Introito - (Eclo 44, 15; Sl 32, 1) Sapiéntiam sanctórum narrent pópuli, et laudes eórum núntiet Ecclésia: nómina autem eórum vivent in sǽculum sǽculi. Psalmus. Exsultáte, justi, in Dómino: rectos decet collaudátio. ℣. Glória Patri...Seja proclamada pelos povos a sabedoria dos santos e anunciados nas assembleias os seus louvores: os seus nomes sobreviverão a todos os séculos. Salmo. Alegrai-vos, ó justos, no Senhor: aos corações retos convém o louvor. Glória ao Pai...
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Antes de sua luminosa conversão, Santo Eustáquio (chamado Plácido) ostentava os louros de general romano sob o império de Trajano. Sua alma, porém, foi arrebatada durante uma caçada, quando contemplou assombrado um cervo que trazia entre os chifres um resplandecente crucifixo, enquanto a voz do próprio Cristo o convocava à verdadeira milícia. Batizado juntamente com sua esposa Tatiana e seus filhos Teopisto e Agápio, o general desceu das glórias mundanas para trilhar a via crucis. Tal como Jó, suportou o despojamento de suas riquezas e a dolorosa dispersão de sua família. Reencontrados anos mais tarde por um prodígio da Providência, foram levados a Roma por ordem de Adriano. Intimados a dobrar os joelhos perante os ídolos em um sacrifício pagão, recusaram-se com invencível altivez. Como coroa terrena de sua fidelidade, a família inteira foi lançada no interior de um touro de bronze candente, consumando seu martírio no ano de 118, e transformando aquele instrumento de tortura em um altar de holocausto agradável a Deus. Suas sagradas relíquias repousam sob o altar-mor da Basílica de Santo Eustáquio em Roma, clamando aos céus através dos séculos.
Onde fixais, ó cristãos, o ancoradouro de vossas esperanças? Erguei as pupilas das cinzas voláteis desta terra e contemplai o esplendor refulgente do Céu, que hoje abre seus pórticos de pérola para receber São Eustáquio e sua bendita família! Vede a cegueira monumental do Império Romano, que exigia de seus súditos uma vassalagem de cascas vazias. O paganismo daquela era não passava de um pálido teatro: altares forjados em mármore frio, cerimônias lisonjeiras e ritos cívicos irrepreensíveis na estética, mas tudo orquestrado unicamente para incensar o orgulho da criatura. O imperador não buscava a adoração do divino, mas a submissão cega ao rebanho social. E não é este, pergunto-vos com o coração em chamas, o mesmíssimo veneno que, sorrateiro, tenta asfixiar as almas em nossos dias? O espírito mundano labora sem descanso para fabricar um culto estéril, onde o altar sagrado é rebaixado a um palco de entretenimento, o Criador é cordialmente exilado de Sua própria casa e o homem é coroado como o centro absoluto de todas as atenções. Sob a máscara do convívio fraterno, constrói-se um perigoso simulacro de piedade: as exigências ásperas do Calvário são trocadas por sorrisos de conveniência, os dogmas eternos diluem-se em caprichos passageiros, e a sagrada religião torna-se um mero grêmio de afagos terrenos. A cruz, outrora sinal terrível de contradição, é educadamente varrida para debaixo do tapete das vaidades! Mas os santos, meus amados, são os meteoros flamejantes de Deus, lançados contra a hipocrisia de seus tempos! Santo Eustáquio foi erguido pela Providência exatamente para esmagar a farsa do comodismo e aniquilar a idolatria do Estado. Ele, que ostentava as mais altas insígnias de Roma, trocou a glória oca do paço imperial pela vergonha fecunda e ensanguentada de Cristo. O Senhor luminoso das matas não o chamou a uma ceia de aplausos efêmeros, mas ao derramamento purificador do próprio sangue! Lede o que nos clama a Epístola do Livro da Sabedoria: a armadura do justo não é tecida com o veludo das cortes, mas com o zelo cortante e inexpugnável do Altíssimo. Eustáquio, Tatiana, Teopisto e Agápio viram seu patrimônio desvanecer e, por fim, foram atirados nas entranhas sufocantes de um touro de bronze incandescente. Ali, naquela fornalha medonha, não encontraram a aniquilação, mas o abraço abrasador da Vida Eterna! Escutai o eco cristalino do Evangelho de São Lucas: Bem-aventurados vós que sois pobres, que tendes fome, que chorais! O Doutor da Graça nos desperta deste torpor terreno ao ensinar que tal pobreza é o desapego heroico que esvazia o coração de si mesmo para transbordar da majestade divina. E a voz de ouro do Oriente adverte-nos, com estrondo de trombeta, que a perseguição e o opróbrio do mundo são os selos inconfundíveis da verdadeira milícia cristã! Não vos deixeis embalar por falsos pregadores que prometem coroas sem espinhos. Se o mundo vos repele e odeia, saltai de alegria, pois os sofrimentos deste brevíssimo exílio não têm o menor peso diante do banquete eterno que nos aguarda. Santo Eustáquio pisou nas lisonjas do império para tomar assento nas bodas imortais do Cordeiro Sagrado, gravando a ferro e fogo em nossas consciências uma lição que não deve jamais se apagar: de que serve preservar a carne intacta e agradar aos homens nesta vida, se a alma padecer de inanição nas trevas exteriores?
