♱ Sexta-feira das têmporas da quaresma

As Têmporas são uma antiquíssima e venerável instituição da liturgia romana, remontando aos primeiros séculos da Igreja, com raízes que a tradição associa aos próprios Apóstolos, destinadas a santificar as quatro estações do ano através do jejum, da oração e da esmola. As Têmporas da Quaresma, celebradas na primeira semana deste tempo penitencial, possuem um caráter duplo: inserem-se no esforço ascético inicial de preparação para a Páscoa e servem como dias de intensa súplica pelos ordenandos, visto que os sábados de Têmporas eram os momentos tradicionais para a conferição das Sagradas Ordens. A sexta-feira, dia que por sua própria natureza já recorda a Paixão do Senhor, é marcada por um jejum rigoroso. A Igreja estacional em Roma para esta sexta-feira era a Basílica dos Doze Apóstolos, escolha profundamente simbólica para que os futuros sacerdotes, diáconos e subdiáconos fossem apresentados espiritualmente aos fundamentos da Igreja, a fim de absorverem o seu zelo apostólico. Historicamente, a liturgia deste dia também estava voltada para os catecúmenos que se preparavam para o Batismo na Vigília Pascal, razão pela qual os textos fazem alusões constantes à água, à purificação dos pecados e ao número trinta e oito, que, além de referir-se ao enfermo do Evangelho, marcava exatamente os trinta e oito dias que restavam de jejum até a gloriosa manhã da Ressurreição.

🙏 Introito (Sl 24, 17-18; 1-2)

De necessitátibus meis éripe me, Dómine: vide humilitátem meam et labórem meum, et dimítte ómnia peccáta mea. Ps. Ad te, Dómine, levávi ánimam meam: Deus meus, in te confído, non erubéscam.

Ó Senhor, livrai-me de minhas angústias, vede a minha miséria e o meu sofrimento, e perdoai todos os meus pecados. Sl. A Vós, Senhor, elevo a minha alma. Ó meu Deus, em Vós confio: não serei envergonhado.

📜 Epístola (Ez 18, 20-28)

Hæc dicit Dóminus Deus: Anima, quae peccáverit, ipsa moriétur: fílius non portábit iniquitátem patris, et pater non portábit iniquitátem fílii: justítia justi super eum erit, et impíetas ímpii erit super eum. Si autem ímpius égerit pæniténtiam ab ómnibus peccátis suis, quæ operátus est, et custodíerit ómnia præcépta mea, et fécerit judícium et justítiam: vita vivet, et non moriétur. Omnium iniquitátum ejus, quas operátus est, non recordábor: in justítia sua, quam operátus est, vivet. Numquid voluntátis meæ est mors ímpii, dicit Dóminus Deus, et non ut convertátur a viis suis, et vivat? Si autem avértent se justus a justítia sua, et fécerit iniquitátem secúndum omnes abominatiónes, quas operári solet ímpius, numquid vivet? omnes justítiæ ejus, quas fécerat, non recordabúntur: in prævaricatióne, qua prævaricátus est, et in peccáto suo, quod peccávit, in ipsis moriétur. Et dixístis: Non est æqua via Dómini. Audíte ergo, domus Israël: Numquid via mea non est æqua, et non magis viæ vestræ pravæ sunt? Cum enim avértent se justus a justítia sua, et fecerit iniquitátem, moriétur in eis: in injustítia, quam operátus est, moriétur. Et cum avértent se ímpius ab impietáte sua, quam operátus est, et fécerit judícium et justítiam: ipse ánimam suam vivificábit. Consíderans enim, et avértens se ab ómnibus iniquitátibus suis, quas operátus est, vita vivet, et non moriétur, ait Dóminus omnípotens.

