O Domingo da Sexagésima, celebrado aproximadamente sessenta dias antes da Páscoa, insere-se no tempo da Septuagésima, um período de preparação para a Quaresma no calendário litúrgico tradicional. A Igreja, neste dia, veste paramentos roxos e omite o canto do Aleluia, introduzindo os fiéis num clima de santa penitência e reflexão. A liturgia se concentra na figura de São Paulo Apóstolo, cuja estação litúrgica em Roma é a basílica de São Paulo fora dos Muros, apresentando-o como o modelo do "semeador" incansável e do terreno que, uma vez arado pela graça divina, produziu frutos abundantes apesar das adversidades. A comemoração deste dia nos convida a meditar sobre a fragilidade humana e a absoluta necessidade da graça de Deus para que a semente da Palavra divina possa germinar em nossos corações. Através da Parábola do Semeador, somos exortados a examinar a qualidade do solo de nossa alma, identificando e removendo os obstáculos - a indiferença do caminho, a inconstância das pedras e as paixões mundanas dos espinhos - para nos tornarmos "terra boa", capaz de acolher a Palavra e produzir frutos de santidade com paciência.
📜Introito (Salmo 43, 23-26; 2)
Exsúrge, quare obdórmis, Dómine? exsúrge, et ne repéllas in finem: quare fáciem tuam avértis, oblivísceris tribulatiónem nostram? adhǽsit in terra venter noster: exsúrge, Dómine, ádjuva nos, et líbera nos. Ps. Deus, áuribus nostris audívimus: patres nostri annuntiavérunt nobis.
Acordai, Senhor, por que dormis? Levantai-Vos, não nos rejeiteis para sempre. Por que desviais a vossa face e Vos esqueceis de nossa angústia? Nosso corpo adere à terra. Levantai-Vos, Senhor, socorrei-nos e salvai-nos. Sl. Ó Deus, com os nossos ouvidos, ouvimos; nossos pais no-lo contaram.
📜Epístola (2 Coríntios 11, 19-33; 12, 1-9)
Fratres: Libénter suffértis insipiéntens: cum sitis ipsi sapiéntes. Sustinétis enim, si quis vos in servitútem rédigit, si quis dévorat, si quis áccipit, si quis extóllitur, si quis in fáciem vos cædit. Secúndum ignobilitátem dico, quasi nos infírmi fuérimus in hac parte. In quo quis audet, (in insipiéntia dico) áudeo et ego: Hebrǽi sunt, et ego: Israelítæ sunt, et ego: Semen Abrahæ sunt, et ego: Minístri Christi sunt, (ut minus sápiens dico) plus ego: in labóribus plúrimis, in carcéribus abundántius, in plagis supra modum, in mórtibus frequénter. A Judǽis quínquies quadragénas, una minus, accépi. Ter virgis cæsus sum, semel lapidátus sum, ter naufrágium feci, nocte et die in profúndo maris fui: in itinéribus sæpe, perículis flúminum, perículis latrónum, perículis ex génere, perículis ex géntibus, perículis in civitáte, perículis in solitúdine, perículis in mari, perículis in falsis frátribus: in labóre et ærúmna, in vigíliis multis, in fame et siti, in jejúniis multis, in frigóre et nuditáte: præter illa, quæ extrínsecus sunt, instántia mea cotidiána, sollicitúdo ómnium Ecclesiárum. Quis infirmátur, et ego non infírmor? quis scandalizátur, et ego non uror? Si gloriári opórtet: quæ infirmitátis meæ sunt, gloriábor. Deus et Pater Dómini nostri Jesu Christi, qui est benedíctus in sǽcula, scit quod non méntior. Damásci præpósitus gentis Arétæ regis, custodiébat civitátem Damascenórum, ut me comprehénderet: et per fenéstram in sporta dimíssus sum per murum, et sic effúgi manus ejus. Si gloriári opórtet (non éxpedit quidem), véniam autem ad visiónes et revelatiónes Dómini. Scio hóminem in Christo ante annos quatuórdecim, (sive in córpore néscio, sive extra corpus néscio, Deus scit:) raptum hujúsmodi usque ad tértium cœlum. Et scio hujúsmodi hóminem, (sive in córpore, sive extra corpus néscio, Deus scit: quóniam raptus est in paradisum: et audivit arcána verba, quæ non licet homini loqui. Pro hujúsmodi gloriábor: pro me autem nihil gloriábor nisi in infirmitátibus meis. Nam, et si volúero gloriári, non ero insípiens: veritátem enim dicam: parco autem, ne quis me exístimet supra id, quod videt in me, aut áliquid audit ex me. Et ne magnitúdo revelatiónem extóllat me, datus est mihi stímulus carnis meæ ángelus sátanæ, qui me colaphízet. Propter quod ter Dóminum rogávi, ut discéderet a me: et dixit mihi: Súfficit tibi grátia mea: nam virtus in infirmitáte perfícitur. Libénter ígitur gloriábor in infirmitátibus meis, ut inhábitet in me virtus Christi.
