domingo, 22 de março de 2026

† DOMINGO DA PAIXÃO
O sacrifício perfeito e a revelação da eterna divindade

[LA EN]

O Domingo da Paixão, também conhecido tradicionalmente como Domingo Judica em virtude das palavras iniciais do seu Introito, marca um aprofundamento significativo no espírito de contrição da Santa Quaresma. Instituída nos primórdios da Igreja, essa comemoração litúrgica inaugura o Tempo da Paixão, alterando o foco que outrora repousava primariamente sobre o jejum e as penitências para voltá-lo à dolorosa contemplação dos sofrimentos de Nosso Senhor Jesus Cristo. Em conformidade com o rito tradicional anterior às reformas da Semana Santa, o véu roxo passa a encobrir as cruzes e as imagens dos santos, velando o esplendor divino como uma manifestação visível da dor pungente pelas aflições de Cristo e expressando o ocultamento temporal da sua glória frente aos judeus. Esta severidade e o recolhimento visual são propostos pela sabedoria milenar da Igreja para desapegar as almas das consolações terrenas, convidando os fiéis a acompanharem intensamente o Cordeiro imaculado que caminha para o Calvário. A Estação litúrgica para o solene ofício deste dia é tradicionalmente celebrada na Basílica de São Pedro, reunindo os fiéis de Roma sobre o sepulcro do Príncipe dos Apóstolos para entoar súplicas e meditar as profundezas da redenção vindoura.

🎵 Introito (Sl 42, 1-2 | ib., 3)

Júdica me, Deus, et discérne causam meam de gente non sancta: ab homine iníquo et dolóso éripe me: quia tu es Deus meus et fortitúdo mea. Ps. Emítte lucem tuam et veritátem tuam: ipsa me deduxérunt et adduxérunt in montem sanctum tuum et in tabernácula tua.

Julgai-me, ó Deus, e separai da gente ímpia a minha causa; livrai-me do homem injusto e falso. Porque Vós sois meu Deus e minha força. Sl. Derramai sobre mim a vossa luz e a vossa verdade, para que elas me guiem e me conduzam ao vosso monte e a vossos tabernáculos.

📜 Epístola (Heb 9, 11-15)

Irmãos: Cristo se manifestou como Pontífice dos bens futuros. Por um mais vasto e mais perfeito tabernáculo, não feito por mão de homem, isto é, não deste mundo, sem recorrer ao sangue de cabritos e novilhos, mas por seu próprio Sangue, entrou uma vez no santuário, tendo adquirido uma redenção eterna. Com efeito, se o sangue dos cabritos e touros e a cinza da novilha, aspergida sobre os manchados, os santificava para a purificação da carne, quanto mais o Sangue do Cristo, que pelo Espírito Santo a Si mesmo se ofereceu imaculado a Deus, purificará nossa consciência das obras mortas, fazendo-nos capazes de servir ao Deus vivo. E por esse motivo, Ele é o Mediador do Novo Testamento a fim de que por sua morte, que sofreu para o perdão das prevaricações que havia sob o primeiro Testamento, os que foram chamados à herança eterna recebam a promessa, no Cristo Jesus, Senhor nosso.

📖 Evangelho (Jo 8, 46-59)

Naquele tempo, disse Jesus às turbas dos judeus: Qual de vós me arguirá de pecado? Se vos digo a verdade, por que não me credes? Quem é de Deus, ouve as palavras de Deus. Por isto não as ouvis: porque não sois de Deus. Responderam-Lhe, pois, os judeus: Não dizemos bem, nós, que és Samaritano, e que estás possesso do demônio? Respondeu Jesus: Eu não estou possesso do demônio: mas honro a meu Pai, e vós outros me desonrais. Eu não procuro a minha glória: há quem a procure e faça justiça. Em verdade, em verdade, eu vos digo, que se alguém guardar a minha palavra, não verá a morte para sempre. Disseram-Lhe então os judeus: Agora conhecemos que estás possesso do demônio. Abraão morreu assim como os Profetas. E Tu dizes: Se alguém guardar a minha palavra, não verá a morte para sempre. És porventura, maior que o nosso pai Abraão, que morreu? Ou maior que os Profetas que morreram? Por quem pretendes passar? Respondeu Jesus: Se eu me glorifico a mim mesmo, nula é minha glória. Quem me glorifica é meu Pai, Aquele que dizeis que é vosso Deus. E vós não O conheceis: porém eu O conheço, e se dissesse que não O conheço, seria mentiroso como vós outros. Eu porém O conheço e guardo a sua palavra. Abraão, vosso pai, sentiu júbilo porque havia de ver meu dia; ele o viu e alegrou-se. Disseram-Lhe então os judeus: Ainda não tens cinquenta anos, e viste Abraão? Respondeu-lhes Jesus: Em verdade, em verdade, eu vos digo: antes que Abraão existisse, Eu sou. Apanharam eles então pedras para Lhe atirar; mas Jesus escondeu-se e abandonou o templo.

