæ autem sapiéntibus dixérunt: Date nobis de óleo vestro: quia lámpades nostræ exstinguúntur. Respondérunt prudéntes, dicéntes: Ne forte non suffíciat nobis et vobis, ite pótius ad vendéntes, et émite vobis. Dum autem irent émere, venit sponsus: et quæ parátæ erant, intravérunt cum eo ad núptias, et clausa est jánua. Novíssime vero véniunt et réliquæ vírgines, dicéntes: Dómine, Dómine, áperi nobis. At ille respóndens, ait: Amen, dico vobis, néscio vos. Vigiláte ítaque, quia nescítis diem neque horam.
Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos esta parábola: O reino dos céus será semelhante a dez virgens que, tomando as suas lâmpadas, saíram ao encontro do esposo e da esposa. Cinco, porém, dentre elas, eram insensatas e cinco prudentes. Ora, as cinco insensatas, tomando as suas lâmpadas, não trouxeram azeite consigo. As prudentes, porém, com as suas lâmpadas, tomaram azeite em suas vasilhas. Tardando o esposo a chegar, todas elas tiveram sono e adormeceram. Quando era meia-noite, ouviu-se um grito: Eis que chega o esposo, saí-lhe ao encontro. Então se levantaram todas essas virgens e prepararam as suas lâmpadas. E as insensatas disseram às prudentes: Dai-nos de vosso azeite, porque as nossas lâmpadas se apagam. Responderam as prudentes: Talvez não seja ele suficiente para nós e para vós; ide antes aos que o vendem e comprai-o para vós. Mas, enquanto elas foram comprá-lo, veio o esposo, e as que estavam preparadas entraram com ele para as bodas; e a porta foi fechada. Mais tarde vieram também as outras virgens e chamaram: Senhor, Senhor, abri-nos. Ele lhes respondeu, dizendo: Em verdade vos digo: eu não vos conheço. Vigiai, pois, porque não sabeis o dia nem a hora.
🔥 O fogo da caridade e o azeite da prudência
A liturgia de hoje nos apresenta um paradoxo sublime através da vida de Santa Apolônia: a chama material que consumiu seu corpo e a chama espiritual que preservou sua alma, refletindo o mistério do amor divino que é mais forte do que a morte. A Epístola, retirada do livro do Eclesiástico, canta a libertação "da violência da chama que me envolvia", um versículo que à primeira vista parece contradizer o martírio de Apolônia pelo fogo, mas que na verdade revela sua essência teológica; Santo Agostinho nos ensina que o mártir não é aquele que sofre a pena, mas aquele que sofre pela causa de Cristo, e que a verdadeira libertação não é a fuga do sofrimento físico, mas a preservação da integridade da fé diante da "língua iníqua" e da apostasia (Santo Agostinho, Sermão 274). Apolônia lançou-se ao fogo não por desespero, mas impelida por um movimento extraordinário do Espírito Santo, demonstrando que o fogo da caridade divina que ardia em seu peito era infinitamente mais abrasador do que a fogueira dos algozes. Este ardor interior é perfeitamente simbolizado pelo azeite das virgens prudentes no Evangelho de hoje: o azeite representa a caridade e a graça santificante, virtudes que, como explica São Tomás de Aquino, são intransferíveis no momento do juízo particular, pois ninguém pode emprestar seus méritos a outrem na hora da morte (São Tomás de Aquino, Suma Teológica, Suplemento, Q. 71). As virgens néscias, vazias de obras interiores e apegadas apenas à aparência externa da fé (as lâmpadas sem azeite), encontram a porta fechada, enquanto Apolônia, cuja lâmpada estava transbordante do azeite da pureza e do martírio, entrou imediatamente para as bodas do Cordeiro. A Igreja nos convida, portanto, a uma vigilância ativa, lembrando-nos que a verdadeira prudência não é a cautela mundana que evita a dor, mas a sabedoria divina que prepara a alma com o azeite da caridade para o encontro definitivo com o Esposo.