Eis o que diz o Senhor Deus: A alma que pecar, essa morrerá; o filho não levará a iniquidade do pai, e o pai não levará a iniquidade do filho; a justiça do justo virá sobre ele, e a impiedade do ímpio sobre ele recairá. Mas se o ímpio fizer penitência de todos os pecados que cometeu, se guardar todos os meus preceitos e proceder conforme a equidade e a justiça, certamente viverá e não morrerá. Eu não me lembrarei mais de nenhuma das iniquidades que fez e ele viverá por causa da justiça que praticou. Porventura é de minha vontade a morte do ímpio? diz o Senhor Deus. E não quero, antes, que ele se retire de seus maus caminhos e viva? Mas se o justo se apartar de sua justiça e vier a cometer a iniquidade, seguindo todas as abominações que o ímpio costuma praticar, porventura viverá ele? Serão esquecidas todas as obras de justiça que houver praticado; por causa da prevaricação em que caiu e do pecado que cometeu, por causa disto morrerá. E vós dissestes: O caminho do Senhor não é justo! Ouvi, pois, ó casa de Israel: Porventura não é justo o meu caminho, e não são antes os vossos, que estão corrompidos? Porque, quando o justo se apartar de sua justiça, e cometer a iniquidade, morrerá nesse estado; morrerá nas obras injustas que cometeu. E quando o ímpio se apartar da impiedade que cometeu e proceder segundo a equidade e a justiça, fará viver a sua alma, porque, considerando o estado em que se acha, e apartando-se de todas as iniquidades que praticou, viverá certamente e não morrerá, assim diz o Senhor todo poderoso.

📖 Evangelho (Jo 5, 1-15)

In illo témpore: Erat dies festus Judæórum, et ascéndit Jesus Jerosólymam. Est autem Jerosólymis Probática piscína, quæ cognominátur hebráice Bethsáida, quinque pórticus habens. In his jacébat multitúdo magna languéntium, cæcórum, claudórum, aridórum exspectántium aquæ motum. Angelus autem Dómini descendébat secúndum tempus in piscínam, et movebátur aqua. Et, qui prior descendísset in piscínam post motiónem aquæ, sanus fiébat, a quacúmque detinebátur infirmitáte. Erat autem quidam homo ibi, trigínta et octo annos habens in infirmitáte sua. Hunc cum vidísset Jesus jacéntem, et cognovisset, quia jam multum tempus habéret, dicit ei: Vis sanus fíeri? Respóndit ei lánguidus: Dómine, hóminem non hábeo, ut, cum turbáta fúerit aqua, mittat me in piscínam: dum vénio enim ego, álius ante me descéndit. Dicit ei Jesus: Surge, tolle grabátum tuum, et ámbula. Et statim sanus factus est homo ille: et sústulit grabátum suum, et ambulábat. Erat autem sábbatum in die illo. Dicébant ergo Judǽi illi, qui sanátus fúerat: Sábbatum est, non licet tibi tóllere grabátum tuum. Respóndit eis: Qui me sanum fecit, ille mihi dixit: Tolle grabátum tuum, et ámbula. Interrogavérunt ergo eum: Quis est ille homo, qui dixit tibi: Tolle grabátum tuum et ámbula? Is autem, qui sanus fúerat efféctus, nesciébat, quis esset. Jesus enim declinávit a turba constitúta in loco. Póstea invénit eum Jesus in templo, et dixit illi: Ecce, sanus factus es: jam noli peccáre, ne detérius tibi áliquid contíngat. Abiit ille homo, et nuntiávit Judǽis, quia Jesus esset, qui fecit eum sanum.

Naquele tempo, realizava-se uma festa dos judeus, e Jesus subiu a Jerusalém. Ora, há em Jerusalém uma piscina Probática, que, em hebraico, se chama Bethsaida, a qual tem cinco pórticos. Neles jazia uma grande multidão de enfermos, de cegos, de coxos e de paralíticos, os quais esperavam o movimento da água. Porque um Anjo do Senhor descia em certo tempo à piscina, e a água era agitada. E o primeiro que descesse à piscina depois do movimento da água, ficava curado de qualquer doença que tivesse. Ora, estava ali um homem, que havia trinta e oito anos se encontrava enfermo. Jesus, vendo-o deitado, e sabendo que estava assim havia longo tempo, disse-lhe: Queres ficar são? O enfermo respondeu-Lhe: Senhor, não tenho homem que me ajude a descer à piscina, quando a água é agitada; enquanto vou, desce outro primeiro do que eu. Disse-lhe Jesus: Levanta-te, toma o teu leito e anda. E no mesmo instante ficou são aquele homem, e tomou o seu leito, e começou a andar. Ora, aquele dia era um sábado. Por isso os judeus diziam ao que tinha sido curado: Hoje é sábado, e não te é lícito levar o teu leito. Ele lhes respondeu: Aquele que me curou, disse-me: Toma o teu leito e anda. Perguntaram-lhe então: Quem é esse homem que te disse: Toma o teu leito e anda? Aquele que tinha sido curado, não sabia quem Ele era. Porque Jesus havia evitado a multidão que estava naquele lugar. Depois disto, Jesus encontrou-o no templo, e disse-lhe: Eis que estás curado: não peques mais, para que te não suceda alguma coisa pior. Foi aquele homem anunciar aos judeus que era Jesus quem o havia curado.

