A Destruição da Tradição Cristã, Capítulo 16: Modernismo na Igreja: o caminho para o inferno é pavimentado com boas intenções, de Rama P. Coomaraswamy


⛪️ A Apostasia Modernista e a Destruição da Igreja: Uma Análise da Revolução Conciliar

Neste capítulo crucial, o Dr. Rama P. Coomaraswamy disseca as raízes filosóficas e teológicas que levaram à atual catástrofe na Igreja Católica, argumentando que a crise não é acidental, mas o resultado do triunfo de heresias condenadas, especificamente o Liberalismo e o Modernismo, que foram entronizadas pelo Concílio Vaticano II. O autor inicia reconhecendo que os responsáveis pelas mudanças na Igreja podem ter agido com o que consideravam "boas intenções", semelhantes ao Sumo Sacerdote Caifás, que justificou a crucificação de Cristo como um benefício para o povo. A hierarquia atual acredita que a "velha Igreja" deve morrer para que uma "nova Igreja" - a Igreja do "novo Pentecostes" - possa viver. No entanto, essas intenções pavimentaram o caminho para o inferno. Os inovadores, imbuídos de falsas noções de progresso e liberalismo, acreditavam que se a Igreja não falava ao homem moderno, a culpa era da Igreja, esquecendo-se de que era o homem moderno que se recusava a ouvir a Deus. Eles buscaram tornar a Igreja "relevante" para um mundo alienado, abandonando seu papel de "Mestra" (Magister) para se tornar "serva", uma atitude que reflete a rebelião luciferiana do non serviam (não servirei) e a escolha do julgamento humano sobre o divino (p. 384-385).

⚔️ A Revolução e o Liberalismo

Coomaraswamy identifica a força motriz por trás dessa mudança como "a Revolução", não apenas o evento histórico francês de 1789, mas um princípio permanente de ódio contra qualquer ordem não estabelecida pelo homem. A Revolução é "a proclamação dos direitos do homem livres do cuidado dos direitos de Deus" e a entronização do homem no lugar de Deus (p. 386). A base filosófica dessa revolução é o Liberalismo, cuja premissa fundamental é que cada indivíduo é livre para decidir por si mesmo o que é verdadeiro ou falso, não estando sujeito a nenhuma lei superior à sua própria razão e vontade. O Liberalismo proclama a soberania absoluta do indivíduo e sua total independência da autoridade de Deus. O autor cita o Pe. Felix Sarda para resumir o Liberalismo como a soberania absoluta do indivíduo, da sociedade e do estado civil, com liberdade irrestrita de pensamento e imprensa, ignorando qualquer critério divino (p. 387). O texto recorda que todos os Papas, de Pio VI a Leão XIII, condenaram repetidamente esses erros. Pio IX, em particular, com a Quanta Cura e o Syllabus, condenou a separação entre Igreja e Estado, a liberdade de consciência e de culto como direitos inalienáveis, e a ideia de que a vontade do povo constitui a lei suprema. Tais condenações eram consistentes com a prática tradicional da Igreja de combater a rebelião contra a ordem sobrenatural (p. 388-389).

🦠 O Modernismo: A Síntese de Todas as Heresias

O autor explica que o Modernismo é, essencialmente, a aplicação dos princípios liberais ao domínio da Doutrina, Teologia e História. É a forma mais viciosa de liberalismo, pois se disfarça sob a aparência de defender a religião. O autor retoma a definição de São Pio X na encíclica Pascendi, identificando os pilares do modernismo: o Agnosticismo, onde a razão humana é confinada aos fenômenos, rejeitando a Revelação e a intelectualidade superior; a Imanência Vital, na qual a fé não vem de fora (audição da Palavra), mas brota do subconsciente e da necessidade humana de Deus; o Evolucionismo Dogmático, onde a verdade e o dogma não são fixos, mas evoluem conforme a consciência coletiva do homem muda; e, por fim, o Cientificismo, onde a fé deve ser submetida aos critérios da ciência moderna e da crítica histórica (p. 394).

🏛️ Vaticano II: A Canonização do Erro

O ponto central da crítica do autor é que o Vaticano II adotou todas essas ideias liberais e modernistas como sendo doutrina católica. O sonho impossível de Maritain de unir "Santa Joana d'Arc e a Tomada da Bastilha" tornou-se realidade. O Concílio declarou que o homem possui uma dignidade inata independente de sua conformidade com a vontade divina e proclamou a Liberdade Religiosa, baseada na dignidade da pessoa humana, afirmando que o homem deve ser guiado por seu próprio julgamento em assuntos religiosos. Isso, segundo o autor, equivale a dizer que Cristo deu ao homem o direito de ignorar Seus ensinamentos e de blasfemar contra Deus, e que o Estado deve proteger esse "direito" de propagar o erro (p. 389-390). As consequências dessa apostasia são o Indiferentismo (uma religião é tão boa quanto outra) e o Sincretismo (a tentativa de criar uma religião mundial baseada no menor denominador comum). A "Nova Igreja" busca unir a humanidade não na Verdade, mas em uma vaga fraternidade, aceitando como "povo de Deus" qualquer um que tenha "boa vontade", incluindo ateus e comunistas (p. 391). Coomaraswamy denuncia vigorosamente o abandono do conceito de Estado Católico. A nova Igreja, seguindo o mandato do Vaticano II, induziu países católicos a alterarem suas constituições para eliminar o reconhecimento do Catolicismo como religião oficial, efetivamente destronando Cristo Rei em favor do secularismo, o que abriu as portas para o divórcio, aborto e a destruição moral da sociedade (p. 392).

