A introdução da obra "The Jewish Revolutionary Spirit and Its Impact on World History" (2008)
de E. Michael Jones serve como um denso e exaustivo alicerce teológico e histórico para a tese central que percorrerá todo o livro. A partir de uma análise crítica do discurso do Papa Bento XVI em Ratisbona, o autor estabelece uma distinção fundamental entre o Islã, que seria alogos (alheio ou indiferente ao Logos), e o Judaísmo, que é apresentado como fundamentalmente anti-Logos. Esta rejeição do Logos - que na teologia cristã é encarnado em Jesus Cristo, a Palavra de Deus - é identificada como o evento definidor que deu origem ao "espírito revolucionário judaico", uma força de subversão interna que, segundo o autor, tem impactado a história mundial desde a Crucificação. A introdução detalha essa premissa, define seus termos a partir de uma perspectiva católica tradicionalista, e antecipa a trajetória histórica que a obra irá explorar.
✝️ O Logos e as Ameaças à Civilização Cristã
O autor inicia sua análise com o discurso do Papa Bento XVI em Ratisbona, que reafirmou a centralidade do Logos (Razão Divina) na fé cristã e na civilização europeia que dela floresceu. O Papa, ao citar Manuel II Paleólogo, contrastou a visão cristã de um Deus que age com Logos com a visão islâmica, onde a vontade de Deus pode ser arbitrária e não necessariamente racional. Jones concorda com a análise do Papa sobre o Islã, mas argumenta que ela conta apenas "metade da história" (p. 14). A outra metade, e a mais perigosa para a Cristandade por ser uma ameaça interna, é o ataque judaico ao Logos.
Diferentemente do Islã, que "não compreendeu Cristo" (p. 15), o povo judeu foi confrontado diretamente com o Messias, o Logos encarnado. A sua decisão de rejeitá-Lo constitui o ponto de virada da história. A partir desse momento, a palavra "judeu", especialmente no Evangelho de São João, adquire um significado teológico preciso: um "rejeitador de Cristo" (p. 15). Aqueles que aceitaram Jesus passaram a ser conhecidos como cristãos, formando o Novo Israel. Aqueles que O rejeitaram, por outro lado, tornaram-se "os judeus", que no livro do Apocalipse são descritos como "mentirosos e membros da 'sinagoga de Satanás'" (Ap 2.9, 3.9). Ao rejeitar Cristo, o povo judeu rejeitou o Logos e, consequentemente, os princípios da ordem social e moral que emanam da Razão Divina, tornando-se, assim, revolucionários.
Este espírito revolucionário, nascido ao pé da Cruz, manifestou-se plenamente após a destruição do Templo em 70 d.C., quando o judaísmo foi reconstituído como uma religião rabínica baseada no Talmude. Essa nova forma intensificou o espírito revolucionário "ao ensinar os judeus a procurar por um Messias militar" (p. 16). A ascensão de Simão bar Kokhba, aclamado como Messias pelos rabinos, selou essa identidade: o critério final da identidade judaica tornou-se a rejeição de Cristo, e "essa rejeição levou inexoravelmente à revolução" (p. 16).
🕎 A Definição de "Judeu" e a Negação Moderna
O autor aborda a dificuldade contemporânea de definir o termo "judeu", criticando o que ele vê como um tabu político que impede qualquer análise categórica. Citando Hilaire Belloc, ele afirma que "chamar um judeu de judeu" (p. 16) tornou-se, em si, uma evidência de antissemitismo. Essa regra não escrita serve como uma ferramenta política: permite que o termo seja usado quando os judeus são vítimas, mas proíbe seu uso quando são perpetradores, numa lógica de "cara, eu ganho; coroa, você perde" (p. 17).
