Introito - Sermo meus et prædicátio mea non in persuasibílibus humánæ sapiéntiæ verbis, sed in ostensióne spíritus et virtútis. Confitébor tibi, Dómine, in toto corde meo: in consílio justórum et congregatióne. Gloria Patri...Minhas palavras e minhas pregações não consistiam em discursos persuasivos de sabedoria humana e sim em uma demonstração de Espírito e poder. Sl. Senhor, eu Vos louvo de todo coração no conselho dos Justos e na assembleia. Glória ao Pai...
Nascido na nobreza de Cremona em 1502, São Antônio Maria Zaccaria trocou as efêmeras glórias da medicina terrena pelo sublime ofício de curar as chamas imortais como sacerdote do Altíssimo. Em uma época em que o frescor da fé parecia ressecar-se, ele incendiou a península itálica com um amor devorador pelo Mistério da Cruz e pela Sagrada Eucaristia, resgatando o povo do torpor por meio da adoração ininterrupta e do apelo ardente à Comunhão frequente. Tendo o grande Apóstolo São Paulo como seu farol incandescente, fundou a Congregação dos Clérigos Regulares, conhecidos como Barnabitas, entregando-se sem reservas ao serviço exaustivo dos enfermos e miseráveis. Consumido pelas penitências e pelo zelo ardente que não conhecia repouso, entregou sua puríssima alma a Deus no ano de 1539, exausto de tanto amar. Seus restos mortais, sementes de glória futura, repousam em Milão, sob os altares da Igreja de São Barnabé, de onde continuam a exalar para a Igreja militante o bom odor de Cristo.
Contemplai, meus irmãos, o espantoso abismo que separa o altar do mundo! Enquanto a nossa época, embriagada pelas comodidades transitórias e pelo culto idolátrico das emoções, busca remodelar os mistérios sagrados para que se ajustem ao paladar de uma humanidade adoecida, a Liturgia de hoje ergue-se como uma fortaleza inexpugnável de verdade eterna. Por que as igrejas de outrora transbordavam de santos, mártires e confessores destemidos, enquanto os recintos de hoje tantas vezes ressoam apenas o eco oco de aplausos terrenos? A resposta, soprada pelo espírito do nosso século obscuro, é a aversão declarada ao espírito de sacrifício e o desprezo velado pelos dogmas perenes. O mundo moderno anseia por uma cruz sem cravos, por um evangelho sem renúncia, por um santuário onde as conveniências humanas silenciem os direitos absolutos do Criador. E esta névoa envenenada, terrível ilusão, não paira apenas nas praças profanas; ela se infiltra pelos próprios umbrais da casa de Deus, destilando meias-verdades e novidades complacentes que corroem o sagrado depósito da fé sob a máscara de uma falsa caridade. Mas levantai os vossos olhos manchados de terra e fixai-os na figura gigantesca de São Antônio Maria Zaccaria! Qual foi o pilar de ferro da sua vocação apostólica? Ele ergueu-se em um século convulsionado pelo humanismo orgulhoso, onde a pretensa sabedoria do homem tentava ofuscar a majestade do Altíssimo, e avançou no campo de batalha empunhando uma única e invencível arma: a escandalosa loucura da Cruz. O Introito desta Missa, ecoando o brado de São Paulo, rasga os nossos ouvidos afirmando que a salvação não repousa nos discursos macios que afagam a vaidade, mas na força cortante e purificadora do Espírito. Como nos adverte o grande Santo Agostinho, há dois amores que constroem duas cidades: o amor a Deus até o esquecimento de si mesmo, que edifica a cidade celeste; e o amor a si mesmo até o desprezo de Deus, que forja a cidade terrena. No santo Evangelho, vemos a triste figura do jovem rico, que se afasta cabisbaixo porque as amarras douradas de suas posses pesavam muito mais do que a infinita liberdade do paraíso. Acaso não somos nós, tantas vezes, esta alma mesquinha? Queremos as alegrias imortais, mas recusamo-nos a vender as nossas poeirentas ilusões. Na Epístola, o Apóstolo admoesta com voz de trovão: vela sobre ti mesmo e sobre a doutrina! Retiremos as nossas mentes do pó, irmãos! Que a semente puríssima do Verbo não seja asfixiada pelos espinheiros das concessões covardes aos caprichos do século. Precisamos retornar com urgência àquela inocência forte e combativa da infância espiritual, exigida pelo Cristo aos que desejam o Seu Reino, lançando-nos, a exemplo do santo confessor de hoje, aos pés do nosso Redentor Eucarístico. Imploremos ali a graça de abominar as seduções rasteiras desta vida passageira, para que, esvaziados de nós mesmos, sejamos inteiramente devorados pelo abismo infinito do amor de Deus!
Epístola (I Tm 4, 8-16) - Caríssimo: A piedade é útil a tudo, tendo a promessa da vida presente e da futura. É esta uma palavra segura e digna de ser recebida, e é por isso que nós suportamos as fadigas e os ultrajes, pois esperamos no Deus vivo que é o Salvador de todos os homens, e especialmente dos fiéis. Prega estas coisas e ensina-as. Ninguém despreze a tua mocidade; sê porém, um modelo em tuas palavras, na conduta, na caridade, na fé e na castidade. Até que eu venha, aplica-te à leitura, em dar conselhos, ao ensino. Não negligencies a graça que habita em ti, que te foi concedida por uma profecia, quando os sacerdotes te impuseram as mãos. Medita estas coisas, e a elas entrega-te, para que teu progresso seja manifesto a todos. Vela sobre ti mesmo e sobre a doutrina, e sê perseverante nestas coisas. Assim fazendo, salvar-te-ás a ti mesmo e aos que te ouvirem.
Evangelho (Mc 10, 15-21) - Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: Todo aquele que não receber o Reino de Deus, como uma criancinha, ali não entrará. E abraçando os pequeninos, impunha-lhes as mãos e os abençoava. Como continuasse seu caminho, alguém veio a Ele, e, dobrando o joelho, perguntou-Lhe: Bom Mestre, que farei para obter a vida eterna? Jesus lhe disse: Por que me chamas de bom? Ninguém é bom, senão Deus. Conheces os mandamentos: Não cometas adultério; não mates; não furtes; não levantes falso testemunho; não enganes a ninguém; honra teu pai e tua mãe. Ele Lhe respondeu: Mestre, observei todas estas coisas, desde a minha juventude. Jesus, olhando-o com amor, lhe disse: Falta-te uma coisa: vai, vende tudo que tens e o distribui aos pobres e possuirás assim um tesouro no céu; e vem e segue-me.