Irmãos: De bom ânimo suportais os insensatos, sendo vós sábios. Pois tolerais que vos ponham em escravidão, que vos explorem, que se apoderem de vossos bens, que vos tratem com arrogância, que vos batam no rosto. Envergonhado confesso: neste ponto, tenho sido fraco. Em qualquer coisa, porém, que alguém se atreva (falo como insensato), também eu me atrevo. São hebreus? Também eu. São israelitas? Também eu. São descendentes de Abraão? Também eu. São ministros de Cristo? (Como menos sábio falo), mais o sou eu: muito mais pelos trabalhos, pelas prisões muitíssimo mais, pelos açoites sem conta, em perigos de morte frequentemente. Dos judeus recebi, cinco vezes, quarenta açoites menos um. Três vezes fui açoitado com varas; uma vez fui apedrejado; três vezes naufraguei; uma noite e um dia estive no fundo do mar. Em viagens muitas vezes, em perigos de rios, em perigos de ladrões; em perigos dos de minha nação, em perigos da parte dos gentios, em perigos na cidade, em perigos no deserto, em perigos no mar, em perigos entre falsos irmãos; em trabalho e fadiga, em muitas vigílias, na fome e na sede, em frequentes jejuns, no frio e na nudez. Além destas coisas, que são exteriores, a minha preocupação cotidiana, o cuidado de todas as Igrejas. Quem está enfermo que eu não fique enfermo? Quem é escandalizado, que eu não me abrase? Se convém gloriar-se, gloriar-me-ei então da minha fraqueza. O Deus e Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, que é bendito nos séculos, sabe que não minto. Em Damasco, o preposto do rei Aretas mandou guardar a cidade dos damascenos para me prender, mas num cesto me desceram por uma janela, da muralha abaixo, e assim escapei de suas mãos. Se convém gloriar-se (certamente não convém), virei agora às visões e revelações do Senhor. Conheço um homem em Cristo que, há quatorze anos (se no corpo ou fora do corpo, não sei, mas Deus o sabe), foi arrebatado até o terceiro céu. E sei a respeito desse homem (se no corpo ou fora do corpo, não sei, mas Deus o sabe) que foi arrebatado ao paraíso, e ouviu palavras inefáveis que ao homem não é permitido proferir. Nisto é que me gloriarei, mas de mim mesmo não me gloriarei, a não ser de minhas fraquezas. Verdade é que, se me quisesse gloriar, não seria insensato, porque diria a verdade; abstenho-me, no entanto, para que ninguém me estime acima do que vê em mim ou de mim ouve. E para que não me ensoberbecesse a grandeza das revelações, foi-me dado o estímulo de minha carne, qual anjo de Satanás que me esbofeteie. Por causa dele roguei ao Senhor três vezes que de mim o desviasse. E Ele me disse: Basta-te a minha graça, porque a força se manifesta de modo mais completo na fraqueza. Portanto, de bom grado me gloriarei em minhas fraquezas, para que habite em mim a força do Cristo.
📜Evangelho (Lc 8, 4-15)
In illo témpore: Cum turba plúrima convenírent, et de civitátibus properárent ad Jesum, dixit per similitúdinem: Exiit, qui séminat, semináre semen suum: et dum séminat, áliud cécidit secus viam, et conculcátum est, et vólucres cœli comedérunt illud. Et áliud cécidit supra petram: et natum áruit, quia non habébat humórem. Et áliud cécidit inter spinas, et simul exórtæ spinæ suffocavérunt illud. Et áliud cécidit in terram bonam: et ortum fecit fructum céntuplum. Hæc dicens, clamábat: Qui habet aures audiéndi, audiat. Interrogábant autem eum discípuli ejus, quæ esset hæc parábola. Quibus ipse dixit: Vobis datum est nosse mystérium regni Dei, céteris autem in parábolis: ut vidéntes non videant, et audientes non intéllegant. Est autem hæc parábola: Semen est verbum Dei. Qui autem secus viam, hi sunt qui áudiunt: déinde venit diábolus, et tollit verbum de corde eórum, ne credéntes salvi fiant. Nam qui supra petram: qui cum audierint, cum gáudio suscipiunt verbum: et hi radíces non habent: qui ad tempus credunt, et in témpore tentatiónis recédunt. Quod autem in spinas cécidit: hi sunt, qui audiérunt, et a sollicitudínibus et divítiis et voluptátibus vitæ eúntes, suffocántur, et non réferunt fructum. Quod autem in bonam terram: hi sunt, qui in corde bono et óptimo audiéntes verbum rétinent, et fructum áfferunt in patiéntia.