💧 O clamor do penitente e a cura nas águas da graça

A súplica inicial do Introito, "Ó Senhor, livrai-me de minhas angústias, vede a minha miséria e o meu sofrimento", ressoa de maneira profunda na figura do paralítico que jazia à beira da piscina de Betsaida, paralisado há trinta e oito anos. Santo Agostinho, ao refletir sobre este milagre (Tratados sobre o Evangelho de São João, Tratado 17), ensina que os cinco pórticos da piscina representam a Antiga Lei, os cinco livros de Moisés, que serviam para evidenciar a doença do homem, abrigando os enfermos, mas sendo impotentes para curá-los. A humanidade, atada pelo peso do pecado, aguardava o movimento da graça. Os trinta e oito anos de enfermidade, número que no contexto desta liturgia também aponta para os dias que faltam para a Vigília Pascal, simbolizam a condição do homem sem a graça redentora, incapaz de alcançar por si mesmo a salvação. Quando Cristo, o Médico Divino, se aproxima, Ele dispensa o simbolismo da piscina e atua com a autoridade do seu próprio verbo, antecipando o poder das águas batismais que curam não apenas o corpo, mas libertam a alma da sua inércia espiritual, respondendo perfeitamente ao clamor do penitente que busca o perdão de todos os seus pecados.

Este perdão, rogado no Introito, encontra seu fundamento teológico na sublime promessa da Epístola do profeta Ezequiel. A justiça divina não visa a destruição da alma, mas anseia pela sua restauração: "Porventura é de minha vontade a morte do ímpio?". São Gregório Magno (Homilias sobre Ezequiel, Livro I, Homilia 9) destaca que a verdadeira conversão exige o abandono das abominações do passado e uma resolução firme em favor da equidade. A "miséria e o sofrimento" que o pecador apresenta a Deus não devem ser motivo de desespero, mas o ponto de partida para o arrependimento sincero. Deus garante que as iniquidades passadas do ímpio não serão lembradas se ele se voltar para a retidão. Contudo, essa mesma justiça adverte o justo sobre o perigo da presunção; a salvação é um caminho de perseverança. A verdadeira vida da alma não consiste apenas em evitar o castigo, mas em viver em contínua união com o Criador, compreendendo que o juízo de Deus é, em sua essência, o triunfo da misericórdia sobre a miséria humana, desde que haja um coração verdadeiramente contrito e disposto a reparar as suas vias.

Assim, o movimento litúrgico destas Têmporas da Quaresma conduz a alma da constatação da sua própria enfermidade até a gloriosa restauração. O clamor do salmista no Introito expressa a dor daquele que, pela voz do profeta Ezequiel, percebe que a iniquidade gera a morte espiritual e exige uma drástica mudança de direção. Contudo, a força para essa conversão não provém do próprio homem, que se encontra tão desamparado quanto o paralítico de Betsaida. É o Cristo quem se aproxima do leito da nossa paralisia moral e, com o Seu poder vivificante, concede a cura que a simples observância da lei não podia oferecer. A advertência final de Jesus ao homem curado - "não peques mais, para que te não suceda alguma coisa pior" - sintetiza a exortação profética da Epístola: a graça batismal e o perdão dos pecados exigem de nós uma caminhada de santidade, levantando-nos da nossa prostração para caminharmos rumo às promessas eternas, fortalecidos pelo amor de um Deus que não se esquece da nossa humildade e apaga todas as nossas faltas.