Introito - Vultum tuum deprecabúntur omnes divites plebis: adducéntur Regi vírgines post eam: próximæ ejus adducéntur tibi in lætítia et exsultatióne. Ps. Eructávit cor meum verbum bonum: dico ego ópera mea Regi. Gloria Patri... Todos os ricos do povo, com dádivas, suplicam o vosso olhar; as virgens que a seguem são conduzidas ao Rei; as suas companheiras são-Vos apresentadas no meio da alegria e do júbilo. Sl. Exulta o meu coração em alegre canto; ao Rei dedico as minhas obras. Glória ao Pai...
A Vigília da Assunção de Nossa Senhora reveste-se de uma profunda e silenciosa expectativa sobrenatural, convidando a alma católica ao recolhimento, à penitência e à oração na véspera do maior triunfo mariano. A Igreja, qual virgem prudente, acende as lâmpadas da fé, aguardando o momento em que a Arca da Nova Aliança, o tabernáculo imaculado que gerou o Verbo, será elevada acima de todos os coros dos anjos. Embora a Sagrada Escritura cale sobre os detalhes de seu trânsito terrestre, a Tradição apostólica sempre ressoou a verdade insofismável de que aquela carne puríssima, isenta da mancha original e consagrada pelo próprio Autor da Vida, jamais poderia conhecer a humilhação e a corrupção do sepulcro. Em Roma, os fiéis congregavam-se tradicionalmente na venerável Basílica de Santa Maria Maior, preparando os corações sob os esplendores dos antigos mosaicos para celebrar a glorificação daquela que é a primícia absoluta da graça e a garantia radiosa da nossa própria ressurreição futura.
Onde estão, ó cristãos, os olhos da vossa alma neste dia de vigília? Olhai para o alto! Enquanto o nosso século, inebriado pelos vapores rasteiros da conveniência e pelos efêmeros confortos da terra, foge apavorado da sombra da cruz e tenta diluir a severa majestade da doutrina sagrada para mendigar os aplausos dos homens, a sagrada liturgia nos chama a desprezar o pó e a contemplar a glória que não tem fim. Uma névoa sutil infiltrou-se nos espíritos, uma lisonja mundana que ousa reescrever o Evangelho por dentro, buscando adaptar o altar às paixões transitórias da praça pública, esquecendo-se da justiça do Deus vivo. Contra essa terrível cegueira espiritual, que nega a necessidade do sacrifício e exalta de modo idolátrico a carne mortal, ergue-se hoje, silenciosa e puríssima, a figura imponente da Virgem de Nazaré. Qual é a grande vocação deste mistério que nos preparamos para celebrar, senão esmagar sob seus calcanhares imaculados o materialismo asfixiante que corrompe a nossa geração? Maria eleva-se em corpo e alma para nos gritar que fomos feitos para o céu, não para a lama! No Evangelho de hoje, uma voz exclama do meio da multidão louvando o ventre materno, mas o próprio Cristo eleva o padrão da bem-aventurança: felizes os que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática. Como nos ensina o grande Agostinho, de nada valeria à Virgem a consanguinidade carnal se ela não tivesse concebido o Verbo primeiro em seu coração, pela obediência da fé, antes de O gerar em seu seio sagrado. Ela foi o vaso de eleição que nunca cedeu às facilidades bajuladoras do mundo, mas que se ofereceu inteira no sacrifício doloroso do Gólgota. A Sabedoria eterna proclama na Epístola: "Vinde a mim, ó vós que me desejais com ardor". Maria é esta morada puríssima da Sabedoria, o sublime aqueduto cantado por Bernardo de Claraval, por onde toda a torrente da graça divina desce até o nosso vale de lágrimas. Não vos deixeis enganar pelas vozes contemporâneas que prometem a salvação sem a ascese e sem o combate; a coroa de glória da Assunção só é reservada àqueles que, como a Mãe de Deus, guardam a Palavra no silêncio da alma, abraçam a vontade divina com heroísmo e preferem a doce herança da eternidade aos favos envenenados deste mundo passageiro. Purifiquemos hoje os nossos sentidos mortais para que, rompendo as correntes do pecado, possamos voar amanhã, com a Igreja triunfante, ao encontro daquela que é a Mãe do amor puro e da esperança santa.
Epístola (Ecl 24, 23-31) - Eu produzi, como a vinha, flores de suave odor, e as minhas flores são frutos de honra e de honestidade. Eu sou a mãe do amor puro, do temor, da ciência e da esperança santa. Em mim existe toda a graça do caminho e da verdade; em mim existe toda a esperança da vida e da virtude. Vinde a mim, ó vós, que me desejais com ardor, e saciai-vos com meus frutos; pois o meu espírito é mais doce do que o mel e a minha herança excede em doçura o próprio favo de mel! Minha memória permanecerá nas gerações de todos os séculos. Aqueles que me comerem terão ainda fome; e aqueles que me beberem terão ainda sede. Aqueles que me escutam não serão confundidos; aqueles que se orientarem em mim não pecarão; e aqueles que me tornarem conhecida alcançarão a vida eterna.
Evangelho (Lc 11, 27-28) - Naquele tempo, falava Jesus ao povo, quando uma mulher elevando a voz, do meio da multidão, disse-Lhe: Bem-aventurado o seio que Vos trouxe e os peitos que Vos amamentaram. Ele porém disse: Antes bem-aventurados os que ouvem a palavra de Deus, e a põem em prática.