🤝 A Traição Moral e a Aliança com o Marxismo

No campo moral, a Igreja pós-conciliar abandonou os valores absolutos. O pecado e o inferno foram banidos do vocabulário. A "nova moralidade" ou "ética situacional" permite abominações sob o pretexto de serem "libertadoras" e "enriquecedoras", desde que sigam a consciência subjetiva. Além disso, a Igreja aceitou a ideologia marxista e socialista. O autor critica a recusa do Concílio em condenar o comunismo e a subsequente Ostpolitik do Vaticano, que traiu mártires como o Cardeal Mindszenty. A Igreja pós-conciliar não apenas tolera, mas promove o socialismo sob o disfarce de "justiça social" e "progresso", ignorando que o comunismo é intrinsecamente mau (p. 392-393).

🛐 O Falso Deus do Progresso e a Idolatria do Homem

A "Nova Igreja" substituiu a adoração a Deus pelo culto ao homem. Ela acredita no "progresso" e na "evolução" como leis universais, vendo a história como uma marcha inevitável em direção a uma utopia terrestre (o "Ponto Ômega" de Teilhard de Chardin). Ao fazer isso, a Igreja abdicou de seu papel de guia espiritual para se tornar a "serva do mundo", promovendo um "novo humanismo" onde o homem é definido por sua responsabilidade para com a história e seus irmãos, e não para com Deus (p. 397). O autor argumenta que essa crença no progresso e na evolução são os verdadeiros "ópios do povo", fornecendo uma falsa fé em um futuro super-homem e uma falsa esperança em um paraíso terrestre. A Igreja tradicional sabe que nenhuma tirania ou progresso eliminará o sofrimento, pois a natureza humana é decaída. A tentativa de criar uma sociedade perfeita sem Deus é demoníaca e fadada ao fracasso (p. 418).

🌍 Ecumenismo: A Grande Traição

O ecumenismo é denunciado como a colocação da Verdade na mesa de negociações. É a "morte da esperança" de que a Verdade existe. Para alcançar a unidade com hereges e pagãos, a Igreja pós-conciliar diluiu sua doutrina, destruiu sua liturgia e comprometeu seus sacramentos. O autor afirma que o ecumenismo é "a melhor maneira possível de neutralizar o Cristianismo" e "a armadilha mais perfeita que o Diabo pode armar". A verdadeira meta do ecumenismo não é a unidade em Cristo, mas uma unidade política e social mundial, preparando o caminho para uma religião universal sem dogmas (p. 419-420).

⏳ O Fim dos Tempos e o Pequeno Resto

Coomaraswamy conecta a situação atual com as profecias bíblicas sobre os últimos tempos, citando São Paulo sobre a "grande apostasia" e o advento do Anticristo. Ele sugere que a "abominação da desolação" pode ser a supressão do sacrifício contínuo da Missa e sua substituição por um culto idólatra do homem. A Igreja pós-conciliar, ao buscar uma unidade mundial sob a égide das Nações Unidas (descritas por Paulo VI como a "esperança do mundo"), está agindo como precursora do Anticristo. O verdadeiro fiel é agora parte de um "pequeno resto" (remnant), perseguido e marginalizado, que deve manter a fé em meio à apostasia geral (p. 420-423).

🛡️ O Dever do Leigo e a Solução Final

O autor rejeita a ideia de que o leigo não tem competência para julgar essa crise. Pelo contrário, é dever do leigo conhecer sua fé e rejeitar qualquer inovação que a contradiga. O católico fiel não pode obedecer a uma hierarquia que destrói a Fé. Ele deve rejeitar o Vaticano II como um concílio herético e a Nova Missa como um rito protestantizado e duvidoso. A conclusão é severa: a Igreja pós-conciliar não é a Igreja de Cristo, mas uma "anti-Igreja" ou uma nova seita protestante. O católico tradicional não é um rebelde, mas alguém que permanece fiel ao que a Igreja sempre ensinou ("o que foi crido por todos, sempre e em toda parte"). Não há compromisso possível entre a Verdade e o erro. A única opção é permanecer inabalavelmente fiel à Tradição Católica, recusando qualquer comunhão com a nova religião humanista e evolutiva, pois, como disse São Jerônimo, o importante não é seguir a multidão no erro, mas permanecer no caminho reto, mesmo que se esteja sozinho (p. 425-433).

Referência Bibliográfica:

COOMARASWAMY, Rama P. The Destruction of the Christian Tradition: Updated and Revised. Bloomington: World Wisdom, 2006.