✝️ O sacrifício perfeito e a revelação da eterna divindade

A impecabilidade do Salvador manifesta a perfeição de sua natureza incriada, uma vez que a ausência de pecado atesta a justiça substancial e inalienável da divindade encarnada. Aqueles que recusam acolher a verdade revelada demonstram sua contínua oposição à ação da graça, visto que a eficácia da palavra celeste apenas encontra plenitude em corações anteriormente iluminados e dóceis à vontade do Pai, doutrina exposta com clareza por São Tomás de Aquino (Suma Teológica, III, q. 46, a. 9). O solene uso da designação "Eu sou" testemunha a eternidade atemporal Daquele que desponta como a própria origem ontológica do existir, o que elucida, segundo Santo Agostinho (Sermão 117), por que a agressividade ignóbil daqueles que intentaram o apedrejamento constitui a repulsa deliberada das trevas diante do brilho incontestável do Verbo. A evasão pacífica frente aos algozes não é produto do temor e sim submissão plena aos insondáveis propósitos divinos, assegurando que o ápice redentor não estaria condicionado à insensatez reativa dos homens, mas apenas à hora prescrita em que o altar da cruz consagraria a glória inefável, conforme admoesta Santo Ambrósio (Expositio Evangelii secundum Lucam).

A suprema imolação de Cristo consagra uma ordem espiritual de redenção que destitui as limitações carnais dos sacrifícios oferecidos na Antiga Aliança, substituindo as purificações meramente exteriores por uma eficácia interior definitiva. O uso de um sangue puríssimo, não de animais destituídos de razão, mas do próprio Cordeiro consubstancial a Deus Pai, ergue um acesso perpétuo e restaurador aos domínios da santidade, capaz de apagar não somente as impurezas litúrgicas temporárias, mas extirpar da alma os resquícios escravizantes das obras mortas. Nessa oblação, a vida inteira do Sumo Pontífice foi orientada para o altar cósmico erigido pelo Espírito Santo, propiciando um resgate de proporções imensuráveis que ultrapassa as insuficiências das prescrições mosaicas. É unicamente através desta nova e indissolúvel promessa que o Mediador distribui generosamente o perdão das transgressões pretéritas, convocando os redimidos a experimentarem a purificação íntima, indispensável para que o culto ao Deus vivo ascenda com autêntica reverência.

A majestade infinita do Verbo, opondo-se à cegueira mortal do mundo terreno, revela-se como o sustentáculo essencial que infunde valor meritório incomparável ao sacerdócio que resgata a raça humana de sua penúria. Exatamente por constituir o eterno existente, imune aos ataques obscuros do repúdio e insuscetível a qualquer deturpação, o Salvador qualificou-se de maneira soberana para oficiar a perfeita expiação no tabernáculo superior e não manufaturado. As disposições pacientes com que suportou as injúrias e preservou-se do apedrejamento prenunciavam o desígnio imutável que exigia a oferta exclusiva de Seu corpo e sangue no doloroso madeiro. Deste modo, a verdade inquebrantável e a mediação oblativa integram-se no majestoso plano da redenção, em que o Único que não conhece o princípio nem o fim adentra no tempo para abolir, com autoridade suprema e compassiva, o império da iniquidade e do desespero final.

🎵 Homilias

Capela São José do Patrocínio

Don Alberto Secci (Vocogno in Val Vigezzo) [it]

Frei Tiago