[LA] A Terça-feira da Oitava de Páscoa dá continuidade à máxima solenidade da liturgia católica, prolongando o júbilo inefável da Ressurreição do Senhor. Na tradição imemorial da Igreja, a oitava inteira é considerada como um único dia de festa, o "dia que o Senhor fez". Este período era fundamental para os neófitos, os recém-batizados na grande Vigília Pascal, que participavam diariamente da liturgia revestidos com suas cândidas túnicas brancas, recebendo a profunda catequese mistagógica sobre os sacramentos que haviam recebido. A sagrada liturgia de hoje os recorda da "água da sabedoria" celestial que beberam nas fontes batismais. Tradicionalmente, a estação romana deste dia ocorre na Basílica de São Paulo Extramuros. É sobremodo significativo que a Igreja militante se dirija ao glorioso túmulo do Apóstolo dos Gentios nesta terça-feira, pois a Epístola da missa traz justamente o primeiro grande discurso de São Paulo, proferido em Antioquia da Pisídia, onde ele anuncia vigorosamente a ressurreição de Cristo Jesus como o cumprimento definitivo e perfeito de todas as promessas divinas.
🎵 Introito (Eclo 15, 3-4 | Sl 104, 1)
Aqua sapiéntiæ potávit eos, allelúia: firmábitur in illis, et non flectétur, allelúia: et exaltábit eos in ætérnum, allelúia, allelúia. Ps. Confitémini Dómino, et invocáte nomen ejus: annuntiáte inter gentes ópera ejus. V. Glória Patri.
O Senhor deu-lhes a beber a água da sabedoria, aleluia: ela se firmará neles, e não se dobrarão, aleluia: e os exaltará eternamente, aleluia, aleluia. Sl. Louvai ao Senhor, e invocai o seu Nome: anunciai as suas obras entre as nações. V. Glória ao Pai.
📖 Epístola (At 13, 16. 26-33)
Naqueles dias, levantou-se Paulo e fazendo sinal com a mão para pedir silêncio, disse: Meus irmãos, descendentes da estirpe de Abraão e os que entre vós temem a Deus, a vós é que foi enviada esta palavra de salvação. Porque os habitantes de Jerusalém e os seus príncipes, não conhecendo a Jesus, nem as vozes dos Profetas que em cada sábado se leem, condenando-O, as cumpriram. Não encontrando n'Ele nenhuma causa de morte, pediram a Pilatos que Lhe tirasse a vida. Depois, tendo consumado todas as coisas que estavam escritas acerca de Jesus, desceram-No do madeiro, e O puseram em um sepulcro. Deus, porém, O ressuscitou dos mortos ao terceiro dia; e Jesus foi visto muitos dias por aqueles que tinham ido juntamente com Ele da Galileia a Jerusalém. Estes até agora são suas testemunhas ao povo. E nós vos anunciamos que aquela promessa feita a nossos pais, Deus a cumpriu para os nossos filhos, pela ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo.
📖 Evangelho (Lc 24, 36-47)
Naquele tempo, apareceu Jesus no meio de seus discípulos e disse-lhes: A paz seja convosco. Sou eu, não temais. Perturbados, porém, e espantados, eles julgaram ver um espírito. E Ele lhes disse: Por que estais perturbados e que pensamentos são esses que vos surgem nos corações? Olhai as minhas mãos e os meus pés, pois sou eu mesmo. Apalpai e vede, porque um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que eu tenho. E dizendo isto, mostrou-lhes as mãos e os pés. Como, porém, eles não acreditassem ainda, cheios de alegria e admiração, Jesus disse-lhes: Tende aqui alguma coisa que se coma? Apresentaram-Lhe uma posta de peixe assado e um favo de mel. E tendo comido, à vista deles, tomando as sobras, deu-lhas. Disse-lhes depois: Estas são as palavras que vos disse quando ainda estava convosco, porque era preciso que se cumprisse tudo o que de Mim estava escrito na lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos. Então lhes abriu o entendimento para compreenderem as Escrituras. E disse-lhes: Assim está escrito, e assim era necessário que o Cristo padecesse e ressuscitasse dos mortos ao terceiro dia: e em seu Nome deve ser pregada a penitência e remissão dos pecados a todas as nações.