Contrariamente a essa negação moderna, a perspectiva católica insiste que "existe um povo judeu definido que perdurará até o fim dos tempos" (p. 17). O autor estabelece uma definição de trabalho para "judeu", citando o estudioso judeu Jacob Neusner para distinguir entre o grupo étnico e os praticantes da religião ("Judaístas"). A tese central do livro é reafirmada quando Neusner admite que o Cristianismo desempenha um papel único na definição de quem é judeu: "judeus que praticam o Cristianismo deixam de fazer parte da comunidade étnica judaica, enquanto aqueles que praticam o Budismo permanecem dentro dela" (p. 18). Isso, para Jones, demonstra que a identidade judaica se tornou essencialmente negativa, definida por sua oposição ao Logos.
Essa inimizade é encontrada explicitamente no Talmude, que, segundo o estudioso Peter Schaefer, contém uma "deliberada e sofisticada polêmica anticristã" (p. 18), zombando do nascimento virginal, negando a messianidade de Cristo e justificando Sua execução. Paradoxalmente, o autor aponta que o próprio Talmude "confirma sem querer" a messianidade de Cristo, como no relato de que o fio escarlate no Templo parou de ficar branco no momento de Sua morte, indicando que os sacrifícios haviam perdido sua eficácia (p. 19).
⛪ O Espírito Revolucionário Judaico e a Resposta da Igreja
A tese do livro não é racial, mas teológica e espiritual. Qualquer pessoa, inclusive um judeu, pode seguir o Logos. No entanto, ter "a rejeição do Logos Superior no núcleo inevitável de sua religião" significa que "um espírito revolucionário está entrelaçado com essa comunidade" (p. 20). Esse espírito não se manifesta isoladamente, mas historicamente em aliança com heresias cristãs que também atacam a Cristo e à Igreja. Como exemplo, o autor cita a análise de John Henry Newman sobre a aliança entre arianos e judeus no século IV, onde os judeus demonstravam um "sentimento espontâneo de que o lado da heresia era sua posição natural" (p. 20-21).
A resposta tradicional da Igreja a essa ameaça interna de subversão foi a doutrina codificada pelo Papa Gregório Magno, conhecida como "Sicut Iudeis non..." (p. 21). Esta doutrina possui duas partes essenciais: por um lado, ninguém tem o direito de prejudicar os judeus ou perturbar seu culto; por outro lado, os judeus não têm o direito de "corromper a fé ou a moral dos cristãos ou subverter as sociedades cristãs" (p. 21). O autor oferece a carta pastoral do Cardeal Hlond, primaz da Polônia, de 1936, como um exemplo clássico dessa doutrina equilibrada. Hlond alertava sobre a influência corruptora do bolchevismo, que ele identificava como um "movimento essencialmente judaico" (p. 22), mas, ao mesmo tempo, condenava inequivocamente a violência e o ódio racial contra os judeus, que ele via sendo importado da Alemanha nazista.
É aqui que o autor desfere sua crítica mais contundente à era pós-Concílio Vaticano II. O documento conciliar Nostra Aetate, que deveria inaugurar uma nova era de diálogo, resultou, na visão de Jones, em uma capitulação da Igreja. O diálogo levou a acusações judaicas de que o coração do Evangelho é "supercessionismo" e um "ensinamento do desprezo" que culminou no Holocausto. Essa capitulação teológica, segundo o autor, abriu as portas para desastres políticos, como o apoio católico à ascensão da política externa neoconservadora nos Estados Unidos e a consequente "desastrosa guerra no Iraque" (p. 24).
A conclusão da introdução é um chamado ao fim do que o autor considera a confusão da era pós-conciliar e a um retorno à "sabedoria da tradição" (p. 24). A recente restauração da oração da Sexta-feira Santa de 1962 pelo Papa Bento XVI, que pede explicitamente a conversão dos judeus "para que possam reconhecer a luz de vossa verdade, que é Cristo, e ser libertos de suas trevas" (p. 23), é vista como um sinal promissor de que essa era de ambiguidade está chegando ao fim. O livro, portanto, é apresentado como uma contribuição para esse necessário reexame das relações entre a Igreja e o espírito revolucionário que nasceu da rejeição do Logos.