Naquele tempo, tendo-se reunido muito povo, e como os habitantes de várias cidades tivessem ido a Jesus, propôs-lhes Ele esta parábola: Saiu o semeador a semear sua semente; e ao semeá-la, parte caiu junto ao caminho e foi pisada, e as aves do céu a comeram. Outra parte caiu sobre a pedra, e quando nasceu, secou logo, por não haver umidade. Outra parte caiu entre os espinhos, e os espinhos, nascendo com ela, a sufocaram. E outra parte caiu em boa terra, e depois de nascer, deu fruto, cento por um. Dito isto, clamou: Quem tem ouvidos para ouvir, ouça. Seus discípulos perguntaram-Lhe, pois, que significava essa parábola. E Ele lhes respondeu: A vós é dado conhecer o mistério do Reino de Deus, porém aos outros se fala em parábolas, para que, olhando, não vejam, e ouvindo, não entendam. Este é, pois, o sentido da parábola: A semente é a palavra de Deus. Os que estão ao longo do caminho são os que a ouvem, mas vindo depois o diabo, tira-lhes a palavra do coração, para que não se salvem, crendo nela. Os de sobre a pedra são os que recebem com gosto a palavra, quando a ouviram; porém estes não têm raízes; até certo tempo creem, mas no tempo da tentação, desviam-se. A que caiu entre os espinhos são estes os que ouviram, porém, com o passar do tempo, são sufocados com os cuidados, riquezas e deleites da vida e não dão fruto. E a que caiu em boa terra são estes os que, ouvindo a palavra, guardam-na com o coração bom e perfeito e dão fruto na paciência.
🌱 O solo da alma e a graça na fraqueza
A liturgia do Domingo da Sexagésima nos confronta com a realidade espiritual de que somos o campo onde Deus, o Semeador divino, lança a semente de Sua Palavra. A Parábola do Semeador, explicada por Nosso Senhor no Evangelho, serve como um exame de consciência preparatório para a Quaresma, questionando-nos sobre que tipo de solo temos sido. Santo Agostinho, meditando sobre esta passagem, ensina que o coração humano é este terreno e que a diversidade de solos representa as diferentes disposições da alma ao acolher a Verdade. "Considerai-vos a vós mesmos, e vede que tipo de ouvintes sois... Por que a semente caiu à beira do caminho? Porque não foi cuidada. Por que sobre a pedra? Porque não tinha raiz. Por que entre os espinhos? Porque foi sufocada. E por que um deu cem, outro sessenta e outro trinta? A colheita foi diversa, mas tudo era boa terra" (Santo Agostinho, Sermão 73). Esta "boa terra" é o coração humilde e dócil que, conforme o Evangelho, "ouvindo a palavra, guarda-na com o coração bom e perfeito e dão fruto na paciência". A paciência é a virtude da terra fértil, a perseverança que permite à semente germinar e crescer em meio às provações. É aqui que a Epístola de São Paulo se conecta de modo sublime. O Apóstolo, o maior dos semeadores depois de Cristo, revela que seu campo de apostolado foi regado por sofrimentos inumeráveis. Ele não se gloria de suas visões celestiais, mas de suas fraquezas, pois foi em sua impotência que a força de Cristo se manifestou plenamente: "Basta-te a minha graça, porque a força se manifesta de modo mais completo na fraqueza". A vida de São Paulo é a exegese viva da parábola: um terreno antes pedregoso e cheio de espinhos do orgulho farisaico que, lavrado pelo arado da conversão na estrada de Damasco, tornou-se o mais fértil dos solos. O "espinho na carne" que o atormentava não sufocou a semente, mas, ao contrário, manteve o solo de sua alma humilde e dependente da graça, permitindo que a "força de Cristo" habitasse nele. O Missal Romano, através do Introito "Acordai, Senhor... socorrei-nos e salvai-nos", ecoa este clamor da alma que reconhece sua própria insuficiência. Como ensina o Catecismo da Igreja Católica, a graça é "um dom gratuito de Deus" e "uma participação na vida divina" (CIC, 1996, 1999), sem a qual nenhum fruto pode ser produzido. Assim, a Sexagésima nos ensina que a preparação para a Páscoa não consiste em um esforço puramente humano de autoperfeição, mas em um trabalho de humildade: reconhecer a aridez de nosso solo, arrancar com coragem os espinhos dos apegos desordenados e suplicar a chuva da graça divina, para que, como São Paulo, possamos nos gloriar não em nossas forças, mas em nossas fraquezas, onde o poder de Deus realiza suas maiores obras.
🎵 Homilias
Capela São José do Patrocínio