🕊️ A paz do ressuscitado e a água da sabedoria
O Evangelho de São Lucas nos transporta para o íntimo do Cenáculo, exato momento em que os discípulos de Emaús retornavam a Jerusalém relatando como haviam reconhecido o Senhor no partir do pão. Subitamente, o Cristo Ressuscitado, atravessando as portas fechadas, se põe no meio de seus discípulos atemorizados e lhes oferece o dom supremo de sua vitória sobre a morte: "A paz seja convosco" ("Pax vobis"). Na liturgia romana tradicional, esta exata fórmula de saudação pascal tornou-se reservada exclusivamente ao bispo, enquanto o sacerdote diz "Dominus vobiscum", manifestando que é o próprio Cristo, o Sumo e Eterno Sacerdote, quem vem ao nosso encontro. Como ensina São Cirilo de Alexandria, esta paz não é um mero cumprimento humano, mas a própria comunicação da natureza divina e da graça santificante. No entanto, os apóstolos, presos ao senso comum e a opinião mundana de que um morto não poderia aparecer vivo, ficaram assustados, julgando ver um fantasma. Jesus age com infinita condescendência para retirá-los dessa visão limitada. O dogma católico encontra aqui sua base inabalável: Jesus não reencarnou nem é um espírito desencarnado; na morte, Seu Corpo e Sua Alma separaram-se, mas ao terceiro dia uniram-se novamente. Agora glorificado, Ele não sofre e não precisaria comer, mas pode fazê-lo porque continua sendo verdadeiramente homem. Ele come um pedaço de peixe e um favo de mel, permitindo-lhes tocar suas chagas sagradas que, segundo São Beda, o Venerável, foram conservadas para confirmar definitivamente a ressurreição da verdadeira carne, para serem apresentadas continuamente diante do Pai em sua intercessão sacerdotal e para gravar perpetuamente diante dos olhos da Igreja a imensidão da caridade do nosso resgate.
A Epístola, extraída dos Atos dos Apóstolos, testemunha publicamente a eficácia dessa graça e a coragem inabalável que brota da experiência direta com o Ressuscitado. Vemos São Paulo, na sinagoga de Antioquia da Pisídia, erguer-se para pregar não com as dúvidas que antes paralisavam o Cenáculo, mas com a autoridade divina de quem teve o entendimento aberto para as Escrituras. Paulo anuncia aos filhos de Abraão que a morte infame e a glória radiante do Messias são o cumprimento exato da promessa feita aos patriarcas. Santo Agostinho, ao aprofundar este mistério litúrgico, destaca que a ressurreição de Cristo não apenas consolida e dá sentido a todas as profecias do Antigo Testamento, demonstrando que era necessário que o Messias padecesse, mas estabelece o fundamento sólido sobre o qual a Igreja se apoia como testemunha imortal. A cegueira e a ignorância dos príncipes de Jerusalém serviram maravilhosamente aos misteriosos planos da Providência. É esta certeza irremovível de que Deus cumpriu a promessa que transforma os Onze Apóstolos nas testemunhas oculares definitivas, impulsionando a incontornável missão da Igreja: proclamar ao mundo a Ressurreição, tornando-se o motor de toda a pregação apostólica e a âncora da nossa salvação.
A harmoniosa ligação entre o fortalecimento da fé apostólica e a grandiosa missão da Igreja encontra sua chave teológica mais sublime e expressiva no canto do Introito desta liturgia pascal: "O Senhor deu-lhes a beber a água da sabedoria". Esta água pura e vivificante, que simboliza o dom do Espírito Santo derramado no santo Batismo e a luz da compreensão das Escrituras outorgada no Evangelho de hoje, inunda a alma cristã. Quando bebemos nas fontes desta sabedoria inesgotável, a promessa divina se cumpre em nós: "ela se firmará neles, e não se dobrarão". Todo o temor pueril, as amarras do senso comum humano e a hesitação que inicialmente assombraram os Apóstolos são erradicados e substituídos pelo ímpeto missionário de anunciar que o Cristo é o Deus verdadeiro encarnado. A verdadeira paz comunicada pelo Salvador não nos isenta das aflições temporais, mas fortifica o nosso interior como uma muralha invencível, impedindo que o demônio ou o mundo nos verguem. Alimentados por esta graça e instruídos pelos lábios do próprio Mestre, cada batizado passa a ser instrumento visível e testemunha viva da penitência e da divina remissão dos pecados, glorificando o Nome do Senhor para todo o sempre entre as nações para que todos creiam na Ressurreição.
🛐 Meditação diária de Santo Afonso Maria de Ligório
🛐 Meditações dos padres da Igreja, organizadas por S. Tomás de Aquino (Catena Aurea) [ES]