Epístola (Sab 5, 16-20) - Justi autem in perpétuum vivent, et apud Dóminum est merces eórum, et cogitátio illórum apud Altíssimum. Ideo accípient regnum decóris, et diadéma speciéi de manu Dómini: quóniam déxtera sua teget eos, et bráchio sancto suo deféndet illos. Accípiet armatúram zelus illíus, et armábit creatúram ad ultiónem inimicórum. Induet pro thoráce justítiam, et accípiet pro gálea judícium certum. Sumet scutum inexpugnábile æquitátem: acuet autem duram iram in lánceam, et pugnábit cum eo orbis terrárum contra insensátos.
Quanto aos justos, viverão eternamente: receberão a régia coroa de glória, e o diadema da beleza da mão do Senhor, porque os cobrirá com sua direita, e os protegerá com seu braço. Por armadura tomará seu zelo cioso, e armará as criaturas para se vingar de seus inimigos. Tomará por couraça a justiça, e por capacete a integridade no julgamento. Ele se cobrirá com a santidade, como com um impenetrável escudo, afiará o gume de sua ira para lhe servir de espada, e o mundo se reunirá a ele na luta contra os insensatos.
Evangelho (Lc 6, 17-23) - In illo témpore: Descéndens Jesus de monte, stetit in loco campéstri, et turba discipulórum ejus, et multitúdo copiósa plebis ab omni Judǽa, et Jerúsalem, et marítima, et Tyri, et Sidónis, qui vénerant, ut audírent eum, et sanaréntur a languóribus suis. Et qui vexabántur a spirítibus immúndis, curabántur. Et omnis turba quærébat eum tángere: quia virtus de illo exíbat, et sanábat omnes. Et ipse elevátis óculis in discípulos suos, dicébat: Beáti páuperes: quia vestrum est regnum Dei. Beáti qui nunc esurítis: quia saturabímini. Beáti qui nunc fletis: quia ridébitis. Beáti éritis cum vos óderint hómines, et cum separáverint vos, et exprobráverint, et ejécerint nomen vestrum tamquam malum propter Fílium hóminis. Gaudéte in illa die, et exsultáte: ecce enim merces vestra multa est in cælo: secúndum hæc enim faciébant prophétis patres eórum.
Naquele tempo: Descendo Jesus do monte, parou numa planície. Aí se achava um grande número de seus discípulos e uma grande multidão de pessoas vindas da Judeia, de Jerusalém, da região marítima, de Tiro e Sidônia, que tinham vindo para ouvi-lo e ser curadas das suas enfermidades. E os que eram atormentados dos espíritos imundos ficavam livres. Todo o povo procurava tocá-lo, pois saía dele uma força que os curava a todos. Então ele ergueu os olhos para os seus discípulos e disse: Bem-aventurados vós que sois pobres, porque vosso é o Reino de Deus! Bem-aventurados vós que agora tendes fome, porque sereis fartos! Bem-aventurados vós que agora chorais, porque vos alegrareis! Bem-aventurados sereis quando os homens vos odiarem, vos expulsarem, vos ultrajarem, e quando repelirem o vosso nome como infame por causa do Filho do Homem! Alegrai-vos naquele dia e exultai, porque grande é o vosso galardão no céu. Era assim que os pais deles tratavam os profetas.